Márcio Bittar diz que governo Mailza pode não querer o PL e coloca Bolsonaro como prioridade em 2026

O senador Márcio Bittar afirmou nesta sexta-feira, 3 de julho de 2026, em entrevista ao Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM, em Cruzeiro do Sul, que a eleição nacional será sua prioridade em 2026, defendeu o palanque bolsonarista no Acre, admitiu que uma articulação entre PL e Republicanos pode mexer no tabuleiro estadual e criticou a falta de diálogo do Palácio Rio Branco após a saída de Sula Ximenes do Deracre.

Bittar entrou no estúdio com a política acreana atravessada por três disputas ao mesmo tempo: a pré-campanha ao governo, a tentativa de reeleição ao Senado e a montagem do palanque presidencial ligado a Jair Bolsonaro. Logo no início da entrevista, ele defendeu que a vida pessoal de quem disputa cargo público também precisa entrar no debate. “O político, quando entra numa campanha dizendo que a vida pessoal não importa, está mentindo. A vida pessoal importa, sim”, disse o senador.

Para explicar a posição, Bittar citou a própria família. Falou da mãe, de 93 anos, com Alzheimer, e da irmã mais nova, que depende de cuidados desde o nascimento. “Se você descobre, por exemplo, que o Márcio Bittar não cuida da mãe dele, não cuida da irmã dele, você acha que ele vai cuidar bem do Estado?”, questionou. A frase abriu a linha central da entrevista: campanha, para ele, deve revelar trajetória, comportamento e lado político.

Na leitura de Bittar, o Acre vive uma eleição diferente porque a velha divisão entre PT e anti-PT perdeu força na disputa estadual. Ele lembrou que o grupo petista governou o Acre por 20 anos, tentou voltar em 2022 e também saiu derrotado nas eleições municipais de 2024. “Depois de tanto tempo, nós conseguimos vencer o PT e depois derrotamos a tentativa de voltar em 2022 e em 2024 também”, afirmou.

Com o PT fora do centro da disputa, Bittar disse ter relação política e pessoal com os três nomes que hoje aparecem no campo competitivo para o governo: Mailza Assis, Tião Bocalom e Alan Rick. “No meu caso, eu tenho amizade com os três, eu tenho história com os três. Cabe a mim cuidar da tentativa de me reeleger”, declarou. Segundo ele, a ausência da polarização estadual permite que sua energia se concentre mais na eleição nacional.

O senador foi direto ao tratar de Bolsonaro. “Como você disse, Chico, eu tenho lado. O meu lado é o lado do presidente Bolsonaro”, afirmou. Em outro momento, ao ser perguntado se cuidaria no Acre do palanque bolsonarista, reforçou que a pauta federal é o que mais pesa em sua atuação. “A eleição mais importante para mim, com todo respeito à Mailza, ao Bocalom e ao Alan, não é eleição local. Eles não vão resolver os problemas que eu trabalho e que eu estudo há 30 anos.”

Bittar citou Flávio Bolsonaro como nome do seu campo para a Presidência e disse que pretende trazê-lo ao Juruá. “O Flávio vai vir aqui. Ele vem no Juruá. Ele não vem nem parar em Rio Branco, é direto para cá”, afirmou. A declaração serviu de ponte para o tema que mais mexe no bastidor da direita acreana: uma possível aliança nacional entre PL e Republicanos, partido de Alan Rick.

O senador confirmou conversa com Rogério Marinho, secretário-geral do PL e coordenador da pré-campanha de Flávio Bolsonaro. “Ele confirmou isso. Não tem novidade nisso. O PL, que tem o nosso pré-candidato, quer o apoio, quer uma coligação com o Republicanos”, disse. Bittar tratou a negociação como movimento natural de política nacional. “No momento em que o PL busca o apoio do Republicanos na candidatura do Flávio, é natural que o Republicanos peça reciprocidade.”

Essa reciprocidade pode chegar ao Acre. Bittar afirmou que Rogério Marinho lhe disse que não haverá obrigação formal. “Ninguém vai te obrigar a nada, não há verticalização”, relatou. Ainda assim, reconheceu que uma pressão direta de Flávio Bolsonaro mudaria o peso da decisão. “Se ele vem e me pede: Márcio, nós estamos aqui numa articulação nacional, queremos trazer o Republicanos, ajuda a gente, eu vou ficar numa situação”, disse.

