Por Daniel Sant’Ana*
A política tem uma forma simples de separar prestígio de mandato. Jorge Viana, mesmo sem cargo eletivo, chegou à presidência da ApexBrasil e passou a ocupar um espaço de articulação nacional que devolveu o Acre à mesa de conversas sobre exportações, investimentos e presença institucional em Brasília. Márcio Bittar, com oito anos de Senado e tendo ocupado a poderosa relatoria-geral do Orçamento da União de 2021, não conseguiu transformar essa posição em reconhecimento político proporcional dentro do próprio Estado.
A diferença não está apenas no cargo ocupado. Está no que cada um faz quando chega perto do centro das decisões. Jorge Viana, à frente da Apex, abriu diálogo com o governo acreano sobre exportações e desenvolvimento econômico logo no início de 2023, em uma agenda no Palácio Rio Branco voltada ao fortalecimento dos produtos do Acre no mercado externo. Esse tipo de articulação não rende apenas fotografia. Rende caminhos, relações institucionais, presença política e capacidade de fazer o Acre ser ouvido fora de suas fronteiras.
Márcio Bittar teve uma oportunidade ainda mais rara. Como relator do Orçamento, esteve no centro da disputa por bilhões de reais em Brasília. Era o momento em que poderia ter construído uma marca pública sólida, com projetos estruturantes, planejamento de longo prazo e obras capazes de melhorar a vida das pessoas de forma clara. O que ficou, no entanto, foi uma atuação cercada por controvérsias, disputas com a equipe econômica de Paulo Guedes e explicações sobre a distribuição de emendas em um orçamento que virou símbolo de tensão entre governo, Congresso e opinião pública.
Quando o senador presta contas de sua atuação, ele costuma recorrer aos números. Em 2023, na Câmara Municipal de Rio Branco, afirmou ter conseguido alocar R$ 720 milhões para o Acre por meio da relatoria do chamado orçamento secreto. O problema é que volume de dinheiro alocado não significa o mesmo volume de dinheiro liberado e, muito menos, executado. Ademais, isso não basta para construir prestígio. Recurso público precisa virar benefício público mensurável, precisa responder a prioridades reais e precisa sobreviver ao escrutínio da população. Caso contrário, a emenda vira apenas falatório e propaganda, sem virar legado.
O caso do viaduto Mamedio Bittar resume bem essa contradição. A obra, supostamente bancada por emenda do senador (há quem diga que o recurso não foi liberado, obrigando a Prefeitura a executar a obra com recursos próprios) e orçada em pouco mais de R$ 25 milhões pela Prefeitura de Rio Branco, recebeu o nome do pai de Márcio Bittar. A homenagem pode ter valor afetivo para a família, mas, politicamente, abriu uma pergunta legítima: quando um parlamentar direciona recursos para uma obra pública que pretende eternizar o nome do próprio pai, a fronteira entre interesse coletivo e capital político pessoal fica estreita demais.
Há ainda o episódio envolvendo recursos destinados às Santas Casas no Acre. Em julho de 2025, o Ministério Público Federal informou que a Justiça Federal impediu o repasse de recursos públicos às entidades após uma ação que apontou desvio de finalidade, fraude contra credores e promoção pessoal com verba pública ligada a emenda parlamentar. Em um ambiente político sério, esse tipo de caso não pode ser tratado como detalhe lateral. É matéria de interesse público e pesa sobre qualquer discurso de eficiência administrativa.
Por isso, quando Márcio Bittar reage com irritação aos movimentos de Jorge Viana, o problema parece ir além da disputa eleitoral. A irritação nasce do contraste. Um, sem mandato, abre portas nacionais e internacionais e ocupa espaços estratégicos. O outro, mesmo com mandato, mesmo tendo passado pela relatoria do Orçamento, ainda precisa explicar por que tanto poder formal não se converteu em reconhecimento amplo e benefícios concretos para o povo do Acre.
A política pune a irrelevância antes mesmo das urnas. Ela aparece nas pesquisas, nas ruas, nas conversas de bastidor e na dificuldade de transformar barulho em autoridade. Márcio Bittar recebeu do povo acreano mandatos sucessivos e oportunidades raras. Ainda assim, parece carregar a frustração de quem sabe que teve poder, teve dinheiro, teve acesso e não conseguiu construir uma entrega à altura da confiança recebida.
No fim, a diferença entre Jorge Viana e Márcio Bittar não está apenas no currículo. Está na capacidade de fazer o Acre aparecer com respeito onde as decisões são tomadas. Mandato se ganha nas urnas, relevância se prova no exercício do poder e prestígio não se improvisa. E é exatamente nessa diferença que Márcio se incomoda, reage, ataca e tenta transformar incômodo pessoal em debate público. Freud talvez explique. A política já explicou.

*Doutor (UnB) em Direito e Mestre (UFSC) em Relações Internacionais. Professor do Curso de Direito da UFAC com atuação em Direito Administrativo, Direito Internacional e Sociologia do Direito. Ex-diretor-presidente da Fundação de Cultura Elias Mansour, ex-secretário Estadual de Educação e ex-deputado estadual pelo PT do Acre.