Em entrevista ao Jornal da Manhã desta quarta-feira (3), na Rádio Integração 99,9 FM, em Cruzeiro do Sul, o padre Antonio Menezes afirmou que a compra de votos virou uma prática naturalizada no Acre, criticou a polarização política e defendeu a entrada de religiosos na vida pública com foco em serviço, e não em poder. Pré-candidato a deputado estadual, natural de Manuel Urbano e atualmente ligado à Diocese de Rio Branco, ele disse que decidiu colocar o nome na disputa por entender que “a igreja precisa se envolver na boa política, não na politicagem”.
Ao longo da conversa, padre Antonio tentou marcar posição como um nome que quer se diferenciar da velha lógica eleitoral. A fala mais forte da entrevista veio quando o debate chegou ao voto comprado. Ao comentar o tema, ele afirmou que a política foi deformada por práticas que tratam o eleitor como mercadoria e resumiu a crítica em uma expressão que deve repercutir no debate eleitoral deste ano: “Isso é pecado social”.
O padre disse que a compra de votos rompe qualquer compromisso com o interesse coletivo e transforma a eleição em uma negociação privada. “Quem vende o voto, de um certo modo, está deixando de se comprometer com o bem comum”, afirmou. Em outro momento, endureceu ainda mais o discurso: “É pecado comprar voto, é pecado vender o seu voto. E não é só quem vende não, quem compra vai também”. Para ele, o problema se agravou a ponto de muita gente já tratar o esquema como parte normal da campanha.
Segundo o religioso, esse ambiente ajudou a afastar o eleitor da política e alimentou uma sensação de descrença generalizada. “Isso foi normalizado”, disse. Na avaliação dele, a prática corrói a representação antes mesmo da posse, porque o acerto financeiro substitui o compromisso público. “Como é que uma pessoa que compra o nosso voto vai se comprometer conosco? A conta já tá paga”, afirmou, ao defender uma reação social contra esse modelo.
Padre Antonio também procurou justificar por que decidiu sair da atuação exclusivamente religiosa para entrar na disputa partidária. Ele disse que a decisão amadureceu diante da percepção de que a igreja não pode se omitir diante da crise política e social do estado. “Nós temos responsabilidade com o nosso Acre”, declarou. Na mesma linha, completou: “Se a gente não tem responsabilidade com a política, todos nós iremos sofrer”.
Ao explicar a candidatura, ele apresentou a política como extensão de uma missão de serviço. “É diante de tudo isso que eu coloquei o meu nome pra servir, através da religião, através da educação, mas também através da boa política”, afirmou. O padre também tentou associar a própria trajetória ao discurso que leva para a pré-campanha. Filho de seringueiro, nascido no seringal Sardinha, em Manuel Urbano, ele lembrou a vivência no interior, o contato com ribeirinhos, moradores de estrada e populações mais pobres do Acre para sustentar que conhece a realidade do estado além da retórica eleitoral.
Essa tentativa de aproximação com o eleitor apareceu quando falou da própria origem e da situação de Manuel Urbano, município que citou como exemplo de isolamento e falta de planejamento. Ao lembrar as dificuldades de acesso à cidade, defendeu projetos que integrem melhor a região e disse que o desenvolvimento precisa começar pela entrada do município. O trecho serviu para reforçar a imagem que tenta construir: a de alguém que vem do interior, conhece as carências locais e quer transformar essa vivência em plataforma política.
Outro eixo central da entrevista foi a crítica ao uso da religião como instrumento de poder. Sem negar o avanço de candidaturas religiosas no país, padre Antonio disse que esse movimento pode produzir estragos quando nasce de ambição pessoal. “Existem dois tipos de teologia: a teologia que nos insere na realidade das pessoas e a teologia do domínio”, afirmou. Na sequência, fez o alerta: “Se você, seja padre, seja pastor, entra com intenção egoísta na política, vai ser um estrago terrível”.
A fala foi acompanhada de uma tentativa de separar a participação religiosa na política do uso eleitoral da fé. Segundo ele, o problema não está na presença de líderes religiosos no debate público, mas na finalidade dessa presença. “Se o padre ou o pastor ou qualquer religioso entra na política de forma convertida com o seu coração pra servir, Jesus veio pra servir, não pra ser servido”, declarou. A formulação funciona como resposta a um ambiente em que parte do eleitorado passou a olhar com desconfiança para candidaturas associadas a igrejas.
O padre também disse que não pretende alimentar o ambiente de confronto ideológico que tem marcado o debate político. Ao falar sobre o avanço da polarização, afirmou que esse clima já atinge famílias, partidos e comunidades religiosas. “Nós não iremos entrar nessa polarização cruel, da briga, do ódio, que divide as famílias, os partidos”, disse. Em seguida, indicou o tom que pretende adotar na campanha: “Jamais iremos falar de pessoas. Iremos falar de propostas”.
A declaração busca posicioná-lo como um nome que tentará escapar do padrão de campanhas marcadas por ataques pessoais, guerra ideológica e mobilização religiosa agressiva. Na entrevista, ele sustentou que o campo político precisa ser reconstruído a partir de compromisso social, decência e responsabilidade pública. “A política, na sua essência, é o homem e a mulher, o cidadão que cuida do bem comum”, afirmou.
Mesmo ao assumir a pré-candidatura pelo PT, padre Antonio preferiu não transformar a entrevista em uma defesa partidária convencional. O centro da fala permaneceu na crítica moral à compra de votos, no chamado à participação social e na tentativa de recolocar a política sob a chave do serviço. “O Acre é pra quem ama”, disse, ao resumir a mensagem que pretende levar adiante.
A entrevista no Jornal da Manhã desta quarta-feira, na Rádio Integração 99,9 FM, em Cruzeiro do Sul, serviu como uma espécie de carta de apresentação do pré-candidato. Mais do que anunciar um nome na disputa, o espaço foi usado para lançar um discurso duro contra a compra de votos, rejeitar a polarização e defender uma presença religiosa comprometida com os pobres e com o bem comum. Em um cenário de descrença na política e forte dependência de estruturas eleitorais tradicionais, padre Antonio tenta abrir espaço com uma mensagem simples, moral e direta: “A igreja precisa se envolver na boa política, não na politicagem”.