CNPJs ligados a Assem Cameli recebem R$ 42 milhões do governo; com evolução após aproximação de Madson e Mailza

Os pagamentos do Governo do Acre a CNPJs ligados ao entorno empresarial e associativo de Antônio Assem Melo Cameli, pai de Madson Cameli, mudaram de tamanho a partir de 2023, ano em que a aproximação entre Madson e Mailza Assis passou a circular no ambiente político acreano. Hoje, Mailza governa o Estado, Madson é marido dela e ocupa a chefia do Gabinete Pessoal da governadora. Entre 2020 e 23 de junho de 2026, seis CNPJs relacionados a esse universo receberam R$ 42.028.255,33 dos cofres estaduais.

Até 2022, a soma anual ainda caminhava em faixa menor. Foram R$ 2,44 milhões em 2020, R$ 2,2 milhões em 2021 e R$ 4,66 milhões em 2022. Depois da aproximação de Madson com Mailza, os valores subiram para R$ 8,12 milhões em 2023, R$ 10,44 milhões em 2024 e R$ 12,61 milhões em 2025. Em três anos antes de 2023, os pagamentos chegaram a R$ 9,3 milhões. Nos três anos seguintes, alcançaram R$ 31,17 milhões. A diferença passa de R$ 21 milhões e representa alta de quase 235%.

A planilha não entrega uma sentença. Entrega uma pergunta difícil para o governo. Por que os pagamentos a CNPJs ligados ao entorno empresarial de Assem Cameli saltaram depois que Madson se aproximou de Mailza e passou a circular no núcleo de poder que hoje comanda o Acre? Essa resposta não cabe em nota protocolar. Precisa aparecer nos contratos, nos convênios, nas licitações, nos pareceres e nas assinaturas que liberaram cada real.

A maior parte do dinheiro passou pela Associação Comercial e Empresarial de Cruzeiro do Sul, a ACECS. A entidade recebeu R$ 25.487.150,00 entre 2022 e 2025, principalmente para bancar a Expoacre Juruá, feiras de negócios, o réveillon em Cruzeiro do Sul e as comemorações do Dia do Trabalhador. Só a Expoacre Juruá e eventos de negócios ficaram com R$ 16.629.760,00. O réveillon somou R$ 5.384.140,00. O Dia do Trabalhador consumiu R$ 3.473.250,00. Uma pergunta fica no ar. Por que o governo tem esses custos com esses eventos através da Associação?

A ACECS não é empresa de Assem Cameli. Associação privada não tem dono como uma loja, uma construtora ou uma empresa de navegação. Também não se pode transformar a passagem de uma pessoa pela diretoria em prova automática de controle patrimonial. O que existe é uma relação antiga, pública e política entre Assem e a entidade. Ele foi presidente por dois mandatos, atuou como vice-presidente, aparece em cadastros públicos como diretor e tentou voltar ao comando da associação em dezembro de 2024, quando sua chapa perdeu a eleição interna por 50 votos a 44.

Em janeiro de 2024, Assem aparece como vice-presidente da Associação Comercial de Cruzeiro do Sul em encontro com o prefeito Zequinha Lima, com Mailza Assis, então vice-governadora, e com o secretário de Segurança, coronel José Américo, para tratar de crimes contra o patrimônio no centro da cidade.

Em abril de 2025, no Centro Integrado de Comando e Controle do Juruá, Assem retomou essa trajetória ao falar da volta do serviço 190 para Cruzeiro do Sul. “Enquanto exerci o cargo de vice-presidente da Associação Comercial e Empresarial de Cruzeiro do Sul, lutei pelo retorno dos serviços do 190 para cá”, disse. A frase ajuda a entender o lugar que ele ocupa há anos no Juruá: empresário, dirigente associativo e interlocutor de governos em temas sensíveis para o comércio local.

Entre as empresas privadas, a maior soma ficou com a A. A. M. Cameli, conhecida como Navegação Rápido Juruá. O CNPJ recebeu R$ 12.881.356,83 no período, quase sempre por locação de balsa com rebocador ao Deracre. É a balsa que faz a travessia entre Cruzeiro e Rodrigues Alves. Os pagamentos atravessaram todos os anos da série: R$ 2,19 milhões em 2020, R$ 1,5 milhão em 2021, R$ 1,91 milhão em 2022, R$ 1,81 milhão em 2023, R$ 1,85 milhão em 2024, R$ 2,37 milhões em 2025 e R$ 1,22 milhão em 2026, ainda com dados parciais até 23 de junho.

A N Construções Ltda também entrou na rota dos pagamentos. A empresa recebeu R$ 3.263.354,97 entre 2020 e junho de 2026. Depois de cair para R$ 43,8 mil em 2023, voltou a receber valores maiores: R$ 402,5 mil em 2024, R$ 800,1 mil em 2025 e R$ 318,5 mil em 2026. Os serviços envolvem locação de máquinas e veículos pesados ao Deracre e aluguel de imóvel para uma unidade do Iteracre.

Outros CNPJs aparecem com valores menores, mas completam o mapa financeiro em torno do mesmo sobrenome e do mesmo ambiente empresarial. A A M Camili Eireli recebeu R$ 229.331,26. A Sampaio e Camili Comércio Varejista de Produtos Alimentícios Ltda recebeu R$ 132.847,36. A A S Melo Ltda ficou com R$ 34.214,91.

Em 2026, já com Mailza no comando do Estado, a Associação Comercial voltou a aparecer ao lado do governo na campanha Compra Premiada, em Cruzeiro do Sul. A ação reuniu Seict, Federacre, ACECS e Rede Ativa, teve adesão de mais de 200 empresas e movimentação estimada em R$ 15 milhões no comércio local. O sorteio ocorreu no Shopping Copacabana, empreendimento associado a Assem Cameli, apresentado pelo governo como proprietário do local e empreendedor do setor comercial e industrial do Juruá.

O caso avança sobre uma fronteira delicada da política acreana: onde termina a relação privada e onde começa o dever de proteção do dinheiro público. Assem Cameli é pai de Madson. Madson se aproximou de Mailza por volta de 2023, casou-se com ela e hoje trabalha dentro do gabinete da governadora. No mesmo intervalo, os pagamentos a CNPJs ligados ao ambiente empresarial e associativo de Assem cresceram de forma expressiva. A ACECS, entidade comandada por ele no passado, recebeu a maior fatia. As empresas privadas mantiveram contratos relevantes, sobretudo com o Deracre.

Nos bastidores do governo e entre fornecedores que dependem de pagamentos do Estado, a queixa ganhou nome e sobrenome. Madson Cameli passou a ser descrito por interlocutores como alguém que fala a partir do centro do poder, cobra deferência e deixa no ar a ideia de que as decisões passam por ele. A frase que corre longe dos gabinetes é mais crua: “ele bate no peito para dizer que é ele quem manda”. Essa postura, repetida em conversas reservadas por políticos e empresários, abriu ruídos na base, azedou relações internas e aumentou a irritação de quem presta serviço ao governo, entrega o que foi contratado e espera receber enquanto vê o caixa público atravessado por influência familiar, disputa política e desconfiança.