A relação com o governo Mailza Assis ganhou tensão quando o assunto chegou ao Deracre. Bittar disse que sempre viu como mais coerente manter a aliança entre PL, PP e União Brasil, mas afirmou sentir, em alguns momentos, que o próprio governo pode não querer essa aproximação. “Eu sempre entendi que seria mais coerente manter essa aliança. Agora, às vezes eu tenho a impressão de que o governo é que não quer o PL”, declarou.

O caso de Sula Ximenes virou o exemplo principal. Bittar lembrou que ela é filiada ao PL, foi retirada de uma possível candidatura a deputada estadual e voltou ao Deracre a pedido do governo. Depois, deixou o cargo. “Ela me disse que pediu demissão porque se sentiu empurrada para fora, e o governo não fala nada com o PL”, afirmou.

O senador também disse que soube da saída de Sula pela imprensa. “Pela imprensa”, respondeu, ao ser perguntado como tomou conhecimento da exoneração. Na avaliação dele, a situação expôs ruído político dentro do Palácio Rio Branco. “Falta articulação no Palácio Rio Branco”, disse. Bittar evitou personalizar a crítica, mas manteve o recado: “Não quero botar isso no nome de ninguém, mas senta o chapéu na cabeça de quem couber.”

A saída de Sula, para Bittar, não atinge apenas a relação partidária. O senador ligou a crise à execução de obras e emendas no Deracre. Ele afirmou que ainda tem recursos destinados à autarquia e citou o viaduto da Corrente e outras ações em andamento. “Eu continuo sendo o parlamentar que mais tem emenda no Deracre”, declarou.

Bittar também respondeu às cobranças sobre o período em que foi relator do Orçamento da União. Disse que o poder do relator era limitado e que não poderia levar todo o orçamento nacional para o Acre. “O poder que eu tive como relator é um poder relativo. Eu não posso pegar o orçamento e levar todo para o meu Estado”, afirmou.

Segundo o senador, por sua atuação como relator, conseguiu trazer cerca de R$ 600 milhões a mais para o Acre. Somando emendas extraordinárias liberadas no governo Bolsonaro, disse que o valor passou de R$ 1 bilhão. “Quando eu digo que trouxe mais de R$ 1 bilhão, são outras tantas emendas. Eu consegui muita emenda extraordinária no governo do presidente Bolsonaro”, afirmou.

Ele citou recursos para ramais, máquinas entregues a prefeituras e obras como o mini anel de Brasileia e Epitaciolândia. Também afirmou que destinou R$ 200 milhões para a BR-364 dentro do orçamento geral. “Para a BR-364 foram R$ 200 milhões. Mas, dos R$ 600 milhões que eu consegui, eu tive que atender prefeitura, governador, todo mundo queria emenda”, disse.

Na pauta ambiental, Bittar voltou a defender sua tese de que os principais entraves ao desenvolvimento da Amazônia estão em Brasília, e não nos governos locais. “Os grandes problemas da região amazônica não se resolvem aqui, se resolvem no Brasil”, afirmou. Para ele, leis federais permitem ações de órgãos como Ibama e ICMBio em áreas rurais. “Se você é contra, como eu sou contra, essas ações, eu tenho que ajudar a mudar a lei. E ela é em Brasília.”

O senador também respondeu por que essas mudanças não avançaram durante o governo Bolsonaro. “Não mudou porque não tinha maioria, principalmente no Senado”, disse. Bittar afirmou que o poder de organizações não governamentais na Amazônia é maior do que parte da população imagina e defendeu a CPI das ONGs como instrumento para expor esse debate.

Em sua fala mais dura, classificou a disputa ambiental na Amazônia como conflito econômico. “Na verdade, isso é uma guerra econômica travestida de preocupação ambiental. Nós temos que desfazer isso”, declarou. Ele também acusou ONGs de atuarem contra obras estratégicas no Acre, citando a ponte de Rodrigues Alves e a continuidade da BR-364.

Ao final da entrevista, Bittar voltou ao tema da campanha. Para ele, a pré-campanha e a campanha servem para mostrar ao eleitor quem são os candidatos, o que pensam e o que fizeram quando tiveram poder. “A pré-campanha e a campanha são para você saber quem é quem, o que pensa, o que está fazendo. Se você é governo do Acre, o que fez? Se você é governo do Brasil, o que fez?”, afirmou.

