Heloy de Castro cobra cachê atrasado enquanto Expoacres gastam R$ 12,7 milhões com shows nacionais

Aos 76 anos, depois de mais de quatro décadas fazendo música no Acre, Heloy de Castro voltou a ocupar um lugar que conhece tão bem quanto os palcos: o da cobrança por espaço, respeito e pagamento. O músico tornou público nesta semana que ainda não recebeu o cachê por uma apresentação na Expoacre e colocou sua própria sobrevivência profissional diante de uma conta muito maior. Em 2026, os principais shows nacionais contratados ou previstos para as edições da Expoacre Juruá, em Cruzeiro do Sul, e da Expoacre, em Rio Branco, consumiram R$ 12,7 milhões em recursos públicos. “O nosso cachê não foi pago até hoje”, afirmou Heloy, ao cobrar uma resposta de quem administra a cultura estadual.
Heloy não falou como alguém que desconhece as dificuldades de viver da música no Acre. Mineiro radicado no estado desde o início dos anos 1980, ele passou 15 anos tocando no antigo bar e restaurante O Casarão e atravessou décadas da noite rio-branquense. Em 2019, já aparecia em registros oficiais como um artista que havia enfrentado sucessivas dificuldades para entrar em grandes eventos públicos e aprovar projetos culturais. Naquele mesmo ano, chegou a fazer apresentações nas ruas de Rio Branco em protesto contra a política cultural do município.

Agora, a reclamação tem endereço mais concreto: dinheiro por um serviço já prestado. Heloy diz que a espera passou de 30 dias e se aproxima de dois meses. A conta doméstica, porém, não espera o trâmite administrativo. Ele lembra que ainda possui outra fonte de renda, mas desloca o centro da cobrança para músicos que dependem do palco para pagar aluguel, comprar comida e manter a família. Cita o caso de um colega, Kleber, que estaria pedindo ajuda para conseguir dinheiro e retornar para casa. “E os músicos que não têm, que estão aí perdidos, passando necessidade?”, questiona.

O desabafo ganha peso quando colocado ao lado da estrutura financeira montada pelo governo estadual para trazer artistas de projeção nacional ao Acre. A Expoacre Juruá, realizada de 30 de junho a 5 de julho em Cruzeiro do Sul, reservou R$ 6,25 milhões somente para seis atrações nacionais. Leonardo apareceu com R$ 2,1 milhões; Natanzinho Lima, com R$ 1,7 milhão; Ícaro e Gilmar, com R$ 750 mil; Tierry e padre Fábio de Melo, com R$ 650 mil cada; e a Banda Morada, com R$ 400 mil.

A programação foi executada dentro do Termo de Colaboração nº 01/2026, firmado entre a Casa Civil e a Associação Transformar. O valor global da parceria chegou a R$ 16.648.310. Registros financeiros consultados após a feira mostraram R$ 15.848.310 transferidos à entidade responsável por organizar e executar o evento. Além dos R$ 6,25 milhões separados para os cachês nacionais, outros R$ 2.448.520 foram reservados para despesas de produção e logística dessas atrações, incluindo passagens aéreas, fretamento de aeronaves, hospedagem, alimentação, transporte, camarins e outros serviços. Cachês e operação dos shows nacionais consumiram, juntos, quase R$ 8,7 milhões do planejamento financeiro da feira.

A distância para os artistas da terra aparece dentro do próprio orçamento. Enquanto seis atrações nacionais concentraram R$ 6,25 milhões, o plano da Expoacre Juruá reservou R$ 612,5 mil para o conjunto dos artistas locais e regionais. Os cachês nacionais ficaram, portanto, pouco mais de dez vezes acima de todo o dinheiro separado para as atrações locais.

Nem mesmo a existência dos recursos evitou reclamações de quem trabalhou na feira do Juruá. No dia 14 de julho, nove dias depois do encerramento da Expoacre Juruá, artistas e prestadores ainda cobravam pagamentos. A Casa Civil já havia transferido R$ 15,8 milhões à Associação Transformar em 29 de junho. Comprovantes de Pix começaram a circular entre profissionais somente depois que a cobrança ganhou repercussão pública. O episódio deixou uma pergunta que permanece atual: entre o dinheiro sair do Estado e chegar ao trabalhador que montou estrutura, prestou serviço ou subiu ao palco, quanto tempo pode passar?

