Após ação do TCE, como ficam os shows “grátis” da Expoacre 2026?
Ao votar pela suspensão dos atos relacionados à contratação da Expoacre 2026, o conselheiro Ronald Polanco foi além das falhas encontradas no processo de R$ 22 milhões conduzido pela Casa Civil. Em sua manifestação, defendeu que a principal feira do Acre seja voltada prioritariamente à produção, aos negócios e ao desenvolvimento econômico, em vez de ter sua identidade reduzida à contratação de grandes atrações musicais.
A medida cautelar aprovada nesta quinta-feira, 23, impede, por enquanto, a assinatura das parcerias, os repasses de recursos e os pagamentos previstos no procedimento. O Tribunal de Contas do Estado apontou problemas no planejamento, na justificativa dos valores, na concorrência e na definição dos serviços que seriam executados.
Os detalhes da decisão já foram apresentados pelo Integração Net. A questão que permanece agora é outra: o que a suspensão representa para um evento cuja divulgação foi construída principalmente em torno de shows anunciados como “gratuitos”?
A feira passou a ser divulgada pelos shows
Nos últimos anos, o governo do Acre consolidou um modelo em que a Expoacre deixou de ser divulgada principalmente como uma vitrine da produção rural, industrial e comercial. A feira passou a ser apresentada ao público pela programação de artistas nacionais.
Primeiro são anunciados os cantores. Depois aparecem os discursos sobre produção, negócios, inovação e fortalecimento da economia.
As apurações realizadas pelo Integração Net mostram que esse formato não se limita à estratégia de comunicação. Ele também aparece na distribuição dos recursos públicos.
Entre 2022 e 7 de julho de 2026, as estruturas estaduais responsáveis pelas áreas de indústria, ciência, tecnologia, comércio e turismo pagaram R$ 170,4 milhões.
Desse total, R$ 76,1 milhões aparecem em despesas relacionadas à Expoacre, Expoacre Juruá, feiras, eventos, Carnaval, festivais, festas, shows, atrações nacionais e comemorações do Dia do Trabalhador. O valor representa 44,7% de tudo o que foi pago no período.
A soma não corresponde apenas aos cachês. Também envolve palcos, tendas, sonorização, iluminação, camarotes, logística, produção, divulgação, organização dos eventos e termos de colaboração firmados com entidades privadas.
Ainda assim, o volume ajuda a compreender a prioridade assumida pela política pública.
No mesmo período, a promoção comercial recebeu R$ 85,2 milhões, enquanto a promoção industrial ficou com R$ 16,5 milhões. Para cada real destinado diretamente à promoção da indústria, mais de cinco foram aplicados na promoção comercial.
A realização de feiras não é, por si só, incompatível com uma política de desenvolvimento. Esses eventos podem abrir mercados, divulgar produtos, atrair compradores e gerar negócios.
A questão é saber quanto desse dinheiro deixa resultados permanentes para a economia acreana e quanto se encerra depois que os palcos, camarotes e demais estruturas são desmontados.
Expoacre Juruá destinou mais da metade do orçamento aos shows
O caso mais recente ajuda a compreender como esse modelo funciona.
O Integração Net obteve o Plano de Trabalho apresentado pela Associação Transformar para executar a Expoacre Juruá 2026. O documento deu origem ao Termo de Colaboração nº 01/2026, assinado com a Casa Civil, no valor global de R$ 16.648.310.
Os registros oficiais consultados pelo Integração Net mostram R$ 15.848.310 transferidos à associação para a realização do evento.
O plano reservou R$ 2,1 milhões para Leonardo, R$ 1,7 milhão para Natanzinho Lima, R$ 750 mil para Ícaro e Gilmar, R$ 650 mil para Tierry, R$ 650 mil para Padre Fábio de Melo e R$ 400 mil para a Banda Morada.
Os seis cachês somaram R$ 6,25 milhões.
Além disso, foram reservados R$ 2.448.520 para a produção e a logística dos artistas. A rubrica incluía passagens aéreas, fretamento de aeronaves, hospedagem, alimentação, transporte, camarins, excesso de bagagem, direitos autorais e outros custos operacionais.
Somados, os cachês e a logística das atrações nacionais chegaram a R$ 8.698.520.
