Jorge Viana lamenta morte de Gilberto Siqueira e relembra parceria no Acre

O ex-governador do Acre Jorge Viana lamentou a morte de Gilberto Siqueira, a quem definiu como um dos principais companheiros de sua trajetória profissional e pública. Em manifestação divulgada nesta terça-feira (11), Viana afirmou ter recebido a notícia durante as atividades de sua candidatura ao Senado e relembrou projetos desenvolvidos ao lado do amigo em Rio Branco e no estado.

Viana disse que Gilberto, conhecido como Gil, teve participação importante em diferentes momentos de sua vida pública. Entre os trabalhos citados está a atuação ligada à Fundação de Tecnologia do Estado do Acre (Funtac), além de iniciativas realizadas durante as gestões de Viana.

“O Gil foi uma das pessoas mais importantes que tive na minha vida profissional e pública. Sem ele, eu não teria conseguido realizar, junto com uma boa equipe, tantas coisas que fizemos por Rio Branco e pelo Acre”, declarou.

Gilberto enfrentava problemas de saúde relacionados à diabetes. Jorge Viana contou que esteve com o amigo no hospital há menos de uma semana e acompanhou seu estado de saúde ao lado de Dingo, irmão de Gilberto.

“Fui me despedir, orar por ele e viver aquele momento ao seu lado. Hoje, recebo a notícia da sua partida”, afirmou.

Ao recordar a convivência dos dois, Viana também falou sobre a preocupação de Gilberto com a situação do Acre nos últimos anos. Segundo o ex-governador, o amigo mantinha a esperança de ver o estado voltar a prosperar.

Na despedida, Jorge Viana agradeceu pela amizade, pelo apoio recebido ao longo da vida e pela contribuição de Gilberto ao Acre. “Só tenho uma palavra para dizer a ele: obrigado. Obrigado, Gil, pelo amor que você tinha pelo Acre, por ter me dado todo o apoio ao longo da vida, em tudo o que fiz, e, principalmente, por ter sido meu amigo e meu irmão, um irmão que Deus me deu.”

Viana encerrou a manifestação desejando que o amigo descansasse em paz e voltou a reconhecer a importância de Gilberto em sua trajetória. “Você foi uma das pessoas mais importantes da minha vida profissional e pública. Por isso, faço questão de repetir esse reconhecimento e de agradecer: obrigado por tudo, meu irmão.”

Patrimônio de Ninawa Huni Kui expõe preconceito contra indígenas nas redes

Ninawa Huni Kui declarou R$ 1,59 milhão em patrimônio à Justiça Eleitoral ao entrar na disputa por uma vaga de deputado federal no Acre. O dado é público, relevante e deve ser tratado como o patrimônio de qualquer candidato: pode ser informado, comparado e investigado. O que veio depois, porém, mostrou que para parte do público a questão não era apenas quanto ele possui. Era quem possui.

“Índio rico em”, escreveu um leitor. Outro insinuou que ONGs dentro de aldeias seriam “excelentes fontes de trabalhos”. Houve ainda quem questionasse como alguém com quase R$ 2 milhões poderia defender os povos originários.

A declaração patrimonial inclui terra, casa e veículos. Não há, por si só, nada de extraordinário nisso. O estranhamento nasce quando a palavra “cacique” entra na mesma frase que R$ 1,59 milhão e aciona uma velha expectativa: a de que um indígena autêntico deveria necessariamente ser pobre.

É aí que a discussão deixa de ser apenas eleitoral.

Ninawa pode ser cobrado por suas posições políticas, por sua atuação pública e pela origem de seu patrimônio, caso exista algum fato concreto que justifique apuração. O que não pode funcionar como indício de irregularidade é sua identidade indígena.

Um empresário rico pode defender empresários. Um pecuarista pode possuir milhões em terras e representar produtores rurais. Um parlamentar milionário pode dizer que representa trabalhadores pobres. Mas, diante de um cacique com casa, terra e caminhonete, ainda aparece a pergunta carregada de suspeita: como um indígena conseguiu isso?

Essa pergunta carrega séculos de uma imagem construída de fora para dentro. O indígena é aceito no imaginário nacional como vítima, pobre, isolado ou dependente. Quando ocupa espaços de poder, estuda, administra, empreende, disputa eleições ou acumula patrimônio, parte desse mesmo olhar passa da compaixão à desconfiança.

Também houve reação contrária. Entre os comentários apareceram manifestações de respeito e a frase simples: “indígenas no topo”. O contraste importa porque mostra que a disputa não está apenas em torno de Ninawa, mas da própria ideia de qual lugar um indígena pode ocupar na sociedade brasileira.

Patrimônio de candidato é assunto público. Deve ser fiscalizado. Se houver incompatibilidade, investigue-se. Se houver irregularidade, publique-se.

Mas cocar não é comprovante de pobreza.

Ser indígena não exige certificado de miséria.

Talvez a pergunta mais reveladora dessa história não seja como Ninawa Huni Kui chegou a R$ 1,59 milhão em bens. É por que a possibilidade de um indígena possuir patrimônio ainda incomoda tanta gente.

Grupo Integração manifesta solidariedade ao Alerta Cidade após atentado

Nota assinada pelo jornalista Chico Melo repudia violência contra a imprensa e cobra investigação rigorosa para identificar os responsáveis

O Grupo Integração manifestou solidariedade ao jornalista Iám Arábar e aos profissionais do Alerta Cidade após o atentado registrado contra o veículo de comunicação em Rio Branco. A nota, assinada pelo jornalista Chico Melo, classifica o episódio como uma ameaça à liberdade de imprensa e defende uma investigação rápida e transparente.

Segundo as informações divulgadas pelo próprio Alerta Cidade, o ataque passou a ser tratado como uma possível tentativa de intimidação contra o trabalho desenvolvido pelo veículo. Iám Arábar também se pronunciunciou publicamente sobre o caso e afirmou que a equipe continuará exercendo sua atividade jornalística.

Na manifestação, o Grupo Integração destacou que atos de violência contra jornalistas não atingem apenas os profissionais diretamente envolvidos, mas também prejudicam o direito da população de receber informações.

“Toda forma de violência, intimidação ou tentativa de silenciar o trabalho da imprensa representa uma ameaça não apenas aos jornalistas, mas ao direito da sociedade de ser informada”, afirma a nota.

O documento também ressalta que divergências relacionadas ao conteúdo publicado por veículos de comunicação devem ser tratadas pelos meios legais, sem ameaças ou agressões.

“Em uma democracia, divergências devem ser enfrentadas com diálogo e dentro dos limites da lei, jamais por meio da violência”, acrescenta o Grupo Integração.

