Uma sabatina política não é apenas um teste de propostas. Para quem ocupa o governo, é também o momento em que promessa e realidade ficam frente a frente. Na noite de terça-feira (25), durante a sabatina da TV Rio Branco, a candidata à reeleição Mailza Cameli (PP) enfrentou justamente esse problema: falar sobre o Acre que pretende entregar sem conseguir escapar do Acre que já administra.
Em vários momentos, a resposta veio na forma de silêncio, hesitação ou frases que não alcançaram a pergunta. Podemos dizer que é a segunda sabatina seguida tendo o mesmo problema.
O primeiro sinal apareceu no bloco sobre gestão pública. A jornalista Marcela Jansen pediu que Mailza apontasse, dentro da própria administração, onde o dinheiro público não estava sendo bem gasto e o que faria para corrigir o problema. Era uma oportunidade para reconhecer falhas, indicar prioridades e mostrar o que mudaria dentro de um governo que já é seu.
Mailza não apontou nenhuma.
Falou em “cortar gastos” e “planejamento”, mas não identificou onde existem excessos, desperdícios ou escolhas equivocadas dentro da máquina pública. Para uma candidata de oposição, uma resposta genérica poderia ser apenas falta de informação. Para quem governa, a ausência de exemplos pesa de outra forma.
A dificuldade voltou quando o assunto passou para desenvolvimento econômico. Evandro Cordeiro perguntou objetivamente se Mailza recriaria uma secretaria voltada aos pequenos negócios. A governadora não respondeu diretamente. Preferiu falar em “desburocratização” e recorreu à Expoacre para sustentar a resposta.
A pergunta, porém, continuou praticamente onde estava.
No bloco de assistência social, Mailza citou o “guarda-roupa social” entre as ações desenvolvidas pelo governo. A iniciativa pode atender uma necessidade imediata, mas chama atenção quando aparece no mesmo debate em que se cobra uma estratégia para enfrentar problemas estruturais de renda e vulnerabilidade. Assistência emergencial e política de desenvolvimento não são a mesma coisa — e a sabatina cobrava justamente essa diferença.
O momento mais desconfortável, porém, veio na administração do próprio tempo.
Questionada sobre como pretende entregar o Acre em 2030, Mailza tentou utilizar um direito de resposta antes da autorização do mediador. Foi advertida, interrompeu a fala e perdeu o ritmo justamente na pergunta em que deveria apresentar sua visão para os próximos quatro anos.
Depois, quando recebeu o direito de resposta para rebater Alan Rick sobre a Delegacia de Combate à Corrupção (DECOR), surgiu outra hesitação. Mailza afirmou que a delegacia não havia sido extinta, mas colocada “num outro departamento”. A explicação saiu entre pausas e dificuldade para organizar a defesa de uma decisão tomada dentro da estrutura de segurança pública do próprio governo.
É nesse ponto que a sabatina expôs uma fragilidade maior.
Mailza não estava sendo questionada apenas sobre aquilo que pretende fazer. Estava sendo cobrada também pelo que já pode fazer.
Isso ficou evidente ao tratar do Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração dos servidores. Falar em melhorias futuras no PCCR enquanto se ocupa atualmente o comando do Executivo cria uma pergunta inevitável: por que deixar para um eventual próximo mandato aquilo que já pode começar a ser enfrentado agora?
Esse foi o fio que atravessou boa parte da entrevista.
Quando perguntada sobre os problemas do governo, Mailza evitou apontá-los. Quando provocada a apresentar respostas concretas para o desenvolvimento, contornou algumas perguntas. Quando chegou a hora de projetar 2030, perdeu-se numa disputa pelo direito de resposta.
Para quem busca um primeiro mandato, prometer é parte natural da campanha. Para quem tenta permanecer no governo, a promessa sempre encontra o presente no meio do caminho.
E foi justamente o presente que mais apertou Mailza contra as cordas durante a sabatina.
Ao final, ficou menos a imagem de uma governadora apresentando o próximo Acre e mais a de uma candidata tentando atravessar as perguntas sem ter de confrontar diretamente as limitações do Acre que já governa.
Foto: Contilnet