Com a inclusão de uma atração infantil de R$ 50 mil, o conjunto destinado às apresentações e à operação dos shows alcançou R$ 8.748.520, aproximadamente 52,5% de todo o orçamento da Expoacre Juruá.
Mais da metade dos recursos previstos no plano foi destinada aos artistas nacionais e à estrutura necessária para colocá-los no palco.
Cachê de Leonardo superou o custo da estrutura geral
Toda a estrutura geral da feira, incluindo palco, tendas, camarotes, banheiros e espaços de apoio, foi orçada em R$ 1.981.440.
Somente o cachê de Leonardo, de R$ 2,1 milhões, ficou R$ 118.560 acima do valor destinado à estrutura geral do evento.
Para artistas locais e regionais, o plano reservou R$ 612.500. Os seis cachês nacionais representaram mais de dez vezes o montante separado para o conjunto das atrações locais.
Valores ficaram acima de contratos usados na comparação
O Integração Net também comparou os valores apresentados pela Associação Transformar com contratos públicos recentes dos mesmos artistas em outras partes do país.
Os cachês previstos para a Expoacre Juruá somaram R$ 6,25 milhões. As referências públicas encontradas totalizaram R$ 2,74 milhões. A diferença chegou a R$ 3,51 milhões.
O plano reservou R$ 2,1 milhões para Leonardo, enquanto uma contratação pública usada na comparação registrou R$ 800 mil.
Para Natanzinho Lima, foram previstos R$ 1,7 milhão, diante de uma referência de R$ 800 mil.
Tierry foi orçado em R$ 650 mil, enquanto outro contrato público registrou R$ 250 mil.
A diferença, isoladamente, não comprova sobrepreço. Cachês podem variar conforme data, local, duração, agenda e condições da apresentação.
Todos os valores previstos para a Expoacre Juruá, no entanto, ficaram acima das referências analisadas.
As despesas decorrentes da distância de Cruzeiro do Sul também não estavam incluídas nos cachês. O plano já possuía uma rubrica separada de R$ 2,44 milhões para transporte, hospedagem e produção.
A gratuidade termina no orçamento público
Os shows da Expoacre são apresentados como gratuitos porque o público não precisa comprar ingresso. Isso não significa que não exista custo.
Os artistas recebem cachês. As equipes recebem passagens, hospedagem, alimentação e transporte. O governo paga palco, som, iluminação, camarins, segurança, divulgação e produção.
A população não paga na bilheteria, mas paga por meio do orçamento público. Muda apenas a forma de cobrança.
O caso da Expoacre Juruá mostra o tamanho dessa conta. Mais de R$ 8,7 milhões foram reservados aos shows nacionais e à logística das atrações.
Esse modelo ajuda a explicar por que a manifestação de Ronald Polanco tem alcance maior do que a cautelar aplicada ao processo de 2026.
Ao defender uma Expoacre voltada prioritariamente à produção, aos negócios e ao desenvolvimento econômico, o conselheiro colocou em discussão uma inversão que foi normalizada ao longo dos anos: os shows deixaram de ser uma parte da feira e passaram a ocupar o centro dela.
Atrações foram anunciadas antes da suspensão
A Expoacre Rio Branco 2026 já foi divulgada com atrações como Leonardo, Natanzinho Lima, Wesley Safadão e Ana Castela. Os nomes dos artistas foram utilizados como principal chamariz da programação.
Ao mesmo tempo, o processo de R$ 22 milhões que daria suporte à execução da feira está suspenso pelo Tribunal de Contas.
O governo ainda poderá apresentar documentos, corrigir os problemas, justificar os preços ou adotar outro modelo de contratação.
A Expoacre não foi cancelada, e os shows também não foram formalmente proibidos.
A cautelar, porém, criou uma questão que o governo precisará responder: como serão mantidas as atrações já anunciadas se os repasses previstos não podem ser realizados da forma planejada?
A administração vai corrigir o procedimento, reduzir os custos, contratar os shows por outro caminho ou retirar atrações da programação?
Também poderá aproveitar a decisão do TCE para devolver à Expoacre o caráter de feira de produção, negócios e desenvolvimento econômico defendido por Ronald Polanco.
Depois de anos anunciando shows como “gratuitos”, o governo terá de explicar quem vai pagar a conta e de que forma, caso o modelo de contratação permaneça suspenso.
Foto: Voz do Norte