Em Rio Branco, onde a Expoacre ocorreu entre 1º e 9 de agosto, o governo escolheu outro caminho para as principais atrações nacionais. A Casa Civil firmou contratos diretamente ligados aos shows e desembolsou R$ 6,45 milhões para seis artistas. Wesley Safadão teve contrato de R$ 1,8 milhão. Natanzinho Lima custou R$ 1,3 milhão. Padre Fábio de Melo ficou em R$ 500 mil e a banda Som & Louvor, em R$ 300 mil. Leonardo e Ana Castela foram reunidos em um único contrato de R$ 2,55 milhões, sem divisão pública do valor individual de cada apresentação.

Bruno & Marrone, que encerraram a programação musical no dia 9, ficaram fora dessa conta porque a apresentação foi realizada pela iniciativa privada, com venda de ingressos. Os R$ 6,45 milhões correspondem aos shows nacionais financiados pelo Estado na capital e, nos registros financeiros levantados após a feira, já apareciam integralmente empenhados, liquidados e pagos. Somados aos R$ 6,25 milhões previstos para os artistas nacionais do Juruá, o gasto alcança R$ 12,7 milhões.

A comparação precisa respeitar uma diferença administrativa importante. O dinheiro destinado às grandes atrações nacionais de Rio Branco saiu de contratos conduzidos pela Casa Civil. No Juruá, os recursos foram repassados à Associação Transformar dentro de uma parceria para execução integral do evento. Os cachês cobrados por músicos acreanos podem percorrer contratos, credenciamentos e empresas responsáveis por intermediar pagamentos. Não se pode afirmar que uma verba poderia simplesmente ser retirada de um contrato nacional para pagar outra obrigação. O problema exposto pelos artistas está no funcionamento da máquina pública: ela conseguiu montar operações milionárias para garantir grandes atrações, mas trabalhadores locais continuam recorrendo às redes sociais para saber quando receberão por serviços que já entregaram.

Heloy também não está sozinho nessa cobrança. Em 18 de agosto, a cantora acreana Sandra Mello tornou pública a situação de músicos e colaboradores que aguardavam havia mais de 90 dias pagamentos ligados a eventos da Fundação de Cultura Elias Mansour. “A cultura pede ajuda e respeito”, escreveu. No dia seguinte, o presidente da FEM, Matheus Gomes, afirmou que os procedimentos da Fundação haviam sido cumpridos e que a Secretaria de Estado da Fazenda tinha autorizado os pagamentos. A previsão apresentada era de que a empresa responsável começasse a receber os recursos para repassar aos artistas a partir de 19 de agosto.

Uma semana depois daquela resposta, a cobrança de Heloy apareceu publicamente. A pendência dele reforça a necessidade de o governo esclarecer quantos artistas continuam sem receber, quais eventos concentram dívidas, quanto permanece pendente, quais empresas ou entidades estão responsáveis pelos repasses e quais datas foram fixadas para a quitação. No caso específico de Heloy, ainda falta uma resposta pública que esclareça o valor do cachê, o contrato ao qual a apresentação está vinculada e em que etapa se encontra o pagamento.

O contraste também alcança o discurso público sobre valorização da cultura acreana. Durante a própria Expoacre de Rio Branco, a Prefeitura lançou o projeto Rio Branco Street Music com a proposta de criar oportunidades para músicos locais e ocupar praças e bairros com apresentações. Na ocasião, o prefeito Alysson Bestene falou em incentivo aos profissionais da música e o presidente da CDL, Marcelo Moura, resumiu a questão em termos de trabalho e dignidade: “O músico trabalha, gera o seu valor e tem dignidade.”

Para quem vive de música, valorização não termina quando as luzes do palco são apagadas. Ela passa pela contratação, pelo valor do trabalho e pelo pagamento no prazo. Um músico local também paga instrumentista, combustível, alimentação, manutenção de equipamento e contas de casa. Quando o cachê demora dois ou três meses, o custo da espera fica com quem possui menos capacidade financeira para suportá-lo.

Shows da Expoacre 2026 custaram R$ 12,7 milhões no Juruá e em Rio Branco

Os shows nacionais contratados para as edições da Expoacre 2026 em Cruzeiro do Sul e Rio Branco somaram R$ 12,7 milhões em cachês. No Juruá, seis atrações tiveram R$ 6,25 milhões reservados no Plano de Trabalho da feira. Na capital, cinco contratos que atenderam seis artistas chegaram a R$ 6,45 milhões, valor que já foi integralmente liquidado e pago pelo Governo do Acre.

