Expoacre 2026 empenha R$ 3,4 milhões em novos shows e eleva pagamento de Leonardo e Ana Castela a R$ 1,9 milhão

Wesley Safadão, Natanzinho Lima e Som e Louvor concentram os novos empenhos; Instituto Novo Amanhã teve outros R$ 1,57 milhão liquidados pela Secretaria de Agricultura.

O Governo do Acre empenhou R$ 3,4 milhões para contratar três novas atrações da Expoacre 2026, em Rio Branco, e pagou mais R$ 637,5 mil pelo contrato conjunto dos shows de Leonardo e Ana Castela. Os lançamentos entraram no Portal da Transparência em 31 de julho e foram consultados neste sábado, 1º de agosto. A mesma atualização registra R$ 1,57 milhão liquidado para o Instituto Novo Amanhã organizar a Feira da Agricultura Familiar dentro da exposição.

Os três novos empenhos foram emitidos pela Casa Civil. Wesley Safadão foi contratado por R$ 1,8 milhão para o show de 5 de agosto. Natanzinho Lima receberá R$ 1,3 milhão pela apresentação marcada para 3 de agosto. A Banda Som e Louvor foi contratada por R$ 300 mil para subir ao palco em 7 de agosto.

Até a consulta realizada neste sábado, os R$ 3,4 milhões estavam empenhados, mas ainda não constavam como liquidados ou pagos. O empenho representa a reserva do recurso para cumprir a obrigação assumida pelo governo. A liquidação ocorre após a conferência do serviço ou das condições previstas no contrato, enquanto o pagamento corresponde à transferência efetiva do dinheiro.

O contrato de Natanzinho Lima em Rio Branco ficou R$ 400 mil abaixo do valor previsto para o mesmo artista na Expoacre Juruá. No plano de trabalho executado pela Associação Transformar, a apresentação realizada em Cruzeiro do Sul, em 30 de junho, foi orçada em R$ 1,7 milhão.

O orçamento do Juruá ficou 30,8% acima dos R$ 1,3 milhão contratados na capital. Na comparação inversa, o valor de Rio Branco foi 23,5% menor que o previsto para Cruzeiro do Sul.

Mesmo abaixo do orçamento da Expoacre Juruá, o contrato firmado em Rio Branco supera contratações públicas do cantor localizadas em outras cidades em 2026. Pedra Branca, na Paraíba, e Marabá, no Pará, registraram R$ 850 mil por apresentação.

A contratação acreana ficou R$ 450 mil acima desses dois contratos, diferença de 52,9%. Já os R$ 1,7 milhão previstos no plano da Expoacre Juruá correspondem ao dobro dos R$ 850 mil contratados nos outros municípios.

Wesley Safadão recebeu o maior empenho entre as três novas atrações: R$ 1,8 milhão. O valor também supera contratos públicos firmados pelo artista em outros municípios neste ano.

Em Tefé, no Amazonas, o cantor foi contratado por R$ 1,2 milhão para a Festa da Castanha, em contrato assinado em 27 de março. Em Itaitinga, no Ceará, a contratação publicada em março foi de R$ 1,3 milhão. Ourilândia do Norte, no Pará, reservou R$ 1,4 milhão para uma apresentação prevista para novembro.

O contrato da Expoacre supera o valor de Tefé em R$ 600 mil, diferença de 50%. Em relação a Itaitinga, o acréscimo foi de R$ 500 mil, ou 38,5%. Na comparação com Ourilândia do Norte, a diferença chegou a R$ 400 mil, equivalente a 28,6%.

A Banda Som e Louvor foi contratada pelo Governo do Acre por R$ 300 mil. Em Cascavel, no Ceará, um contrato publicado em 20 de julho fixou R$ 240 mil para uma apresentação marcada para 15 de agosto.

A diferença entre os dois contratos é de R$ 60 mil. O valor empenhado para a Expoacre ficou 25% acima do registrado no município cearense.

Além das novas contratações, a Casa Civil pagou mais R$ 637,5 mil pelo Contrato CC nº 45/2026, firmado com a empresa Apolo Assessoria para as apresentações de Leonardo e Ana Castela.

O Portal da Transparência registrava anteriormente R$ 1,275 milhão pago. Com o novo lançamento, o total transferido chegou a R$ 1.912.500, equivalente a 75% do contrato, fechado em R$ 2,55 milhões.

