Coluna Jornal da Manhã

Jornal da Manhã em Coluna – 8 de julho de 2026

A coluna desta quarta-feira reúne bastidores, comentários e informações levadas ao ar no Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM 99,9, apresentado por Chico Melo, com análise política de Rogério Wenceslau, participação de Mazinho Rogério, cobertura de Gledson Albano e entrevista com o ex-governador e pré-candidato ao Senado Jorge Viana.

Ramais viraram o retrato da crise

O Jornal da Manhã desta quarta-feira começou com a pergunta que saiu dos estúdios da Rádio Integração e ganhou as comunidades rurais do Acre: cadê o dinheiro dos ramais?

A cobrança não nasceu do nada. Veio depois da ida de produtores rurais à Assembleia Legislativa, da pressão sobre deputados, da tentativa do governo de segurar a crise e, principalmente, do áudio vazado de Celso Souza, diretor de ramais do Deracre. A fala expôs aquilo que a propaganda oficial tenta esconder: a Operação Verão ainda não chegou como deveria ao chão da zona rural.

O problema deixou de ser apenas administrativo. Virou problema político.

O áudio que furou a blindagem

No áudio levado ao ar pelo Jornal da Manhã, Celso Souza fala em dificuldade de liberação de recursos, fornecedores sem pagamento, máquinas alugadas sendo devolvidas e atraso no pagamento de terceirizados. A frase mais pesada não precisou de floreio: sem repasse, o Deracre não paga quem contratou.

A bancada tratou o áudio como um divisor de águas. Até então, o governo ainda tentava empurrar a narrativa de que havia programação, cronograma e articulação. Depois da fala do próprio diretor de ramais, ficou mais difícil sustentar a aparência de normalidade.

Quando um integrante da estrutura do governo diz que não dá para continuar trabalhando devendo combustível, peça, aluguel de máquina e funcionário, a crise deixa de ser boato de bastidor. Passa a ser confissão administrativa.

Governo prometeu cronograma, mas produtor quer máquina

A resposta do governo, até agora, foi prometer um cronograma até o dia 17. O problema é que produtor rural não planta cronograma, não escoa banana em cronograma e não atravessa ponte caída com apresentação de PowerPoint.

A cobrança feita no programa foi simples: julho já chegou, junho passou praticamente sem chuva forte, e as máquinas ainda não estão roncando nos ramais como deveriam.

A zona rural conhece o calendário melhor do que muito gabinete. Sabe que o verão amazônico é curto. Quando o governo perde junho e começa julho discutindo planejamento, quem paga a conta é quem mora longe do asfalto.

Mailza chamada para o centro da roda

Outro ponto forte da manhã foi a cobrança para que a governadora Mailza Assis assuma pessoalmente a crise. Produtores não querem mais apenas interlocutores, secretários ou deputados tentando acalmar os ânimos. Querem a palavra de quem está com a caneta.

Essa é a nova fase do governo Mailza: sair da posição de vice que herdou o mandato e assumir o desgaste de quem agora responde pelo Estado.

O Jornal da Manhã foi direto nesse ponto. A governadora precisa dizer onde está o dinheiro, qual é o plano, quais ramais serão atendidos e quando o serviço começa. Não basta anunciar Operação Verão em evento. É preciso entregar estrada trafegável na comunidade.

O jogo de empurra chegou a Cruzeiro do Sul

A crise ganhou contorno local quando a bancada trouxe a fala de Amauri, representante do Deracre em Cruzeiro do Sul, atribuindo às prefeituras responsabilidade pela recuperação dos ramais.

A tentativa de jogar a conta no colo dos municípios foi rebatida ao vivo pelo secretário de Obras de Cruzeiro do Sul, Carlos Alves. Ele afirmou que há ramais de responsabilidade municipal, mas lembrou que trechos como Lagoinha e Santa Luzia sempre foram atendidos historicamente pelo Deracre. Também disse que a prefeitura assumiu mais 100 quilômetros, incluindo trecho da Linha 307, para ajudar o governo do Estado.

A leitura política é evidente: quando a obra é anunciada, todos querem sair na foto. Quando a máquina não chega, começa a disputa para saber quem fica com a culpa.

A prefeitura não quer herdar a crise do Estado

Carlos Alves foi cuidadoso, mas deixou claro que Cruzeiro do Sul não aceita carregar sozinha uma conta que sempre foi dividida com o governo estadual. Segundo ele, a prefeitura tem sua malha própria, executa serviços em áreas como Badé de Cima e Badé do Meio, mas não tem estrutura para assumir toda a malha de ramais que historicamente depende do Deracre.

Essa resposta tem peso político porque Cruzeiro do Sul virou uma das vitrines da crise. Foi no Juruá que o governo anunciou ações, fez reunião, falou em Operação Verão e criou expectativa. Agora, com a cobrança chegando, tenta-se reorganizar a narrativa.