Na Expoacre Juruá, realizada em Cruzeiro do Sul, o maior cachê previsto foi o de Leonardo, no valor de R$ 2,1 milhões. Natanzinho Lima teve R$ 1,7 milhão reservado. A dupla Ícaro e Gilmar aparece com R$ 750 mil, enquanto Tierry e padre Fábio de Melo tiveram R$ 650 mil cada. A Banda Morada completa a relação com R$ 400 mil. Os seis valores chegam a R$ 6,25 milhões.

A contratação no Juruá ocorreu dentro do Termo de Colaboração CC nº 01/2026, firmado entre a Casa Civil e a Associação Transformar. A entidade recebeu R$ 15.848.310 para executar a feira, enquanto o valor global previsto para a parceria era de R$ 16.648.310.

Os R$ 6,25 milhões destinados aos artistas aparecem de forma individual no Plano de Trabalho, mas o dinheiro da feira foi transferido pelo governo à associação em um repasse global. Por essa razão, o valor representa o custo previsto dos cachês. A confirmação do pagamento final feito a cada artista depende da prestação de contas da parceria.

Em Rio Branco, a contratação ocorreu diretamente pela Casa Civil. Os cinco contratos destinados às principais atrações nacionais somaram R$ 6,45 milhões e já constam como integralmente empenhados, liquidados e pagos.

O contrato de maior valor foi de R$ 2,55 milhões e reuniu Leonardo e Ana Castela. Como os dois artistas foram contratados no mesmo instrumento, não há separação do valor pago individualmente a cada um.

Wesley Safadão teve contrato de R$ 1,8 milhão. Natanzinho Lima custou R$ 1,3 milhão. Padre Fábio de Melo recebeu R$ 500 mil e a Banda Som e Louvor, R$ 300 mil. Com o contrato conjunto de Leonardo e Ana Castela, os shows da edição de Rio Branco chegaram aos R$ 6,45 milhões.

A comparação coloca a programação da capital R$ 200 mil acima da relação de cachês prevista para Cruzeiro do Sul. Foram R$ 6,45 milhões em Rio Branco contra R$ 6,25 milhões no Juruá.

A diferença entre as duas edições não está apenas no valor, mas também na forma de contratação. Em Rio Branco, os R$ 6,45 milhões correspondem a contratos diretos que já foram pagos. No Juruá, os R$ 6,25 milhões correspondem aos valores reservados para os seis artistas no orçamento executado pela Associação Transformar.

Somados os dois grupos, os principais shows nacionais das duas edições da Expoacre 2026 alcançaram R$ 12,7 milhões em cachês previstos ou contratados com recursos públicos.

O Plano de Trabalho do Juruá também reservou R$ 50 mil para uma atração infantil. Esse valor não integra os R$ 6,25 milhões usados na comparação dos principais shows nacionais. Com a inclusão dessa apresentação, a despesa artística prevista para Cruzeiro do Sul sobe para R$ 6,3 milhões e o total das duas edições chega a R$ 12,75 milhões.

O custo dos shows no Juruá não ficou restrito aos cachês. Outros R$ 2.448.520 foram reservados para produção e logística das atrações nacionais, com despesas de passagens aéreas, fretamento de aeronaves, excesso de bagagem, hospedagem, alimentação, camarins, vans, transporte de artistas e pagamento de direitos autorais.

Esse gasto de R$ 2,44 milhões não integra os R$ 12,7 milhões porque a comparação considera somente os cachês. Ele amplia, porém, o custo público necessário para levar as atrações nacionais aos palcos da Expoacre Juruá.

Foto: Secom/AC

Expoacre 2026 empenha R$ 3,4 milhões em novos shows e eleva pagamento de Leonardo e Ana Castela a R$ 1,9 milhão

Wesley Safadão, Natanzinho Lima e Som e Louvor concentram os novos empenhos; Instituto Novo Amanhã teve outros R$ 1,57 milhão liquidados pela Secretaria de Agricultura.

O Governo do Acre empenhou R$ 3,4 milhões para contratar três novas atrações da Expoacre 2026, em Rio Branco, e pagou mais R$ 637,5 mil pelo contrato conjunto dos shows de Leonardo e Ana Castela. Os lançamentos entraram no Portal da Transparência em 31 de julho e foram consultados neste sábado, 1º de agosto. A mesma atualização registra R$ 1,57 milhão liquidado para o Instituto Novo Amanhã organizar a Feira da Agricultura Familiar dentro da exposição.

Os três novos empenhos foram emitidos pela Casa Civil. Wesley Safadão foi contratado por R$ 1,8 milhão para o show de 5 de agosto. Natanzinho Lima receberá R$ 1,3 milhão pela apresentação marcada para 3 de agosto. A Banda Som e Louvor foi contratada por R$ 300 mil para subir ao palco em 7 de agosto.