Iám afirma que trabalho continuará

Após o episódio, Iám Arábar divulgou uma manifestação nas redes sociais e falou sobre a situação enfrentada pela equipe. O jornalista defendeu a continuidade do trabalho do Alerta Cidade e pediu que as autoridades esclareçam as circunstâncias do atentado.

O caso ocorre em um período marcado por denúncias de violência e constrangimentos contra profissionais da comunicação no Acre. Em julho, o jornalista Chico Melo, da Rádio Integração, foi agredido dentro de sua residência, em Cruzeiro do Sul, por quatro homens armados.

Pela proximidade entre os episódios, representantes da imprensa e autoridades políticas passaram a cobrar medidas de proteção aos jornalistas. Até o momento, contudo, não existe confirmação de ligação entre o atentado envolvendo o Alerta Cidade e a agressão sofrida por Chico Melo. Os casos devem ser investigados separadamente pelas autoridades.

Na nota, Chico Melo e o Grupo Integração solicitaram que os responsáveis pelo ataque ao Alerta Cidade sejam identificados e responsabilizados.

“Também reiteramos a importância de uma investigação rápida, rigorosa e transparente para que os responsáveis sejam identificados e responsabilizados, garantindo que fatos como esse não se repitam”, diz outro trecho.

O Grupo Integração encerrou a manifestação reafirmando o compromisso com a democracia, a liberdade de imprensa e o livre exercício do jornalismo.

“Neste momento, nos unimos em solidariedade aos colegas do Alerta Cidade, reafirmando nosso compromisso com a liberdade de imprensa, a democracia e o livre exercício do jornalismo”, conclui a nota assinada por Chico Melo.

Confira a nota completa:
Nota de Solidariedade

O Grupo Integração manifesta sua solidariedade ao jornalista Iám Arábar, à equipe do Alerta Cidade e a todos os profissionais do veículo diante do atentado registrado contra a sede da empresa de comunicação.

Toda forma de violência, intimidação ou tentativa de silenciar o trabalho da imprensa representa uma ameaça não apenas aos jornalistas, mas ao direito da sociedade de ser informada. Em uma democracia, divergências devem ser enfrentadas com diálogo e dentro dos limites da lei, jamais por meio da violência.

Também reiteramos a importância de uma investigação rápida, rigorosa e transparente para que os responsáveis sejam identificados e responsabilizados, garantindo que fatos como esse não se repitam.

Neste momento, nos unimos em solidariedade aos colegas do Alerta Cidade, reafirmando nosso compromisso com a liberdade de imprensa, a democracia e o livre exercício do jornalismo.

Chico Melo
Em nome do Grupo Integração

Comitê para a Proteção dos Jornalistas divulga caso de agressão contra Chico Melo

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas, organização internacional de defesa da liberdade de imprensa, divulgou o caso de agressão e ameaça contra o jornalista Chico Melo, diretor do grupo independente Integração, em Cruzeiro do Sul, no interior do Acre. A entidade cobrou das autoridades brasileiras uma investigação rápida e completa sobre o ataque, ocorrido na madrugada de 22 de julho, e pediu a responsabilização dos envolvidos.

A manifestação do Comitê para a Proteção dos Jornalistas deu projeção internacional ao episódio. Chico Melo foi atacado dentro da própria casa por quatro homens armados, que invadiram o quarto onde ele estava, fizeram perguntas sobre sua atuação no rádio e o ameaçaram. O jornalista foi espancado com socos e chutes, sofreu ferimento na cabeça e teve o celular exigido pelos agressores, além de uma transferência bancária de US$ 400.

A coordenadora do programa da América Latina do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, Cristina Zahar, classificou a violência contra Melo como um ataque grave à liberdade de imprensa e ao jornalismo local no Brasil. “A violência sofrida por Chico Melo em sua própria casa é um grave ataque contra a liberdade de imprensa e o jornalismo local no Brasil”, afirmou.

Em vídeo publicado após a agressão, Chico Melo relatou que ficou cerca de meia hora sob violência e ameaça. “Eles me torturaram por meia hora, e eu realmente pensei que fosse morrer”, disse o jornalista.

O caso foi levado ao conhecimento público internacional após Melo relatar suspeita de motivação política. Ele vinha publicando reportagens sobre suposto desvio de recursos públicos destinados a uma feira agropecuária na região do Juruá. O jornalista e o radialista Rogério Wenceslau também disseram ter recebido ameaça de prisão de uma autoridade de alto escalão do governo estadual depois da divulgação das denúncias.

A Federação Nacional dos Jornalistas e o sindicato local repudiaram o ataque. A investigação policial apura as circunstâncias da agressão. O policial Heverton Carvalho, responsável pelo caso, informou ao Comitê para a Proteção dos Jornalistas que todas as linhas de investigação estão sendo analisadas, inclusive a possível ligação com o trabalho jornalístico de Melo, mas que ainda não há elementos suficientes para confirmar essa relação.

CRISE: Sesacre suspende análise de novos serviços para conter pressão na folha

Memorando interno interrompe por 90 dias pedidos de ampliação de atendimento, extensão de carga horária e mudanças nas escalas; secretaria admite comprometimento dos gastos com plantões extras

A Secretaria de Estado de Saúde do Acre suspendeu temporariamente a análise de pedidos para abertura e ampliação de serviços, extensão de carga horária, dedicação exclusiva e mudanças nas escalas das unidades estaduais que provoquem aumento de despesas com pessoal.

A medida consta no Memorando-Circular nº 8/2026, documento interno obtido pelo Grupo Integração e encaminhado aos gerentes das unidades de saúde. O texto foi assinado em 17 de julho pelo secretário de Saúde, José Bestene, pelos secretários adjuntos Suellen Carlos da Silva Morais e Patrício da Silva de Albuquerque e pela diretora Francinete Moreira Barros.

O documento estabelece uma suspensão inicial de 90 dias e reconhece que a folha de pagamento da Sesacre enfrenta pressão, principalmente na rubrica destinada aos plantões extras dos profissionais de saúde.

A própria secretaria afirma que existe um cenário de “comprometimento da folha de pagamento” e que os gastos com plantões extras precisam passar por uma reavaliação “criteriosa e urgente”.

Durante o período de suspensão, não deverão avançar novos pedidos de extensão de jornada, dedicação exclusiva, criação ou alteração de escalas e abertura de serviços que representem aumento de custo para a secretaria.

Na prática, a decisão congela temporariamente a expansão da estrutura assistencial da rede estadual, embora não determine o fechamento dos serviços que já estão funcionando.

