Após cancelar edital da Marcha para Jesus, governo Mailza empenhou mais de R$ 1 milhão em outros eventos religiosos
Estado alega impedimentos legais e administrativos para não apoiar evento em Cruzeiro do Sul; levantamento mostra recursos para Semana Evangélica, Gospel Day, novenário e outros eventos após cancelamento do edital
O cancelamento da Marcha para Jesus de Cruzeiro do Sul, prevista para 26 de setembro, abriu uma discussão sobre o apoio do Governo do Acre a eventos religiosos em 2026. Enquanto a Associação dos Ministros Evangélicos do Acre (AMEACRE) afirma que a programação se tornou inviável após a confirmação de que não haveria apoio estadual, dados de execução orçamentária mostram que o governo continuou empenhando recursos para outros eventos religiosos, inclusive depois do cancelamento do edital usado como justificativa pelo Estado.
A Marcha do Vale do Juruá é realizada há cerca de 15 anos. Segundo a AMEACRE, o governo vinha sendo um dos principais parceiros da programação nos últimos anos. Para a edição de 2026, a entidade iniciou tratativas e levantamento de custos, mas foi posteriormente informada de que o Estado não poderia oferecer o apoio solicitado. Sem condições financeiras, estruturais e operacionais para manter a programação, a associação decidiu cancelar o evento.
Em nota divulgada após a repercussão, o Governo do Acre negou motivação política para a ausência do repasse. A gestão informou que o Edital nº 001/2026/FEM, que previa apoio à Marcha para Jesus, havia sido cancelado pela Fundação Elias Mansour em 23 de junho, por restrições relacionadas ao período eleitoral, falta de prazo para conclusão regular do chamamento e apontamentos de órgãos de controle, entre eles o Tribunal de Contas do Estado.
O governo também afirmou que a demanda específica de Cruzeiro do Sul só teria chegado à gestão em 15 de julho, quando pastores procuraram informalmente representantes do Estado. Segundo a nota, naquele momento o edital estava cancelado havia mais de três semanas. O Executivo classificou o caso como uma “impossibilidade legal e administrativa de financiamento” e rejeitou a versão de que a decisão teria ocorrido por razões políticas.
Edital previa R$ 2,4 milhões
Antes do cancelamento, o Edital nº 001/2026 já estava sendo acompanhado pelos órgãos de controle. Em 28 de maio, o Ministério Público do Acre abriu procedimento para fiscalizar aproximadamente R$ 2,4 milhões previstos para a realização da Marcha para Jesus.
O MPAC solicitou estudos técnicos, planilhas de custos, justificativas para o valor, critérios de seleção e cronograma financeiro. O órgão também determinou uma comparação entre o montante previsto para a Marcha e os investimentos estaduais realizados em outros eventos culturais, religiosos e tradicionais.
Em julho, o Ministério Público divulgou recomendação para suspensão dos atos relacionados ao edital, destinado à realização itinerante da Marcha para Jesus em 21 municípios, com exceção de Rio Branco. A recomendação citou apontamentos técnicos do TCE, como critérios religiosos para seleção das entidades, restrições quanto à experiência anterior das organizações e prazo de inscrição inferior ao previsto na legislação federal.
Empenhos continuaram após cancelamento
Um levantamento sobre a base de despesas do Governo do Acre, com registros disponíveis até 27 de agosto, mostra, porém, que o cancelamento do edital da Marcha não interrompeu a destinação de recursos estaduais a outros eventos religiosos.
Considerando apenas despesas diretamente identificadas como relacionadas a eventos religiosos entre junho e agosto, foram encontrados mais de R$ 1,12 milhão em empenhos. Desse total, aproximadamente R$ 520,7 mil já aparecem como pagos na base.
Mais significativo é o recorte posterior a 23 de junho, data apontada pelo próprio governo como a do cancelamento do edital. Depois dessa data, foram empenhados mais de R$ 1,08 milhão para eventos ou programações com componente religioso.
Um dos maiores valores aparece em 30 de junho, apenas sete dias depois do cancelamento do edital. A Fundação Elias Mansour empenhou R$ 500 mil para o Município de Xapuri por meio do Convênio nº 11/2026. O objeto registrado é a realização da “Semana Evangélica e ExpoXapuri 2026”. O recurso decorre de emenda parlamentar do deputado Manoel Moraes e aparece integralmente pago.
