O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) identificou indícios de incêndios provocados de forma criminosa para ampliar áreas de desmatamento e pastagens no Amazonas. A prática estaria ligada à expansão da pecuária e à ocupação de terras públicas e privadas. As informações foram divulgadas pelo presidente do órgão, Jair Schmitt, na terça-feira (13).
De acordo com Schmitt, o fogo tem sido utilizado para degradar a vegetação e facilitar a conversão de áreas florestais em terrenos destinados à criação de gado. A fiscalização encontrou regiões recém-desmatadas, árvores derrubadas e incêndios avançando sobre áreas de floresta, inclusive em locais de difícil acesso.
A situação levou o governo federal a reconhecer emergência em 36 municípios amazonenses no dia 10 de outubro. Entre as áreas mais atingidas estão Autazes, Careiro da Várzea, Urucurituba, Itacoatiara e Parintins, além de municípios do sul do estado, como Lábrea, Boca do Acre, Humaitá e Apuí.
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o Amazonas registrou 1.608 focos de queimadas entre os dias 1º e 13 de outubro, um aumento de 84% em comparação com os 874 registros do mesmo período de 2025. Somente no dia 10 foram contabilizados 494 focos.
Segundo levantamento da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), utilizado pelo Ibama, mais de 674 mil hectares foram atingidos pelo fogo no estado desde o início de 2026. A área corresponde a aproximadamente 6,7 mil quilômetros quadrados, extensão superior à do Distrito Federal.
A Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) também investigam a possibilidade de incêndios coordenados, em uma ação semelhante ao chamado “dia do fogo”, registrado no Pará em 2019. O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, informou que existem relatos de pessoas utilizando veículos para espalhar combustível e provocar queimadas próximas a estradas. A suspeita de organização criminosa ainda depende de investigação.
Como parte das medidas de fiscalização, o Ibama notificou 725 propriedades rurais consideradas de maior risco de incêndio. Os imóveis estão localizados em municípios como Boca do Acre, Apuí, Humaitá, Manicoré, Autazes e Careiro da Várzea. Os responsáveis deverão adotar medidas preventivas e poderão sofrer multas, embargos e apreensões caso sejam constatadas irregularidades.
O combate às chamas mobiliza mais de 300 brigadistas e agentes de fiscalização, além de aviões e helicópteros. A Polícia Civil do Amazonas também abriu 120 procedimentos criminais relacionados aos incêndios.
A fumaça das queimadas compromete a qualidade do ar em Manaus e em municípios do interior. Na capital amazonense, a poluição provocou a suspensão preventiva de atividades escolares e o cancelamento de eventos ao ar livre.
A previsão de chuvas abaixo da média para parte do Amazonas preocupa as autoridades. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o calor, a baixa umidade e a vegetação seca favorecem a propagação dos incêndios, ampliando os riscos para comunidades, áreas de conservação e terras indígenas.