Os R$ 637,5 mil restantes ainda não constavam como liquidados ou pagos. Como o contrato reúne os dois artistas e o registro financeiro não separa os cachês, não é possível estabelecer quanto foi destinado a Leonardo e quanto corresponde à apresentação de Ana Castela.

Na Expoacre Juruá, o cachê de Leonardo foi previsto separadamente em R$ 2,1 milhões. A comparação com Rio Branco exige cautela porque, na capital, os R$ 2,55 milhões cobrem duas apresentações. O plano do Juruá também reservou, em outro item, R$ 2.448.520 para a produção e a logística do conjunto de atrações.

A atualização de 31 de julho também incluiu um empenho de R$ 1,57 milhão da Secretaria de Estado de Agricultura para o Instituto Novo Amanhã. O recurso será usado na realização da Feira da Agricultura Familiar dentro da Expoacre 2026.

A parceria está ligada ao Edital de Chamamento Público nº 04/2026 da Seagri e ao Processo SEI nº 0853.013719.00255/2026-06. O valor foi integralmente liquidado, mas ainda não aparecia como pago. A liquidação representa o reconhecimento, pelo órgão público, do direito da entidade ao recebimento após a conferência dos documentos e das condições previstas na parceria.

O Instituto Novo Amanhã já havia sido escolhido para receber R$ 8,106 milhões em outro eixo da Expoacre. Em 16 de julho, a Casa Civil publicou uma justificativa para destinar esse valor à entidade, responsável pela infraestrutura, logística e operação da arena.

A quantia fazia parte de um conjunto de R$ 22 milhões que a Casa Civil pretendia repassar a três organizações da sociedade civil depois de declarar deserto o Chamamento Público nº 002/2026.

Em 23 de julho, o plenário do Tribunal de Contas do Estado do Acre manteve, por unanimidade, uma medida cautelar que suspendeu a assinatura dos instrumentos, as transferências e os pagamentos relacionados ao procedimento conduzido pela Casa Civil.

O empenho de R$ 1,57 milhão lançado agora pertence a outro órgão, outro edital, outro processo administrativo e outro objeto. Não há, no registro financeiro consultado, elemento que permita incluir automaticamente a parceria da Secretaria de Agricultura na cautelar aplicada ao chamamento da Casa Civil.

Os dois procedimentos precisam ser tratados separadamente. O primeiro envolve R$ 8,106 milhões destinados à infraestrutura e à operação da feira e permanece alcançado pela suspensão do TCE-AC. O segundo destina R$ 1,57 milhão à Feira da Agricultura Familiar, foi conduzido pela Seagri e teve o valor integralmente liquidado em 31 de julho.

Governo paga metade de contrato de R$ 2,55 milhões por shows de Leonardo e Ana Castela

O Governo do Acre pagou R$ 1,275 milhão, metade de um contrato de R$ 2,55 milhões, à Apolo Assessoria pelos shows de Leonardo e Ana Castela na Expoacre 2026, em Rio Branco. A empresa contratada é uma microempresa aberta em 2022, registrada como empresário individual e com capital social declarado de R$ 1 mil.

O empenho nº 4460010814 foi emitido pela Casa Civil em 28 de julho de 2026 e está vinculado ao Contrato CC nº 45/2026 e ao processo SEI nº 4002.008447.00852/2026-84. A execução financeira reúne os dois artistas, suas bandas, equipes técnicas e a produção artística das apresentações.

O registro não divide quanto será pago a Leonardo, quanto ficará com Ana Castela e qual parcela será destinada à produção e aos demais serviços. A íntegra do contrato também não estava disponível nos portais públicos consultados até o fechamento desta matéria.

Sem as cláusulas, permanecem sem resposta a modalidade usada na contratação, as obrigações assumidas pela Apolo Assessoria, as empresas responsáveis pela representação dos cantores e as condições que permitiram o pagamento de metade do valor antes das apresentações.

Leonardo sobe ao palco da Expoacre no domingo, 2 de agosto. Ana Castela se apresenta na quinta-feira, 6. A programação financiada pelo governo também inclui Natanzinho Lima, Padre Fábio de Melo, Wesley Safadão e Som & Louvor. Bruno & Marrone serão contratados pela iniciativa privada, com cobrança de ingressos.