Neste caso, existe uma ressalva: os R$ 500 mil atendem conjuntamente à Semana Evangélica e à ExpoXapuri, e a base não informa quanto do recurso corresponde especificamente à programação religiosa.
No dia seguinte, 1º de julho, a FEM empenhou mais R$ 73.080 para a Life Show Produções, destinados à estrutura de palco da XX Semana Evangélica de Xapuri, realizada em agosto.
Dois dias depois, em 3 de julho, foram empenhados outros R$ 300 mil para o Instituto Vida Plena realizar a segunda edição do Festival Gospel Day. O recurso veio de emenda parlamentar do deputado Marcus Cavalcante. O valor aparece liquidado, embora ainda não estivesse pago até a atualização da base.
Novenário recebeu mais de R$ 200 mil
Os registros também mostram apoio expressivo a uma programação católica em Cruzeiro do Sul.
Em agosto, a Secretaria de Estado de Turismo e Empreendedorismo empenhou R$ 150 mil para a Diocese de Cruzeiro do Sul realizar uma feira cultural vinculada ao 108º Novenário de Nossa Senhora da Glória.
No dia seguinte, a Fundação Elias Mansour empenhou mais R$ 50 mil, por meio de emenda do deputado Pedro Longo, também para uma feira cultural relacionada ao Novenário.
Além dos dois termos de fomento, a FEM empenhou R$ 9.896,97 para contratação de uma banda destinada à festa de encerramento da programação.
Assim, somente nesses três registros diretamente ligados ao Novenário de Nossa Senhora da Glória são R$ 209,9 mil empenhados em agosto.
Há ainda despesas menores depois do cancelamento do edital, como R$ 3.199,96 para painel de LED no Congresso da CIBE, da Igreja Assembleia de Deus Ministério Madureira, além de recursos para uma cruzada evangélica em Rio Branco e outras programações religiosas.
Marcha de Rio Branco teve R$ 300 mil para show
A comparação se amplia quando são considerados outros meses de 2026.
Em 18 de maio, pouco mais de um mês antes do cancelamento do edital estadual, a Fundação Elias Mansour empenhou, liquidou e pagou R$ 300 mil à empresa Novidade Urbana Agenciamento Ltda. para a contratação exclusiva do cantor Thalles Roberto.
O histórico do empenho informa expressamente que o show foi contratado para a 30ª Marcha para Jesus de Rio Branco, realizada em 30 de maio. O evento reuniu milhares de pessoas na capital e teve participação da governadora Mailza Assis. A programação oficial confirmou Thalles Roberto como atração nacional.
Outro grande desembolso ocorreu em fevereiro. A Secretaria de Estado de Indústria, Ciência e Tecnologia destinou R$ 350 mil à Prefeitura de Xapuri para apoio às ações da Festa de São Sebastião, tradicional evento católico do município. O próprio governo divulgou oficialmente sua participação na programação.
Somados apenas esses dois grandes investimentos — São Sebastião e Marcha de Rio Branco — aos empenhos religiosos identificados entre junho e agosto, os valores passam de R$ 1,77 milhão em 2026. O levantamento é conservador e não inclui diversos repasses a instituições religiosas para projetos sociais, aquisição de equipamentos, obras ou outras atividades que não estejam diretamente caracterizadas como eventos.
Instrumentos são diferentes
A comparação mostra que a alegada impossibilidade administrativa não representou uma proibição geral de aplicação de recursos estaduais em eventos religiosos durante o período. Mesmo após 23 de junho, o Estado registrou novos empenhos para eventos evangélicos e católicos.
O ponto que permanece sem explicação é por que a Marcha para Jesus de Cruzeiro do Sul não poderia receber qualquer modalidade de apoio enquanto outros eventos religiosos continuaram recebendo recursos por instrumentos distintos.
Também chama atenção a cronologia: enquanto o governo afirma que o edital foi cancelado em 23 de junho, o MPAC publicou em 14 de julho recomendação para suspensão imediata dos atos relacionados ao mesmo chamamento, citando possíveis irregularidades identificadas pelo TCE.
Os dados da execução orçamentária utilizados no levantamento têm como última data de empenho 27 de agosto de 2026. A base informa a data do empenho e os valores posteriormente liquidados e pagos, mas não apresenta a data específica em que cada pagamento foi efetivamente realizado.