Até a consulta realizada neste sábado, os R$ 3,4 milhões estavam empenhados, mas ainda não constavam como liquidados ou pagos. O empenho representa a reserva do recurso para cumprir a obrigação assumida pelo governo. A liquidação ocorre após a conferência do serviço ou das condições previstas no contrato, enquanto o pagamento corresponde à transferência efetiva do dinheiro.

O contrato de Natanzinho Lima em Rio Branco ficou R$ 400 mil abaixo do valor previsto para o mesmo artista na Expoacre Juruá. No plano de trabalho executado pela Associação Transformar, a apresentação realizada em Cruzeiro do Sul, em 30 de junho, foi orçada em R$ 1,7 milhão.

O orçamento do Juruá ficou 30,8% acima dos R$ 1,3 milhão contratados na capital. Na comparação inversa, o valor de Rio Branco foi 23,5% menor que o previsto para Cruzeiro do Sul.

Mesmo abaixo do orçamento da Expoacre Juruá, o contrato firmado em Rio Branco supera contratações públicas do cantor localizadas em outras cidades em 2026. Pedra Branca, na Paraíba, e Marabá, no Pará, registraram R$ 850 mil por apresentação.

A contratação acreana ficou R$ 450 mil acima desses dois contratos, diferença de 52,9%. Já os R$ 1,7 milhão previstos no plano da Expoacre Juruá correspondem ao dobro dos R$ 850 mil contratados nos outros municípios.

Wesley Safadão recebeu o maior empenho entre as três novas atrações: R$ 1,8 milhão. O valor também supera contratos públicos firmados pelo artista em outros municípios neste ano.

Em Tefé, no Amazonas, o cantor foi contratado por R$ 1,2 milhão para a Festa da Castanha, em contrato assinado em 27 de março. Em Itaitinga, no Ceará, a contratação publicada em março foi de R$ 1,3 milhão. Ourilândia do Norte, no Pará, reservou R$ 1,4 milhão para uma apresentação prevista para novembro.

O contrato da Expoacre supera o valor de Tefé em R$ 600 mil, diferença de 50%. Em relação a Itaitinga, o acréscimo foi de R$ 500 mil, ou 38,5%. Na comparação com Ourilândia do Norte, a diferença chegou a R$ 400 mil, equivalente a 28,6%.

A Banda Som e Louvor foi contratada pelo Governo do Acre por R$ 300 mil. Em Cascavel, no Ceará, um contrato publicado em 20 de julho fixou R$ 240 mil para uma apresentação marcada para 15 de agosto.

A diferença entre os dois contratos é de R$ 60 mil. O valor empenhado para a Expoacre ficou 25% acima do registrado no município cearense.

Além das novas contratações, a Casa Civil pagou mais R$ 637,5 mil pelo Contrato CC nº 45/2026, firmado com a empresa Apolo Assessoria para as apresentações de Leonardo e Ana Castela.

O Portal da Transparência registrava anteriormente R$ 1,275 milhão pago. Com o novo lançamento, o total transferido chegou a R$ 1.912.500, equivalente a 75% do contrato, fechado em R$ 2,55 milhões.

Os R$ 637,5 mil restantes ainda não constavam como liquidados ou pagos. Como o contrato reúne os dois artistas e o registro financeiro não separa os cachês, não é possível estabelecer quanto foi destinado a Leonardo e quanto corresponde à apresentação de Ana Castela.

Na Expoacre Juruá, o cachê de Leonardo foi previsto separadamente em R$ 2,1 milhões. A comparação com Rio Branco exige cautela porque, na capital, os R$ 2,55 milhões cobrem duas apresentações. O plano do Juruá também reservou, em outro item, R$ 2.448.520 para a produção e a logística do conjunto de atrações.

A atualização de 31 de julho também incluiu um empenho de R$ 1,57 milhão da Secretaria de Estado de Agricultura para o Instituto Novo Amanhã. O recurso será usado na realização da Feira da Agricultura Familiar dentro da Expoacre 2026.

A parceria está ligada ao Edital de Chamamento Público nº 04/2026 da Seagri e ao Processo SEI nº 0853.013719.00255/2026-06. O valor foi integralmente liquidado, mas ainda não aparecia como pago. A liquidação representa o reconhecimento, pelo órgão público, do direito da entidade ao recebimento após a conferência dos documentos e das condições previstas na parceria.

