Após 21 anos sem escola, comunidade da Resex Chico Mendes volta a ter aulas

Depois de 21 anos sem oferta regular de ensino, 15 crianças começaram a estudar nesta segunda-feira, 6 de julho, na comunidade Buenos Aires, no Seringal Remanso, dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes, em Rio Branco. Entre elas está Keulyane Vasques de Carvalho, de 10 anos, que entrou pela primeira vez em uma sala de aula. A retomada das atividades ocorre dois meses após uma força-tarefa de órgãos públicos chegar à região para ouvir moradores e cobrar respostas para a ausência de serviços básicos.

Isolada e a cerca de 74 quilômetros da capital acreana, a comunidade enfrenta dificuldades severas de acesso, agravadas no inverno amazônico. Em parte do ano, segundo os moradores, o deslocamento até Rio Branco pode ficar comprometido por até 180 dias. Foi nesse cenário que famílias relataram, na visita feita há dois meses, que crianças cresciam sem estudar, moradores não tinham atendimento regular de saúde e produtores enfrentavam obstáculos para escoar a produção.

A reabertura da escola começou a sair do papel após a mobilização do líder comunitário Odair José, que buscou apoio institucional para tirar do papel uma reivindicação antiga. Nesta segunda, ao acompanhar o início das aulas, ele resumiu o sentimento da comunidade ao lembrar que já havia procurado diferentes órgãos sem sucesso e que agora via “nossos filhos estudando” depois de mais de duas décadas de espera.

As aulas começaram em turmas multisseriadas e a estrutura também deve atender jovens e adultos que não tiveram acesso à alfabetização. O início do funcionamento, no entanto, ainda está longe de encerrar os desafios da comunidade. Mãe de uma aluna de 9 anos, Sheila Maciel diz que precisa cavalgar cerca de uma hora para levar a filha até a escola e que não pode deixá-la fazer o trajeto sozinha por causa da mata fechada e da presença de animais silvestres.

A rotina também exige adaptação dos professores. A docente Clenilce Pontes afirma que há alunos de 12 e 13 anos entrando pela primeira vez em uma sala de aula e que ela e outra professora passarão o mês inteiro na comunidade, com ida à cidade apenas uma vez por mês. Segundo ela, o trabalho exige cuidado redobrado diante do atraso escolar e do isolamento da região.

Além da educação, a chegada do poder público à comunidade passou a incluir ações de saúde e intervenções para melhorar o acesso por ramal nos trechos onde é possível operar com máquinas. A prefeitura informou que o atendimento educacional começou com suporte municipal e que novas etapas dependem da continuidade da atuação conjunta entre diferentes órgãos.

O retorno das aulas não resolve sozinho os problemas acumulados em uma área marcada por longas distâncias, falta de infraestrutura e dificuldade de acesso a serviços básicos. Para as famílias da comunidade Buenos Aires, porém, o 6 de julho passa a marcar o fim de uma espera de 21 anos e o início de uma mudança concreta na vida de crianças que, até agora, só conheciam a escola de longe.