A resposta que o Estado deve à população precisa ser concreta. Quais contratos cresceram? Quais convênios foram assinados? Houve chamamento público? Houve licitação? Que órgãos autorizaram as despesas? Quem fiscalizou a entrega dos serviços? Que barreiras foram criadas para impedir conflito de interesse depois que o marido da governadora passou a ocupar uma sala no coração do Palácio? No Acre, onde quase todo poder tem nome, sobrenome e endereço conhecido, transparência não pode ser favor. É obrigação.

Bonde de Londres: diárias da comitiva de Mailza somam R$ 192 mil em viagem que ainda não apresentou resultado concreto

A viagem da governadora Mailza Assis a Londres, divulgada como missão internacional para tratar de créditos de carbono, teve R$ 192.004,21 pagos em diárias internacionais a 12 integrantes da comitiva. A agenda ocorreu durante a Semana do Clima de Londres, mas ainda não há contrato publicado, valor fechado, cronograma de repasse ou documento que mostre o resultado prático da negociação para o Acre.

O maior valor foi pago a Lauro da Veiga Santos, presidente da Companhia de Desenvolvimento e Serviços Ambientais do Acre, a CDSA: R$ 28.813,04. Em seguida aparece Victor Hugo Rondon Soto, apresentado como gerente-geral do Projeto de Crédito de Carbono do Estado, com R$ 25.593,12 em diárias.

A lista também inclui Elane Cristina da Costa Cabral e Juliana de Oliveira Moreira, da Casa Civil, cada uma com R$ 14.776,85. O mesmo valor foi pago a Madson de Castro Cameli, chefe de gabinete e marido da governadora, que integrou a missão como assessor na agenda institucional do Consórcio Amazônia Legal.

A comitiva ainda teve integrantes da área jurídica, segurança e comunicação. Janete Melo de Albuquerque Lima, da Procuradoria-Geral do Estado, recebeu R$ 14.013,63. Aldeir Araujo da Costa, Jeffersson Pereira da Silva e Theanne Louise Gonçalves Souza Medeiros, da Casa Militar, receberam R$ 14.241,60 cada um. Jefson Marques Dourado, da Secretaria de Comunicação, recebeu R$ 12.796,56. Francisco Lucena da Costa Neto, fotógrafo, recebeu R$ 11.882,52, e Joscinei Gomes Bastos, videomaker, R$ 11.849,99.

Na prática, o “Bonde de Londres” levou representação institucional, assessoria, segurança, comunicação, foto, vídeo e equipe técnica para uma negociação que, até agora, segue sem resultado público concreto. Enquanto o dinheiro dos créditos de carbono permanece no campo da promessa, as diárias da viagem já aparecem como despesa efetiva para o Estado.

Mailza em Londres: uma reunião que poderia ter sido um e-mail

Governadora vai ao centro financeiro europeu tratar de créditos de carbono, mas negociação segue sem resultado concreto apresentado ao Acre

A governadora Mailza Assis atravessou o Atlântico com uma comitiva oficial para cumprir agenda em Londres, durante a Semana do Clima, em torno de uma das pautas mais sensíveis e milionárias do governo do Acre: a venda de créditos de carbono. A viagem foi apresentada como missão estratégica para atrair investimentos, fortalecer parcerias e transformar a floresta em pé em benefícios para a população. Mas, depois das fotos, vídeos, discursos e reuniões no centro financeiro europeu, o Acre segue diante da pergunta principal: o que foi efetivamente firmado?

As próprias falas públicas da agenda mostram que o negócio continua aberto. Ao lado de Marisa Drew, alta executiva global de sustentabilidade do Standard Chartered Bank, Mailza disse estar no centro econômico de Londres, mas com o coração voltado para a população acreana. Falou em reverter a preservação da floresta em benefícios para ribeirinhos, povos indígenas, produtores rurais e moradores que mais precisam. Em seguida, definiu o estágio real da agenda ao afirmar que estava ao lado de uma representante de “um banco que estamos negociando os créditos de carbono”.

A frase desmonta o tom de conquista. Se o governo ainda negocia, não há acordo concluído. Marisa Drew reforçou essa leitura ao dizer que o banco e o governo conversam “há alguns meses” sobre como criar um mecanismo financeiro para ampliar os recursos e fazer o dinheiro chegar às pessoas locais. Quando o mecanismo ainda está sendo criado, continuam sem resposta pública o valor fechado, o contrato final, o cronograma de repasse, a governança, a fiscalização, as comunidades beneficiadas e a forma concreta de aplicação do dinheiro.

Na prática, a agenda vendida como compromisso internacional em favor do povo acreano parece ter sido mais uma rodada de tratativas. Uma reunião que, pelo que foi apresentado até agora, poderia ter ocorrido por videoconferência, troca técnica entre equipes ou e-mail institucional.

Não se trata de negar a importância da pauta ambiental. O Acre tem floresta, experiência acumulada em políticas de serviços ambientais, histórico no REDD+ jurisdicional, construído no governo da Frente Popular, e potencial real para disputar recursos internacionais. A questão é outra. Quando uma comitiva oficial viaja a Londres com dinheiro público, segurança, comunicação, assessoria e representação institucional, o mínimo esperado é que o governo volte com algo mais concreto do que uma promessa de futuro, do que um aperto de mãos.

A viagem também precisa ser lida pelo custo público e pelos nomes que compuseram a missão. Levantamento no Portal da Transparência do Acre localizou R$ 192.004,21 pagos em diárias internacionais a 12 beneficiários da agenda oficial em Londres, incluindo Victor Hugo Rondon Soto, apresentado pelo governo como gerente-geral do Projeto de Crédito de Carbono do Estado.

O maior pagamento foi destinado a Lauro da Veiga Santos, presidente da Companhia de Desenvolvimento e Serviços Ambientais do Acre, a CDSA, que recebeu R$ 28.813,04. Victor Hugo Rondon Soto aparece em seguida, com R$ 25.593,12. Também receberam diárias Elane Cristina da Costa Cabral e Juliana de Oliveira Moreira, ambas da Casa Civil, com R$ 14.776,85 cada uma, e Madson de Castro Cameli, chefe de gabinete e marido da governadora Mailza Assis, que recebeu R$ 14.776,85 para assessorá-la na agenda institucional do Consórcio Amazônia Legal durante a Semana do Clima de Londres.