O Instituto Novo Amanhã já havia sido escolhido para receber R$ 8,106 milhões em outro eixo da Expoacre. Em 16 de julho, a Casa Civil publicou uma justificativa para destinar esse valor à entidade, responsável pela infraestrutura, logística e operação da arena.

A quantia fazia parte de um conjunto de R$ 22 milhões que a Casa Civil pretendia repassar a três organizações da sociedade civil depois de declarar deserto o Chamamento Público nº 002/2026.

Em 23 de julho, o plenário do Tribunal de Contas do Estado do Acre manteve, por unanimidade, uma medida cautelar que suspendeu a assinatura dos instrumentos, as transferências e os pagamentos relacionados ao procedimento conduzido pela Casa Civil.

O empenho de R$ 1,57 milhão lançado agora pertence a outro órgão, outro edital, outro processo administrativo e outro objeto. Não há, no registro financeiro consultado, elemento que permita incluir automaticamente a parceria da Secretaria de Agricultura na cautelar aplicada ao chamamento da Casa Civil.

Os dois procedimentos precisam ser tratados separadamente. O primeiro envolve R$ 8,106 milhões destinados à infraestrutura e à operação da feira e permanece alcançado pela suspensão do TCE-AC. O segundo destina R$ 1,57 milhão à Feira da Agricultura Familiar, foi conduzido pela Seagri e teve o valor integralmente liquidado em 31 de julho.

Cachês da Expoacre Juruá ficam R$ 3,5 milhões acima de contratos públicos analisados

Plano da Associação Transformar reservou R$ 6,25 milhões para seis atrações nacionais; contratos públicos recentes somam R$ 2,74 milhões, uma diferença de R$ 3,51 milhões

Os cachês previstos para os seis shows nacionais da Expoacre Juruá 2026 superam em R$ 3,51 milhões os valores pagos aos mesmos artistas em contratações públicas recentes realizadas em outros estados. Enquanto o Plano de Trabalho apresentado pela Associação Transformar à Casa Civil do Acre, já na gestão de Mailza Cameli, reservou R$ 6,25 milhões para as apresentações, os contratos levantados pelo Grupo Integração, usados como referência, somam R$ 2,74 milhões.

O orçamento da feira destinou recursos para Natanzinho Lima, Banda Morada, Tierry, Ícaro e Gilmar, Padre Fábio de Melo e Leonardo. A comparação reúne contratos, propostas comerciais, processos de inexigibilidade e registros publicados por prefeituras e pelo Portal Nacional de Contratações Públicas.

O valor reservado no Acre ficou aproximadamente 128% acima da soma das seis referências públicas.

A diferença, por si só, não é comprovação de sobrepreço. Os cachês podem mudar conforme a data do evento, o tempo de apresentação, a disponibilidade na agenda, o grau de exclusividade e as obrigações assumidas pelo artista.

Na Expoacre Juruá, no entanto, o Plano de Trabalho separou o pagamento dos cachês das despesas com transporte, hospedagem e produção. Além dos R$ 6,25 milhões destinados diretamente aos artistas, outros R$ 2,44 milhões foram reservados para a logística das atrações nacionais.

Leonardo teve a maior diferença

A maior diferença nominal está no cachê de Leonardo. O Plano de Trabalho da Expoacre Juruá reservou R$ 2,1 milhões para a apresentação do cantor em Cruzeiro do Sul.

Em uma contratação da Prefeitura de Princesa Isabel, na Paraíba, o show de Leonardo foi orçado em R$ 800 mil. Entre os dois valores há uma distância de R$ 1,3 milhão.

O cachê previsto no Acre ficou 162,5% acima da referência paraibana.

Leonardo recebeu a maior previsão entre todas as atrações nacionais e concentrou sozinho quase um terço dos R$ 6,25 milhões destinados aos seis artistas.

Natanzinho Lima aparece com R$ 1,7 milhão

O Plano de Trabalho reservou R$ 1,7 milhão para o show de Natanzinho Lima.

Em maio de 2026, um processo publicado no Portal Nacional de Contratações Públicas registrou R$ 800 mil para uma apresentação do cantor. Outro processo divulgado pelo PNCP em abril trouxe o mesmo valor. (PNCP)

A diferença chega a R$ 900 mil. O cachê previsto para a Expoacre Juruá ficou 112,5% acima da referência recente.

Tierry aparece com mais que o dobro

O orçamento da feira destinou R$ 650 mil ao cantor Tierry.

