Ao defender uma campanha do respeito e da serenidade, candidata a vice-governadora precisará explicar aos próprios eleitores por que passou a apoiar um grupo que enfrentou duramente até ontem e como concilia seu discurso com as contradições do projeto que agora representa.
A política costuma exigir alianças improváveis, mas também cobra coerência. E é justamente nesse ponto que a pré-candidata a vice-governadora Jéssica Sales inicia sua nova caminhada ao lado da governadora Mailza Assis carregando uma série de perguntas que dificilmente desaparecerão durante a campanha.
Na apresentação oficial da chapa, Jéssica falou em respeito, diálogo, honestidade e afirmou que “não é preciso gritar com ninguém nem dar murro na mesa para governar”. O discurso buscou transmitir serenidade e estabelecer um contraste com adversários, numa referência amplamente interpretada como dirigida ao episódio envolvendo o senador Alan Rick no Aeroporto de Brasília.
O problema é que o maior desafio de Jéssica talvez não seja responder aos adversários, mas aos próprios eleitores.
Em 2024, ela foi a principal adversária do grupo político liderado por Gladson Cameli na disputa pela Prefeitura de Cruzeiro do Sul. Travou uma campanha dura contra a base governista e perdeu por uma diferença mínima de votos. Agora, menos de dois anos depois, aparece de mãos dadas justamente com aqueles que eram seus principais adversários. O que mudou? Houve mudança de convicções, de avaliação do governo ou apenas uma nova composição eleitoral? Essa é uma explicação que milhares de eleitores certamente esperarão ouvir.
Outra questão envolve o próprio governo que Jéssica passa a defender. Durante anos, ela foi uma das vozes mais críticas da gestão de Gladson Cameli. Agora, integra uma chapa encabeçada pela vice-governadora que assumiu o comando do Estado como continuidade desse mesmo projeto político. Nesta semana, um levantamento divulgado pela CBN Rio Branco mostrou que, dos 36 compromissos assumidos no plano de governo de Gladson Cameli e Mailza Assis, apenas nove foram efetivamente cumpridos, sendo parte deles apenas parcialmente executada. Se esse balanço servir de parâmetro para avaliar a gestão, Jéssica passa a emprestar sua credibilidade para pedir à população a renovação de um projeto cujo desempenho, sob esse critério, está longe de ser satisfatório.
Há ainda uma contradição que dificilmente deixará de ser explorada durante a campanha. Ao defender respeito às pessoas e condenar comportamentos agressivos, Jéssica se associa a uma chapa cuja titular é casada com um secretário de Estado que responde a processos relacionados a acusações de violência doméstica. Um desses episódios ocorreu justamente em Cruzeiro do Sul, cidade natal de Jéssica Sales, e teve enorme repercussão local. As imagens e relatos divulgados à época provocaram forte comoção entre muitas mulheres da região, especialmente entre vítimas de violência doméstica e pessoas sensibilizadas pelo caso. Independentemente do desfecho judicial, que cabe exclusivamente à Justiça definir, permanece a cobrança política: como sustentar um discurso de defesa das mulheres sem enfrentar publicamente um episódio que abalou justamente a cidade que Jéssica afirma representar com tanto orgulho? O silêncio, nesse contexto, tende a ser interpretado como uma escolha política.
Essas perguntas não diminuem o significado histórico de uma chapa formada por duas mulheres, fato inédito na política do Acre. Pelo contrário. Tornam ainda maior a responsabilidade de ambas em responder, com transparência, às cobranças da sociedade.
A política permite mudar de lado, construir alianças e até rever posições. O que não permite é imaginar que a memória do eleitor desapareça entre uma eleição e outra. Quem ontem criticava um governo e hoje pede votos para sua continuidade precisa explicar o que mudou. Quem faz do respeito a principal bandeira de campanha também precisa demonstrar que esse compromisso vale para todos os casos, inclusive aqueles que aconteceram dentro da própria casa política.
É essa coerência — e não apenas os discursos de lançamento — que os acreanos terão o direito de cobrar durante toda a campanha eleitoral.