Só que o morador do ramal não quer narrativa. Quer estrada.

Jorge Viana entrou no ponto fraco do governo

O entrevistado do dia, Jorge Viana, não precisou procurar muito para encontrar o ponto vulnerável do governo. A crise dos ramais estava posta sobre a mesa.

Ex-governador e pré-candidato ao Senado, Jorge afirmou que ramal se planeja no inverno para executar no verão. Disse que o governo precisa trabalhar junto com as prefeituras, organizar máquinas, combustível e prioridades antes do período seco. Para ele, chegar a julho ainda discutindo como fazer é sinal de desorganização.

A fala atinge o governo Mailza onde mais dói: na comparação com gestões anteriores. Jorge lembrou ações feitas quando governou o Acre e tentou se colocar como alguém que conhece o funcionamento da máquina pública, principalmente na área rural.

Candidatura sem guerra ideológica

Jorge também usou a entrevista para reforçar uma estratégia política que vem adotando nas últimas semanas: tentar tirar a candidatura ao Senado da briga ideológica.

Disse que sua candidatura é pelo Acre, não apenas por um partido. Defendeu Lula para presidente e Thor Dantas para o governo, mas evitou ataques diretos a adversários. Afirmou que não pretende brigar com Márcio Bittar, Sérgio Petecão, Mara Rocha, Eduardo Velloso ou outros nomes que podem disputar o Senado.

É uma tentativa clara de falar com um eleitorado mais amplo, inclusive com setores que não votam no PT, mas ainda reconhecem obras e entregas de seu governo.

O Senado virou tabuleiro aberto

A eleição para o Senado apareceu no programa por dois caminhos. Primeiro, pela entrevista de Jorge Viana. Depois, pelo bastidor envolvendo Gladson Cameli.

Rogério Wenceslau levou ao ar a informação de que, nos meios políticos e jurídicos, circula a tentativa da defesa de Gladson de buscar no TSE uma liminar que pudesse viabilizar o registro de candidatura ao Senado. A informação foi tratada como bastidor, sem confirmação oficial, mas com impacto político evidente.

Se Gladson tentar entrar no jogo, mesmo sub judice, mexe com todo o tabuleiro. Se ficar fora, abre espaço para reorganização de votos, alianças e apoios.

Gladson ainda pesa mesmo fora do governo

A situação de Gladson é uma das grandes sombras sobre a eleição de 2026. Mesmo fora do governo e enfrentando problemas judiciais graves, seu nome ainda aparece como peça relevante na disputa. Isso explica a movimentação em torno de eventual candidatura.

A pergunta que fica é se o grupo político de Gladson conseguirá manter força eleitoral sem o controle direto do Palácio Rio Branco. Mailza herdou o governo, mas não herdou automaticamente a liderança política do ex-governador.

E essa diferença começa a aparecer nos bastidores.

A caneta de Mailza pesa mais a cada crise

O Jornal da Manhã voltou a bater em uma tecla que vem se repetindo: Mailza precisa assumir o governo de fato, não apenas formalmente.

A crise dos ramais mostra isso. Quando falta dinheiro, quando o cronograma não aparece, quando o Deracre troca comando, quando produtor ocupa a Assembleia e quando diretor manda áudio dizendo que não dá para continuar, não há mais como terceirizar a responsabilidade.

A partir de agora, cada ramal sem máquina é também um problema da governadora.

Assembleia entrou pressionada

A presença de produtores na Aleac também serviu para testar os deputados. A Assembleia tem o papel de fiscalizar, cobrar documentos, exigir explicações e não apenas tentar baixar a temperatura quando a crise chega ao plenário.

A fala de Edvaldo Magalhães, reproduzida no programa, colocou o dedo na ferida: qualquer planejamento mínimo deveria estar pronto antes da abertura do verão. Dinheiro, máquina, contrato e equipe precisam estar organizados antes do sol aparecer.

O atraso, agora, não é apenas técnico. É político.

A verdade está nos ramais

A frase que melhor resume o programa veio da própria leitura da bancada: a verdade está nos ramais.

Não está no discurso do governo. Não está na nota oficial. Não está no cronograma prometido. Está na ponte caída, no bueiro comprometido, na estrada ruim, no produtor que perde carga, no ônibus que não entra e no morador que não sabe se vai conseguir sair quando a chuva voltar.

A crise dos ramais virou a síntese de um governo que prometeu operação, mas ainda não mostrou comando.

O governo nas cordas

A avaliação política do Jornal da Manhã foi dura: o governo Mailza está nas cordas. Não por causa de um episódio isolado, mas pelo acúmulo de sinais.

Deracre instável. Produtores revoltados. Prefeituras se defendendo. Assembleia pressionada. Bastidores eleitorais em ebulição. Gladson ainda assombrando a cena. E, no meio disso tudo, uma governadora que precisa provar que tem comando próprio.

A Operação Verão deveria ser vitrine. Até agora, virou cobrança.

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