A distribuição dos ingressos para os shows promovidos pelo Estado começou nesta quarta-feira, 29 de julho. Cada pessoa precisa entregar dois quilos de alimentos não perecíveis por apresentação, com limite de quatro ingressos por CPF para cada show.

Nos dias 29 e 30 de julho, a troca ocorre em frente ao Palácio Rio Branco, das 8h às 20h. A partir de 31 de julho, os ingressos também serão distribuídos em supermercados parceiros. Os alimentos serão entregues a instituições sociais e famílias em situação de vulnerabilidade.

A doação de alimentos não paga os artistas. Os cachês e as demais despesas das apresentações organizadas pelo governo continuam sendo bancados com recursos públicos.

A contratação direta dos shows começou após o Tribunal de Contas do Estado suspender o modelo inicialmente planejado para a Expoacre. A Casa Civil pretendia repassar cerca de R$ 22 milhões a organizações da sociedade civil para executar diferentes partes da feira.

O Chamamento Público nº 002/2026 terminou sem interessados. Depois disso, o governo abriu procedimentos de dispensa de chamamento para escolher as entidades responsáveis pelos serviços.

Em 23 de julho, o TCE suspendeu os atos relacionados às organizações. A área técnica apontou restrição à competitividade, falta de estudos para comprovar os custos e falhas no planejamento. A decisão não impediu a realização da Expoacre, mas bloqueou o modelo de transferência dos recursos às entidades.

Após a cautelar, o chefe da Casa Civil, Cristovam Pontes, anunciou que o governo não recorreria à Justiça e faria as contratações diretamente. “Trabalhamos todo o final de semana para entregar os contratos e os processos prontos para que hoje a gente estivesse aqui anunciando os shows e os eventos”, declarou durante o lançamento da Expoacre.

O empenho de R$ 2,55 milhões para a Apolo Assessoria é o primeiro registro financeiro conhecido dessa nova forma de contratação. O valor também abre uma diferença que precisa ser explicada quando comparado ao orçamento elaborado para a Expoacre Juruá.

No Plano de Trabalho da Associação Transformar, a Casa Civil havia reservado R$ 2,1 milhões apenas para o show de Leonardo em Cruzeiro do Sul. Transporte, hospedagem, alimentação, passagens e produção das atrações nacionais estavam separados em outra despesa, de R$ 2,44 milhões.

Em Rio Branco, Leonardo e Ana Castela foram reunidos em um contrato de R$ 2,55 milhões, com bandas, equipes técnicas e produção artística. O valor é R$ 450 mil maior que os R$ 2,1 milhões reservados anteriormente para Leonardo sozinho no Juruá, uma diferença de 21,4%.

Os dois orçamentos não podem ser tratados como idênticos. Datas, locais, logística, duração dos shows e obrigações contratuais podem alterar os preços. Ainda assim, a Casa Civil precisa explicar por que o planejamento do Juruá destinava R$ 2,1 milhões apenas a Leonardo, com a logística separada, enquanto o contrato de Rio Branco reúne Leonardo, Ana Castela, bandas, equipes e produção por R$ 2,55 milhões.

Contratos firmados por outras administrações públicas também permitem comparar os valores. Em 2025, a Prefeitura de Princesa Isabel, na Paraíba, contratou Leonardo e sua empresa representante por R$ 800 mil. Em 2026, Ana Castela foi contratada por R$ 850 mil em Bauru e por R$ 900 mil em Cascavel, no Ceará.

Somadas, essas referências ficam entre R$ 1,65 milhão e R$ 1,7 milhão. O contrato do Acre supera esses valores entre R$ 850 mil e R$ 900 mil, diferença próxima de 50%.

Os preços não precisam ser iguais. Agenda, data, transporte, estrutura, duração da apresentação, distância e responsabilidades assumidas podem aumentar ou reduzir o custo. Para permitir uma comparação correta, a Casa Civil precisa publicar as propostas comerciais, os documentos usados como referência, as notas fiscais apresentadas para justificar os preços e a divisão dos R$ 2,55 milhões.

O valor conhecido ainda não representa o custo total dos shows da Expoacre. Até o fechamento desta matéria, não haviam sido identificados contratos financeiros em nome de Natanzinho Lima, Padre Fábio de Melo, Wesley Safadão ou Som & Louvor.

A despesa final dependerá desses quatro contratos e de possíveis pagamentos por palco, iluminação, som, geradores, segurança, camarins, transporte, alimentação e hospedagem.