Contratados serão usados para preencher escalas existentes

O memorando também esclarece o objetivo das contratações recentes realizadas pela Sesacre. Segundo o documento, os novos profissionais foram admitidos para cobrir déficits nas unidades e manter os serviços existentes, e não para criar ou ampliar atendimentos.

“Não se destinando à expansão, criação ou ampliação de novos serviços ou padrões assistenciais”, afirma o texto ao tratar das contratações.

A orientação é que os recém-contratados sejam distribuídos prioritariamente nas escalas que atualmente dependem de plantões extras. A expectativa declarada pela secretaria é reduzir gradativamente esse tipo de pagamento e reorganizar a força de trabalho.

O documento indica, portanto, que as contratações não deverão resultar imediatamente na abertura de novos leitos, setores ou serviços. Os profissionais serão usados primeiro para preencher lacunas na estrutura que já existe.

A Sesacre argumenta que autorizar novas escalas ou ampliar jornadas neste momento poderia comprometer o objetivo de reequilibrar a folha de pagamento.

Governo está acima do limite prudencial

A decisão ocorre em um momento em que o Poder Executivo do Acre já ultrapassou o limite prudencial de despesas com pessoal estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

O Relatório de Gestão Fiscal do primeiro quadrimestre de 2026 mostra que o Executivo registrou R$ 5,483 bilhões em despesas com pessoal no período de maio de 2025 a abril de 2026. O valor corresponde a 48,09% da Receita Corrente Líquida ajustada.

O limite prudencial é de 46,55%, enquanto o limite máximo permitido ao Executivo estadual é de 49%. Os números foram emitidos pela Secretaria de Estado da Fazenda em 29 de maio.

Isso significa que o governo ficou aproximadamente R$ 175,1 milhões acima do limite prudencial e a cerca de R$ 104,3 milhões de alcançar o teto máximo.

A Lei de Responsabilidade Fiscal prevê restrições para contratação de pessoal, criação de cargos, mudanças em carreiras e pagamento de horas extras quando a despesa ultrapassa 95% do limite máximo.

O próprio memorando da Sesacre cita a legislação fiscal para justificar a suspensão e afirma que a medida busca evitar desequilíbrio financeiro, responsabilização dos gestores e comprometimento da continuidade dos serviços de saúde.

Exceções dependerão de José Bestene

Situações consideradas urgentes e indispensáveis poderão ser autorizadas de forma excepcional. Para isso, a unidade deverá apresentar uma justificativa técnica formal e demonstrar que a medida é necessária para garantir a continuidade da assistência.

A decisão final ficará exclusivamente sob responsabilidade do secretário José Bestene, que deverá avaliar a disponibilidade financeira e orçamentária da Sesacre.

O documento não informa quantos pedidos de ampliação de serviços estavam em análise, quais unidades serão diretamente atingidas ou quanto a secretaria pretende economizar durante o período de suspensão.

Também não apresenta o valor mensal gasto atualmente com plantões extras, nem o número de profissionais recentemente contratados que serão destinados à substituição dessas escalas.

Prazo pode ultrapassar 90 dias

Embora o memorando estabeleça uma suspensão de 90 dias, outro trecho afirma que a medida permanecerá vigente até a conclusão de um diagnóstico técnico, operacional e financeiro.

O estudo deverá avaliar o número de trabalhadores necessários em cada unidade, os modelos de escala, os serviços em funcionamento e a capacidade financeira da secretaria.

O texto não apresenta prazo para a conclusão desse diagnóstico. Com isso, a interrupção das análises poderá ultrapassar os 90 dias inicialmente anunciados, caso o levantamento não seja finalizado dentro desse período.

Acre chega a 2026 entre serviços em crise, dependência do FPE e silêncio político, diz Leonildo Rosas

A disputa eleitoral de 2026 começou no Acre, mas, para o jornalista Leonildo Rosas, o principal debate ainda não entrou na campanha. Durante participação no programa Central de Política, da TV Gazeta, ele descreveu um estado que, na sua avaliação, perdeu a capacidade de reagir diante do avanço dos problemas estruturais. Em vez de discutir projetos para saúde, educação, economia e desenvolvimento, o Acre estaria mergulhado em um ambiente de acomodação política e social. “A sociedade acreana, a que a gente vive, a que a gente está presente, ela está caminhando de uma forma sonâmbula rumo ao abismo. Não há qualquer manifestação, qualquer reivindicação, qualquer protesto quanto aos desmandos que a gente vê ao longo dos últimos anos no nosso estado”, afirmou. Em seguida, elevou o tom do diagnóstico: “O pior dessa rumo ao abismo é que pode também ir para o fundo do poço, o subsolo do fundo do poço que a gente caminha.”

A imagem do “Acre sonâmbulo” tornou-se o eixo da análise apresentada por Rosas. Para ele, o silêncio da sociedade não decorre apenas do desgaste natural da política, mas da ausência de enfrentamento público diante de uma sucessão de problemas administrativos que, segundo sua leitura, deixaram de provocar indignação coletiva.

Na avaliação do jornalista, esse cenário começou a ser construído após a eleição de 2018. Ele atribui parte da responsabilidade às forças políticas derrotadas naquele pleito, que, segundo disse, abandonaram o espaço do debate público e permitiram a consolidação de um ambiente sem contraponto. “O que está acontecendo é o reflexo da covardia das forças de esquerda ao longo dos últimos oito anos. É um pessoal que perdeu a eleição em 2018, a maioria vazou do estado do Acre, fugiu, não fez o enfrentamento, não fez o combate político. E dentro da política não tem espaço vazio. Deixou-se criar um discurso único: rejeição a um grupo político que fez muito pelo Acre.”

Para Rosas, a consequência dessa ausência foi uma campanha cada vez mais superficial, incapaz de discutir um projeto de Estado. Na visão dele, muitos candidatos sequer demonstram disposição para construir uma candidatura competitiva. “O candidato precisa primeiro levar essa candidatura a sério. Então, se ele não leva, como é que as pessoas vão acreditar?”

As críticas avançaram para a relação entre governo e imprensa. Ex-secretário estadual de Comunicação, Rosas afirmou que nunca houve um investimento tão elevado em publicidade institucional. Na interpretação dele, esse volume de recursos reduziu o espaço para o escrutínio público sobre a administração estadual. “Primeiro, nunca se gastou tanto para calar a imprensa no Acre como o governo de Gladson Cameli. Eu fui secretário de Comunicação, eu sei o tanto que era o orçamento da Secretaria de Comunicação para mídia. Dobrou oficialmente. A população, obviamente, ela não ficou sabendo dos desmandos que foram cometidos desde o primeiro dia do Gladson Cameli.”