O pagamento a Madson carrega peso político próprio. Ele não aparece apenas como servidor em uma agenda técnica. É o marido da governadora, chefe de gabinete, acompanhando Mailza em uma viagem internacional cujo resultado concreto ainda não foi apresentado ao público. Em uma missão tratada pelo governo como estratégica para o futuro climático e financeiro do Acre, a presença dele amplia a obrigação de transparência sobre quem foi, por que foi, quanto recebeu e qual função efetiva desempenhou.

A presença de Victor Hugo Rondon Soto exige atenção ainda maior. A Agência de Notícias do Acre o apresentou na comitiva como gerente-geral do Projeto de Crédito de Carbono do Estado. Ao mesmo tempo, Victor é sócio-administrador da VR Consultoria Empresarial LTDA, empresa que recebeu R$ 3.256.745,01 do governo do Acre entre 2023 e 2026, em contratos associados à CDSA e ligados justamente à pauta de captação de recursos, mercado financeiro, REDD+, créditos de carbono jurisdicionais, rating internacional, relações corporativas e atuação junto a atores nacionais e internacionais.

A comitiva também incluiu Janete Melo de Albuquerque Lima, da Procuradoria-Geral do Estado, com R$ 14.013,63; Aldeir Araujo da Costa, Jeffersson Pereira da Silva e Theanne Louise Gonçalves Souza Medeiros, da Casa Militar, cada um com R$ 14.241,60; Jefson Marques Dourado, da Secretaria de Comunicação, com R$ 12.796,56; Francisco Lucena da Costa Neto, fotógrafo, com R$ 11.882,52; e Joscinei Gomes Bastos, videomaker, com R$ 11.849,99. A missão teve representação institucional, segurança, comunicação, assessoria jurídica, comando da CDSA e presença direta da área do crédito de carbono. Houve equipe para produzir notícia, foto, vídeo e redes sociais. O que ainda não houve foi contrato publicado, valor garantido, cronograma de repasse ou instrumento formal capaz de mostrar o que foi fechado em Londres.

Relatório de despesas por fornecedor mostra que os pagamentos à VR Consultoria Empresarial LTDA, entre 2023 e 2026, foram registrados como prestação de serviços de consultoria. Os objetos associados aos empenhos conversam diretamente com a vitrine montada em Londres: captação de recursos, mercado financeiro, bancos de investimento, REDD+, créditos de carbono jurisdicionais, rating financeiro internacional, relações corporativas e atuação junto a atores públicos e privados no Brasil e no exterior.

O ano de 2025 concentrou a maior parte dos pagamentos, com mais de R$ 2,5 milhões. Entre as despesas aparecem serviços voltados à obtenção de rating financeiro internacional do programa de créditos de carbono jurisdicionais do Acre e à avaliação de integridade do Programa Jurisdicional de REDD+ ISA Carbono para habilitação em negociações de mercado financeiro. Por isso, a cobrança não se resume ao que Mailza foi buscar em Londres. A questão é o que o Acre já recebeu depois de pagar consultorias milionárias para estruturar justamente essa pauta de carbono, mercado internacional e captação de recursos.

Mudando o rumo, depois de anos de nada resolvido

O governo apresenta a missão como abertura de uma nova fronteira para o desenvolvimento sustentável. A trajetória recente, porém, é mais complexa do que a comunicação oficial deixa transparecer. Antes do Standard Chartered assumir o centro da negociação, o Acre caminhava pela rota da Coalizão LEAF/Emergent, iniciativa internacional voltada à certificação e comercialização de créditos de carbono florestal jurisdicional. No fim de 2023, o Estado chegou a assinar carta de intenções nesse caminho, apresentado como alternativa com regras rígidas de governança, integridade ambiental e repartição de benefícios.

Depois, a estratégia mudou. A negociação passou a ser conduzida com o banco britânico Standard Chartered, em modelo mais ligado ao mercado financeiro internacional. O banco anunciou acordo para vender créditos de carbono florestal do Acre ao longo de cinco anos, com possibilidade de levar milhões de créditos ao mercado a partir de 2026. O discurso oficial fala em floresta em pé, integridade, comunidades locais e destinação de 72% dos recursos líquidos aos povos indígenas e comunidades tradicionais.

No papel, a promessa é poderosa. Na vida real, ela depende de respostas que ainda não chegaram ao público: quanto será vendido, a que preço, para quem, quando o dinheiro entrará, quanto ficará com intermediários, quem fiscalizará a conta, quem decidirá a aplicação dos recursos e como as comunidades terão controle sobre aquilo que o governo negocia em nome delas.

Essas perguntas estão no centro da crise de confiança instalada em torno da política de carbono do Acre. Organizações da sociedade civil e representantes da governança do Sisa passaram a questionar a forma como a CDSA conduziu as negociações. A Comissão Estadual de Validação e Acompanhamento, a Câmara Temática Indígena e a Câmara Temática das Mulheres são espaços que deveriam acompanhar decisões dessa magnitude. As críticas apontam falta de transparência e diálogo insuficiente com esses instrumentos de controle social.

A reportagem do Varadouro, publicada com o título “Vende-se carbono”, colocou a mudança da rota LEAF para o Standard Chartered no centro do atrito entre a CDSA e a sociedade civil. Lideranças relataram que a governança soube das tratativas pela imprensa oficial e que o argumento do sigilo comercial passou a impedir o acesso a informações sobre uma política pública construída historicamente com participação social.

Depois, organizações entregaram carta ao governador Gladson Cameli pedindo mudanças na CDSA e no Sisa. A cobrança era por transparência, revisão da condução política e fortalecimento dos espaços de participação. 

Outras vozes, a mesma pergunta

A Comissão Pró-Indígenas do Acre também levou a crise para dentro da história do próprio Sisa. Em artigo publicado em 20 de abril de 2026, Simen Kokkvoll e Aldalúcia F. Carvalho reconhecem que o sistema criado pela Lei Estadual nº 2.308, de 2010, fez o Acre virar referência em serviços ambientais e REDD+ jurisdicional, especialmente com o Programa REM, que arrecadou mais de US$ 50 milhões em 15 anos por meio do ISA Carbono. Mas os autores apontam que os pilares que deram força ao modelo — transparência, participação social e controle — passaram a ser justamente seus pontos mais frágeis.

O texto mostra que a revisão da Estratégia de Repartição de Benefícios, em 2025, ampliou a fatia dos povos indígenas de 12% para 22% e definiu 26% para territórios extrativistas, 24% para produtores e agricultores familiares e 28% para o Estado. A crítica, porém, é que percentual não basta. Sem critérios claros, acompanhamento público, relatórios atualizados e funcionamento real da CEVA e das câmaras temáticas, a repartição de benefícios vira promessa sem controle social.

