O senador e candidato ao governo do Acre, Alan Rick (Republicanos), usou seu programa eleitoral desta quarta-feira, 9 de setembro, para cobrar explicações sobre a suspensão do monitoramento eletrônico de presos e relacionar a interrupção do serviço ao feminicídio de Maria Ramona Araújo da Silva, de 18 anos, em Rio Branco. O principal suspeito do assassinato cumpria pena no regime semiaberto e usava tornozeleira eletrônica. A manifestação levou ao debate eleitoral a crise no sistema, que ficou fora do ar por falta de pagamento no início do mês.
A cobrança de Alan Rick ocorre em meio aos questionamentos sobre a responsabilidade do Estado pela continuidade do serviço. O monitoramento eletrônico é utilizado para acompanhar pessoas submetidas a medidas judiciais e também integra a proteção de mulheres em situação de violência doméstica. A suspensão atingiu tanto o rastreamento de presos quanto equipamentos vinculados a medidas protetivas, como a Unidade Portátil de Rastreamento (UPR) e o botão do pânico.
O Integração Net já havia mostrado, em reportagem publicada no dia 6 de setembro, que o assassinato de Maria Ramona ocorreu em meio à crise do monitoramento eletrônico e que o Estado acumulava quase R$ 3,9 milhões em serviços liquidados, mas sem pagamento registrado. A apuração também tratou da situação do principal suspeito, que usava tornozeleira enquanto cumpria pena no semiaberto e passou a ser procurado pela polícia depois do crime.
O serviço ficou suspenso a partir do meio-dia de 1º de setembro, permaneceu fora de operação durante o dia 2 e foi restabelecido na manhã de 3 de setembro. A interrupção ocorreu após a empresa Spacecomm Monitoramento S/A notificar o Instituto de Administração Penitenciária do Acre (Iapen) sobre uma pendência financeira referente a abril. A dívida que motivou a paralisação foi estimada em aproximadamente R$ 900 mil.
A situação financeira do contrato, porém, alcançava valores maiores. Cinco empenhos emitidos pelo Iapen entre maio e agosto somavam R$ 5.060.627,34. Desse total, R$ 3.897.579,33 haviam sido liquidados, enquanto os campos de pagamento permaneciam zerados nos registros consultados. A liquidação é a etapa em que a administração pública reconhece que o serviço foi prestado e que existe uma obrigação a pagar. Os valores, portanto, não correspondiam apenas a despesas previstas para o futuro.
Entre os registros analisados, o maior empenho foi emitido em 13 de maio, no valor de R$ 2.767.631,51, para o monitoramento de reeducandos por tornozeleiras entre abril e junho. Todo o montante havia sido liquidado, sem pagamento registrado. Outro empenho, de R$ 49.965,17, destinava-se ao acompanhamento de pessoas protegidas por medidas cautelares da Lei Maria da Penha, com UPR e botão do pânico. Desse valor, R$ 49.964,27 haviam sido liquidados, também sem pagamento registrado.
A paralisação foi registrada em comunicações internas do Iapen. O Memorando nº 232/2026/IAPEN-DME, da Divisão de Monitoramento Eletrônico, tratou da ausência de cobertura dos monitorados e das vítimas que utilizam UPR durante a suspensão. O Memorando nº 447/2026/IAPEN-DIPLAG, da Diretoria de Planejamento, abordou a gravidade da interrupção para mulheres protegidas pelo sistema.
A morte de Maria Ramona ampliou os questionamentos sobre as consequências da falha. O homem apontado como principal suspeito teria rompido a tornozeleira e fugido depois do assassinato. Ainda não foi esclarecido se a interrupção atingiu especificamente o acompanhamento dele, quando ocorreu a última transmissão de localização ou se a central recebeu algum alerta relacionado ao rompimento.