Os pagamentos do Governo do Acre a CNPJs ligados ao entorno empresarial e associativo de Antônio Assem Melo Cameli, pai de Madson Cameli, mudaram de tamanho a partir de 2023, ano em que a aproximação entre Madson e Mailza Assis passou a circular no ambiente político acreano. Hoje, Mailza governa o Estado, Madson é marido dela e ocupa a chefia do Gabinete Pessoal da governadora. Entre 2020 e 23 de junho de 2026, seis CNPJs relacionados a esse universo receberam R$ 42.028.255,33 dos cofres estaduais.
Até 2022, a soma anual ainda caminhava em faixa menor. Foram R$ 2,44 milhões em 2020, R$ 2,2 milhões em 2021 e R$ 4,66 milhões em 2022. Depois da aproximação de Madson com Mailza, os valores subiram para R$ 8,12 milhões em 2023, R$ 10,44 milhões em 2024 e R$ 12,61 milhões em 2025. Em três anos antes de 2023, os pagamentos chegaram a R$ 9,3 milhões. Nos três anos seguintes, alcançaram R$ 31,17 milhões. A diferença passa de R$ 21 milhões e representa alta de quase 235%.
A planilha não entrega uma sentença. Entrega uma pergunta difícil para o governo. Por que os pagamentos a CNPJs ligados ao entorno empresarial de Assem Cameli saltaram depois que Madson se aproximou de Mailza e passou a circular no núcleo de poder que hoje comanda o Acre? Essa resposta não cabe em nota protocolar. Precisa aparecer nos contratos, nos convênios, nas licitações, nos pareceres e nas assinaturas que liberaram cada real.
A maior parte do dinheiro passou pela Associação Comercial e Empresarial de Cruzeiro do Sul, a ACECS. A entidade recebeu R$ 25.487.150,00 entre 2022 e 2025, principalmente para bancar a Expoacre Juruá, feiras de negócios, o réveillon em Cruzeiro do Sul e as comemorações do Dia do Trabalhador. Só a Expoacre Juruá e eventos de negócios ficaram com R$ 16.629.760,00. O réveillon somou R$ 5.384.140,00. O Dia do Trabalhador consumiu R$ 3.473.250,00. Uma pergunta fica no ar. Por que o governo tem esses custos com esses eventos através da Associação?
A ACECS não é empresa de Assem Cameli. Associação privada não tem dono como uma loja, uma construtora ou uma empresa de navegação. Também não se pode transformar a passagem de uma pessoa pela diretoria em prova automática de controle patrimonial. O que existe é uma relação antiga, pública e política entre Assem e a entidade. Ele foi presidente por dois mandatos, atuou como vice-presidente, aparece em cadastros públicos como diretor e tentou voltar ao comando da associação em dezembro de 2024, quando sua chapa perdeu a eleição interna por 50 votos a 44.
Em janeiro de 2024, Assem aparece como vice-presidente da Associação Comercial de Cruzeiro do Sul em encontro com o prefeito Zequinha Lima, com Mailza Assis, então vice-governadora, e com o secretário de Segurança, coronel José Américo, para tratar de crimes contra o patrimônio no centro da cidade.
Em abril de 2025, no Centro Integrado de Comando e Controle do Juruá, Assem retomou essa trajetória ao falar da volta do serviço 190 para Cruzeiro do Sul. “Enquanto exerci o cargo de vice-presidente da Associação Comercial e Empresarial de Cruzeiro do Sul, lutei pelo retorno dos serviços do 190 para cá”, disse. A frase ajuda a entender o lugar que ele ocupa há anos no Juruá: empresário, dirigente associativo e interlocutor de governos em temas sensíveis para o comércio local.
Entre as empresas privadas, a maior soma ficou com a A. A. M. Cameli, conhecida como Navegação Rápido Juruá. O CNPJ recebeu R$ 12.881.356,83 no período, quase sempre por locação de balsa com rebocador ao Deracre. É a balsa que faz a travessia entre Cruzeiro e Rodrigues Alves. Os pagamentos atravessaram todos os anos da série: R$ 2,19 milhões em 2020, R$ 1,5 milhão em 2021, R$ 1,91 milhão em 2022, R$ 1,81 milhão em 2023, R$ 1,85 milhão em 2024, R$ 2,37 milhões em 2025 e R$ 1,22 milhão em 2026, ainda com dados parciais até 23 de junho.
A N Construções Ltda também entrou na rota dos pagamentos. A empresa recebeu R$ 3.263.354,97 entre 2020 e junho de 2026. Depois de cair para R$ 43,8 mil em 2023, voltou a receber valores maiores: R$ 402,5 mil em 2024, R$ 800,1 mil em 2025 e R$ 318,5 mil em 2026. Os serviços envolvem locação de máquinas e veículos pesados ao Deracre e aluguel de imóvel para uma unidade do Iteracre.
Outros CNPJs aparecem com valores menores, mas completam o mapa financeiro em torno do mesmo sobrenome e do mesmo ambiente empresarial. A A M Camili Eireli recebeu R$ 229.331,26. A Sampaio e Camili Comércio Varejista de Produtos Alimentícios Ltda recebeu R$ 132.847,36. A A S Melo Ltda ficou com R$ 34.214,91.
Em 2026, já com Mailza no comando do Estado, a Associação Comercial voltou a aparecer ao lado do governo na campanha Compra Premiada, em Cruzeiro do Sul. A ação reuniu Seict, Federacre, ACECS e Rede Ativa, teve adesão de mais de 200 empresas e movimentação estimada em R$ 15 milhões no comércio local. O sorteio ocorreu no Shopping Copacabana, empreendimento associado a Assem Cameli, apresentado pelo governo como proprietário do local e empreendedor do setor comercial e industrial do Juruá.
O caso avança sobre uma fronteira delicada da política acreana: onde termina a relação privada e onde começa o dever de proteção do dinheiro público. Assem Cameli é pai de Madson. Madson se aproximou de Mailza por volta de 2023, casou-se com ela e hoje trabalha dentro do gabinete da governadora. No mesmo intervalo, os pagamentos a CNPJs ligados ao ambiente empresarial e associativo de Assem cresceram de forma expressiva. A ACECS, entidade comandada por ele no passado, recebeu a maior fatia. As empresas privadas mantiveram contratos relevantes, sobretudo com o Deracre.
Nos bastidores do governo e entre fornecedores que dependem de pagamentos do Estado, a queixa ganhou nome e sobrenome. Madson Cameli passou a ser descrito por interlocutores como alguém que fala a partir do centro do poder, cobra deferência e deixa no ar a ideia de que as decisões passam por ele. A frase que corre longe dos gabinetes é mais crua: “ele bate no peito para dizer que é ele quem manda”. Essa postura, repetida em conversas reservadas por políticos e empresários, abriu ruídos na base, azedou relações internas e aumentou a irritação de quem presta serviço ao governo, entrega o que foi contratado e espera receber enquanto vê o caixa público atravessado por influência familiar, disputa política e desconfiança.
A resposta que o Estado deve à população precisa ser concreta. Quais contratos cresceram? Quais convênios foram assinados? Houve chamamento público? Houve licitação? Que órgãos autorizaram as despesas? Quem fiscalizou a entrega dos serviços? Que barreiras foram criadas para impedir conflito de interesse depois que o marido da governadora passou a ocupar uma sala no coração do Palácio? No Acre, onde quase todo poder tem nome, sobrenome e endereço conhecido, transparência não pode ser favor. É obrigação.