O primeiro grande embate televisivo das Eleições de 2026, promovido pelo ac24horas, não serviu apenas para testar os nervos dos candidatos ao Palácio Rio Branco. Ele funcionou como um espelho de aumento, revelando as fraturas no discurso da atual governadora, Mailza Cameli. Pressionada pela estratégia conjunta de seus três adversários, a candidata à reeleição adotou uma narrativa de sobrevivência que, sob escrutínio, esbarra na sua própria certidão de nascimento político e na matemática de suas entregas.
O debate expôs duas fragilidades crônicas na campanha governista: a tentativa desesperada de amputar o passado recente e a exaltação de realizações minúsculas que, ironicamente, dependem de seus adversários ideológicos.
O Paradoxo da Vice que (Não) Estava Lá
A manobra mais arriscada de Mailza na noite foi a sua tentativa de desvincular-se do ex-governador Gladson Cameli, seu principal fiador político. Com Cameli encurralado por denúncias de corrupção, condenação no STJ e vendo sua candidatura ao Senado barrada pelo TRE-AC no mesmo dia do debate, a governadora tentou criar um cordão sanitário temporal ao redor de si mesma.
Sua defesa baseou-se em uma premissa no mínimo curiosa: “Eu só me responsabilizo pelo que eu faço a partir de abril”.
A frase é uma acrobacia retórica que ignora a história. Mailza não caiu de paraquedas no Palácio Rio Branco em abril de 2026. Ela é a essência da continuidade. Foi alçada ao Senado Federal justamente por ser a suplente de Gladson quando este assumiu o governo. Posteriormente, foi escolhida a dedo para compor a chapa como sua vice-governadora. Ela estava na sala de comando. Negar a continuidade de um governo do qual ela foi a “copilota” por anos não é apenas uma contradição; é subestimar a memória do eleitor. Como bem observaram os analistas logo após o embate: “Como é que a governadora não fazia parte da gestão, sendo que ela era vice?”.
Ao tentar se livrar do peso de Gladson para blindar sua imagem, Mailza nega suas próprias raízes, entregando aos adversários o flanco da incoerência.
A Cereja do Bolo: A Pequenez Habitacional e o Fator Lula
Se no campo político o discurso de Mailza patinou na própria trajetória, no campo administrativo a tentativa de demonstrar força revelou uma fraqueza ainda maior. A “cereja do bolo” da dissonância ocorreu quando a governadora puxou para si os holofotes ao falar de obras e infraestrutura, orgulhando-se da entrega de pouco mais de 200 casas populares.
Em um estado com um déficit habitacional histórico e crescente, ostentar a entrega de pouco mais de duas centenas de moradias não é um atestado de eficiência, mas uma admissão de letargia. É a celebração da pequenez.
Porém, a ironia que desmancha o discurso governista vai além do número irrisório. O fato inegável que a campanha de Mailza tenta omitir é que essas parcas 200 casas só saíram do papel ou ganharam tração depois de 2023. O motivo? O retorno de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência e a retomada de programas federais de habitação.
Durante os quatro anos do governo de Jair Bolsonaro — o “grande presidente da direita” que o grupo político de Mailza e Gladson abraçou fervorosamente —, o Acre foi deixado à míngua no quesito de novas habitações populares. O governo estadual, alinhado à gestão federal anterior, foi incapaz de entregar telhados por conta própria.
Agora, a candidata tenta capitalizar politicamente em cima de um número ínfimo de obras que só existem porque o governo federal, liderado pelo espectro político oposto, abriu os cofres.
O Saldo do Embate
O debate deixou claro que Mailza Cameli tenta caminhar sobre uma corda bamba narrativa. De um lado, quer os bônus de ser a máquina do governo, mas sem carregar o ônus da corrupção da gestão da qual foi vice. Do outro, acena para o eleitorado conservador enquanto sua vitrine de obras — por menor que seja — depende do oxigênio financeiro do governo Lula.
Na política, a sinceridade costuma ser a melhor vacina. Ao tentar reescrever sua ligação umbilical com Gladson Cameli e maquiar o DNA das poucas obras que tem para mostrar, Mailza não resolveu seus problemas no debate; ela apenas desenhou um alvo maior nas próprias costas para as próximas semanas de campanha.