A entrevista deixou Bittar no lugar onde ele costuma se colocar: sem tentar esconder o lado. O senador quer a reeleição, mantém relação com os principais nomes do governo estadual, mas avisou que sua prioridade será o palanque nacional de Bolsonaro. No Acre, essa escolha pode aproximar ou afastar aliados. E, pelo tom da conversa, o Deracre virou mais que uma autarquia em crise: virou a primeira rachadura visível entre o Palácio Rio Branco e o grupo que o governo ainda precisa decidir se quer manter por perto.

Presença indígena na política é necessidade democrática diante da crise ambiental e da mentira

Artigo de Francisco Piyãko*

A presença indígena na política não é ameaça. É necessidade democrática. Num tempo em que a crise ambiental avança, a desinformação decide eleições e os povos da floresta continuam sendo atacados por defender seus territórios, ocupar espaços de decisão deixou de ser apenas uma escolha. Passou a ser uma responsabilidade com o futuro do Acre, da Amazônia e do Brasil.

Nós, povos indígenas, conhecemos bem o funcionamento da política tradicional. Vemos grupos investindo muito para chegar ao poder e, depois, usando ainda mais força para permanecer nele. Muitas vezes, o objetivo deixa de ser fazer melhor. Passa a ser apagar o outro, enfraquecer lideranças novas, fabricar medo e transformar a disputa pública numa guerra. Esse modelo não combina com a forma como entendemos liderança. Para nós, uma liderança cresce quando serve melhor ao seu povo, quando orienta, quando escuta e quando protege a comunidade diante das ameaças.

Ser liderança indígena não é privilégio. É sacrifício. Ninguém assume essa caminhada porque alguém está pagando ou bancando. A força vem da responsabilidade com o povo, da defesa do território, da necessidade de dialogar com governos, municípios, autoridades e instituições que nem sempre chegam preparados para ouvir. Quando existe espaço de conversa, nós sentamos. Quando não existe, seguimos organizados, fortalecendo alianças e protegendo nossos direitos.

O que dificulta a relação não é explicar o pensamento indígena. O que dificulta é a falta de respeito. Quanto menos se respeita os povos indígenas, mais crescem a violação de direitos, a pobreza e a vulnerabilidade. Onde o direito coletivo enfraquece, a violência avança. Por isso, a articulação entre os povos é tão importante. É ela que sustenta conquistas, protege territórios e mantém viva a força coletiva reconhecida na Constituição.

A mentira virou uma das principais armas contra nós. Fake news, promessas vazias e campanhas de medo exploram a necessidade das pessoas. Em muitos lugares, a desinformação chega antes da verdade, grita mais alto e ajuda a eleger candidatos que depois votam contra os povos indígenas, contra o meio ambiente, contra a região e contra os direitos sociais. Muitas vezes, os piores candidatos vencem porque a população foi cercada por mentiras.

É nesse cenário que a presença indígena na política precisa ser entendida. Nós não disputamos cargo para destruir ninguém. Não fazemos guerra contra não indígenas, extrativistas, ribeirinhos ou moradores das cidades. O cargo pode ser um meio para levar nossa voz aonde as decisões acontecem. Gestão, Legislativo, Judiciário, governo e parlamento precisam ouvir quem sempre foi tratado como assunto, mas raramente como sujeito da própria história.

Também é por isso que alguns grupos se sentem ameaçados quando aparece uma candidatura indígena. Eles estavam acostumados a falar em nosso nome, em nome da Amazônia, da floresta e até do futuro. Querem ser ambientalistas sem nunca ter plantado uma árvore, colhido uma semente, compreendido um rio, pescado para viver ou sentido a natureza como parte da própria vida. Usam a floresta em discursos bonitos fora daqui, mas, quando voltam, trabalham para enfraquecer lideranças que defendem os territórios de verdade.

Foi isso que apareceu quando Nikolas Ferreira veio ao Acre, a convite do senador Márcio Bittar, e disse que já conhecia o estado mais do que Marina Silva. Ele tentou atingir Marina, mas acabou enfraquecendo ainda mais o senador, que abriu o palanque para esse tipo de ataque. Porque quando um deputado de fora passa poucos dias no Acre e se sente autorizado a dizer que conhece esta terra mais do que uma mulher nascida no seringal, formada na luta social acreana e reconhecida no Brasil e no mundo pela defesa ambiental, ele não diminui Marina. Ele revela a arrogância de quem usa a Amazônia como palco.