Ao relacionar comunicação institucional e cobertura jornalística, Rosas sustentou que episódios de grande repercussão acabaram perdendo espaço no debate público. “Nós temos um governador ou um ex-governador que, de forma inédita, levou a Polícia Federal para dentro do palácio, para dentro da sua casa, para a casa dos pais dele, e ele é condenado a 25 anos e 9 meses de cadeia. Tem pessoas que não sabem que ele foi condenado porque a imprensa não cumpriu o papel dela. A oposição não cumpriu o papel dela. Ela não fez o combate, se acovardou. Aqueles que não se acovardaram, foram embora.”

Ao comentar a atual governadora Mailza Assis, Rosas fez uma distinção entre responsabilidades administrativas e responsabilidades políticas. Segundo ele, ela não ocupava a posição de ordenadora de despesas durante os fatos que citou, mas assumiu um governo identificado com a continuidade do grupo político. “A partir de agora, se houver desmando dentro do governo dele — porque já há indícios e muitas denúncias de continuidade de casos de corrupção —, se ela souber que está acontecendo e mantiver essas pessoas, aí sim passará a ter culpa. Mas ela assumiu um governo com o discurso da continuidade. Será que nós queremos para o Acre a continuidade da corrupção?”

Depois das críticas políticas, Rosas concentrou a análise nos serviços públicos. Para ele, o debate eleitoral ignora justamente as áreas que mais afetam a rotina da população. “A discussão é rasa da nossa política. Ninguém discute mais um projeto de Estado. Ninguém discute os rumos da nossa saúde, que todo dia a gente vê coisas absurdas. Ninguém debate a nossa educação, que voltou a ser a pior do país em apenas oito anos. Foram anos construindo um processo para a educação melhorar. Nós temos uma assistência social que é um desastre.”

Na economia, o jornalista descreveu um estado paralisado, sem novos investimentos capazes de alterar a estrutura produtiva. “A nossa produção não produz nada. A construção civil não constrói nada. Passaram-se sete anos sem construir uma casa sequer.” Para ele, o Acre abandonou políticas voltadas à diversificação econômica e voltou a depender quase exclusivamente da circulação de recursos públicos.

Foi nesse contexto que Rosas apresentou um dos dados que considera mais preocupantes para o futuro das contas estaduais. Segundo ele, o Acre voltou a depender majoritariamente do Fundo de Participação dos Estados (FPE), revertendo um processo que buscava ampliar a arrecadação própria. “A economia do contracheque voltou agora. Quando o Tião Viana deixou o governo, nós estávamos quase que FPE e receita própria equivalente: 53% a 47%. Voltamos a depender quase 80% do FPE.”

Ao defender políticas de incentivo adotadas em governos anteriores, Rosas citou cadeias produtivas que continuam movimentando parte da economia acreana. “Se critica por ter iniciativa de fazer? Eu nunca vi isso. Se critica por não fazer. Nós estamos há oito anos no marasmo, na paralisação. A única coisa que cresceu no Acre foi a corrupção, que voltou para dentro do governo.”

Mais do que uma crítica à gestão estadual, a entrevista foi construída como um alerta sobre o rumo do Estado. Na avaliação do jornalista, o Acre corre o risco de chegar às urnas discutindo nomes e alianças enquanto deixa em segundo plano a deterioração dos serviços públicos, a dependência crescente de transferências federais e a ausência de uma estratégia de desenvolvimento capaz de reduzir a vulnerabilidade econômica. O “estado sonâmbulo” descrito por Leonildo Rosas resume, para ele, uma sociedade que deixou de reagir justamente quando os problemas passaram a exigir maior mobilização.

TCE suspende pagamentos de contrato de R$ 9,5 milhões da Seict após identificar indícios de irregularidades

Tribunal aponta possível direcionamento, falhas na pesquisa de preços e pagamento de R$ 6,4 milhões por sistema que ainda não estava disponível para uso

O Tribunal de Contas do Estado do Acre suspendeu os pagamentos pendentes de um contrato de R$ 9,56 milhões firmado pela Secretaria de Estado de Indústria, Ciência e Tecnologia, do governo de Gladson/Mailza Cameli, para o fornecimento do Sistema de Compras Governamentais do Acre.

A medida cautelar foi aprovada por unanimidade pelo Pleno do TCE-AC nesta quinta-feira, 16, durante análise de uma inspeção aberta para verificar a regularidade do Pregão Eletrônico nº 570/2025 e da execução do Contrato nº 05/2026.

A decisão também suspendeu a validade da Ata de Registro de Preços nº 01/2026 até o julgamento definitivo do processo. O voto foi apresentado pela conselheira-substituta Maria de Jesus Carvalho de Souza e acompanhado pelos conselheiros Ronald Polanco, Jorge Malheiro, Naluh Gouveia e Mário Sérgio Neri.

O contrato, no valor total de R$ 9.561.524,50, previa o fornecimento de módulos integrados para o sistema estadual de compras públicas, além de suporte, manutenção e outros serviços especializados em tecnologia da informação.

Segundo o relatório técnico, a inspeção encontrou indícios de irregularidades desde a preparação da licitação até a execução do contrato.

Entre os pontos levantados estão possíveis restrições à competitividade, indícios de direcionamento, falhas na pesquisa de preços, possível simulação de concorrência entre empresas participantes e ausência de provas suficientes de que a solução tecnológica havia sido efetivamente entregue.

R$ 6,4 milhões pagos

Durante uma diligência realizada na sede da Seict, os técnicos do Tribunal constataram que mais de R$ 6,4 milhões já haviam sido pagos, o equivalente a aproximadamente 70% do valor contratado.

Apesar dos pagamentos, o sistema não estava disponível para utilização pela própria secretaria no momento da fiscalização. Para a equipe técnica, a situação indica a possibilidade de pagamento sem a correspondente entrega do objeto contratado.

A relatora considerou que a continuidade dos desembolsos poderia aumentar um eventual prejuízo aos cofres públicos e determinou a suspensão imediata dos pagamentos ainda pendentes.

A cautelar não representa uma decisão definitiva sobre a responsabilidade dos envolvidos. Os agentes públicos e representantes das empresas citados no processo terão prazo de 15 dias para apresentar defesa.

O atual secretário de Indústria, Ciência e Tecnologia também foi incluído no rol de responsáveis. O TCE decidiu ainda comunicar os fatos ao Ministério Público do Acre para conhecimento e eventual adoção de providências.

Adesões do Deracre e da Prefeitura

A Ata de Registro de Preços vinculada à contratação também foi utilizada pelo Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária do Acre e pela Secretaria Municipal de Gestão Administrativa de Rio Branco.

