Plano da Associação Transformar reservou R$ 6,25 milhões para seis atrações nacionais; contratos públicos recentes somam R$ 2,74 milhões, uma diferença de R$ 3,51 milhões
Os cachês previstos para os seis shows nacionais da Expoacre Juruá 2026 superam em R$ 3,51 milhões os valores pagos aos mesmos artistas em contratações públicas recentes realizadas em outros estados. Enquanto o Plano de Trabalho apresentado pela Associação Transformar à Casa Civil do Acre, já na gestão de Mailza Cameli, reservou R$ 6,25 milhões para as apresentações, os contratos levantados pelo Grupo Integração, usados como referência, somam R$ 2,74 milhões.
O orçamento da feira destinou recursos para Natanzinho Lima, Banda Morada, Tierry, Ícaro e Gilmar, Padre Fábio de Melo e Leonardo. A comparação reúne contratos, propostas comerciais, processos de inexigibilidade e registros publicados por prefeituras e pelo Portal Nacional de Contratações Públicas.
O valor reservado no Acre ficou aproximadamente 128% acima da soma das seis referências públicas.
A diferença, por si só, não é comprovação de sobrepreço. Os cachês podem mudar conforme a data do evento, o tempo de apresentação, a disponibilidade na agenda, o grau de exclusividade e as obrigações assumidas pelo artista.
Na Expoacre Juruá, no entanto, o Plano de Trabalho separou o pagamento dos cachês das despesas com transporte, hospedagem e produção. Além dos R$ 6,25 milhões destinados diretamente aos artistas, outros R$ 2,44 milhões foram reservados para a logística das atrações nacionais.
Leonardo teve a maior diferença
A maior diferença nominal está no cachê de Leonardo. O Plano de Trabalho da Expoacre Juruá reservou R$ 2,1 milhões para a apresentação do cantor em Cruzeiro do Sul.
Em uma contratação da Prefeitura de Princesa Isabel, na Paraíba, o show de Leonardo foi orçado em R$ 800 mil. Entre os dois valores há uma distância de R$ 1,3 milhão.
O cachê previsto no Acre ficou 162,5% acima da referência paraibana.
Leonardo recebeu a maior previsão entre todas as atrações nacionais e concentrou sozinho quase um terço dos R$ 6,25 milhões destinados aos seis artistas.
Natanzinho Lima aparece com R$ 1,7 milhão
O Plano de Trabalho reservou R$ 1,7 milhão para o show de Natanzinho Lima.
Em maio de 2026, um processo publicado no Portal Nacional de Contratações Públicas registrou R$ 800 mil para uma apresentação do cantor. Outro processo divulgado pelo PNCP em abril trouxe o mesmo valor. (PNCP)
A diferença chega a R$ 900 mil. O cachê previsto para a Expoacre Juruá ficou 112,5% acima da referência recente.

Tierry aparece com mais que o dobro
O orçamento da feira destinou R$ 650 mil ao cantor Tierry.
Em um processo da Prefeitura de São Paulo, o artista foi contratado por R$ 250 mil. A justificativa de preço incluiu três notas fiscais anteriores, nos valores de R$ 250 mil, R$ 253 mil e R$ 250 mil. A média ficou em R$ 251 mil. (Diário Oficial)
Na Expoacre Juruá, a previsão supera em R$ 400 mil o contrato paulista, uma diferença de 160%.
Ícaro e Gilmar tiveram R$ 750 mil previstos
Para a dupla Ícaro e Gilmar, a Associação Transformar reservou R$ 750 mil.
Contratações feitas por municípios de diferentes regiões do país fixaram o cachê da dupla em R$ 350 mil. O valor aparece em processos de Dionísio Cerqueira e Xaxim, em Santa Catarina, São José do Povo, em Mato Grosso, e Luziânia, em Goiás.
Em Luziânia, o contrato previa uma apresentação de uma hora e meia durante a Expoagro de 2025. (Prefeitura de Xaxim)
O orçamento acreano supera essas referências em R$ 400 mil, uma diferença de 114,3%.
Padre Fábio de Melo teve R$ 650 mil reservados
A Expoacre Juruá também reservou R$ 650 mil para uma apresentação do Padre Fábio de Melo.
A Prefeitura de Nova Cruz, no Rio Grande do Norte, contratou o artista por R$ 280 mil para um show realizado em dezembro de 2025, durante as comemorações pela emancipação política do município. (Prefeitura Municipal de Nova Cruz)
A previsão para Cruzeiro do Sul ficou R$ 370 mil acima do contrato potiguar, uma diferença de 132,1%.