A parte mais sensível para a agenda de Londres está na atuação da CDSA. Segundo Kokkvoll e Aldalúcia, a partir de 2025 a companhia passou a conduzir negociações internacionais de créditos de carbono sem comunicação prévia à governança do Sisa. As tratativas com o Standard Chartered e o rompimento com a LEAF/Emergent aparecem como marco de uma crise institucional marcada por falta de transparência e pelo uso do argumento de “sigilo comercial”.

É essa crítica que torna a viagem de Mailza mais delicada. O Acre não discute apenas vender ou não vender carbono. Discute quem decide, com quais documentos, sob qual controle público e com que participação dos povos indígenas, extrativistas, agricultores familiares e sociedade civil. O governo fala em transformar floresta em benefício. A CPI-Acre recoloca a pergunta que vem antes de qualquer contrato: quem autorizou a negociação e como a confiança será reconstruída dentro da governança que sustentou o Sisa por mais de uma década?

Também pesa a consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais. O Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado do Acre recomendaram que o governo garanta consulta livre, prévia e informada antes da inclusão de territórios indígenas e tradicionais no Programa ISA Carbono. A recomendação afirma que as comunidades devem ter o direito de decidir se querem ou não participar do programa e, se desejarem, desenvolver seus próprios projetos de crédito de carbono.

Esse ponto é decisivo. Não basta o governo fazer reuniões regionais sobre repartição de benefícios e depois apresentar isso como autorização ampla para negociar créditos de carbono em nome de territórios e modos de vida de povos tradicionais. Consulta sobre divisão futura de recursos não é a mesma coisa que consentimento sobre a comercialização dos créditos. Uma coisa é discutir percentuais. Outra é decidir se o território, a floresta, a permanência das comunidades e seus modos de vida podem servir de base para uma operação financeira internacional.

É aí que a agenda de Londres fica mais frágil. Mailza diz que está negociando para garantir que o dinheiro chegue à população. Marisa Drew diz que o banco conversa há meses sobre como criar o mecanismo financeiro. O governo fala em compromisso. O banco fala em modelo. A Agência fala em parceria firmada. Mas, no centro da floresta, continuam sem resposta pública as perguntas essenciais: quem autorizou, quem foi consultado, onde estão as atas, qual é o contrato, qual é o valor, qual é o prazo e qual é a garantia de que o dinheiro chegará aos ribeirinhos, indígenas, extrativistas e produtores familiares citados nos discursos oficiais.

A contradição está diante do Acre. O governo usa a imagem dos povos da floresta para valorizar a negociação em Londres, enquanto parte das instâncias de representação e controle social questiona a forma como a negociação foi conduzida. O discurso fala em dignidade, futuro e prosperidade. As cobranças falam em consulta, transparência e governança.

No fim, a ida a Londres parece menos uma entrega e mais uma tentativa de revestir de solenidade uma negociação que continua aberta. A Agência de Notícias do Acre anunciou a missão como oportunidade para posicionar o Estado no centro das discussões internacionais sobre mecanismos financeiros, mercado de carbono e captação de recursos. Depois, publicou que Mailza e a executiva do banco “firmaram compromisso em favor do povo acreano”. Mas o conteúdo das falas aponta para outro cenário: o mecanismo financeiro ainda está sendo desenhado, o recurso ainda não está garantido e o caminho de chegada do dinheiro às comunidades ainda precisa ser comprovado.

Se houve contrato, que seja publicado. Se houve valor, que seja informado. Se houve cronograma, que seja apresentado. Se houve compromisso jurídico, que seja disponibilizado. Se houve consulta aos povos afetados, que sejam divulgadas as atas, os protocolos, os registros e as respostas dadas às recomendações do MPF, do MPAC e das organizações da sociedade civil.

Enquanto o dinheiro do carbono segue no campo da promessa, os custos da agenda já são concretos. Diárias foram pagas. Consultorias foram pagas. A comunicação oficial foi mobilizada. A comitiva viajou. E o povo acreano continua sem saber quanto virá, quando virá, por qual contrato virá e como o recurso chegará, de fato, às comunidades citadas nos discursos.

O governo pode dizer que a negociação é complexa. E é. Mercado de carbono jurisdicional, ART/TREES, repartição de benefícios, consulta prévia, governança do Sisa, rating internacional e venda por banco global não são temas simples. Justamente por isso, exigem mais transparência, não menos. Exigem mais controle social, não menos. Exigem mais cuidado com os povos da floresta, não apenas o uso de suas imagens e nomes nos discursos oficiais.

A reunião em Londres poderia ter sido um e-mail porque, até agora, trouxe a público essencialmente uma atualização de tratativas: o governo negocia, o banco conversa, o mecanismo financeiro está sendo construído e a promessa é fazer o dinheiro chegar. Mas isso o Acre já sabia. O que o Acre ainda não sabe é o principal: o que foi realmente fechado, quanto isso vale e quando a população verá algum resultado concreto.

No “Aqui Tem Acre”, Jorge Viana e Binho Marques apresentam plano para recuperar BR-364

Os ex-governadores Jorge Viana e Binho Marques apresentaram, em episódio do podcast Aqui Tem Acre, um plano de recuperação para a BR-364, principal corredor rodoviário do Acre. A proposta prevê intervenções em 15 quilômetros de trechos considerados intrafegáveis e manutenção em outros 65 quilômetros com condições precárias, com foco no deslocamento entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul.

Jorge Viana afirmou que o diagnóstico da rodovia foi feito após avaliação técnica com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, o Dnit, para definir os pontos mais críticos da estrada. A previsão apresentada no programa é que as intervenções avancem ao longo dos próximos meses e melhorem o fluxo de veículos até setembro.

“Não se trata apenas de política, é uma questão de cidadania. A estrada é o meio pelo qual chegam a saúde, a educação e a segurança para a população do Acre”, disse Viana ao defender a recuperação da rodovia mesmo fora de um cargo executivo.

A BR-364 voltou ao centro do debate político por causa das dificuldades de tráfego em trechos afetados pelo solo amazônico, pelas chuvas e pela falta de manutenção permanente. A estrada liga regiões estratégicas do estado e tem impacto direto no transporte de passageiros, alimentos, combustíveis, insumos e serviços públicos.

Binho Marques afirmou que as más condições da rodovia ampliam o isolamento de comunidades e dificultam o acesso da população a direitos básicos. Ele também criticou adversários políticos que, na avaliação dele, tratam o tema como disputa eleitoral sem apresentar soluções para o problema.

“Enquanto o Jorge trouxe o ministro dos Transportes e um plano técnico de ação, há quem prefira apenas a crítica vazia”, afirmou Marques durante a conversa.

Os ex-governadores também defenderam a união da bancada federal do Acre para garantir a continuidade dos investimentos na rodovia. O plano discutido no podcast inclui soluções de engenharia de longo prazo, com obras estimadas em mais de R$ 3 bilhões para adequar a estrada às condições do solo e do clima da região.