Com a decisão, o Deracre e a Prefeitura de Rio Branco deverão suspender atos de execução e pagamentos relacionados aos contratos originados da ata. O descumprimento poderá resultar em responsabilização solidária dos gestores.

Seict movimentou R$ 170 milhões desde 2022

A suspensão do contrato ocorre enquanto o Grupo Integração realiza um levantamento sobre os pagamentos executados pela Seict nos últimos anos.

A pesquisa identificou cerca de R$ 170,4 milhões pagos pela secretaria entre 2022 e julho de 2026. Desse total, aproximadamente R$ 76,1 milhões estavam relacionados à promoção comercial e à realização de eventos, incluindo Expoacre, Expoacre Juruá, feiras, festivais, festas públicas, shows nacionais e outras programações financiadas pelo governo estadual.

Jornal da Manhã em Coluna – 16 de julho de 2026

A coluna desta quinta-feira reúne bastidores, comentários e informações levadas ao ar no Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM 99,9, apresentado por Chico Melo, com análise política de Rogério Wenceslau e reportagens de Gledson Albano e Mazinho Rogério.

Remanso foi para a rua

O bairro Remanso começou a manhã com protesto por falta de água. Moradores interditaram a rua principal para cobrar uma resposta da Saneacre, responsável pelo sistema de abastecimento na comunidade.

A reclamação não é nova. O bairro cresceu, novas ruas foram abertas, famílias construíram casas e a estrutura de água ficou para trás. A caixa d’água que atende a região foi construída ainda na gestão do então prefeito Aluísio Bezerra e, hoje, não acompanha mais a demanda.

Água uma vez por semana

José Maria, presidente da associação de moradores do Remanso, disse ao Jornal da Manhã que há mais de 250 famílias afetadas. Em algumas casas, segundo ele, a água chega apenas uma vez por semana.

A cobrança é simples: perfurar um novo poço e ampliar a rede. Há ruas sem encanamento, famílias aguardando ligação e um projeto que já teria sido apresentado por técnicos da Saneacre. O que falta, segundo o morador, é autorização do governo do Estado.

Quando o cidadão precisa fechar rua para pedir água, o problema já passou do limite administrativo. Virou retrato de abandono.

Saneacre no centro da cobrança

A dúvida inicial era saber se a responsabilidade era da prefeitura ou do Estado. José Maria disse que a gestão do sistema foi repassada à Saneacre ainda na administração do ex-prefeito Ilderlei Cordeiro.

A partir daí, a cobrança ficou direcionada. O bairro quer que a Saneacre assuma o problema, apresente prazo e execute a solução. Sem água, não há discurso que se sustente.

Buraco aberto também virou queixa

Além da falta de água no Remanso, a bancada cobrou a Saneacre por outro problema: buracos abertos nas ruas de Cruzeiro do Sul depois de serviços de conserto de vazamentos.

A avaliação feita no programa foi direta. A empresa abre, conserta o vazamento e deixa o buraco. Depois, a culpa cai na prefeitura, que precisa correr para reduzir o dano no trânsito e na vida de quem passa pelas vias.

A população não quer saber quem empurra a responsabilidade. Quer a rua de volta e o serviço completo.

Gladson mirou o próprio aliado

Na política, o assunto que abriu o debate foi a ação da Federação União Progressista contra o prefeito de Cruzeiro do Sul, Zequinha Lima, e o senador Alan Rick.

A situação chamou atenção porque Zequinha declarou apoio a Alan Rick para o governo, mas também afirmou publicamente que apoiaria Gladson Cameli para o Senado, caso o ex-governador consiga disputar a eleição.

Mesmo assim, o nome do prefeito apareceu na representação. A acusação envolve campanha antecipada, conduta vedada e abuso de poder econômico.

A conta não fecha

A bancada tratou o caso como uma contradição política. Se Zequinha ainda declara apoio a Gladson para o Senado, por que o partido presidido por Gladson move ação contra ele?

Depois, chegou a informação de que o ex-governador não teria conhecimento da inclusão do prefeito na ação. A pergunta ficou no ar: quem move uma ação desse tamanho sem o presidente da federação saber?

A crise expõe mais uma rachadura no grupo governista. Quando aliado começa a ser tratado como adversário, é sinal de que a base perdeu comando.

Mailza herdou o governo, mas não a liderança

A leitura política feita no Jornal da Manhã foi que a base da governadora Mailza Cameli segue desmontada. A movimentação do prefeito de Rio Branco, Alysson Bestene, ao acenar para Gladson no grupo de Tião Bocalom, também entrou na conta.

Gladson saiu do governo, mas ainda pesa no jogo. Mailza ficou com a caneta, mas não recebeu automaticamente o controle político do grupo.

Essa diferença aparece a cada crise.

Folha inchada acendeu alerta

Outro ponto levantado no programa foi a informação de que a folha do governo do Acre estaria acima do limite em cargos comissionados. O valor citado foi de cerca de R$ 1 milhão acima do teto.

Nomear e exonerar comissionados não está proibido neste período, mas estourar limite de despesa é outra história. A expectativa agora é saber se o Tribunal de Contas do Estado fará alerta, recomendação ou adotará medida mais dura.

Dinheiro público não aceita desaforo. E folha inchada em ano eleitoral sempre vira assunto político.

Terreno de R$ 23 milhões caiu

O recuo do governo na desapropriação da área que seria usada para a nova sede da Expoacre, em Rio Branco, também entrou no programa como exemplo de atuação dos órgãos de controle.

O decreto previa a compra de uma área de 76 hectares por quase R$ 23 milhões. Depois dos questionamentos, veio a revogação.

A leitura da bancada foi simples: se a informação não viesse a público e se os órgãos de fiscalização não entrassem no caso, o negócio poderia ter avançado.

Expoacre Juruá ainda pede explicação

Os gastos da Expoacre Juruá voltaram ao centro da conversa. A Associação Transformar recebeu mais de R$ 15 milhões para realizar a feira e, segundo a apuração comentada no programa, tem estrutura mínima e ligação política com nomes próximos ao núcleo do governo.

O ponto mais sensível foi o valor dos cachês das atrações nacionais. O plano de trabalho aponta R$ 6,3 milhões só para artistas.

Leonardo aparece com R$ 2,1 milhões. Natanzinho Lima, com R$ 1,7 milhão. Ícaro e Gilmar, com R$ 750 mil. Thiago Brava e padre Fábio de Melo, com R$ 650 mil cada. A banda Morada aparece com R$ 400 mil, e uma atração infantil, com R$ 50 mil.

Quando o palco apaga, a conta continua acesa.

