Gerlen cobra nova ponte em Sena Madureira e acusa governo do Acre de abandonar município

O prefeito de Sena Madureira, Gerlen Diniz, cobrou nesta sexta-feira, 12, uma resposta imediata do governo do Acre sobre a queda da ponte que ligava o primeiro ao segundo distrito do município, durante entrevista ao programa Jornal da Manhã, da Rádio Integração 99,9 FM, em participação por telefone. A obra, aguardada por décadas pela população, desabou e deixou quatro pessoas feridas. Para o prefeito, a cidade não pode receber apenas catraias como solução emergencial enquanto espera explicações sobre uma estrutura pública que custou R$ 45 milhões e caiu antes de cumprir plenamente sua função.

A entrevista começou pelo ponto mais sensível: a vida de quem ficou isolado ou passou a depender de travessia improvisada para estudar, trabalhar, comprar, vender ou buscar atendimento. Gerlen tratou o caso como uma tragédia urbana, não apenas como um acidente de engenharia. “Infelizmente, Sena Madureira vive um momento triste na sua história. Aguardou por décadas a construção de uma obra importante que une dois distritos e, de repente, esta obra ruiu, despencou, vitimou quatro pessoas”, disse. O prefeito frisou que não houve mortes, mas lembrou que vítimas ficaram feridas e que moradores ainda enfrentam medo, revolta e insegurança.

A principal cobrança de Gerlen é que o governo apresente uma solução definitiva. “O que a população gostaria de ouvir é que outra ponte vai ser construída”, afirmou. Na avaliação dele, a resposta oficial ainda não alcançou o tamanho do problema. O prefeito criticou o reforço da travessia por catraias e defendeu a instalação de uma balsa capaz de transportar motocicletas e bicicletas, enquanto uma nova ponte não sai do papel. “Vejam só, tinha uma catraia, estão botando a segunda catraia. É o suficiente? Não é. Essa população merece respeito neste momento”, disse.

Gerlen também cobrou assistência direta aos moradores do segundo distrito. Para ele, o governo deveria montar uma estrutura de atendimento na própria comunidade, com presença de equipes sociais, psicológicas e administrativas. “Tem gente que está abalada emocionalmente, tem gente que vai ter problemas psicológicos em razão disso. Tem senhoras, idosos, que ainda têm medo só do barulho que aconteceu ali na região”, afirmou. A fala revela uma dimensão que nem sempre aparece quando uma obra pública desaba: junto com concreto, ferro e madeira, cai também a sensação de segurança de quem vive ao redor.

O prefeito rejeitou a tentativa de atribuir a queda da ponte apenas ao fenômeno das terras caídas. Gerlen disse que o desbarrancamento às margens dos rios é conhecido há gerações por quem mora na Amazônia e deveria ter sido considerado no projeto. “Conversa para boi dormir”, afirmou. “Quem mora às margens dos rios sabe que todos os anos o barranco do rio desmorona. Isso não começou nesse ano nem no ano passado. Isso é assim há milhares e milhares de anos.” Para ele, uma obra desse porte precisava nascer preparada para a realidade do rio, e não cair diante de um fenômeno previsível.

Ao tratar dos custos da obra, Gerlen elevou o tom. “Eles gastam quarenta e cinco milhões, recebem quarenta e cinco milhões para construir uma ponte e a ponte cai. Fica o dito pelo não dito. Isso é um absurdo, isso é um escárnio”, declarou. A cobrança atinge diretamente o governo estadual, a empresa responsável pela construção e os órgãos de controle. O prefeito afirmou que a Procuradoria do Município já notificou a empresa e o governo do Acre para que adotem providências. “A população não pode ficar sem ter uma resposta. A população está revoltada, sobretudo a população do bairro Segundo Distrito.”

A queda da ponte também expôs a crise política entre a prefeitura e o Palácio Rio Branco. Gerlen afirmou que a relação institucional com o governo praticamente deixou de existir desde que ele assumiu posição política fora do grupo governista estadual. “A relação com o governo não existe. A governadora vem no município de Sena Madureira e sequer liga para o prefeito para dizer que está na cidade”, disse. Para ele, a divergência eleitoral passou a interferir na administração. “Estão preocupados simplesmente com eleição, não estão preocupados com a população.”

O prefeito levou a crítica para outras áreas da gestão. Disse que Sena Madureira tem uma das maiores malhas de ramais do Acre e que a prefeitura reabriu cerca de 4 mil quilômetros no ano passado, enquanto o governo estadual teria atuado em aproximadamente 200 quilômetros. “O governo do Estado não disponibilizou um litro de óleo diesel para a prefeitura fazer a reabertura desses ramais”, afirmou. A frase resume uma queixa recorrente de prefeitos do interior: a dependência de máquinas, combustível e apoio estadual para manter abertas as estradas de terra por onde passa a produção rural, o transporte escolar e boa parte da vida econômica dos municípios.