A empresa que recebeu os R$ 1,275 milhão tem como razão social Kayque Cardoso de Souza e usa o nome fantasia Apolo Assessoria. O CNPJ 44.887.790/0001-44 foi aberto em 17 de janeiro de 2022, em São Paulo. A Apolo está registrada como empresário individual, enquadrada como microempresa e possui capital social declarado de R$ 1 mil. O valor corresponde a 0,08% dos R$ 1,275 milhão já pagos pelo Governo do Acre e a 0,04% do contrato total de R$ 2,55 milhões.

O endereço cadastrado fica na Rua Gonçalo da Costa, nº 46, sala 2, na Vila Santa Edwiges, em São Paulo. A atividade principal informada no cadastro empresarial é consultoria em gestão empresarial. A empresa também possui atividades secundárias ligadas à organização de eventos e à produção musical.

Não foram encontrados outros contratos públicos de valor semelhante vinculados ao mesmo CNPJ, nem registros públicos que comprovem a relação da Apolo com a Talismã Administradora de Shows, representante de Leonardo, ou com a Boiadeira Music, responsável pela carreira de Ana Castela.

O baixo capital social não impede uma empresa de contratar com o poder público e não comprova incapacidade financeira ou irregularidade. O dado, porém, aumenta a necessidade de o governo apresentar as garantias exigidas, a experiência da contratada, sua capacidade de executar o serviço e os vínculos formais com os artistas.

Também falta esclarecer se os R$ 1,275 milhão foram pagos como antecipação contratual, quais garantias o Estado exigiu antes de liberar o dinheiro e quando serão publicados o Contrato CC nº 45/2026 e os documentos usados para justificar o preço.

Expoacre 2026 é lançada em Rio Branco; Mailza garante realização dos shows

O governo do Acre lançou oficialmente, nesta terça-feira, 28 de julho, a programação da Expoacre 2026 e confirmou a manutenção dos shows nacionais. A apresentação ocorreu no Galpão do Empreendedorismo, no Parque de Exposições Wildy Viana, em Rio Branco, onde a feira será realizada entre os dias 1º e 9 de agosto.

Durante o lançamento, a governadora Mailza Assis afastou as dúvidas sobre a realização das atrações após a suspensão de contratos pelo Tribunal de Contas do Estado do Acre. “Vai ter Expoacre e todos os shows gratuitos, sim”, afirmou.

A programação musical terá Leonardo, Natanzinho Lima, Padre Fábio de Melo, Wesley Safadão, Ana Castela, a banda Som & Louvor e a dupla Bruno & Marrone. As apresentações serão distribuídas ao longo dos nove dias de feira, com início previsto para as 22h no palco principal.

O secretário-chefe da Casa Civil, Cristovam Pontes de Moura, explicou que o governo alterou o modelo jurídico usado na organização da Expoacre. A administração estadual desistiu de recorrer à Justiça contra a decisão do TCE e substituiu os acordos com organizações da sociedade civil por contratações feitas diretamente pela Casa Civil.

A mudança foi definida com apoio da Procuradoria-Geral do Estado. As equipes trabalharam durante o fim de semana para reorganizar os processos administrativos e garantir a continuidade da programação. “O formato dos shows e o formato do evento serão idênticos ao do ano passado”, declarou Cristovam.

Os shows terão ingressos solidários. A primeira etapa de troca começa nesta quarta-feira, 29, e continua na quinta-feira, 30, em tendas montadas em frente ao Palácio Rio Branco. O atendimento será realizado das 8h às 20h, mediante a entrega de dois quilos de alimentos não perecíveis. Depois desse período, a distribuição continuará em supermercados credenciados da capital.

Os primeiros ingressos disponibilizados serão para as apresentações de Leonardo, marcada para domingo, 2 de agosto, e Natanzinho Lima, na segunda-feira, 3. A organização divulgará os demais pontos de troca e as datas de distribuição das entradas para os outros shows.

Além das atrações musicais, a Expoacre 2026 terá cavalgada, rodeio, vaquejada, motocross, exposição de animais, gastronomia, agricultura familiar e espaços destinados ao comércio, à indústria e aos serviços. A abertura ocorre no sábado, 1º de agosto, com a tradicional Cavalgada.

Após ação do TCE, como ficam os shows “grátis” da Expoacre 2026?