PF bateu na Educação

A notícia mais pesada da manhã veio de Rio Branco. A Polícia Federal deflagrou a Operação Talha Real para investigar suspeitas de desvio de recursos federais da educação repassados à Secretaria de Estado de Educação pelo Fundeb.

São 21 mandados de busca e apreensão cumpridos em Rio Branco, Epitaciolândia e Senador Guiomard. A Justiça também determinou bloqueio de bens, valores e imóveis dos investigados, além da suspensão temporária das atividades de seis empresas com contratos na Educação.

Os contratos investigados passam de R$ 51 milhões.

Fundeb virou caso de polícia

A investigação envolve suspeitas de peculato, corrupção ativa e passiva, fraude à licitação, frustração do caráter competitivo da licitação, lavagem de dinheiro e associação criminosa.

Durante o cumprimento dos mandados, um investigado foi preso em flagrante por posse ilegal de munições de uso permitido.

A informação apurada durante o programa apontava que a investigação alcançaria contratos ligados a merenda escolar, livros e material didático. Também chegaram relatos de viaturas da Polícia Federal no depósito de merenda escolar da Secretaria de Educação.

Quando recurso da educação vira alvo de operação policial, quem perde primeiro é o aluno.

Mais uma viatura na porta do governo

A imagem da Polícia Federal em prédio do governo do Acre deixou de ser novidade. Esse foi o ponto mais duro da análise feita no Jornal da Manhã.

O Estado acumula operações, denúncias, suspeitas e condenações envolvendo o grupo que comandou a máquina pública nos últimos anos. O governo tenta falar em futuro, mas o presente insiste em bater à porta com mandado de busca.

A política pode tentar mudar a narrativa. A Polícia Federal não trabalha com narrativa.

Festival da Farinha abriu espaço para empreendedores

Mazinho Rogério trouxe as informações sobre o Festival da Farinha 2026. As inscrições para empreendedores já estão abertas em Cruzeiro do Sul, com mais de 100 espaços disponíveis.

O evento começa no dia 26 de agosto e será realizado novamente no Complexo Esportivo do bairro Aeroporto Velho. A estrutura vai receber empreendedores de alimentação, bebidas, artesanato, plantas ornamentais, doces, salgados, churrasco, restaurantes, trailers, açaí e pequenos negócios.

A prefeitura também prepara capacitações para quem vai trabalhar durante os quatro dias de festa.

Atrações serão anunciadas no sábado

O prefeito Zequinha Lima deve anunciar no sábado a programação oficial do Festival da Farinha, incluindo as atrações nacionais.

A expectativa é de que o evento movimente a economia local e abra espaço para artistas do município. Segundo o programa, quase 70 artistas cadastrados na prefeitura estão aptos a participar da festa.

Festival bom não é só show. É renda circulando, comércio vendendo e artista local no palco.

Rodrigues Alves entra no calendário

O Jornal da Manhã também lembrou que o Festival da Banana começa no dia 25 de julho, em Rodrigues Alves, dentro da programação de aniversário do município, comemorado no dia 28.

Os festivais de verão movimentam o Juruá, atraem público e ajudam a economia dos municípios. O desafio é fazer festa com organização, transparência e resultado para quem trabalha.

Boa notícia nos Vicentinos

No encerramento, a boa notícia veio do Lar dos Vicentinos. A Prefeitura de Cruzeiro do Sul assinou termo de colaboração de R$ 305 mil para reforçar os serviços prestados aos idosos acolhidos pela instituição.

O recurso será usado em alimentação, acompanhamento técnico e cuidados diários. O valor é fruto de emenda do senador Márcio Bittar.

Os Vicentinos fazem um trabalho que merece apoio permanente. Ali estão pessoas que já deram sua contribuição e agora precisam de cuidado, respeito e presença do poder público.

Jornal da Manhã em Coluna – 14 de julho de 2026

A coluna desta terça-feira reúne bastidores, comentários e informações levadas ao ar no Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM 99,9, apresentado por Chico Melo, com análise política de Rogério Wenceslau e reportagens de Mazinho Rogério e Gledson Albano.

A BR parou, mas a pergunta ficou

A BR-364 foi interditada por produtores rurais que decidiram transformar em protesto uma pergunta que já atravessa os ramais do Juruá há tempo demais: cadê o dinheiro dos ramais?

Não foi uma manifestação de luxo. Foi cobrança de quem vive na lama, depende da estrada para sair de casa, levar filho para a escola, receber atendimento de saúde e tirar a produção do roçado.

O bloqueio aconteceu na região da Vila Lagoinha, nas proximidades da escola Raimundo Calpe, e durou mais de sete horas. Carros pararam nos dois sentidos. A fila incomodou quem passava, mas o ramal ruim incomoda o produtor todos os dias.

Máquina não é solução quando o serviço não resolve

Mazinho Rogério esteve no local e ouviu agricultores da região do Ramal 2 e de ramais adjacentes. O relato é simples: até existe máquina em alguns pontos, mas o trabalho não resolve o isolamento.

A diferença é grande. Uma coisa é dizer que tem máquina no ramal. Outra é fazer o serviço que permite o carro passar, o médico chegar, o transporte escolar funcionar e a produção sair.

Segundo os moradores, raspagem não basta. O que eles cobram é recuperação de verdade: bueiro, ponte, aterro, camada vegetal, drenagem e intervenção nos pontos críticos.

Ramal não se recupera com fotografia de máquina. Recupera-se com estrada trafegável.

O verão está passando

O ponto mais sensível é o calendário. Julho já chegou ao meio, o verão amazônico está em curso e a janela para trabalhar nos ramais não espera discurso.

Quando a chuva volta, a desculpa também volta. Por isso a cobrança ficou mais forte. Produtor rural conhece o tempo melhor que muito gabinete. Ele sabe quando a terra permite serviço e quando a lama toma conta.

A pergunta feita no programa foi direta: onde está a Operação Verão?

Protesto sem necessidade?

O representante do Deracre ouvido pela reportagem classificou a manifestação como “sem necessidade”. A frase pesou.

Para quem está no gabinete, pode parecer exagero. Para quem mora no ramal, é sobrevivência. A bancada reagiu porque a fala não combina com a realidade narrada pelos agricultores.

O Deracre informou que há equipes trabalhando, que uma programação está em andamento e que o novo diretor deve vir a Cruzeiro do Sul para conversar com as comunidades. Os produtores aceitaram encerrar o bloqueio, mas deixaram o aviso: se nada acontecer, a cobrança volta.

Cadê o dinheiro dos ramais?