Marina pode ser criticada, como qualquer liderança pública. O problema é transformar crítica em deboche contra uma história. Existe uma diferença profunda entre discordar de uma posição política e tentar apagar uma trajetória construída dentro da floresta. Quando isso acontece, o debate fica menor. E quem oferece palanque para esse tipo de ataque assume também o custo político da escolha.

Essa cena mostra uma disputa maior: quem tem o direito de falar sobre a Amazônia? Há quem chegue, grave vídeo, faça discurso, ataque lideranças da floresta e vá embora achando que entendeu tudo. Mas o Acre não se aprende em visita rápida. O rio não se compreende pela janela de caminhonete. A floresta não é cenário de campanha. Ela é casa, alimento, remédio, memória, água e futuro.

Nós não vivemos numa ilha. A luta socioambiental não pertence apenas aos povos indígenas. Quando se desmata uma cabeceira, quando se ameaça a Reserva Chico Mendes, quando se derrubam áreas de floresta que ajudam a sustentar os rios, a consequência chega também à cidade. Imaginem o Rio Acre secando de verdade, sem água suficiente para Rio Branco e para os municípios que dependem dele. Ninguém está preparado para isso com a seriedade necessária.

A ciência vem avisando. A nossa experiência também. O tempo da floresta mudou, os rios baixam, o calor aumenta, a fumaça volta e a situação hídrica se agrava. Mesmo assim, há setores que continuam defendendo mais desmatamento, inclusive em áreas que funcionam como reservatório natural da vida no Acre. Tratam a proteção ambiental como obstáculo, quando ela é condição básica para qualquer futuro.

A política indígena assusta porque coloca essa verdade na mesa. Ela pergunta desenvolvimento para quem, a que custo e por quanto tempo. Pergunta por que alguns grupos defendem interesses particulares como se fossem interesse do povo. Pergunta por que tantos têm medo de que os povos da floresta ocupem espaços de decisão e deixem de ser apenas mão de obra, símbolo de campanha ou assunto de discurso.

Nós não estamos no momento de dividir. Estamos no momento de falar sério. A seca não vai perguntar em quem cada pessoa votou. A falta de água não vai separar indígena, comerciante, trabalhador, empresário, criança, idoso, aldeia ou capital. Quando o colapso chegar, todos vão entender que proteger floresta, território indígena, reserva extrativista e rio era uma política de sobrevivência.

Por isso, candidatura indígena não é atraso. Atraso é uma cidade sem segurança hídrica. Atraso é destruir a floresta que protege a água. Atraso é votar contra direitos ambientais e depois dizer que defende a região. Atraso é usar mentira para convencer o povo de que seus verdadeiros defensores são inimigos.

A democracia brasileira precisa de mais presença indígena porque nós carregamos uma experiência que o Estado ignorou por tempo demais. Sabemos que território não é mercadoria comum. Sabemos que rio não é apenas recurso. Sabemos que floresta não é vazio. Sabemos que vida coletiva exige responsabilidade. Essa visão não substitui a ciência nem as instituições. Ela se soma a elas com a força de quem vive a realidade no corpo.

O medo de alguns grupos diante da nossa presença revela mais sobre eles do que sobre nós. Se uma candidatura indígena ameaça alguém, talvez ameace privilégios, negócios mal explicados, discursos vazios e a velha prática de falar sobre a Amazônia sem dividir a decisão com quem vive nela. Para a democracia, nossa presença não é ameaça. É correção de rota.

O Acre já pagou caro por ignorar suas vozes da floresta. Pagou com conflito, morte, abandono, seca, fumaça e desigualdade. Não podemos continuar tratando os povos indígenas como problema enquanto os verdadeiros problemas avançam sobre a terra, a água e a verdade. O que defendemos não é privilégio indígena. É o direito de todos a continuar vivendo.

A minha luta é para que nossa voz chegue aos espaços de decisão sem pedir licença a quem sempre nos quis calados. A presença indígena na política não divide o Acre. Ela obriga o Acre a se olhar com honestidade. Ela mostra que defender os povos da floresta é defender a água, a cidade, o clima, a comida, a memória e o futuro.