Ao votar pela suspensão dos atos relacionados à contratação da Expoacre 2026, o conselheiro Ronald Polanco foi além das falhas encontradas no processo de R$ 22 milhões conduzido pela Casa Civil. Em sua manifestação, defendeu que a principal feira do Acre seja voltada prioritariamente à produção, aos negócios e ao desenvolvimento econômico, em vez de ter sua identidade reduzida à contratação de grandes atrações musicais.

A medida cautelar aprovada nesta quinta-feira, 23, impede, por enquanto, a assinatura das parcerias, os repasses de recursos e os pagamentos previstos no procedimento. O Tribunal de Contas do Estado apontou problemas no planejamento, na justificativa dos valores, na concorrência e na definição dos serviços que seriam executados.

Os detalhes da decisão já foram apresentados pelo Integração Net. A questão que permanece agora é outra: o que a suspensão representa para um evento cuja divulgação foi construída principalmente em torno de shows anunciados como “gratuitos”?

A feira passou a ser divulgada pelos shows

Nos últimos anos, o governo do Acre consolidou um modelo em que a Expoacre deixou de ser divulgada principalmente como uma vitrine da produção rural, industrial e comercial. A feira passou a ser apresentada ao público pela programação de artistas nacionais.

Primeiro são anunciados os cantores. Depois aparecem os discursos sobre produção, negócios, inovação e fortalecimento da economia.

As apurações realizadas pelo Integração Net mostram que esse formato não se limita à estratégia de comunicação. Ele também aparece na distribuição dos recursos públicos.

Entre 2022 e 7 de julho de 2026, as estruturas estaduais responsáveis pelas áreas de indústria, ciência, tecnologia, comércio e turismo pagaram R$ 170,4 milhões.

Desse total, R$ 76,1 milhões aparecem em despesas relacionadas à Expoacre, Expoacre Juruá, feiras, eventos, Carnaval, festivais, festas, shows, atrações nacionais e comemorações do Dia do Trabalhador. O valor representa 44,7% de tudo o que foi pago no período.

A soma não corresponde apenas aos cachês. Também envolve palcos, tendas, sonorização, iluminação, camarotes, logística, produção, divulgação, organização dos eventos e termos de colaboração firmados com entidades privadas.

Ainda assim, o volume ajuda a compreender a prioridade assumida pela política pública.

No mesmo período, a promoção comercial recebeu R$ 85,2 milhões, enquanto a promoção industrial ficou com R$ 16,5 milhões. Para cada real destinado diretamente à promoção da indústria, mais de cinco foram aplicados na promoção comercial.

A realização de feiras não é, por si só, incompatível com uma política de desenvolvimento. Esses eventos podem abrir mercados, divulgar produtos, atrair compradores e gerar negócios.

A questão é saber quanto desse dinheiro deixa resultados permanentes para a economia acreana e quanto se encerra depois que os palcos, camarotes e demais estruturas são desmontados.

Expoacre Juruá destinou mais da metade do orçamento aos shows

O caso mais recente ajuda a compreender como esse modelo funciona.

O Integração Net obteve o Plano de Trabalho apresentado pela Associação Transformar para executar a Expoacre Juruá 2026. O documento deu origem ao Termo de Colaboração nº 01/2026, assinado com a Casa Civil, no valor global de R$ 16.648.310.

Os registros oficiais consultados pelo Integração Net mostram R$ 15.848.310 transferidos à associação para a realização do evento.

O plano reservou R$ 2,1 milhões para Leonardo, R$ 1,7 milhão para Natanzinho Lima, R$ 750 mil para Ícaro e Gilmar, R$ 650 mil para Tierry, R$ 650 mil para Padre Fábio de Melo e R$ 400 mil para a Banda Morada.

Os seis cachês somaram R$ 6,25 milhões.

Além disso, foram reservados R$ 2.448.520 para a produção e a logística dos artistas. A rubrica incluía passagens aéreas, fretamento de aeronaves, hospedagem, alimentação, transporte, camarins, excesso de bagagem, direitos autorais e outros custos operacionais.

Somados, os cachês e a logística das atrações nacionais chegaram a R$ 8.698.520.

Com a inclusão de uma atração infantil de R$ 50 mil, o conjunto destinado às apresentações e à operação dos shows alcançou R$ 8.748.520, aproximadamente 52,5% de todo o orçamento da Expoacre Juruá.

Mais da metade dos recursos previstos no plano foi destinada aos artistas nacionais e à estrutura necessária para colocá-los no palco.

