A cantora Ana Castela terá mais um cachê bancado com recursos públicos nesta semana. A artista foi contratada por R$ 850 mil para se apresentar nesta quinta-feira, 27, na Expo São Fidélis, no Rio de Janeiro. O valor será coberto com recursos federais destinados ao município por meio de uma emenda de R$ 1 milhão da Comissão de Turismo da Câmara, indicada pela deputada federal Dani Cunha (PL-RJ).
A Prefeitura de São Fidélis acrescentará R$ 50 mil de contrapartida. O orçamento de R$ 1,05 milhão será utilizado nos cachês de Ana Castela, de R$ 850 mil, e da dupla Antony e Gabriel, de R$ 200 mil. Até a última consulta divulgada nesta terça-feira, 25, o pagamento da cantora ainda não aparecia no Transferegov. Pelo contrato, o repasse pode ser realizado até o dia da apresentação.
O contrato no Rio de Janeiro é parte de uma sequência de apresentações da cantora financiadas por prefeituras e governos estaduais. Levantamento do projeto Farras, do De Olho nos Ruralistas, citado pelo Metrópoles, identificou R$ 73 milhões em contratos públicos para 93 apresentações de Ana Castela entre janeiro de 2024 e março de 2026.
Outro levantamento, realizado pelo Metrópoles a partir dos registros do Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), encontrou somente em 2026 26 contratações feitas por prefeituras, que somam R$ 22,68 milhões. Entre os contratos aparecem apresentações na faixa de R$ 800 mil a R$ 900 mil e um cachê de R$ 1,3 milhão em Barbacena, Minas Gerais.
Paraná pagou R$ 12,6 milhões a Ana Castela
Um novo painel divulgado pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná ajuda a dimensionar quanto do mercado de grandes shows é sustentado pelo orçamento público.
De 2021 até o primeiro semestre de 2026, os municípios paranaenses registraram aproximadamente R$ 1,2 bilhão em despesas com shows e eventos artísticos. O levantamento reúne 10,9 mil empenhos de pelo menos R$ 20 mil classificados nas rubricas de festividades, homenagens e contratação artística e cultural. Foram identificadas 1.158 atrações no período.
Ana Castela ocupa a terceira posição entre os artistas identificados com os maiores valores recebidos no Paraná, com R$ 12,6 milhões. Segundo levantamento do Metrópoles sobre o painel do TCE, foram 31 apresentações, o que representa média próxima de R$ 407 mil por contratação no período analisado.
À frente dela aparecem Fernando & Sorocaba, com R$ 18,1 milhões, e Guilherme & Benuto, com aproximadamente R$ 13 milhões. Na sequência estão Maiara & Maraisa, com R$ 11,2 milhões; Luan Pereira, R$ 11,1 milhões; Leonardo, R$ 10,6 milhões; e Clayton & Romário, com R$ 10,4 milhões.
A análise feita pelo Metrópoles encontrou ainda uma característica no topo da lista: os 60 artistas com maiores valores identificados no painel são ligados ao sertanejo. A classificação por gênero musical é da reportagem, e não do TCE-PR.
O volume de gastos das prefeituras cresceu nos últimos anos. Foram R$ 25,1 milhões em 2021, ainda durante a pandemia, R$ 146,4 milhões em 2022, R$ 212,4 milhões em 2023, R$ 292,2 milhões em 2024 e R$ 403,5 milhões em 2025. Nos primeiros seis meses de 2026, os registros já somavam R$ 144,7 milhões.
O próprio Tribunal faz uma ressalva sobre os números. Aproximadamente metade do dinheiro registrado não permitiu identificar claramente qual artista recebeu o recurso. O Metrópoles calcula em cerca de R$ 595 milhões o conjunto de empenhos sem discriminação das atrações. Por isso, o ranking mostra os maiores valores entre os artistas que puderam ser identificados nos registros, e não necessariamente todos os maiores beneficiários do R$ 1,2 bilhão.