O que está em jogo não é apenas uma eleição. É saber se o Acre vai continuar servindo de palco para quem chega de fora e debocha da sua história, ou se vai abrir caminho para quem conhece esta terra pela responsabilidade de protegê-la. Eu escolho o segundo caminho. Nele, a presença indígena não é favor, não é concessão e não é ameaça. É necessidade democrática.

*Francisco Piyãko é liderança indígena do Povo Ashaninka, do Rio Amônia, de Marechal Thamaturgo, coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), ex-secretário dos Povos Indígenas do governo do Acre e ex-assessor da presidência da Funai.

Acre tem o terceiro menor IDHM do Brasil em 2024 e expõe desigualdade

O Acre chegou a 2024 com Índice de Desenvolvimento Humano Municipal de 0,754, o terceiro menor resultado entre as 27 unidades da federação, à frente apenas de Alagoas, com 0,746, e Maranhão, com 0,745. O dado foi divulgado nesta terça-feira, 26, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, em parceria com o IBGE e a Fundação João Pinheiro, e coloca o estado no ponto mais sensível de uma contradição brasileira: o país alcançou pela primeira vez a faixa de muito alto desenvolvimento humano, com 0,805, mas a Amazônia acreana ainda convive com renda baixa, dificuldade de acesso à educação, isolamento territorial e desigualdades que atravessam a vida de quem mora longe dos centros urbanos.

O IDHM mede três dimensões que definem a chance concreta de uma pessoa viver melhor: longevidade, educação e renda. O índice vai de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, maior o desenvolvimento humano. No Acre, essas três dimensões não avançam no mesmo ritmo. A longevidade puxa o resultado para cima, a educação mostra recuperação depois da pandemia, mas a renda segue como o ponto mais frágil.

A posição atual do Acre na parte baixa do ranking não apaga uma trajetória anterior de avanço. Os dados mostram uma mudança de patamar: o estado saiu de 0,517 em 2000 para 0,663 em 2010, entrando na faixa de desenvolvimento humano médio. Depois, na série anual, passou de 0,701 em 2012 para 0,739 em 2019, já na faixa de desenvolvimento humano alto. A pandemia interrompeu esse ciclo de crescimento mais firme. Em 2021, o índice caiu para 0,702 e só voltou a ganhar fôlego nos anos seguintes, até alcançar 0,754 em 2024.

A curva revela duas coisas ao mesmo tempo. O Acre avançou de forma consistente por quase duas décadas, mas a recuperação recente ainda não foi suficiente para tirá-lo da parte inferior do ranking nacional. Enquanto estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste já aparecem acima de 0,800 ou perto disso, o Acre permanece distante do Distrito Federal, que lidera com 0,866, e de São Paulo, com 0,838.

O componente que mais ajuda o estado é a longevidade. O IDHM Longevidade do Acre chegou a 0,848 em 2024. Esse resultado carrega décadas de ampliação do atendimento básico, vacinação, redução da mortalidade e políticas públicas que empurraram a expectativa de vida para cima. Mesmo assim, viver mais não significa necessariamente viver com renda suficiente, escola sólida e oportunidades distribuídas de forma equilibrada entre capital, municípios isolados, zona rural, rios e florestas.

A educação continua como um dos gargalos centrais. O IDHM Educação do Acre passou de 0,636 em 2012 para 0,740 em 2024, crescimento importante, mas ainda marcado pela queda provocada pela pandemia. Em 2020, o índice educacional acreano tinha alcançado 0,748. No ano seguinte, caiu para 0,685. A recuperação veio depois, mas a perda deixou marcas em crianças e adolescentes que enfrentaram escola fechada, internet precária, aulas remotas desiguais e dificuldades para retomar o ritmo de aprendizagem.

A renda pesa como a dimensão mais vulnerável. O IDHM Renda do Acre ficou em 0,684 em 2024, dentro da faixa de médio desenvolvimento humano e abaixo do desempenho geral do estado. Em 2012, esse componente era 0,670. Em doze anos, o avanço foi pequeno. Essa lentidão ajuda a explicar por que a melhora do desenvolvimento humano nem sempre aparece com força na mesa das famílias, no emprego formal, no transporte, no preço dos alimentos e na permanência dos jovens no próprio estado.