Em um processo da Prefeitura de São Paulo, o artista foi contratado por R$ 250 mil. A justificativa de preço incluiu três notas fiscais anteriores, nos valores de R$ 250 mil, R$ 253 mil e R$ 250 mil. A média ficou em R$ 251 mil. (Diário Oficial)

Na Expoacre Juruá, a previsão supera em R$ 400 mil o contrato paulista, uma diferença de 160%.

Ícaro e Gilmar tiveram R$ 750 mil previstos

Para a dupla Ícaro e Gilmar, a Associação Transformar reservou R$ 750 mil.

Contratações feitas por municípios de diferentes regiões do país fixaram o cachê da dupla em R$ 350 mil. O valor aparece em processos de Dionísio Cerqueira e Xaxim, em Santa Catarina, São José do Povo, em Mato Grosso, e Luziânia, em Goiás.

Em Luziânia, o contrato previa uma apresentação de uma hora e meia durante a Expoagro de 2025. (Prefeitura de Xaxim)

O orçamento acreano supera essas referências em R$ 400 mil, uma diferença de 114,3%.

Padre Fábio de Melo teve R$ 650 mil reservados

A Expoacre Juruá também reservou R$ 650 mil para uma apresentação do Padre Fábio de Melo.

A Prefeitura de Nova Cruz, no Rio Grande do Norte, contratou o artista por R$ 280 mil para um show realizado em dezembro de 2025, durante as comemorações pela emancipação política do município. (Prefeitura Municipal de Nova Cruz)

A previsão para Cruzeiro do Sul ficou R$ 370 mil acima do contrato potiguar, uma diferença de 132,1%.

Banda Morada aparece com R$ 400 mil

O Plano de Trabalho destinou R$ 400 mil à Banda Morada.

Em março de 2026, a Prefeitura de Itinga do Maranhão assinou contrato de R$ 260 mil com a Banda Morada Produções e Eventos. A proposta comercial anexada ao processo previa uma apresentação de 90 minutos. (Prefeitura de Itinga do Maranhão)

A diferença chega a R$ 140 mil. O valor reservado no Acre ficou 53,8% acima do contrato maranhense.

Comparação dos valores

ArtistaPlano da ExpoacreReferência públicaDiferença
LeonardoR$ 2.100.000R$ 800.000R$ 1.300.000
Natanzinho LimaR$ 1.700.000R$ 800.000R$ 900.000
TierryR$ 650.000R$ 250.000R$ 400.000
Ícaro e GilmarR$ 750.000R$ 350.000R$ 400.000
Padre Fábio de MeloR$ 650.000R$ 280.000R$ 370.000
Banda MoradaR$ 400.000R$ 260.000R$ 140.000
TotalR$ 6.250.000R$ 2.740.000R$ 3.510.000

Governo escolheu associação para executar toda a feira

Os valores integram o Plano de Trabalho que deu origem ao Termo de Colaboração SECC nº 01/2026, assinado pela Casa Civil do Acre e pela Associação Transformar.

A parceria entregou à entidade a execução, a gestão, o planejamento, a coordenação, a organização e a realização integral da Expoacre Juruá 2026.

A Associação Transformar foi a única entidade a apresentar proposta no chamamento público. Depois de habilitada, recebeu 90 pontos e ocupou o primeiro lugar no processo de seleção.

O termo foi assinado em 25 de junho de 2026, com valor global de R$ 16.648.310 e vigência de 90 dias, prazo que também inclui a prestação de contas.

A base de pagamentos da Casa Civil consultada pelo Grupo Integração registra R$ 15.848.310 pagos à Associação Transformar. O montante é R$ 800 mil menor que o valor global previsto no termo.

O Plano de Trabalho estabeleceu que os R$ 16,6 milhões seriam repassados em uma única parcela, ainda em junho, sem contrapartida financeira da associação. A entidade também recebeu autorização para contratar empresas terceirizadas mediante cotações de preços.

Logística foi orçada separadamente

A diferença entre os cachês ganha peso porque os R$ 6,25 milhões aparecem no orçamento exclusivamente como pagamento pelas apresentações artísticas.

Em outro item, o plano reservou R$ 2.448.520 para uma empresa responsável pela produção e pela logística das atrações nacionais. O serviço abrangia passagens aéreas, fretamento de aeronave, excesso de bagagem, hospedagem, alimentação, decoração e abastecimento de camarins, vans, veículos exclusivos, direitos autorais do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o Ecad, além de outras despesas operacionais dos shows.

