Opinião

Duas mulheres na chapa. O Acre espera uma posição

A escalada da violência contra a mulher exige propostas concretas. E a chapa formada por Mailza Cameli e Jéssica Sales tem o dever político de dizer ao Acre como pretende enfrentar essa realidade.

O Acre vive uma realidade alarmante. Em apenas alguns meses de 2026, centenas de denúncias de violência contra a mulher já foram registradas, enquanto casos de feminicídio e de tentativa de feminicídio continuam chocando a sociedade e revelando que o Estado ainda está distante de oferecer a proteção que as mulheres acreanas merecem.

Diante desse cenário, não há espaço para que o tema fique em segundo plano durante a campanha eleitoral.

A chapa governista reúne duas mulheres: a governadora e candidata à reeleição, Mailza Cameli, do Progressistas, e a candidata a vice-governadora, a ex-deputada Jéssica Sales, do MDB. Essa condição, por si só, desperta uma expectativa legítima da sociedade. Mais do que representar a participação feminina na política, espera-se que ambas liderem o debate sobre políticas públicas capazes de prevenir a violência, proteger as vítimas e responsabilizar os agressores.

Essa expectativa torna-se ainda maior porque o atual companheiro da governadora responde a um processo relacionado a acusações de violência doméstica contra sua ex-esposa, acusações contestadas por sua defesa e que ainda aguardam decisão definitiva da Justiça. Não se trata de atribuir responsabilidade à governadora por fatos imputados a terceiros, mas de reconhecer que essa circunstância torna inevitável uma manifestação política clara sobre um tema que hoje mobiliza toda a sociedade acreana.

Há outro aspecto que reforça essa necessidade. O episódio ganhou enorme repercussão justamente em Cruzeiro do Sul, cidade onde Jéssica Sales nasceu, construiu sua trajetória política e mantém sua principal base eleitoral. A divulgação de vídeos e imagens relacionados ao caso provocou forte comoção na região e fez da violência contra a mulher um dos assuntos mais discutidos pela população local. Por isso, é natural que o eleitor espere também da candidata a vice uma posição objetiva e inequívoca sobre o enfrentamento desse problema.

A sociedade acreana tem o direito de saber quais compromissos essa chapa assume para reduzir os índices de violência contra a mulher. Como pretendem fortalecer as Delegacias Especializadas? Haverá ampliação das casas de acolhimento? Quais investimentos serão feitos em prevenção, atendimento psicológico, assistência jurídica e proteção às vítimas? Como o governo pretende atuar para reduzir a reincidência e impedir que novas mulheres sejam vítimas da violência?

Não basta lamentar cada novo caso ou manifestar solidariedade quando uma tragédia ganha repercussão. O que se espera de quem pretende governar o Estado é liderança, planejamento e compromisso público com resultados.

A presença de duas mulheres na chapa majoritária representa um fato político relevante. Mas representatividade só adquire verdadeiro significado quando se transforma em ação concreta. O Acre espera ouvir, de forma clara, tanto Mailza Cameli quanto Jéssica Sales. Não apenas como candidatas, mas como lideranças que desejam governar um Estado onde centenas de mulheres continuam denunciando agressões todos os anos.

A campanha eleitoral oferece a oportunidade para que ambas apresentem propostas, assumam compromissos e demonstrem coerência entre o discurso e a prática. Diante da gravidade do momento, o Acre não espera silêncio. Espera respostas.

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