O ranking nacional também impede uma leitura simplista sobre atraso ou progresso. O Acre cresceu, mas outros estados cresceram mais ou partiram de bases sociais e econômicas mais fortes. Tocantins, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Roraima, Amazonas e Pará aparecem à frente do Acre no IDHM geral de 2024. A diferença entre alguns desses estados parece pequena, mas cada centésimo no índice concentra anos de políticas públicas, estrutura produtiva, acesso a serviços e redução de desigualdades.

No Acre, desenvolvimento humano não se mede apenas pela distância entre governo e cidadão. Mede-se também pela distância física entre casa, escola, hospital, emprego e Estado. O mesmo índice que cabe em uma tabela nacional precisa atravessar rios, ramais, comunidades indígenas, reservas extrativistas, fronteiras e bairros urbanos crescidos com pouca infraestrutura. A média estadual junta realidades muito diferentes: a de quem vive em Rio Branco, a de famílias em municípios isolados como Santa Rosa do Purus, Jordão e Marechal Thaumaturgo, e a de comunidades rurais onde chegar a um serviço público ainda exige tempo, dinheiro e resistência.

O resultado de 2024 funciona como cobrança sobre prioridades. O Acre melhorou desde 2000, consolidou avanços entre 2010 e 2019 e conseguiu recuperar parte das perdas recentes. Mas ainda chega a 2024 preso a um desenvolvimento desigual, dependente de políticas de longo prazo e vulnerável a crises sanitárias, econômicas e climáticas. Para deixar a parte baixa da tabela, o estado terá de transformar escola em aprendizagem, renda em trabalho estável, saúde em acesso territorial real e infraestrutura em ligação concreta entre comunidades e oportunidades.

O IDHM mostra que o Acre vive mais, estuda um pouco mais e recuperou parte do terreno perdido na pandemia. Mas também mostra que esse avanço ainda não chegou com a mesma força ao bolso, à sala de aula e ao futuro das famílias acreanas.

Foto: Secom/CZS

Bocalom agradece apoio de Nikolas e associa visita ao Acre à pauta da Amazônia

Tião Bocalom afirmou nesta quarta-feira, 20, em Rio Branco, que foi ao evento do PL no auditório da Uninorte para agradecer pessoalmente o apoio recebido do deputado federal Nikolas Ferreira na eleição municipal de 2024. Ao explicar a presença no encontro, disse que fez questão de cumprimentar o parlamentar e reconhecer a ajuda recebida durante a campanha. “Como o Nikolas foi uma figura importante pra mim na minha eleição de prefeito, eu tô aproveitando esse momento que ele está vindo e vim aqui pra pelo menos dar-lhe um abraço e agradecer pelo que ele fez na nossa eleição”, afirmou.

O agradecimento foi o centro da manifestação de Bocalom no evento e veio acompanhado de elogios à articulação do senador Márcio Bittar para levar Nikolas ao Acre. Segundo ele, a visita do deputado ajuda a dar visibilidade nacional aos problemas enfrentados pela população amazônica. “Eu vejo que o Márcio acertou em cheio quando ele traz o Nikolas pra conhecer os problemas da nossa Amazônia”, disse.

Ao desenvolver a fala, Bocalom voltou a defender que a discussão sobre a Amazônia inclua a população local no centro das decisões. “Parece que querem cuidar apenas das árvores e dos bichos e esquecem que o mais importante na Amazônia é o nosso querido ser humano”, declarou. Em seguida, disse que “o desenvolvimento sustentável passa obrigatoriamente pela qualidade de vida do ser humano” e avaliou que Nikolas pode ampliar esse debate fora do Acre.

Bocalom também afirmou que a passagem do deputado pelo estado ajuda a expor a realidade da região a partir da perspectiva de quem vive nela. “Eu acho fundamental essa vinda do Nikolas para conhecer de verdade e in loco os problemas da nossa Amazônia e principalmente do nosso povo da Amazônia”, disse. Na mesma linha, acrescentou que o parlamentar pode levar adiante a ideia de que a floresta não pode ser tratada de forma separada da população local.

No mesmo evento, Bocalom declarou que mantém relação política com o PL, apesar de não estar mais na sigla. “O PL é um parceiro, é um partido de direita. Todo mundo sabe que eu sou de direita”, afirmou. A fala reforçou a tentativa de manter proximidade com o campo conservador ao mesmo tempo em que concentrou sua participação no ato em um gesto de agradecimento a Nikolas e na defesa de uma pauta que une Amazônia, desenvolvimento e qualidade de vida.