O programa também resgatou obras realizadas durante as gestões de Jorge Viana e Binho Marques no governo do Acre. Entre os projetos citados estão a pavimentação de estradas, a construção de pontes e ações voltadas à integração regional.

Bocalom rejeita ser vice e mantém candidatura ao governo do Acre

O ex-prefeito de Rio Branco Tião Bocalom voltou a negar, nesta quarta-feira (24), qualquer possibilidade de compor como vice em uma chapa governista e manteve a candidatura ao governo do Acre nas eleições deste ano. Filiado ao PSDB, ele disse que deixou a Prefeitura de Rio Branco para disputar o Palácio Rio Branco e não para ocupar posição secundária em uma aliança com a governadora Mailza Assis, do PP.

“Alguém acha que eu deixei a prefeitura para ser vice de alguém? Quem espalha esse tipo de boato quer me tirar da frente, porque sabe que ganharei o governo. Ninguém tem nem a coragem de vir com essa conversa comigo”, afirmou Bocalom.

A declaração ocorre em meio às articulações para a sucessão estadual, num cenário em que partidos da base governista discutem alianças, composição de chapa e espaços nas disputas para o Senado, Assembleia Legislativa e Câmara Federal. Bocalom tenta se firmar como alternativa fora da chapa de Mailza e aposta no legado de sua passagem pela Prefeitura de Rio Branco para sustentar a campanha.

O ex-prefeito disse que seu grupo começou a distribuir à população um jornal com realizações de sua gestão municipal. Segundo ele, a receptividade nas ruas mostra que há espaço para crescimento eleitoral. “Meu pessoal está distribuindo um jornal com as minhas realizações como prefeito, e noventa por cento dos que são abordados para receber o material, recebe e ainda me elogia. O povo quer o Bocalom no governo”, afirmou.

Bocalom também pretende usar como bandeira de campanha o argumento de que não responde a processos por mau uso de recursos públicos nas gestões em Acrelândia e Rio Branco. Mesmo aparecendo atrás de adversários em pesquisas recentes, ele minimizou os levantamentos e disse confiar no desempenho nas urnas.

“São pesquisas feitas para agradar. Quando foi que uma pesquisa me colocou na liderança? Sempre me colocaram como sem chance de ser eleito, e quando as urnas são abertas o Bocalom é que ganha. Foi assim nas duas últimas eleições para a prefeitura da capital”, disse.

A posição de Bocalom reduz, no momento, a possibilidade de uma composição com a chapa governista e mantém a disputa pelo governo aberta entre os principais nomes colocados no tabuleiro eleitoral acreano.

Alysson Bestene vistoria obras e serviços em quatro bairros de Rio Branco

O prefeito Alysson Bestene acompanhou nesta quinta-feira, 25, obras e serviços públicos nos bairros Nova Estação, Conjunto Tangará, Laélia Alcântara e Novo Calafate, em Rio Branco. A agenda incluiu vistoria à reforma de quadra esportiva, limpeza de canal, manutenção de ponte e recuperação de vias pelo Programa Prefeitura nas Ruas.

No bairro Nova Estação, o prefeito verificou o andamento da reforma da Quadra Edson Rodrigues da Silva, além dos serviços de manutenção em uma ponte, limpeza do canal que corta a comunidade e melhorias em ruas da região. A Prefeitura já executou roçagem, retirada de entulhos e limpeza no entorno do canal.

“Estamos visitando algumas obras, acompanhando a manutenção das ruas e verificando a situação do canal que corta a comunidade. Já iniciamos o processo de limpeza, roçagem e remoção de entulhos e vamos avançar na recuperação de algumas vias, na pavimentação e na continuidade da limpeza urbana”, afirmou Bestene.

A reforma da quadra deve ampliar o uso do espaço para atividades esportivas, culturais e de lazer. O presidente da Associação de Moradores do Nova Estação, Junior Evangelista, disse que o equipamento atende também bairros próximos e deve fortalecer projetos voltados a crianças, jovens e idosos.

A região entre os bairros Conquista e Nova Estação também deve receber investimentos do Serviço de Água e Esgoto de Rio Branco. A intervenção prevê a ampliação da rede de distribuição para aumentar a capacidade do sistema e melhorar o abastecimento de água nas residências.

No Conjunto Tangará, Bestene acompanhou serviços de manutenção da pavimentação executados por equipes do Prefeitura nas Ruas. O trabalho conta com caminhões usados na recuperação asfáltica. A Prefeitura possui dois equipamentos desse tipo e planeja comprar um terceiro para ampliar o atendimento em outras localidades da capital.

A agenda seguiu pelo bairro Laélia Alcântara, onde equipes municipais trabalham na manutenção e recuperação de vias. No Novo Calafate, o prefeito conversou com moradores e lideranças comunitárias sobre demandas de infraestrutura, principalmente na rua principal e nas vias transversais.

O presidente da Associação de Moradores do Novo Calafate, Marcondes Bernardo, afirmou que a recuperação das ruas é uma das principais necessidades da comunidade. “A rua principal já tinha vários buracos, e as nossas transversais também precisam de manutenção. É importante ver o prefeito junto da comunidade, próximo do bairro”, disse.

As ações integram o planejamento da Prefeitura para levar serviços de infraestrutura, limpeza urbana e mobilidade aos bairros, além de mapear demandas apresentadas pelas comunidades. “Vamos continuar trabalhando com o Programa Prefeitura nas Ruas, levando os serviços e as ações do poder público até as comunidades”, afirmou o prefeito.

Alan Rick diz que ação para barrar agendas mostra “desespero” de adversários no Acre

O senador Alan Rick (Republicanos-AC), pré-candidato ao governo do Acre, reagiu na terça-feira, 23, à ação movida pela Federação União Progressista para tentar impedir novas agendas políticas dele no estado. Em fala ao Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM, o parlamentar classificou a ofensiva como uma tentativa de limitar sua circulação pelos municípios e afirmou que o movimento dos adversários “dá a impressão de que estão desesperados”.

A ação foi apresentada após uma agenda em Feijó, onde Alan Rick participou de compromissos ao lado do prefeito Railson Ferreira da Silva. A federação, formada por União Brasil e Progressistas, alegou à Justiça Eleitoral que o evento teve características de propaganda eleitoral antecipada, com recepção no aeroporto, carreata, presença de apoiadores e mobilização nas redes sociais.

Alan Rick rebateu o pedido e tratou a medida como reação ao crescimento de sua pré-campanha no interior. “Não tem cabimento, não tem lógica”, afirmou o senador, ao comentar a tentativa de impedir novas agendas antes do início oficial da campanha. A avaliação do parlamentar é que os adversários recorreram à Justiça porque passaram a se incomodar com a recepção popular em municípios estratégicos.