Banda Morada aparece com R$ 400 mil
O Plano de Trabalho destinou R$ 400 mil à Banda Morada.
Em março de 2026, a Prefeitura de Itinga do Maranhão assinou contrato de R$ 260 mil com a Banda Morada Produções e Eventos. A proposta comercial anexada ao processo previa uma apresentação de 90 minutos. (Prefeitura de Itinga do Maranhão)
A diferença chega a R$ 140 mil. O valor reservado no Acre ficou 53,8% acima do contrato maranhense.
Comparação dos valores
| Artista | Plano da Expoacre | Referência pública | Diferença |
|---|---|---|---|
| Leonardo | R$ 2.100.000 | R$ 800.000 | R$ 1.300.000 |
| Natanzinho Lima | R$ 1.700.000 | R$ 800.000 | R$ 900.000 |
| Tierry | R$ 650.000 | R$ 250.000 | R$ 400.000 |
| Ícaro e Gilmar | R$ 750.000 | R$ 350.000 | R$ 400.000 |
| Padre Fábio de Melo | R$ 650.000 | R$ 280.000 | R$ 370.000 |
| Banda Morada | R$ 400.000 | R$ 260.000 | R$ 140.000 |
| Total | R$ 6.250.000 | R$ 2.740.000 | R$ 3.510.000 |
Governo escolheu associação para executar toda a feira
Os valores integram o Plano de Trabalho que deu origem ao Termo de Colaboração SECC nº 01/2026, assinado pela Casa Civil do Acre e pela Associação Transformar.
A parceria entregou à entidade a execução, a gestão, o planejamento, a coordenação, a organização e a realização integral da Expoacre Juruá 2026.
A Associação Transformar foi a única entidade a apresentar proposta no chamamento público. Depois de habilitada, recebeu 90 pontos e ocupou o primeiro lugar no processo de seleção.
O termo foi assinado em 25 de junho de 2026, com valor global de R$ 16.648.310 e vigência de 90 dias, prazo que também inclui a prestação de contas.
A base de pagamentos da Casa Civil consultada pelo Grupo Integração registra R$ 15.848.310 pagos à Associação Transformar. O montante é R$ 800 mil menor que o valor global previsto no termo.
O Plano de Trabalho estabeleceu que os R$ 16,6 milhões seriam repassados em uma única parcela, ainda em junho, sem contrapartida financeira da associação. A entidade também recebeu autorização para contratar empresas terceirizadas mediante cotações de preços.
Logística foi orçada separadamente
A diferença entre os cachês ganha peso porque os R$ 6,25 milhões aparecem no orçamento exclusivamente como pagamento pelas apresentações artísticas.
Em outro item, o plano reservou R$ 2.448.520 para uma empresa responsável pela produção e pela logística das atrações nacionais. O serviço abrangia passagens aéreas, fretamento de aeronave, excesso de bagagem, hospedagem, alimentação, decoração e abastecimento de camarins, vans, veículos exclusivos, direitos autorais do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o Ecad, além de outras despesas operacionais dos shows.
Os custos relacionados à distância de Cruzeiro do Sul e à necessidade de transporte especial, portanto, já estavam previstos em uma rubrica própria.
Somados, os cachês e a logística das atrações nacionais alcançaram R$ 8.698.520, mais da metade de todo o orçamento da Expoacre Juruá.
Diferenças precisam ser justificadas
Os contratos usados na comparação não permitem afirmar que os shows deveriam custar exatamente o mesmo valor. As apresentações ocorreram em datas diferentes, podem ter durações distintas e estão sujeitas a mudanças de agenda, estrutura, obrigações contratuais e valorização comercial dos artistas.
As diferenças, contudo, aparecem nos seis casos. Todos os cachês incluídos no Plano de Trabalho da Associação Transformar ficaram acima das referências públicas localizadas.
A comprovação da compatibilidade dos preços depende da apresentação das propostas comerciais enviadas pelos artistas, das notas fiscais usadas como parâmetro, dos contratos assinados, das cartas de exclusividade e da composição detalhada de cada cachê. Análise que, certamente, ficará a cargo do Tribunal de Contas do Estado (TCE), que já vem analisando alguns processos suspeitos do Estado.
O Plano de Trabalho informa quanto seria gasto, mas não traz, nas páginas examinadas, as notas fiscais anteriores nem os parâmetros adotados para fixar cachês de R$ 2,1 milhões para Leonardo, R$ 1,7 milhão para Natanzinho Lima e R$ 650 mil para Tierry. A documentação que sustentou a parceria terá de explicar por que o orçamento acreano ficou R$ 3,51 milhões acima das seis contratações públicas usadas como referência.