Estudo do WRI Brasil aponta 11 causas estruturais por trás das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul

Um estudo divulgado em 7 de maio de 2026 detalhou a cadeia de fatores que levou à maior tragédia climática já enfrentada pelo Rio Grande do Sul, em 2024, quando enchentes e enxurradas atingiram 478 municípios, impactaram mais de 2,4 milhões de pessoas e deixaram 185 mortos, além de 23 desaparecidos que seguem sem localização.

Produzido pelo World Resources Institute Brasil (WRI Brasil) com participação de pesquisadores de universidades gaúchas, o relatório “Entendendo a Construção do Risco: causas raiz do desastre climático de 2024 no Rio Grande do Sul” mapeou eventos gatilho e descreveu, em sequência, condições inseguras, causas raiz e pressões dinâmicas que, ao longo do tempo, ampliaram a vulnerabilidade das áreas afetadas. “Buscamos entender as fragilidades que culminaram nesse desastre e propor uma discussão sobre as decisões e políticas que vão prevenir desastres futuros e promover um desenvolvimento resiliente”, disse Henrique Evers, um dos autores do trabalho.

A coordenadora de Adaptação Urbana do WRI Brasil, Lara Caccia, afirmou que as chuvas extremas funcionaram como gatilho, mas os impactos foram ampliados por um processo histórico de construção de risco ligado a fatores sociais, econômicos e de governança. “Esses fatores amplificaram os impactos das chuvas intensas”, declarou. O estudo organizou 11 causas raiz em quatro grupos e relacionou essas causas a 20 pressões dinâmicas que, combinadas, elevaram a exposição e reduziram a capacidade de resposta.

Entre os pontos listados, o relatório cita um modelo de ocupação territorial pouco resiliente, variabilidade do clima e condições geomorfológicas e hidrológicas favoráveis ao desastre. No campo socioeconômico, aparecem negacionismo climático, desigualdade socioeconômica e concentração de riqueza, além de falta de cultura de prevenção. Em governança, o documento aponta um modelo de desenvolvimento que prioriza a economia sobre pautas ambientais e sociais, arcabouço legal negligenciado para gestão de riscos, falta de priorização política da agenda socioambiental, insuficiência de coordenação entre níveis de governo e uma dualidade entre público e privado. O texto associa, por exemplo, a ocupação territorial pouco resiliente a pressões como expansão urbana descontrolada, especulação imobiliária e desigualdades socioespaciais.

Como resposta, os pesquisadores defendem que a redução do risco exige medidas que vão além de obras de infraestrutura, com fortalecimento de governança, integração do planejamento e consolidação de uma cultura de prevenção, além de prioridade a grupos vulnerabilizados. O relatório também sustenta que a recorrência desses fatores em diferentes municípios reforça a necessidade de articulação multirregional, com coordenação associada a recortes como o de bacias hidrográficas. “Se o risco foi construído historicamente, a resiliência também pode ser construída por meio de novas escolhas de desenvolvimento”, afirmou Lara Caccia.