Cachê de Leonardo superou o custo da estrutura geral

Toda a estrutura geral da feira, incluindo palco, tendas, camarotes, banheiros e espaços de apoio, foi orçada em R$ 1.981.440.

Somente o cachê de Leonardo, de R$ 2,1 milhões, ficou R$ 118.560 acima do valor destinado à estrutura geral do evento.

Para artistas locais e regionais, o plano reservou R$ 612.500. Os seis cachês nacionais representaram mais de dez vezes o montante separado para o conjunto das atrações locais.

Valores ficaram acima de contratos usados na comparação

O Integração Net também comparou os valores apresentados pela Associação Transformar com contratos públicos recentes dos mesmos artistas em outras partes do país.

Os cachês previstos para a Expoacre Juruá somaram R$ 6,25 milhões. As referências públicas encontradas totalizaram R$ 2,74 milhões. A diferença chegou a R$ 3,51 milhões.

O plano reservou R$ 2,1 milhões para Leonardo, enquanto uma contratação pública usada na comparação registrou R$ 800 mil.

Para Natanzinho Lima, foram previstos R$ 1,7 milhão, diante de uma referência de R$ 800 mil.

Tierry foi orçado em R$ 650 mil, enquanto outro contrato público registrou R$ 250 mil.

A diferença, isoladamente, não comprova sobrepreço. Cachês podem variar conforme data, local, duração, agenda e condições da apresentação.

Todos os valores previstos para a Expoacre Juruá, no entanto, ficaram acima das referências analisadas.

As despesas decorrentes da distância de Cruzeiro do Sul também não estavam incluídas nos cachês. O plano já possuía uma rubrica separada de R$ 2,44 milhões para transporte, hospedagem e produção.

A gratuidade termina no orçamento público

Os shows da Expoacre são apresentados como gratuitos porque o público não precisa comprar ingresso. Isso não significa que não exista custo.

Os artistas recebem cachês. As equipes recebem passagens, hospedagem, alimentação e transporte. O governo paga palco, som, iluminação, camarins, segurança, divulgação e produção.

A população não paga na bilheteria, mas paga por meio do orçamento público. Muda apenas a forma de cobrança.

O caso da Expoacre Juruá mostra o tamanho dessa conta. Mais de R$ 8,7 milhões foram reservados aos shows nacionais e à logística das atrações.

Esse modelo ajuda a explicar por que a manifestação de Ronald Polanco tem alcance maior do que a cautelar aplicada ao processo de 2026.

Ao defender uma Expoacre voltada prioritariamente à produção, aos negócios e ao desenvolvimento econômico, o conselheiro colocou em discussão uma inversão que foi normalizada ao longo dos anos: os shows deixaram de ser uma parte da feira e passaram a ocupar o centro dela.

Atrações foram anunciadas antes da suspensão

A Expoacre Rio Branco 2026 já foi divulgada com atrações como Leonardo, Natanzinho Lima, Wesley Safadão e Ana Castela. Os nomes dos artistas foram utilizados como principal chamariz da programação.

Ao mesmo tempo, o processo de R$ 22 milhões que daria suporte à execução da feira está suspenso pelo Tribunal de Contas.

O governo ainda poderá apresentar documentos, corrigir os problemas, justificar os preços ou adotar outro modelo de contratação.

A Expoacre não foi cancelada, e os shows também não foram formalmente proibidos.

A cautelar, porém, criou uma questão que o governo precisará responder: como serão mantidas as atrações já anunciadas se os repasses previstos não podem ser realizados da forma planejada?

A administração vai corrigir o procedimento, reduzir os custos, contratar os shows por outro caminho ou retirar atrações da programação?

Também poderá aproveitar a decisão do TCE para devolver à Expoacre o caráter de feira de produção, negócios e desenvolvimento econômico defendido por Ronald Polanco.

Depois de anos anunciando shows como “gratuitos”, o governo terá de explicar quem vai pagar a conta e de que forma, caso o modelo de contratação permaneça suspenso.

