O avanço dos incêndios florestais na região do Juruá voltou a chamar atenção neste domingo (11), após o piloto Paulo Torres utilizar as redes sociais para questionar a pouca visibilidade dada às queimadas em 2026. “Por que esse ano ninguém mostrou isso?”, perguntou. A manifestação ocorre em meio ao aumento dos focos de calor e dos alertas de desmatamento no Acre, que já ultrapassou os números de queimadas registrados no mesmo período de 2025.
Em Cruzeiro do Sul, os incêndios têm mobilizado equipes do Corpo de Bombeiros. Somente no domingo (4), foram atendidas cinco ocorrências em áreas de vegetação. Na terça-feira (6), outros dois incêndios de grandes proporções exigiram a atuação dos militares em um intervalo inferior a três horas.
Uma das ocorrências atingiu aproximadamente 10 hectares de vegetação no Ramal do Zé Alves. No bairro Saboeiro, as chamas ameaçaram residências e alcançaram a fiação elétrica. Nos primeiros dias de outubro, o número de incêndios em vegetação atendidos pelos bombeiros aumentou 50% em comparação com o mesmo período do ano passado.
A situação acompanha o crescimento das queimadas em todo o estado. Entre janeiro e 6 de outubro, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) contabilizou 1.831 focos de calor no Acre, contra 1.746 no mesmo intervalo de 2025. O aumento foi de 4,9%.
Somente nos seis primeiros dias de outubro, foram identificados 370 focos, diante de 154 no mesmo período do ano anterior, uma alta de aproximadamente 140%. Em 6 de outubro, o estado registrou 260 focos em apenas 24 horas.
O avanço também atingiu municípios do interior. Entre os dias 5 e 6 de outubro, Tarauacá apareceu como o terceiro município brasileiro com mais focos de calor, somando 61 registros. Feijó e Cruzeiro do Sul contabilizaram 38 ocorrências cada, ficando empatados na nona posição nacional.
Setembro já havia encerrado com 877 focos de calor no Acre, um crescimento de 80% sobre agosto, quando foram registradas 487 ocorrências. Em comparação com setembro de 2025, quando houve 840 registros, a alta foi de 4,4%.
Além das detecções de calor, um levantamento realizado pelo Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (LabGama), da Universidade Federal do Acre (Ufac), identificou 41.963 hectares com marcas de queimadas até 15 de setembro de 2026.
O estudo utiliza imagens de satélite para medir a extensão das áreas atingidas pelo fogo, diferentemente dos registros de focos de calor, que identificam ocorrências no momento da passagem dos satélites. A pesquisa também relacionou parte das queimadas em municípios como Feijó, Tarauacá e Mâncio Lima ao desmatamento recente e ao manejo de pastagens.
Os dados de desmatamento também cresceram no Acre. Em setembro de 2026, o sistema Deter, do Inpe, identificou 24,59 quilômetros quadrados sob alerta de desmatamento no estado, contra 22,16 quilômetros quadrados no mesmo mês de 2025. A elevação foi de aproximadamente 11%.
Na Amazônia, os alertas de desmatamento aumentaram 9% em setembro, passando de 327 para 350 quilômetros quadrados. Apesar da alta mensal, o acumulado regional entre janeiro e setembro apresentou redução de 27% em relação ao mesmo período de 2025. Os alertas do Deter servem para orientar a fiscalização ambiental e não equivalem à taxa anual consolidada de desmatamento, calculada pelo sistema Prodes.
A combinação entre perda de vegetação, estiagem e utilização do fogo para limpeza de áreas rurais amplia o risco de propagação das chamas. O monitoramento climático também aponta possibilidade de chuvas abaixo da média em parte do Acre entre outubro e dezembro.
Enquanto os indicadores ambientais mostram a continuidade das queimadas, a manifestação do piloto Paulo Torres reacende a discussão sobre a atenção dedicada aos incêndios florestais na região do Juruá. O Corpo de Bombeiros mantém a orientação para que a população evite o uso do fogo na limpeza de terrenos, no descarte de resíduos e na preparação de áreas rurais, especialmente durante a estiagem.