Os custos relacionados à distância de Cruzeiro do Sul e à necessidade de transporte especial, portanto, já estavam previstos em uma rubrica própria.

Somados, os cachês e a logística das atrações nacionais alcançaram R$ 8.698.520, mais da metade de todo o orçamento da Expoacre Juruá.

Diferenças precisam ser justificadas

Os contratos usados na comparação não permitem afirmar que os shows deveriam custar exatamente o mesmo valor. As apresentações ocorreram em datas diferentes, podem ter durações distintas e estão sujeitas a mudanças de agenda, estrutura, obrigações contratuais e valorização comercial dos artistas.

As diferenças, contudo, aparecem nos seis casos. Todos os cachês incluídos no Plano de Trabalho da Associação Transformar ficaram acima das referências públicas localizadas.

A comprovação da compatibilidade dos preços depende da apresentação das propostas comerciais enviadas pelos artistas, das notas fiscais usadas como parâmetro, dos contratos assinados, das cartas de exclusividade e da composição detalhada de cada cachê. Análise que, certamente, ficará a cargo do Tribunal de Contas do Estado (TCE), que já vem analisando alguns processos suspeitos do Estado.

O Plano de Trabalho informa quanto seria gasto, mas não traz, nas páginas examinadas, as notas fiscais anteriores nem os parâmetros adotados para fixar cachês de R$ 2,1 milhões para Leonardo, R$ 1,7 milhão para Natanzinho Lima e R$ 650 mil para Tierry. A documentação que sustentou a parceria terá de explicar por que o orçamento acreano ficou R$ 3,51 milhões acima das seis contratações públicas usadas como referência.

Show grátis? Casa Civil repassa R$ 15,8 milhões para organização da Expoacre Juruá 2026

A entrada para os shows da Expoacre Juruá 2026 não custou dinheiro ao público que atravessou os portões do parque, mas a programação foi sustentada por um orçamento de R$ 16.648.310,00 bancado com recursos estaduais. O Plano de Trabalho ligado ao Termo de Colaboração CC/SECC nº 01/2026, firmado entre a Casa Civil do Governo Mailza Cameli e a Associação Transformar, distribuiu esse dinheiro entre artistas nacionais, logística aérea, montagem de estruturas, segurança privada, divulgação, alimentação, atrações regionais e despesas administrativas.

O planejamento financeiro revela o tamanho da engrenagem montada para realizar a feira em Cruzeiro do Sul. Mais da metade de todo o orçamento ficou concentrada nos shows nacionais e nos serviços necessários para transportar, hospedar, alimentar e colocar os artistas no palco. Enquanto o público acompanhava as apresentações sem pagar ingresso, o Estado assumia uma conta milionária que ultrapassava os cachês e alcançava cada etapa da operação.

A Casa Civil já transferiu R$ 15.848.310,00 para a Associação Transformar, conforme registros encontrados na base oficial de pagamentos. O valor global publicado no Diário Oficial, porém, pode chegar a R$ 16.648.310,00. A diferença de R$ 800 mil ainda não está lançada no portal transparência.

Segundo o plano de trabalho apresentado, dos R$ 16,6 milhões previstos, R$ 8.748.520,00 foram destinados às atrações nacionais e à operação dos shows. O montante representa aproximadamente 52,5% de todo o orçamento da Expoacre Juruá.

Os cachês previstos somam R$ 6,3 milhões. Leonardo aparece com a maior contratação individual, no valor de R$ 2,1 milhões. Natanzinho Lima vem em seguida, com R$ 1,7 milhão. A dupla Ícaro e Gilmar teve R$ 750 mil reservados, enquanto Tierry e Padre Fábio de Melo aparecem com R$ 650 mil cada. A Banda Morada recebeu previsão de R$ 400 mil, e uma atração infantil foi orçada em R$ 50 mil.

A conta dos shows não terminou nos palcos. Outros R$ 2.448.520,00 foram reservados para uma empresa encarregada da produção e da logística das atrações nacionais. Nesse pacote estão passagens aéreas, fretamento de aeronaves, excesso de bagagem, hospedagem, alimentação, camarins, aluguel de vans, veículos exclusivos para os artistas, pagamento de direitos autorais ao Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o Ecad, e outros custos operacionais.

O gasto previsto apenas com Leonardo, de R$ 2,1 milhões, supera individualmente todo o orçamento destinado à estrutura geral da feira, calculado em R$ 1.981.440,00. Essa estrutura reúne palco, tendas, camarotes, banheiros, áreas técnicas, espaços de apoio e bastidores. A comparação ajuda a dimensionar o peso das atrações nacionais dentro do planejamento financeiro do evento.