O pedido de urgência foi negado pelo juiz Jair Araújo Facundes, relator do caso no Tribunal Regional Eleitoral do Acre. A liminar pretendia proibir Alan Rick e Railson Ferreira de promover ou participar de novos eventos semelhantes ao ato de Feijó até 16 de agosto, data de início da campanha eleitoral. O magistrado entendeu que não havia prova concreta de que outro evento com as mesmas características estivesse prestes a ocorrer.

Na decisão, a Justiça Eleitoral rejeitou a possibilidade de restringir previamente a atuação política com base em fatos futuros e incertos. A ação continuará tramitando, mas a negativa da liminar manteve liberadas as agendas políticas e parlamentares do senador em municípios acreanos.

Ao comentar o caso, Alan Rick também defendeu tratamento igual para todos os grupos políticos que já se movimentam antes do período oficial de campanha. “O pau que dá em Chico dá em Francisco”, disse o senador, ao sustentar que a regra aplicada a uma pré-candidatura deve valer para todas as demais.

A disputa ocorre em meio ao avanço das articulações para a eleição de 2026. Alan Rick aparece como um dos principais nomes da oposição ao grupo da governadora Mailza Assis e tem intensificado visitas ao interior. A representação judicial da União Progressista levou a pré-campanha para o campo jurídico e aumentou a tensão entre os blocos que disputam o Palácio Rio Branco.

O episódio de Feijó virou o primeiro embate judicial de maior peso envolvendo diretamente a agenda de rua do senador. Para a federação autora da ação, a mobilização teria extrapolado os limites da pré-campanha. Para Alan Rick, a ofensiva tenta transformar agenda política em irregularidade eleitoral. “Dá a impressão de que estão desesperados”, repetiu o senador ao tratar da reação dos adversários.

O mérito da representação ainda será analisado pelo TRE-AC. Alan Rick e Railson Ferreira deverão apresentar defesa no processo, que seguirá depois para manifestação da Procuradoria Regional Eleitoral antes da decisão final sobre as acusações de propaganda eleitoral antecipada.

“Medo de morrer”, relata ex-esposa de Madson Cameli; vítima de agressão cobra Justiça 

Melissa Sampaio contou, em entrevista exclusiva ao Grupo Integração, detalhes da violência que afirma ter sofrido durante o relacionamento com Madson de Castro Cameli, seu ex-marido, denunciado pelo Ministério Público do Acre por lesão corporal e violência psicológica. A fala veio depois que vídeos atribuídos ao caso passaram a circular em grupos de mensagens e nas redes sociais. Melissa não entregou os vídeos à reportagem. Ela foi procurada para falar sobre o conteúdo que já circulava e, ao responder, abriu uma parte dura da própria história: a lembrança de agressões, o medo de morrer, a sensação de viver sob intimidação e a angústia de ver o processo caminhar lentamente enquanto o homem que ela acusa segue ocupando espaços de poder.

“É muito difícil para mim revisitar essas lembranças”, disse Melissa. Ela afirmou que as agressões não eram apenas verbais. “Existiam agressões físicas, psicológicas. Viver com Madson Cameli era viver pisando em ovos. Eu nunca sabia qual seria a reação dele diante de uma situação simples do dia a dia e estava sempre tentando evitar conflitos para salvar um casamento na expectativa de uma mudança que nunca acontecia.”

“Viver pisando em ovos”

Melissa contou que falar sobre o assunto ainda exige esforço. “É muito difícil para mim revisitar essas lembranças”, afirmou. Segundo ela, as agressões não eram apenas verbais. “Existiam agressões físicas, psicológicas. Viver com Madson Cameli era viver pisando em ovos. Eu nunca sabia qual seria a reação dele diante de uma situação simples do dia a dia e estava sempre tentando evitar conflitos para salvar um casamento na expectativa de uma mudança que nunca acontecia.”

A frase descreve uma rotina de medo antes mesmo da agressão. É a mulher medindo cada palavra, cada gesto e cada silêncio para tentar evitar uma explosão. É a casa deixando de ser abrigo e virando território de vigilância. Melissa afirma que passou anos tentando preservar um casamento enquanto esperava uma mudança que não veio.

O medo do mata-leão

O relato mais grave aparece quando Melissa fala sobre o jiu-jitsu. Ela afirma que Madson era lutador e usava isso para intimidá-la. “Houve episódios em que me aplicou golpes de mata-leão e me imobilizou. A sensação que eu tinha quando ele fazia isso era uma sensação desesperadora de morte. Era algo tão absurdo, tão assustador, que eu não consigo nem explicar direito o que passava pela minha cabeça naquele momento. Eu só sentia pavor, pois achava que ia morrer.”

Melissa disse que o medo daquele golpe passou a ser maior do que a dor física. “Chegou um momento em que eu pedia a ele que, se fosse me bater, podia fazer qualquer coisa, mas que não me aplicasse o mata-leão. Aquilo me apavorava mais do que qualquer outra agressão. Eu preferia suportar a dor física do que sentir novamente aquela sensação de que estava morrendo.”

O episódio do celular

Melissa também relatou o episódio envolvendo um vídeo que, segundo ela, acabou vindo a público depois de sair do processo. Ela afirma que, após uma briga em que teria sido agredida, decidiu gravar Madson admitindo que havia batido nela. “Quando descobriu, ele tomou meu celular, me bateu tanto e ainda aplicou um mata-leão. Eu fiquei desesperada porque ele disse que ia arremessar meu celular na parede, como fez com tantos outros celulares. Eu implorei para que ele não quebrasse o celular.”

Na mesma sequência, Melissa afirma que Madson exigiu que ela pedisse perdão. “Ele disse que eu teria que pedir perdão a ele. O Madson pediu para eu ficar de joelhos no chão e implorar o perdão dele, mesmo sendo eu a vítima de toda aquela situação. Foi uma das maiores humilhações que vivi.” Ela contou que os vídeos foram apagados, mas não retirados da lixeira do celular. “Foi como eu recuperei e enviei para o meu e-mail.”

A dor não é saudade

Melissa fez questão de separar a dor que sente hoje de qualquer vínculo afetivo com Madson. Ela não quer que sua fala seja confundida com sofrimento pelo fim do relacionamento. A angústia, segundo ela, nasce do que afirma ter sofrido e da sensação de impunidade.

“O que eu sofro hoje é pelo mal que ele me fez e pela impunidade. Por estar sendo injustiçada. Isso me deixa chateada. A morosidade da Justiça”, afirmou.

Esse ponto muda o centro da história. Melissa não fala como alguém presa à ausência do ex-marido. Fala como uma mulher que diz ter se libertado de uma relação violenta, mas que ainda se vê obrigada a conviver com as marcas do que viveu porque o processo não chega a uma resposta.

O processo que parece nunca andar

“O mais difícil é que, anos depois, por conta de um processo que parece nunca andar, eu continuo tendo que reviver algo que já deveria ter sido apurado pela Justiça. Cada vez que preciso falar sobre isso, é como se eu voltasse um pouco para aqueles momentos”, disse Melissa.