Gerlen também citou a cessão de servidores como exemplo do que considera desprestígio político contra Sena Madureira. Segundo ele, o governo mantém servidores cedidos para fora do Estado, mas não atende pedidos do município. “Para Sena Madureira não tem ninguém. Você entendeu a forma que Sena Madureira é tratada por esse governo?”, questionou. Na leitura do prefeito, o município paga o preço de uma disputa que deveria ficar restrita ao campo eleitoral, mas acaba chegando à rotina administrativa.

Outro ponto da entrevista foi a construção de casas populares. Gerlen afirmou que a prefeitura trabalha em unidades habitacionais no bairro Pista e pretende iniciar outras 100 casas de alvenaria, com ordem de serviço, recurso em conta, terreno comprado e licitação concluída. O prefeito acusou o Instituto de Meio Ambiente do Acre de embargar a construção de 30 casas de madeira em área urbana já habitada. “Hoje nós vamos entrar com mandado de segurança. Vamos recorrer ao Poder Judiciário para construir casas para as pessoas de Sena Madureira”, disse.

A crítica ganhou contorno social quando Gerlen afirmou que a medida prejudica famílias que esperam por moradia. “Isso é covardia com a população sena-madureirense, não é com o prefeito. Eles não fazem e nem querem deixar fazer”, declarou. A disputa, nesse caso, envolve duas responsabilidades públicas que precisam andar juntas: a proteção ambiental e o direito à moradia. O prefeito sustenta que a área já é ocupada e que a prefeitura tem condições legais de construir. O governo e o órgão ambiental precisam explicar à população quais riscos ou exigências motivaram o embargo.

Gerlen ainda comentou o bloqueio da BR-364 feito por moradores em protesto após a queda da ponte. Disse respeitar a manifestação, mas rejeitou cobranças para que estivesse no local. “O que é que o prefeito vai fazer no bloqueio, sendo que eu estou na prefeitura todos os dias, de manhã e à tarde, de segunda a sexta-feira?”, perguntou. Para ele, demandas dirigidas à prefeitura devem ser levadas ao gabinete. “Quem quer trazer algum problema, alguma situação para o prefeito municipal, vem na prefeitura, não vai bloquear a BR.”

Mesmo com críticas duras ao governo, Gerlen tentou afastar a imagem de conflito pessoal com a governadora. Ele negou ter abandonado um evento oficial em Sena Madureira e disse que permaneceu até o encerramento. “Eu fiquei até o final do evento, esperei a governadora terminar de falar, a cumprimentei e a tratei muito bem”, afirmou. Segundo o prefeito, estudantes deixaram o local porque a programação atrasou, e a saída acabou atribuída ao seu grupo político. “Não saímos. Ficamos até o final. Uma coisa que eu não sou é mal educado. Eu trato a governadora muito bem.”

Padre Antonio Menezes diz em entrevista ao Jornal da Manhã que compra de votos é “pecado social”

Em entrevista ao Jornal da Manhã desta quarta-feira (3), na Rádio Integração 99,9 FM, em Cruzeiro do Sul, o padre Antonio Menezes afirmou que a compra de votos virou uma prática naturalizada no Acre, criticou a polarização política e defendeu a entrada de religiosos na vida pública com foco em serviço, e não em poder. Pré-candidato a deputado estadual, natural de Manuel Urbano e atualmente ligado à Diocese de Rio Branco, ele disse que decidiu colocar o nome na disputa por entender que “a igreja precisa se envolver na boa política, não na politicagem”.

Ao longo da conversa, padre Antonio tentou marcar posição como um nome que quer se diferenciar da velha lógica eleitoral. A fala mais forte da entrevista veio quando o debate chegou ao voto comprado. Ao comentar o tema, ele afirmou que a política foi deformada por práticas que tratam o eleitor como mercadoria e resumiu a crítica em uma expressão que deve repercutir no debate eleitoral deste ano: “Isso é pecado social”.

O padre disse que a compra de votos rompe qualquer compromisso com o interesse coletivo e transforma a eleição em uma negociação privada. “Quem vende o voto, de um certo modo, está deixando de se comprometer com o bem comum”, afirmou. Em outro momento, endureceu ainda mais o discurso: “É pecado comprar voto, é pecado vender o seu voto. E não é só quem vende não, quem compra vai também”. Para ele, o problema se agravou a ponto de muita gente já tratar o esquema como parte normal da campanha.

