A espera por Tratamento Fora de Domicílio interestadual voltou a expor a dificuldade de acesso a atendimentos de alta complexidade no Acre. Em Cruzeiro do Sul, uma jovem de 18 anos internada no Hospital Regional do Juruá aguarda há mais de um mês transferência para avaliação e possível procedimento neurocirúrgico fora do estado. O caso, trazido a tona pelo jornal Notícias do Juruá, ocorre num momento em que registros de pagamento do governo estadual apontam R$ 12,44 milhões em despesas com fretamento de aeronaves descritas como jato entre 2023 e 2025.
Identificada pelas iniciais F.J.S.M., a paciente foi internada em 23 de abril. Cinco dias depois, após exames, houve solicitação médica para encaminhamento via TFD interestadual. Sem resposta até a segunda quinzena de maio, a família procurou o Ministério Público do Acre para cobrar providências.
O quadro clínico é tratado como grave. A equipe de neurocirurgia registrou histórico de hidrocefalia complexa, múltiplas intervenções e necessidade de reavaliação em centro de referência. O laudo aponta risco de agravamento neurológico, disfunção valvular, hipertensão intracraniana, rebaixamento do nível de consciência, déficits permanentes e até morte caso a paciente permaneça sem avaliação especializada.
A mãe da jovem, Antônia de Souza Cruz, diz que a filha convive com dor contínua e que a família segue sem qualquer previsão de transferência. “Minha filha sente dor 24 horas por dia. Estamos cansados dessa espera. É um quadro de urgência e até agora não temos previsão de sair do Acre”, afirmou.
A cobrança da família não é direcionada ao atendimento da unidade hospitalar. Antônia relata que a paciente tem recebido acompanhamento da equipe do Hospital Regional do Juruá, inclusive suporte psicológico. A queixa é pela demora na liberação do TFD interestadual e pela ausência de prazo para a remoção.

Ela também relata que a situação não seria isolada. De acordo com a mãe, outro paciente da unidade, identificado como Emanuel, também espera há mais de um mês por transferência para tratamento fora do estado.
O impasse ocorre em meio ao alto volume de gastos públicos com transporte aéreo. Levantamento realizado pela nossa redação, com base em dados do Portal da Transparência do Estado, mostra R$ 76 milhões em pagamento destinadas à empresa Ortiz Táxi Aéreo. Desse total, R$ 32,4 milhões aparecem vinculados à Secretaria de Estado da Casa Civil.
Dentro desse montante, os registros com menção expressa a “jato” somam R$ 12.440.400, distribuídos em 52 linhas de pagamento e 43 empenhos conciliados entre junho de 2023 e dezembro de 2025. Os históricos tratam, em sua maioria, de fretamento de aeronave a jato, por hora de voo ou por modelo de aeronave, sem descrição dos motivos dos voos.
No Vale do Juruá, onde a oferta de serviços especializados é limitada e a distância dos grandes centros pesa na rotina do atendimento, o TFD é uma etapa decisiva para pacientes que precisam de tratamento fora do Acre. Em casos graves, a transferência depende não só de vaga e autorização, mas também de uma logística rápida, muitas vezes aérea.
É nesse ponto que o caso de Cruzeiro do Sul ganha dimensão maior do que a de um drama individual. De um lado, o estado mantém contratos milionários para deslocamentos oficiais. De outro, pacientes em situação de urgência seguem à espera de autorização, leito e transporte para atendimento fora da rede local. Sem resposta e sem prazo, a espera pela transferência mantém aberta uma das áreas mais sensíveis da saúde pública acreana.