A frase resume o peso da morosidade em casos de violência contra a mulher. A denúncia deveria abrir caminho para proteção e resposta. Mas, quando o processo anda devagar, a vítima continua presa ao fato. Precisa recontar, explicar, lembrar, responder, sustentar a própria palavra e enfrentar a dúvida pública enquanto tenta reconstruir a vida.

A espera diante da ascensão pública

No caso de Melissa, a espera tem uma camada política. Enquanto ela cobra uma resposta da Justiça, Madson aparece em espaços públicos e passou a circular no núcleo do poder estadual, ao lado da governadora Mailza Assis, sua atual esposa. Para uma mulher que acusa o ex-marido de agressões, ver o homem denunciado sorrindo, ocupando espaço e ascendendo publicamente antes de uma decisão definitiva pode ferir de novo.

Melissa não pede condenação fora dos autos. Pede que sua dor não seja engolida pelo tempo. Justiça lenta, em casos de violência doméstica, pode virar uma nova forma de sofrimento porque mantém a mulher ligada ao trauma enquanto a vida do acusado segue em outra velocidade.

Denunciar não deveria virar uma batalha sem fim

Nos últimos dias, Melissa também cobrou publicamente que iniciativas de defesa das mulheres discutam a celeridade dos processos de violência doméstica e familiar. Para ela, proteger mulheres não se resume a campanhas, programas ou eventos. A proteção precisa chegar no processo que anda, na audiência que acontece, na decisão que vem antes da prescrição e no acolhimento de quem teve coragem de denunciar.

A história de Melissa toca em uma ferida conhecida por muitas mulheres. Antes da denúncia, existe medo. Depois da denúncia, muitas vezes vem a exposição. E, quando a Justiça demora, chega outra violência: a obrigação de continuar vivendo perto da própria dor, esperando que o Estado trate como urgência aquilo que já custou demais para ser contado.

O que Melissa pede agora é simples e profundo: ser ouvida sem ter que reviver tudo indefinidamente. Enquanto o processo contra Madson Cameli segue sem uma resposta definitiva, sua fala deixa uma cobrança direta às instituições. Uma mulher que denuncia violência não pode passar anos presa ao mesmo medo para provar que merece Justiça.

Mailza quer Zequinha no barco ou quer empurrar o prefeito para fora?

A cada novo movimento do Palácio Rio Branco no Juruá, uma pergunta ganha força nos bastidores da política acreana: o grupo da governadora Mailza Assis quer mesmo manter o apoio do prefeito de Cruzeiro do Sul, Zequinha Lima?

A dúvida não nasce do nada. Zequinha não é um aliado qualquer. É prefeito da segunda maior cidade do Acre, foi reeleito em uma disputa dura, pertence ao mesmo campo político de Gladson Cameli e Mailza Assis, esteve ao lado do grupo em momentos decisivos e sempre foi tratado como peça importante para qualquer projeto governista no Juruá.

Mas os gestos recentes do governo caminham em outra direção.

O incômodo de Zequinha já havia aparecido publicamente. Em abril, o prefeito disse que não tomaria decisões com base em boatos, mas admitiu insatisfação com atitudes do governo em relação a Cruzeiro do Sul. A frase foi direta: ele sempre quis ser aliado, mas parecia que algumas pessoas não queriam essa aliança.

Na mesma entrevista, Zequinha apontou um problema que agora fica ainda mais evidente: a tentativa de ampliar alianças não pode significar o isolamento de quem já é de casa. Em outras palavras, o prefeito cobrou respeito aos aliados históricos.

De lá para cá, o cenário não melhorou. Pelo contrário.

Nos últimos dias, a governadora Mailza nomeou quatro integrantes da família do ex-vereador Leandro Cândido dos Santos em cargos comissionados no governo estadual. Leandro Cândido, apontado na imprensa local como ligado ao grupo do ex-prefeito Vagner Sales e opositor de Zequinha em Cruzeiro do Sul, foi nomeado em cargo na estrutura do Estado. Outros três integrantes da família Cândido também foram nomeados na Secretaria de Educação.

A nomeação pode até ser defendida administrativamente pelo governo, mas politicamente tem leitura clara no Juruá: o Palácio está dando espaço e estrutura a um grupo adversário do prefeito dentro da própria cidade.

Para aliados de Zequinha, esse é o tipo de gesto que não combina com o discurso de manutenção da aliança. Se o governo quer o prefeito no barco, por que entrega espaço justamente a quem faz oposição a ele em Cruzeiro do Sul?

A situação fica ainda mais delicada porque não se trata de um episódio isolado.

O deputado federal Zezinho Barbary, aliado de Mailza e figura ativa nas agendas do governo, também passou a atacar publicamente Zequinha. Em evento oficial no Juruá, Zezinho criticou a ausência de representantes da Prefeitura de Cruzeiro do Sul em solenidade de entrega de máquinas. Zequinha respondeu no dia seguinte, defendendo diálogo, respeito institucional e afirmando que divergências políticas não deveriam ser levadas para eventos administrativos, principalmente com a presença da governadora.

Mailza, teoricamente a líder do grupo, estava no centro da cena política. Mas, até aqui, não houve sinal público de uma intervenção firme para conter o desgaste entre seus próprios aliados.

Esse silêncio também comunica.

A coluna Tricas&Futricas, do AC24h, trouxe nesta terça-feira mais lenha para a fogueira ao registrar o sentimento de aliados de Zequinha de que estariam sendo “jogados ao vento”. A nota fala em suspeita de abandono do prefeito pelo Palácio Rio Branco, cita a nomeação de adversários políticos em cargos-chave do Estado em Cruzeiro do Sul e aponta que, aparentemente, já não haveria mais interlocução efetiva com o prefeito.

O quadro, portanto, é mais amplo do que uma simples intriga local. Há uma sequência de sinais políticos: Zequinha reclama de isolamento; adversários do prefeito ganham espaço no Estado; Zezinho Barbary o confronta publicamente; o Palácio não demonstra força para pacificar a base; e as informações internas que chegam à redação indicam que muitos aliados já avaliam pular fora do barco de Mailza.

O problema para a governadora é que, na política, abandono também se mede por gesto. E os gestos do governo com Zequinha parecem cada vez menos de aproximação e cada vez mais de empurrão.

Se Mailza quer mesmo o apoio do prefeito de Cruzeiro do Sul, precisa responder a uma pergunta simples: por que seu governo age como se Zequinha fosse dispensável?

Porque, se o Palácio continuar tratando aliados históricos como peça secundária, não será surpresa se o barco de Mailza começar a perder passageiros justamente no Juruá, região onde ela mais precisa mostrar força.