Segundo o religioso, esse ambiente ajudou a afastar o eleitor da política e alimentou uma sensação de descrença generalizada. “Isso foi normalizado”, disse. Na avaliação dele, a prática corrói a representação antes mesmo da posse, porque o acerto financeiro substitui o compromisso público. “Como é que uma pessoa que compra o nosso voto vai se comprometer conosco? A conta já tá paga”, afirmou, ao defender uma reação social contra esse modelo.

Padre Antonio também procurou justificar por que decidiu sair da atuação exclusivamente religiosa para entrar na disputa partidária. Ele disse que a decisão amadureceu diante da percepção de que a igreja não pode se omitir diante da crise política e social do estado. “Nós temos responsabilidade com o nosso Acre”, declarou. Na mesma linha, completou: “Se a gente não tem responsabilidade com a política, todos nós iremos sofrer”.

Ao explicar a candidatura, ele apresentou a política como extensão de uma missão de serviço. “É diante de tudo isso que eu coloquei o meu nome pra servir, através da religião, através da educação, mas também através da boa política”, afirmou. O padre também tentou associar a própria trajetória ao discurso que leva para a pré-campanha. Filho de seringueiro, nascido no seringal Sardinha, em Manuel Urbano, ele lembrou a vivência no interior, o contato com ribeirinhos, moradores de estrada e populações mais pobres do Acre para sustentar que conhece a realidade do estado além da retórica eleitoral.

Essa tentativa de aproximação com o eleitor apareceu quando falou da própria origem e da situação de Manuel Urbano, município que citou como exemplo de isolamento e falta de planejamento. Ao lembrar as dificuldades de acesso à cidade, defendeu projetos que integrem melhor a região e disse que o desenvolvimento precisa começar pela entrada do município. O trecho serviu para reforçar a imagem que tenta construir: a de alguém que vem do interior, conhece as carências locais e quer transformar essa vivência em plataforma política.

Outro eixo central da entrevista foi a crítica ao uso da religião como instrumento de poder. Sem negar o avanço de candidaturas religiosas no país, padre Antonio disse que esse movimento pode produzir estragos quando nasce de ambição pessoal. “Existem dois tipos de teologia: a teologia que nos insere na realidade das pessoas e a teologia do domínio”, afirmou. Na sequência, fez o alerta: “Se você, seja padre, seja pastor, entra com intenção egoísta na política, vai ser um estrago terrível”.

A fala foi acompanhada de uma tentativa de separar a participação religiosa na política do uso eleitoral da fé. Segundo ele, o problema não está na presença de líderes religiosos no debate público, mas na finalidade dessa presença. “Se o padre ou o pastor ou qualquer religioso entra na política de forma convertida com o seu coração pra servir, Jesus veio pra servir, não pra ser servido”, declarou. A formulação funciona como resposta a um ambiente em que parte do eleitorado passou a olhar com desconfiança para candidaturas associadas a igrejas.

O padre também disse que não pretende alimentar o ambiente de confronto ideológico que tem marcado o debate político. Ao falar sobre o avanço da polarização, afirmou que esse clima já atinge famílias, partidos e comunidades religiosas. “Nós não iremos entrar nessa polarização cruel, da briga, do ódio, que divide as famílias, os partidos”, disse. Em seguida, indicou o tom que pretende adotar na campanha: “Jamais iremos falar de pessoas. Iremos falar de propostas”.

A declaração busca posicioná-lo como um nome que tentará escapar do padrão de campanhas marcadas por ataques pessoais, guerra ideológica e mobilização religiosa agressiva. Na entrevista, ele sustentou que o campo político precisa ser reconstruído a partir de compromisso social, decência e responsabilidade pública. “A política, na sua essência, é o homem e a mulher, o cidadão que cuida do bem comum”, afirmou.

Mesmo ao assumir a pré-candidatura pelo PT, padre Antonio preferiu não transformar a entrevista em uma defesa partidária convencional. O centro da fala permaneceu na crítica moral à compra de votos, no chamado à participação social e na tentativa de recolocar a política sob a chave do serviço. “O Acre é pra quem ama”, disse, ao resumir a mensagem que pretende levar adiante.

A entrevista no Jornal da Manhã desta quarta-feira, na Rádio Integração 99,9 FM, em Cruzeiro do Sul, serviu como uma espécie de carta de apresentação do pré-candidato. Mais do que anunciar um nome na disputa, o espaço foi usado para lançar um discurso duro contra a compra de votos, rejeitar a polarização e defender uma presença religiosa comprometida com os pobres e com o bem comum. Em um cenário de descrença na política e forte dependência de estruturas eleitorais tradicionais, padre Antonio tenta abrir espaço com uma mensagem simples, moral e direta: “A igreja precisa se envolver na boa política, não na politicagem”.