Chico Melo levou ao ar uma análise sobre os repasses do Deracre para prefeituras em 2026. Dos R$ 26,17 milhões empenhados, apenas R$ 475 mil aparecem com menção direta a ramais. Desse valor, R$ 200 mil foram pagos e R$ 275 mil seguem liquidados, mas sem pagamento.

O restante está em convênios genéricos de infraestrutura, tapa-buraco, combustível, transporte fluvial e apoio municipal.

A conta política é simples: se o governo anuncia recuperação de ramais, a população quer saber onde estão as frentes de serviço, qual empresa executa, quanto foi pago, qual trecho foi medido e quando o ramal fica trafegável.

Sem isso, sobra a pergunta que virou manchete no protesto: cadê o dinheiro dos ramais?

TCE deveria entrar antes do problema

A bancada também defendeu que o Tribunal de Contas do Estado atue de forma preventiva na fiscalização dos recursos destinados aos ramais.

A sugestão é que os pagamentos sejam liberados a partir de medições claras do serviço executado. Primeiro o ramal é feito. Depois, com medição, vem o pagamento.

A lembrança da Operação Fata Morgana voltou ao programa justamente porque ramal já foi assunto de polícia no Acre. Quando o dinheiro público passa por estrada de barro, a fiscalização precisa passar junto.

A balsa está no Remanso

Outro assunto que voltou ao Jornal da Manhã foi a balsa do Deracre localizada no Porto do Remanso, em Cruzeiro do Sul.

Segundo a bancada, a equipe do Sistema Integração foi checar a informação e confirmou que a balsa está no local. A informação recebida pelo programa é que ela estaria funcionando.

A pergunta, então, fica ainda maior: se funciona, por que não está servindo a travessia entre Rodrigues Alves e Cruzeiro do Sul?

A subida e a descida da balsa em Rodrigues Alves seguem como problema conhecido. Basta uma chuva para a situação piorar. Enquanto isso, o Estado precisa explicar por que uma estrutura pública estaria parada ou fora da função que poderia atender diretamente a população.

Jéssica falou, mas a dúvida continuou

Na política, a ex-deputada Jéssica Sales confirmou a pré-candidatura a vice-governadora na chapa de Mailza Assis e disse que a decisão foi guiada pela fé.

Rogério Wenceslau tratou a declaração com cautela. Para ele, só dá para acreditar completamente quando a ata da convenção do MDB estiver assinada, a federação Progressistas/União Brasil formalizar a chapa e o registro chegar ao TRE.

A leitura é política, não pessoal. O MDB passou dias indo e vindo, conversando com um lado, olhando para outro e tentando se valorizar no tabuleiro.

Quando a confirmação sai depois de pressão pública, ela resolve uma parte da crise, mas não apaga o histórico da negociação.

MDB ainda parece no modo espera

A ausência inicial de Jéssica no lançamento da composição deixou ruído. O pai, Vagner Sales, falou. O partido se movimentou. Mas a própria pré-candidata demorou a aparecer.

Na avaliação da bancada, isso deixou a aliança com cara de acordo mal digerido.

O MDB pode até ficar onde está. Mas, até a convenção, ninguém deve se surpreender se a sigla ainda fizer novas curvas.

Ataque a jornalista não responde número

O programa também comentou ataques recebidos nas redes sociais após publicações do Sistema Integração.

Chico Melo afirmou que comentário não é apagado, mas lembrou que cada pessoa deve ser responsável pelo que escreve. A bancada também falou em ameaças e disse que deve registrar boletim de ocorrência.

O ponto central é outro: quando uma matéria traz número, a resposta precisa vir com número. Xingamento não substitui dado. Perfil falso não substitui documento. Ataque pessoal não responde execução financeira.

A indústria dos eventos

A discussão sobre os gastos da área de indústria voltou ao programa.

A bancada reagiu a críticas contra matéria publicada pelo Integração Net e afirmou que o governo precisa explicar, com dados, por que uma pasta que deveria olhar para indústria, inovação e geração de emprego concentra tanto recurso em eventos, feiras, shows e estruturas temporárias.

O comentário foi direto: no Acre, cresceu a indústria do entretenimento. Mas, quando a luz do palco apaga, a conta fica.

Avião de Gladson continua no aeroporto

O Jornal da Manhã também voltou ao caso da aeronave registrada em nome do ex-governador Gladson Cameli.

Segundo o programa, o avião modelo Baron 58, de prefixo PT-WGK, continua no pátio do aeroporto de Cruzeiro do Sul. A aeronave foi relacionada às medidas judiciais da Operação Ptolomeu e permanece sem informação pública sobre eventual liberação, transferência ou mudança de condição.

Rogério Wenceslau explicou que aeronave apreendida não funciona como carro levado para pátio policial. Ela fica no aeroporto, bloqueada, sem poder ser usada.

O caso segue pedindo esclarecimento oficial.

Boato sobre recurso

Ainda sobre Gladson, Rogério comentou um boato que circulou em Rio Branco sobre possível julgamento de recurso que poderia abrir caminho para candidatura ao Senado.

Segundo ele, até a checagem feita no dia anterior, não havia recurso pendente de julgamento no sistema consultado por suas fontes. Se aparecer decisão, será notícia. Mas, até ali, o boato não se sustentava.

Crédito de carbono e dinheiro futuro

A bancada também voltou a questionar as negociações do governo em torno de crédito de carbono e a busca por recursos internacionais.

O ponto levantado foi a tentativa de antecipar valores futuros. A pergunta é prática: se o dinheiro vier, onde será aplicado? Qual o plano de trabalho? Quem fiscaliza? Que comunidades serão beneficiadas? Que contrato existe?

Viagem internacional, foto e entrevista não bastam. Quando a cifra é grande, a transparência precisa ser maior ainda.

Copacabana interditada

Em Cruzeiro do Sul, Gledson Albano informou que a Avenida Copacabana segue interditada por causa dos serviços de recuperação.

A prefeitura iniciou trabalho de drenagem, terraplanagem e preparação para asfaltamento. A orientação para os motoristas é procurar rotas alternativas, especialmente quem segue em direção ao centro da cidade.

Polícia teve casa incendiada, prisão no rio e assalto

Na área policial, Gledson Albano destacou uma ocorrência de violência doméstica no bairro João Alves. Após uma briga de casal, um homem teria ateado fogo em um colchão, e as chamas se espalharam pela casa. Ele foi preso pela Polícia Militar com apoio da Rotam.

No bairro Militar, um homem suspeito tentou fugir pelo Rio Juruá depois de ser visto com objeto semelhante a arma de fogo. A equipe do Giro conseguiu uma embarcação, perseguiu o suspeito e fez a prisão. A arma apreendida era artesanal, calibre 22.