No Jornal da Manhã, Jorge Viana diz que quer ser “resolvedor de problemas” do Acre

O ex-governador Jorge Viana usou a entrevista ao Jornal da Manhã, da Rádio Integração, nesta terça-feira, 23, no Juruá, para apresentar sua pré-candidatura ao Senado como uma disputa centrada na reconstrução da capacidade política do Acre em Brasília, na recuperação da BR-364 e na relação direta com prefeitos, governo estadual e governo federal. “Eu não estou desesperado para ganhar uma eleição. Eu quero muito ganhar essa eleição, eu quero muito ajudar o Acre. A causa é o Acre”, disse Jorge, ao defender que a política precisa sair da lógica de ataque pessoal e voltar a resolver problemas concretos da população.

A entrevista ocorreu em meio à agenda que Jorge Viana cumpre pelo Vale do Juruá. Ele citou passagens por Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter, Jordão e Santa Rosa, dentro de uma estratégia de escuta antes da formalização da candidatura. O tom adotado foi de cobrança sobre o atual momento do estado. “Eu estou descontente com o caminho que o Acre pegou. As coisas não estão boas e eu posso ajudar. Eu estou me oferecendo para ajudar”, afirmou.

O ponto mais forte da conversa foi a BR-364. Jorge disse que percorreu a estrada “quilômetro a quilômetro” e levou ao Dnit um plano para enfrentar os trechos mais críticos da rodovia. Segundo ele, a proposta foi apresentada ao ministro dos Transportes, Renan Filho, que esteve no Acre e aceitou o encaminhamento. “Hoje um ônibus demora dezoito horas daqui de Cruzeiro para Rio Branco. Uma carreta, dois dias. Uma caminhonete, doze a quinze horas. E, se Deus quiser, em setembro nós vamos ter uma estrada regular, com aquelas áreas intragáveis e péssimas resolvidas”, declarou.

A fala mira diretamente a vida de quem depende da estrada para trabalhar, vender, estudar, fazer tratamento de saúde ou viajar entre o Juruá e a capital. Ao tratar da BR-364, Jorge tentou amarrar sua experiência administrativa à promessa de articulação federal. “Eu fui governador, fui senador, fui prefeito. Juntaram uns técnicos, montaram um plano quilômetro a quilômetro, e o ministro dos Transportes veio e acatou o plano”, disse.

Jorge também falou sobre a ponte que caiu em Sena Madureira e comparou o caso com obras feitas em governos anteriores no Juruá, como a ponte de Cruzeiro do Sul, iniciada em seu governo, executada por Binho Marques e inaugurada por Tião Viana. “Essa ponte tem dezesseis anos. Ela foi preparada inclusive para algum tipo de terremoto. Caiu lá uma ponte em Sena, é lamentável, com dois anos de uso, mas eu não posso acusar ninguém. Eu quero que tenha uma apuração rigorosa, porque era dinheiro público”, afirmou.

Na leitura política de Jorge, o Acre perdeu planejamento e passou a depender de ações soltas. Ele criticou a substituição de políticas públicas estruturadas por emendas parlamentares usadas como vitrine eleitoral. “Acabar com essa onda de emenda para cá, emenda para lá. Tem que ter políticas públicas”, disse. Em seguida, citou obras de sua gestão no Juruá, como o Hospital do Juruá, o aeroporto, a avenida em Mâncio Lima, a chegada da universidade a Cruzeiro do Sul, a ponte e a própria estrada. “Não dá para a gente não ter mais governos que não têm um projeto”, completou.

Ao falar de Cruzeiro do Sul, Jorge foi direto na crítica ao ritmo de investimentos públicos na cidade nos últimos anos. “Eu não vejo obras aqui em Cruzeiro do Sul. Se tirar as coisas que o governo federal ainda está fazendo, não sobra nada”, disse. Para ele, a falta de obras afeta o comércio, o emprego e o ambiente social. “O comércio não vende, ninguém emprega. Há um ambiente de sofrimento na população”, afirmou.

A entrevista também abriu espaço para uma proposta voltada à economia digital. Jorge defendeu que Cruzeiro do Sul e o restante do Acre precisam de mais cabos de fibra óptica e internet de alta qualidade para permitir que jovens trabalhem de casa prestando serviços para empresas de outros países. “Eu quero três, quatro cabos de fibra óptica daqui para Rio Branco, e a cidade fibrada, com internet de altíssima qualidade”, disse. “Essa nova geração de garotos de 15, 16, 20 anos é talentosa. Nós estamos na era do serviço. Eles podem, de casa, prestar serviço para empresa na China, na Índia, na Europa, nos Estados Unidos.”

A relação com o presidente Lula ocupou outro bloco central da entrevista. Jorge criticou políticos acreanos que, segundo ele, evitam reconhecer investimentos federais por divergência ideológica. “O cara ganha um mandato para fazer guerra ideológica. Não conte comigo para isso”, declarou. Ele disse que, caso seja eleito, pretende atuar como ponte entre o governo federal, o governo estadual e as prefeituras. “Eu serei o interlocutor do presidente Lula aqui em Cruzeiro do Sul e nos municípios todos. Como é que eu só vou trabalhar quando o PT tiver? Eu não estou candidato para ser senador do PT. Eu estou candidato para ser senador do Acre e do Brasil.”

Jorge citou o cumprimento à governadora Gladson Cameli durante a agenda com o ministro dos Transportes e defendeu relação institucional com qualquer gestor. “Se eu quero ser senador da República, eu vou ter que trabalhar por dois anos com todos os prefeitos do Acre. É assim que funciona”, disse. A frase funciona como recado para um ambiente político estadual marcado por alinhamentos nacionais, disputas de grupo e dificuldade de convivência entre adversários.

A entrevista também teve resposta aos ataques contra jornalistas do Juruá. Sem citar nome, Jorge criticou um pré-candidato que, segundo ele, teria acusado profissionais da imprensa de serem comprados. “Eu queria ser solidário com vocês, porque teve um dos pré-candidatos que veio agredir o jornalismo dizendo que jornalista aqui se compra. Eu não combinei nunca nenhuma entrevista na minha vida”, afirmou. “Eu não estou usando microfone nem minhas redes sociais para agredir ninguém. Tomei uma decisão. Não tenho mais idade, não tenho tempo, e acho que a população cansou desse tipo de malandragem política.”

Jorge buscou se diferenciar de adversários que apostam no confronto permanente nas redes sociais. “Não contem comigo para ficar rebatendo coisa, agredindo ninguém. Não vai ter isso. Me esperem com a minha vivência para ser um resolvedor de problemas”, disse. A fala resume o eixo escolhido para sua pré-campanha: experiência administrativa, acesso a Brasília, crítica ao improviso e promessa de reconstruir pontes políticas em um estado que depende de obras federais para destravar transporte, produção, saúde e conectividade.