O TCE também identificou casos que serão analisados separadamente por possíveis problemas na origem dos recursos. Há registros com indícios de utilização de verbas contabilmente vinculadas à saúde, educação básica, Fundo do Idoso, Corpo de Bombeiros e iluminação pública. O Tribunal informou que deverá instaurar procedimentos quando houver confirmação de uso irregular. Isso não significa que o conjunto das despesas com shows seja irregular.
Ana Castela também foi contratada pelo Governo do Acre
No Acre, Ana Castela esteve entre as atrações nacionais da Expoacre 2026, realizada neste mês em Rio Branco. A apresentação ocorreu no dia 6 de agosto e foi custeada pelo Governo do Estado.
A Casa Civil contratou Ana Castela e Leonardo em um mesmo instrumento, o Contrato CC nº 45/2026, no valor total de R$ 2,55 milhões. O contrato foi firmado com a Apolo Assessoria e contempla as duas apresentações, bandas, equipes técnicas e produção artística. Os registros públicos, porém, não individualizam quanto dos R$ 2,55 milhões corresponde a Leonardo e quanto foi destinado a Ana Castela.
Até o fim da execução da programação, os cinco contratos das atrações nacionais bancadas diretamente pelo Estado na Expoacre de Rio Branco chegaram a R$ 6,45 milhões, valor que passou a constar como liquidado e pago nos registros financeiros consultados pelo Integração Net.
Além dos R$ 2,55 milhões destinados conjuntamente a Leonardo e Ana Castela, o governo contratou Wesley Safadão por R$ 1,8 milhão, Natanzinho Lima por R$ 1,3 milhão, Padre Fábio de Melo por R$ 500 mil e a Banda Som e Louvor por R$ 300 mil.
Os R$ 6,45 milhões correspondem apenas às principais apresentações musicais pagas pela Casa Civil. O valor não inclui palco, iluminação, sonorização, segurança, reforma do Parque de Exposições, alimentação, transporte e outras despesas da Expoacre.
Juruá teve mais R$ 6,25 milhões previstos para cachês
Pouco mais de um mês antes, o Governo do Acre também havia financiado a programação nacional da Expoacre Juruá, em Cruzeiro do Sul.
O Plano de Trabalho do Termo de Colaboração firmado entre a Casa Civil e a Associação Transformar reservou R$ 6,25 milhões para seis atrações nacionais. Leonardo apareceu com R$ 2,1 milhões; Natanzinho Lima, com R$ 1,7 milhão; Ícaro & Gilmar, R$ 750 mil; Tierry, R$ 650 mil; Padre Fábio de Melo, R$ 650 mil; e Banda Morada, R$ 400 mil.
Neste caso, os valores são os cachês previstos no Plano de Trabalho. O governo transferiu R$ 15.848.310 à Associação Transformar para a realização da feira, dentro de uma parceria com valor global de R$ 16.648.310. Como o repasse ocorreu de forma global para a entidade, a comprovação do valor efetivamente pago a cada artista depende da prestação de contas da parceria.
Além dos cachês, o plano reservou outros R$ 2.448.520 para produção e logística das atrações nacionais, incluindo passagens, fretamento de aeronaves, hospedagem, alimentação, transporte, camarins e direitos autorais.
Somados, os cachês contratados em Rio Branco e os valores previstos para as atrações nacionais no Juruá chegaram a R$ 12,7 milhões em 2026. Desse total, R$ 6,45 milhões correspondem aos contratos da Expoacre de Rio Branco que aparecem como pagos e R$ 6,25 milhões ao orçamento destinado aos seis shows nacionais da Expoacre Juruá.
Os dados do Paraná e as contratações realizadas no Acre mostram que os grandes shows sertanejos ocupam uma parcela relevante do mercado de eventos financiados pelo poder público. No caso de Ana Castela, os registros disponíveis permitem acompanhar essa presença em diferentes escalas: R$ 12,6 milhões identificados pelo TCE somente em municípios paranaenses desde 2021, R$ 22,68 milhões em contratos municipais encontrados no PNCP em 2026 e uma nova apresentação de R$ 850 mil prevista para esta semana em São Fidélis. No Acre, a cantora integrou um contrato conjunto de R$ 2,55 milhões pago pelo Governo do Estado para a Expoacre.