A PM também informou o cumprimento de três mandados de prisão no fim de semana. Segundo o balanço apresentado no programa, o 6º Batalhão já retirou de circulação 112 pessoas com mandado em aberto em 2026.

Também foram registrados um acidente na AC-405, envolvendo um estudante de 13 anos atingido por uma motocicleta, e um assalto no bairro do Alumínio, onde dois homens armados roubaram uma moto e fugiram em direção ao Remanso.

Francisco Piyãko alertou por anos sobre ameaças; “Proteger a floresta para nós é proteger a nossa própria vida”

A frase de Francisco Piyãko, registrada no documentário Povos do Juruá, ganha um novo significado diante da crise de segurança vivida nesta semana na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo. O líder Ashaninka, que há décadas denuncia a pressão crescente sobre a fronteira entre Brasil e Peru, viu o território que sempre procurou proteger se tornar alvo da invasão de um grupo armado que procurava lideranças indígenas.

A resposta do Estado veio com a deflagração da Operação Ashaninka, coordenada pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública do Acre, com equipes do Grupo Especial de Operações em Fronteira (Gefron), apoio do Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer) e articulação com órgãos federais. Mas, para quem acompanha a trajetória de Francisco Piyãko, os acontecimentos desta semana não representam uma surpresa. Eles confirmam alertas feitos há anos e registrados em dois documentários lançados pelo portal Épop.

As produções Povos do Juruá (2024) e Opirj – A luta na defesa dos direitos e da floresta (2025) ajudam a compreender por que o rio Amônia se tornou uma das regiões mais sensíveis da Amazônia brasileira. Mais do que contar a história dos povos indígenas do Vale do Juruá, os filmes mostram como a combinação entre ausência do Estado, pressão por grandes obras, exploração ilegal de recursos naturais e avanço do crime organizado vem transformando a fronteira em uma área de permanente tensão.

Um alerta construído ao longo de décadas

Em Povos do Juruá, Francisco Piyãko conduz o espectador por uma narrativa sobre a formação da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), a luta pela demarcação das terras indígenas e a defesa da floresta.

Ao recordar esse processo, ele afirma:

“Graças à nossa coragem, creio que a gente tem um lugar ainda. Nem que seja do tamanho da nossa força, mas é um lugar seguro para a gente morar com as nossas crianças.”

A declaração sintetiza uma ideia presente durante todo o documentário: o território não foi apenas demarcado pelo Estado, mas protegido pela mobilização permanente dos próprios povos indígenas.

Em outro momento, Francisco chama a atenção para um aspecto pouco conhecido da região. A Terra Indígena Kampa do Rio Amônia está localizada em uma extensa faixa de fronteira, onde a presença permanente do poder público sempre foi limitada. Segundo ele, essa realidade faz com que as comunidades acabem exercendo um papel importante na proteção da floresta e até da própria fronteira brasileira.

Essa condição, no entanto, também expõe as aldeias aos impactos provocados por atividades ilegais que se expandem no lado peruano, como exploração clandestina de madeira, abertura de estradas, narcotráfico e circulação de grupos armados.

Estradas que preocupam as comunidades

Outro eixo central das falas de Francisco Piyãko diz respeito aos projetos de infraestrutura planejados para a região.

Nos documentários, ele questiona a narrativa de que as ligações rodoviárias entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa, no Peru, seriam necessariamente sinônimo de desenvolvimento para quem vive na floresta.

“Essa estrada não foi feita para atender nós, o povo da floresta.”

A preocupação apresentada por ele não se limita à construção de uma rodovia. O alerta é para os efeitos que essas ligações costumam provocar em áreas de floresta preservada: aumento da exploração ilegal de madeira, ocupações irregulares, conflitos fundiários e maior facilidade para a atuação de organizações criminosas.

Nos filmes, Francisco defende que qualquer empreendimento dessa natureza seja precedido por estudos ambientais, consulta aos povos indígenas e avaliação dos impactos sobre os territórios tradicionais.

O segundo documentário amplia o debate

Se Povos do Juruá apresenta a história e a identidade dos povos indígenas do Vale do Juruá, Opirj – A luta na defesa dos direitos e da floresta aprofunda a discussão sobre os conflitos atuais da região.

Lançado pelo portal Épop em 2025, o documentário reúne documentos, estudos técnicos, decisões judiciais e depoimentos de lideranças indígenas sobre as ameaças que cercam a fronteira Acre–Ucayali.

No filme, Francisco Piyãko reforça que a defesa feita pelas organizações indígenas não busca impedir o desenvolvimento econômico.

“O direito dos povos indígenas está reconhecido na Constituição Brasileira.”

Para ele, o debate precisa ser conduzido dentro das regras estabelecidas pela Constituição e pelos tratados internacionais, garantindo consulta prévia às comunidades e proteção dos territórios indígenas.

Essa posição também aparece em outro momento do documentário, quando afirma que a luta da Opirj busca apenas que a legislação existente seja efetivamente cumprida.

A realidade alcançou os documentários

Poucos meses depois do lançamento do segundo filme, os alertas registrados nas produções ganharam contornos concretos.

Segundo a denúncia apresentada por Francisco Piyãko às autoridades, homens armados entraram na Aldeia Apiwtxa nos dias 5 e 6 de julho procurando lideranças indígenas e ameaçando moradores.

Durante a chegada das equipes do Gefron, Francisco afirmou que a comunidade vivia um momento de tensão, mas destacou que as lideranças permaneceriam no território.

Também fez um apelo para que a presença das forças de segurança não seja apenas temporária, reforçando que o enfrentamento ao crime organizado depende da atuação permanente do Estado.

As declarações dialogam diretamente com os documentários, nos quais ele explica que os povos indígenas conhecem profundamente a floresta e colaboram com sua proteção, mas não podem ser deixados sozinhos diante da expansão de atividades criminosas na fronteira.

Um convite para conhecer a região

A crise vivida hoje no rio Amônia torna os dois documentários ainda mais relevantes.

Quem assistir às produções encontrará muito mais do que um registro sobre cultura indígena. Os filmes apresentam a história da organização dos povos do Juruá, explicam a importância estratégica da fronteira entre Brasil e Peru, mostram como nasceram as articulações entre comunidades dos dois países e ajudam a compreender por que Francisco Piyãko insiste, há tantos anos, que a proteção da floresta depende também da proteção dos povos que vivem nela.

Os acontecimentos desta semana mostram que os alertas feitos pelas lideranças Ashaninka não tratavam de um cenário hipotético. Eles descreviam uma realidade que se aproximava lentamente e que agora chegou ao coração da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia.