O Governo do Acre pagou R$ 1,275 milhão, metade de um contrato de R$ 2,55 milhões, à Apolo Assessoria pelos shows de Leonardo e Ana Castela na Expoacre 2026, em Rio Branco. A empresa contratada é uma microempresa aberta em 2022, registrada como empresário individual e com capital social declarado de R$ 1 mil.
O empenho nº 4460010814 foi emitido pela Casa Civil em 28 de julho de 2026 e está vinculado ao Contrato CC nº 45/2026 e ao processo SEI nº 4002.008447.00852/2026-84. A execução financeira reúne os dois artistas, suas bandas, equipes técnicas e a produção artística das apresentações.
O registro não divide quanto será pago a Leonardo, quanto ficará com Ana Castela e qual parcela será destinada à produção e aos demais serviços. A íntegra do contrato também não estava disponível nos portais públicos consultados até o fechamento desta matéria.
Sem as cláusulas, permanecem sem resposta a modalidade usada na contratação, as obrigações assumidas pela Apolo Assessoria, as empresas responsáveis pela representação dos cantores e as condições que permitiram o pagamento de metade do valor antes das apresentações.
Leonardo sobe ao palco da Expoacre no domingo, 2 de agosto. Ana Castela se apresenta na quinta-feira, 6. A programação financiada pelo governo também inclui Natanzinho Lima, Padre Fábio de Melo, Wesley Safadão e Som & Louvor. Bruno & Marrone serão contratados pela iniciativa privada, com cobrança de ingressos.
A distribuição dos ingressos para os shows promovidos pelo Estado começou nesta quarta-feira, 29 de julho. Cada pessoa precisa entregar dois quilos de alimentos não perecíveis por apresentação, com limite de quatro ingressos por CPF para cada show.
Nos dias 29 e 30 de julho, a troca ocorre em frente ao Palácio Rio Branco, das 8h às 20h. A partir de 31 de julho, os ingressos também serão distribuídos em supermercados parceiros. Os alimentos serão entregues a instituições sociais e famílias em situação de vulnerabilidade.
A doação de alimentos não paga os artistas. Os cachês e as demais despesas das apresentações organizadas pelo governo continuam sendo bancados com recursos públicos.
A contratação direta dos shows começou após o Tribunal de Contas do Estado suspender o modelo inicialmente planejado para a Expoacre. A Casa Civil pretendia repassar cerca de R$ 22 milhões a organizações da sociedade civil para executar diferentes partes da feira.
O Chamamento Público nº 002/2026 terminou sem interessados. Depois disso, o governo abriu procedimentos de dispensa de chamamento para escolher as entidades responsáveis pelos serviços.
Em 23 de julho, o TCE suspendeu os atos relacionados às organizações. A área técnica apontou restrição à competitividade, falta de estudos para comprovar os custos e falhas no planejamento. A decisão não impediu a realização da Expoacre, mas bloqueou o modelo de transferência dos recursos às entidades.
Após a cautelar, o chefe da Casa Civil, Cristovam Pontes, anunciou que o governo não recorreria à Justiça e faria as contratações diretamente. “Trabalhamos todo o final de semana para entregar os contratos e os processos prontos para que hoje a gente estivesse aqui anunciando os shows e os eventos”, declarou durante o lançamento da Expoacre.
O empenho de R$ 2,55 milhões para a Apolo Assessoria é o primeiro registro financeiro conhecido dessa nova forma de contratação. O valor também abre uma diferença que precisa ser explicada quando comparado ao orçamento elaborado para a Expoacre Juruá.
No Plano de Trabalho da Associação Transformar, a Casa Civil havia reservado R$ 2,1 milhões apenas para o show de Leonardo em Cruzeiro do Sul. Transporte, hospedagem, alimentação, passagens e produção das atrações nacionais estavam separados em outra despesa, de R$ 2,44 milhões.
Em Rio Branco, Leonardo e Ana Castela foram reunidos em um contrato de R$ 2,55 milhões, com bandas, equipes técnicas e produção artística. O valor é R$ 450 mil maior que os R$ 2,1 milhões reservados anteriormente para Leonardo sozinho no Juruá, uma diferença de 21,4%.
Os dois orçamentos não podem ser tratados como idênticos. Datas, locais, logística, duração dos shows e obrigações contratuais podem alterar os preços. Ainda assim, a Casa Civil precisa explicar por que o planejamento do Juruá destinava R$ 2,1 milhões apenas a Leonardo, com a logística separada, enquanto o contrato de Rio Branco reúne Leonardo, Ana Castela, bandas, equipes e produção por R$ 2,55 milhões.
Contratos firmados por outras administrações públicas também permitem comparar os valores. Em 2025, a Prefeitura de Princesa Isabel, na Paraíba, contratou Leonardo e sua empresa representante por R$ 800 mil. Em 2026, Ana Castela foi contratada por R$ 850 mil em Bauru e por R$ 900 mil em Cascavel, no Ceará.
Somadas, essas referências ficam entre R$ 1,65 milhão e R$ 1,7 milhão. O contrato do Acre supera esses valores entre R$ 850 mil e R$ 900 mil, diferença próxima de 50%.
Os preços não precisam ser iguais. Agenda, data, transporte, estrutura, duração da apresentação, distância e responsabilidades assumidas podem aumentar ou reduzir o custo. Para permitir uma comparação correta, a Casa Civil precisa publicar as propostas comerciais, os documentos usados como referência, as notas fiscais apresentadas para justificar os preços e a divisão dos R$ 2,55 milhões.
O valor conhecido ainda não representa o custo total dos shows da Expoacre. Até o fechamento desta matéria, não haviam sido identificados contratos financeiros em nome de Natanzinho Lima, Padre Fábio de Melo, Wesley Safadão ou Som & Louvor.
A despesa final dependerá desses quatro contratos e de possíveis pagamentos por palco, iluminação, som, geradores, segurança, camarins, transporte, alimentação e hospedagem.
A empresa que recebeu os R$ 1,275 milhão tem como razão social Kayque Cardoso de Souza e usa o nome fantasia Apolo Assessoria. O CNPJ 44.887.790/0001-44 foi aberto em 17 de janeiro de 2022, em São Paulo. A Apolo está registrada como empresário individual, enquadrada como microempresa e possui capital social declarado de R$ 1 mil. O valor corresponde a 0,08% dos R$ 1,275 milhão já pagos pelo Governo do Acre e a 0,04% do contrato total de R$ 2,55 milhões.
O endereço cadastrado fica na Rua Gonçalo da Costa, nº 46, sala 2, na Vila Santa Edwiges, em São Paulo. A atividade principal informada no cadastro empresarial é consultoria em gestão empresarial. A empresa também possui atividades secundárias ligadas à organização de eventos e à produção musical.
Não foram encontrados outros contratos públicos de valor semelhante vinculados ao mesmo CNPJ, nem registros públicos que comprovem a relação da Apolo com a Talismã Administradora de Shows, representante de Leonardo, ou com a Boiadeira Music, responsável pela carreira de Ana Castela.
O baixo capital social não impede uma empresa de contratar com o poder público e não comprova incapacidade financeira ou irregularidade. O dado, porém, aumenta a necessidade de o governo apresentar as garantias exigidas, a experiência da contratada, sua capacidade de executar o serviço e os vínculos formais com os artistas.
Também falta esclarecer se os R$ 1,275 milhão foram pagos como antecipação contratual, quais garantias o Estado exigiu antes de liberar o dinheiro e quando serão publicados o Contrato CC nº 45/2026 e os documentos usados para justificar o preço.