A segurança privada recebeu previsão de R$ 1.701.000,00. A divulgação institucional e promocional ficou com R$ 1.091.000,00. Para artistas locais e regionais, o plano separou R$ 612.500,00, menos de 10% do valor reservado aos cachês nacionais.

A distância entre os dois grupos aparece de forma ainda mais clara quando os números são colocados lado a lado. Os R$ 6,3 milhões previstos para sete atrações nacionais equivalem a mais de dez vezes os R$ 612,5 mil destinados ao conjunto de artistas locais e regionais. 

O planejamento também separou R$ 566 mil para a montagem de um espaço institucional destinado à recepção de autoridades e convidados. A estrutura incluía tendas, pisos, decoração temática, mobiliário e a organização de uma ceia institucional. Embora o espaço não seja chamado de gabinete, sua descrição mostra uma área oficial preparada para atividades institucionais durante a feira. 

Outros R$ 472 mil foram previstos para fornecer alimentação às forças de segurança e aos servidores mobilizados para o evento. Material gráfico, credenciais, uniformes e peças de malharia consumiriam R$ 444.500,00. A cavalgada recebeu orçamento de R$ 283.150,00, enquanto o evento esportivo Nauas Combat ficou com R$ 280 mil.

O lançamento oficial da Expoacre Juruá teve previsão de R$ 198.200,00. Vale lembrar como foi essa festa: O churrasco de lançamento da 21ª Expoacre Juruá aconteceu no dia 13 de junho em Cruzeiro do Sul, marcando o início das festividades. A celebração gastronômica processou cerca de uma tonelada de proteína para atender o público.

A taxa administrativa da Associação Transformar foi fixada em R$ 200 mil. O serviço de interpretação em Libras durante os shows recebeu R$ 45 mil, e a organização do estacionamento, R$ 25 mil.

A distribuição dos recursos mostra que a feira foi concebida como uma operação que atravessou várias áreas do governo e do setor privado. 

O Plano de Trabalho colocou entre as metas da parceria o pagamento dos cachês das atrações nacionais, a contratação dos artistas regionais e a contratação da empresa responsável pela logística dos shows. Esse compromisso ganhou outra dimensão depois que artistas e prestadores passaram a reclamar de atrasos.

Mensagens compartilhadas em um grupo de WhatsApp ligado à Expoacre Juruá afirmavam que, dez dias depois da feira, artistas que haviam trabalhado no evento ainda não tinham recebido. As reclamações chegaram ao Grupo Integração na terça-feira, 14. Depois que a apuração começou e pessoas ligadas à organização foram procuradas, comprovantes de transferências via Pix passaram a circular com a informação de que os pagamentos estavam sendo realizados.

A sequência dos acontecimentos abre uma pergunta objetiva: por que artistas e prestadores relataram falta de pagamento depois de a Casa Civil já ter transferido R$ 15,8 milhões para a entidade responsável pela execução da feira?

A responsabilidade pela administração desse orçamento milionário ficou com uma entidade de estrutura permanente enxuta. No cadastro inserido no Plano de Trabalho, a Associação Transformar declarou possuir duas salas, um banheiro, dois computadores e um telefone celular. A equipe técnica permanente era formada por três pessoas: presidente, secretária e tesoureiro.

Com essa estrutura, a associação assumiu a execução de um projeto de R$ 16,6 milhões, que envolvia artistas de projeção nacional, voos fretados, montagem de palco, camarotes, segurança privada, alimentação, divulgação, eventos esportivos, contratação de fornecedores e prestação de contas ao poder público.

A parceria autorizou a contratação de empresas terceirizadas para executar os serviços, desde que houvesse cotação e escolha da proposta de menor preço compatível com as condições técnicas exigidas.

Essa permissão ajuda a entender por que empresas privadas podem ter atuado na Expoacre Juruá sem aparecer como recebedoras diretas dos pagamentos feitos pela Casa Civil. O dinheiro foi transferido para a Associação Transformar, que poderia repassá-lo a fornecedores contratados para montar estruturas, transportar artistas, divulgar o evento, prestar segurança e executar outros serviços.

Os shows foram gratuitos apenas no momento em que o público entrou no parque. A conta existiu, foi milionária e saiu do orçamento público. Cada música apresentada no palco carregava custos que começavam no cachê do artista, passavam por aviões, hotéis, alimentação, veículos, camarins, segurança e direitos autorais, até alcançar a estrutura montada para receber milhares de pessoas.