Uma equipe do consórcio Engeplus–Projecta iniciou na segunda-feira, 20 de julho, em Rodrigues Alves, os levantamentos de campo para definir o projeto da ponte sobre o Rio Juruá e do contorno rodoviário do município. Contratado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes por R$ 1.997.005,87, o trabalho reúne estudos preliminares e os projetos básico e executivo de uma travessia reivindicada há anos no Vale do Juruá. A chegada dos técnicos abre uma nova fase administrativa, mas ainda não representa o início da construção: o governo federal terá de aprovar os projetos e fazer outra licitação para executar a obra.
Enquanto os profissionais começam a medir o terreno, examinar o solo e estudar os possíveis acessos, a rotina dos moradores continua presa ao movimento do rio. A ligação direta entre Rodrigues Alves e Cruzeiro do Sul depende da balsa mantida pelo governo do Acre. Quando o Juruá sobe ou desce rapidamente, a lama se acumula nas rampas, máquinas precisam refazer o aterro e a embarcação aguarda condições para encostar. Para quem atravessa em busca de atendimento médico, trabalho, estudo ou transporte de mercadorias, a condição do rio ainda interfere no tempo da viagem.
O prefeito Salatiel Magalhães recebeu a equipe na tarde de segunda-feira e ofereceu apoio logístico da prefeitura aos trabalhos de campo. “Receber a equipe da Engeplus Engenharia em Rodrigues Alves representa mais um passo importante rumo à realização de um sonho histórico da nossa população”, afirmou. O município deverá ajudar com deslocamento, acesso às áreas estudadas e contato com estruturas locais necessárias aos levantamentos.
Nesta etapa, o consórcio fará levantamentos topográficos, estudos geológicos, análises ambientais e avaliações de engenharia. Esse conjunto de informações servirá para escolher a localização da ponte, traçar o contorno rodoviário, calcular as fundações, definir os acessos e estabelecer as dimensões da estrutura. Sem essa base, não é possível formar um orçamento confiável nem preparar a futura contratação da obra.
O contrato nº 168/2026 foi assinado pelo DNIT em 5 de maio e permanece vigente até 16 de julho de 2027. A Engeplus Engenharia e Consultoria lidera o consórcio, formado também pela Projecta – Projetos e Consultoria. As empresas venceram a Concorrência Eletrônica nº 90304/2025, aberta especificamente para os estudos e projetos da ponte e do contorno de Rodrigues Alves, na BR-364.
A separação da ponte em uma contratação própria encerra, pelo menos nesta fase, um problema criado anos antes, quando o empreendimento foi colocado dentro do projeto de ligação rodoviária entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa, no Peru. O Edital nº 130/2021 do DNIT reuniu os projetos básico e executivo da estrada internacional e incluiu a travessia sobre o Rio Juruá.
A estrada provocou reação de organizações indígenas, indigenistas, ambientalistas e extrativistas, que recorreram à Justiça contra o processo. A ação questionou a falta de estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental e a ausência de consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas afetados pela rota até o Peru.
A Justiça Federal declarou a nulidade do edital em junho de 2023. A decisão atingiu todo o processo, inclusive o trecho da ponte, embora o Ministério Público Federal e as organizações autoras tenham defendido que a travessia fosse separada da estrada internacional. O MPF sustentou que a ponte atende uma necessidade local, não alcança diretamente as comunidades indígenas envolvidas no conflito da rodovia e poderia facilitar o acesso da população a serviços essenciais.
O aproveitamento da antiga licitação não foi autorizado. A saída permitida foi abrir um novo processo, restrito à ponte e aos acessos de Rodrigues Alves. A Concorrência nº 90304/2025 e o contrato assinado em maio de 2026 nasceram desse caminho. A travessia deixou de carregar, no mesmo pacote administrativo, as disputas ambientais e territoriais da estrada até Pucallpa.
Em junho, durante entrevista ao Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM, Salatiel Magalhães criticou a decisão de manter a ponte vinculada ao projeto da estrada entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa, no Peru. Com a ligação internacional cercada por questionamentos judiciais, ambientais e indígenas, a travessia de Rodrigues Alves também ficou presa ao mesmo processo.
“Já tinha um projeto de uma ponte feito. Então por que não pegaram esse projeto e botaram ele para execução separadamente?”, questionou o prefeito.
Para Salatiel, a ponte não pode ser tratada apenas como parte de uma futura rota internacional. A estrutura atenderá primeiro uma necessidade cotidiana dos moradores de Rodrigues Alves e dos demais municípios do Vale do Juruá, onde a travessia ainda depende de balsa. A cobrança feita pelo prefeito ajuda a explicar a mudança adotada depois pelo DNIT: retirar a ponte do conjunto da estrada até o Peru e abrir uma contratação específica para os estudos e projetos da travessia.
A ponte entrou na carteira do Novo PAC em 2023, ainda na área de planejamento. A inclusão no programa federal manteve o empreendimento no orçamento e na estrutura administrativa do DNIT, mas não eliminou a necessidade de projeto, licenciamento, recursos para a construção e licitação da empresa executora.
Em fevereiro de 2026, o governo do Acre divulgou uma previsão atribuída ao DNIT de início da construção ainda naquele ano e conclusão em 2028. O calendário conhecido agora não permite tratar esse prazo como confirmado. O contrato assinado em maio cuida apenas dos estudos e projetos e pode seguir até julho de 2027. Mesmo que os trabalhos sejam entregues antes do encerramento da vigência, a construção continuará condicionada à aprovação técnica e a uma nova concorrência pública.
A urgência da ponte aparece de forma mais clara longe das cerimônias oficiais. Em 2022, o MPF levou ao processo o caso de um idoso que precisou atravessar o Rio Juruá em uma maca enquanto a embarcação capaz de transportar ambulâncias estava em manutenção.
A presença dos técnicos da Engeplus–Projecta em Rodrigues Alves é o passo mais concreto dado desde a anulação do antigo edital. Ainda assim, a ponte permanece no papel. A mudança decisiva virá quando o DNIT receber e aprovar os projetos, definir o custo real da estrutura, garantir o dinheiro da construção e publicar a licitação da obra. Até lá, o morador continuará olhando o nível do Juruá antes de saber quanto tempo levará para chegar ao outro lado.