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Acre tem o terceiro menor IDHM do Brasil em 2024 e expõe desigualdade

O Acre chegou a 2024 com Índice de Desenvolvimento Humano Municipal de 0,754, o terceiro menor resultado entre as 27 unidades da federação, à frente apenas de Alagoas, com 0,746, e Maranhão, com 0,745. O dado foi divulgado nesta terça-feira, 26, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, em parceria com o IBGE e a Fundação João Pinheiro, e coloca o estado no ponto mais sensível de uma contradição brasileira: o país alcançou pela primeira vez a faixa de muito alto desenvolvimento humano, com 0,805, mas a Amazônia acreana ainda convive com renda baixa, dificuldade de acesso à educação, isolamento territorial e desigualdades que atravessam a vida de quem mora longe dos centros urbanos.

O IDHM mede três dimensões que definem a chance concreta de uma pessoa viver melhor: longevidade, educação e renda. O índice vai de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, maior o desenvolvimento humano. No Acre, essas três dimensões não avançam no mesmo ritmo. A longevidade puxa o resultado para cima, a educação mostra recuperação depois da pandemia, mas a renda segue como o ponto mais frágil.

A posição atual do Acre na parte baixa do ranking não apaga uma trajetória anterior de avanço. Os dados mostram uma mudança de patamar: o estado saiu de 0,517 em 2000 para 0,663 em 2010, entrando na faixa de desenvolvimento humano médio. Depois, na série anual, passou de 0,701 em 2012 para 0,739 em 2019, já na faixa de desenvolvimento humano alto. A pandemia interrompeu esse ciclo de crescimento mais firme. Em 2021, o índice caiu para 0,702 e só voltou a ganhar fôlego nos anos seguintes, até alcançar 0,754 em 2024.

A curva revela duas coisas ao mesmo tempo. O Acre avançou de forma consistente por quase duas décadas, mas a recuperação recente ainda não foi suficiente para tirá-lo da parte inferior do ranking nacional. Enquanto estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste já aparecem acima de 0,800 ou perto disso, o Acre permanece distante do Distrito Federal, que lidera com 0,866, e de São Paulo, com 0,838.

O componente que mais ajuda o estado é a longevidade. O IDHM Longevidade do Acre chegou a 0,848 em 2024. Esse resultado carrega décadas de ampliação do atendimento básico, vacinação, redução da mortalidade e políticas públicas que empurraram a expectativa de vida para cima. Mesmo assim, viver mais não significa necessariamente viver com renda suficiente, escola sólida e oportunidades distribuídas de forma equilibrada entre capital, municípios isolados, zona rural, rios e florestas.

A educação continua como um dos gargalos centrais. O IDHM Educação do Acre passou de 0,636 em 2012 para 0,740 em 2024, crescimento importante, mas ainda marcado pela queda provocada pela pandemia. Em 2020, o índice educacional acreano tinha alcançado 0,748. No ano seguinte, caiu para 0,685. A recuperação veio depois, mas a perda deixou marcas em crianças e adolescentes que enfrentaram escola fechada, internet precária, aulas remotas desiguais e dificuldades para retomar o ritmo de aprendizagem.

A renda pesa como a dimensão mais vulnerável. O IDHM Renda do Acre ficou em 0,684 em 2024, dentro da faixa de médio desenvolvimento humano e abaixo do desempenho geral do estado. Em 2012, esse componente era 0,670. Em doze anos, o avanço foi pequeno. Essa lentidão ajuda a explicar por que a melhora do desenvolvimento humano nem sempre aparece com força na mesa das famílias, no emprego formal, no transporte, no preço dos alimentos e na permanência dos jovens no próprio estado.

O ranking nacional também impede uma leitura simplista sobre atraso ou progresso. O Acre cresceu, mas outros estados cresceram mais ou partiram de bases sociais e econômicas mais fortes. Tocantins, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Roraima, Amazonas e Pará aparecem à frente do Acre no IDHM geral de 2024. A diferença entre alguns desses estados parece pequena, mas cada centésimo no índice concentra anos de políticas públicas, estrutura produtiva, acesso a serviços e redução de desigualdades.

No Acre, desenvolvimento humano não se mede apenas pela distância entre governo e cidadão. Mede-se também pela distância física entre casa, escola, hospital, emprego e Estado. O mesmo índice que cabe em uma tabela nacional precisa atravessar rios, ramais, comunidades indígenas, reservas extrativistas, fronteiras e bairros urbanos crescidos com pouca infraestrutura. A média estadual junta realidades muito diferentes: a de quem vive em Rio Branco, a de famílias em municípios isolados como Santa Rosa do Purus, Jordão e Marechal Thaumaturgo, e a de comunidades rurais onde chegar a um serviço público ainda exige tempo, dinheiro e resistência.

O resultado de 2024 funciona como cobrança sobre prioridades. O Acre melhorou desde 2000, consolidou avanços entre 2010 e 2019 e conseguiu recuperar parte das perdas recentes. Mas ainda chega a 2024 preso a um desenvolvimento desigual, dependente de políticas de longo prazo e vulnerável a crises sanitárias, econômicas e climáticas. Para deixar a parte baixa da tabela, o estado terá de transformar escola em aprendizagem, renda em trabalho estável, saúde em acesso territorial real e infraestrutura em ligação concreta entre comunidades e oportunidades.

O IDHM mostra que o Acre vive mais, estuda um pouco mais e recuperou parte do terreno perdido na pandemia. Mas também mostra que esse avanço ainda não chegou com a mesma força ao bolso, à sala de aula e ao futuro das famílias acreanas.

Foto: Secom/CZS

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