Denúncia aponta suspensão de cirurgias no Hospital do Juruá em meio a repasses pendentes
Áudios enviados ao Grupo Integração relatam falta de pagamento, paralisação de procedimentos e demora no fornecimento de oxigênio a um paciente que morreu; Portal da Transparência registra R$ 9 milhões empenhados e ainda não pagos à gestora da unidade
Denúncias recebidas pela redação do Grupo Integração apontam que procedimentos cirúrgicos teriam sido suspensos no Hospital Regional do Juruá, em Cruzeiro do Sul, por falta de pagamento. Outro relato denuncia que um paciente renal e com problemas respiratórios teria esperado cerca de três meses por um equipamento de oxigênio e morrido antes de recebê-lo.
As acusações chegam em meio a uma defasagem registrada nos repasses do Governo do Acre à Associação Nossa Senhora da Saúde (ANSSAU), entidade ligada à gestão e à prestação de serviços no hospital. Levantamento feito a partir do Portal da Transparência mostra pagamentos de competências anteriores realizados meses depois e mais de R$ 9 milhões em despesas empenhadas que ainda não apareciam como pagas na atualização analisada.
Os registros financeiros não comprovam, isoladamente, que cirurgias foram interrompidas nem que as pendências provocaram falta de atendimento. Eles mostram, porém, que valores referentes a serviços de abril, maio, junho e julho continuavam sendo movimentados entre agosto e setembro, período próximo ao das denúncias encaminhadas à redação.
“As cirurgias estão suspensas”, afirma denunciante
Em um dos áudios recebidos pelo Grupo Integração, um homem afirma que todos os procedimentos cirúrgicos estariam suspensos por falta de pagamento. “Aqui no Juruá, todos os procedimentos cirúrgicos, as cirurgias, estão suspensas por falta de pagamento”, diz o denunciante.
Ele afirma ter recebido as informações de pessoas próximas que trabalham na unidade. Segundo o relato, os trabalhadores teriam medo de sofrer retaliações caso se identificassem ou apresentassem provas.
Até esta versão da reportagem, a redação não havia obtido escalas, comunicados internos, relação de pacientes ou documentos hospitalares que comprovassem a suspensão generalizada das cirurgias. O espaço fica aberto ao governo para informar quantos procedimentos foram realizados, cancelados ou adiados nos últimos meses e quais foram as razões de eventuais interrupções.
Suspeita sobre mudança na gestão
O interlocutor afirma que os atrasos poderiam estar ligados a uma intenção de retirar das religiosas a gestão do Hospital do Juruá. “Segundo roda nos comentários, o objetivo desse atraso também, além da irresponsabilidade, do descaso, é que se pensa em pegar de volta, tirar das irmãs a gestão do Hospital do Juruá”, declara.
O denunciante sustenta que a atual administração atuaria de forma transparente e responsável.
Portal registra R$ 9 milhões ainda sem pagamento
Os dados do Portal da Transparência acrescentam um elemento objetivo à apuração. Na atualização analisada, o Fundo Estadual de Saúde havia empenhado R$ 69.237.842,06 para a ANSSAU em despesas associadas ao Hospital Regional do Juruá. Desse total, R$ 64.468.769,10 estavam liquidados e R$ 60.229.326,39 apareciam como pagos.
Isso significa que R$ 9.008.515,67 já estavam empenhados, mas ainda não constavam como pagos. O Governo do Acre havia pago aproximadamente 87% de tudo o que estava empenhado para a ANSSAU no recorte analisado.
Competência de abril foi paga em agosto
O histórico da execução financeira revela que uma parcela de R$ 3.827.764,01, referente ao repasse global da competência de abril de 2026, recebeu empenho em 11 de agosto.
Outra parcela, de aproximadamente R$ 3,934 milhões, referente à competência de maio, também aparecia liquidada e ainda não paga. Havia ainda cerca de R$ 305,2 mil relacionados ao piso da enfermagem na mesma situação.
Em setembro, o Portal registrou pagamentos de R$ 264.070,80 por serviços de ressonância referentes à competência de junho e de R$ 269.100,72 relativos à competência de julho.
No dia 3 de setembro, foram emitidos mais dois empenhos ligados a serviços de julho: R$ 4.155.591,86 para uma parcela do repasse global mensal e R$ 613.481,10 para hemodinâmica. Na base examinada, os dois valores ainda apareciam sem pagamento.
Os registros comprovam uma distância de meses entre algumas competências e as respectivas movimentações orçamentárias. Para determinar se essa defasagem constitui descumprimento ou atraso contratual, é necessário conhecer os prazos de faturamento, análise, liquidação e pagamento previstos no contrato ou instrumento de parceria entre o Estado e a ANSSAU.
O levantamento também mostra que uma parcela relevante dos desembolsos realizados neste ano se destinou a obrigações do exercício anterior. Dos R$ 55,87 milhões identificados como pagos na primeira etapa da análise, cerca de R$ 13,06 milhões correspondiam às competências de novembro e dezembro de 2025.
Paciente teria esperado três meses por oxigênio
Uma terceira denúncia recebida pela redação relata a morte de um paciente que fazia hemodiálise e enfrentava problemas respiratórios. Segundo o denunciante, o paciente aguardava havia cerca de três meses o fornecimento de um equipamento de oxigênio. Ele afirma ter visitado o colega duas vezes e reproduz um pedido de ajuda atribuído ao paciente: “Eu vou morrer porque eu não posso respirar”.
O autor da denúncia afirma ter encaminhado o caso a um coronel quatro dias antes da morte e diz que existiria documentação sobre o pedido. Em tom de revolta, atribui ao Estado a responsabilidade pela falta do equipamento. “Nosso irmão morreu porque não tinha um oxigênio que o Estado não pôde doar pro cara”, declara.
Em outro áudio, ele volta a criticar o governo e afirma que o fornecimento do oxigênio poderia ter prolongado a vida do paciente.