Foto: Voz do Norte

Show grátis? Casa Civil repassa R$ 15,8 milhões para organização da Expoacre Juruá 2026

A entrada para os shows da Expoacre Juruá 2026 não custou dinheiro ao público que atravessou os portões do parque, mas a programação foi sustentada por um orçamento de R$ 16.648.310,00 bancado com recursos estaduais. O Plano de Trabalho ligado ao Termo de Colaboração CC/SECC nº 01/2026, firmado entre a Casa Civil do Governo Mailza Cameli e a Associação Transformar, distribuiu esse dinheiro entre artistas nacionais, logística aérea, montagem de estruturas, segurança privada, divulgação, alimentação, atrações regionais e despesas administrativas.

O planejamento financeiro revela o tamanho da engrenagem montada para realizar a feira em Cruzeiro do Sul. Mais da metade de todo o orçamento ficou concentrada nos shows nacionais e nos serviços necessários para transportar, hospedar, alimentar e colocar os artistas no palco. Enquanto o público acompanhava as apresentações sem pagar ingresso, o Estado assumia uma conta milionária que ultrapassava os cachês e alcançava cada etapa da operação.

A Casa Civil já transferiu R$ 15.848.310,00 para a Associação Transformar, conforme registros encontrados na base oficial de pagamentos. O valor global publicado no Diário Oficial, porém, pode chegar a R$ 16.648.310,00. A diferença de R$ 800 mil ainda não está lançada no portal transparência.

Segundo o plano de trabalho apresentado, dos R$ 16,6 milhões previstos, R$ 8.748.520,00 foram destinados às atrações nacionais e à operação dos shows. O montante representa aproximadamente 52,5% de todo o orçamento da Expoacre Juruá.

Os cachês previstos somam R$ 6,3 milhões. Leonardo aparece com a maior contratação individual, no valor de R$ 2,1 milhões. Natanzinho Lima vem em seguida, com R$ 1,7 milhão. A dupla Ícaro e Gilmar teve R$ 750 mil reservados, enquanto Tierry e Padre Fábio de Melo aparecem com R$ 650 mil cada. A Banda Morada recebeu previsão de R$ 400 mil, e uma atração infantil foi orçada em R$ 50 mil.

A conta dos shows não terminou nos palcos. Outros R$ 2.448.520,00 foram reservados para uma empresa encarregada da produção e da logística das atrações nacionais. Nesse pacote estão passagens aéreas, fretamento de aeronaves, excesso de bagagem, hospedagem, alimentação, camarins, aluguel de vans, veículos exclusivos para os artistas, pagamento de direitos autorais ao Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o Ecad, e outros custos operacionais.

O gasto previsto apenas com Leonardo, de R$ 2,1 milhões, supera individualmente todo o orçamento destinado à estrutura geral da feira, calculado em R$ 1.981.440,00. Essa estrutura reúne palco, tendas, camarotes, banheiros, áreas técnicas, espaços de apoio e bastidores. A comparação ajuda a dimensionar o peso das atrações nacionais dentro do planejamento financeiro do evento.

A segurança privada recebeu previsão de R$ 1.701.000,00. A divulgação institucional e promocional ficou com R$ 1.091.000,00. Para artistas locais e regionais, o plano separou R$ 612.500,00, menos de 10% do valor reservado aos cachês nacionais.

A distância entre os dois grupos aparece de forma ainda mais clara quando os números são colocados lado a lado. Os R$ 6,3 milhões previstos para sete atrações nacionais equivalem a mais de dez vezes os R$ 612,5 mil destinados ao conjunto de artistas locais e regionais. 

O planejamento também separou R$ 566 mil para a montagem de um espaço institucional destinado à recepção de autoridades e convidados. A estrutura incluía tendas, pisos, decoração temática, mobiliário e a organização de uma ceia institucional. Embora o espaço não seja chamado de gabinete, sua descrição mostra uma área oficial preparada para atividades institucionais durante a feira. 

Outros R$ 472 mil foram previstos para fornecer alimentação às forças de segurança e aos servidores mobilizados para o evento. Material gráfico, credenciais, uniformes e peças de malharia consumiriam R$ 444.500,00. A cavalgada recebeu orçamento de R$ 283.150,00, enquanto o evento esportivo Nauas Combat ficou com R$ 280 mil.

O lançamento oficial da Expoacre Juruá teve previsão de R$ 198.200,00. Vale lembrar como foi essa festa: O churrasco de lançamento da 21ª Expoacre Juruá aconteceu no dia 13 de junho em Cruzeiro do Sul, marcando o início das festividades. A celebração gastronômica processou cerca de uma tonelada de proteína para atender o público.

A taxa administrativa da Associação Transformar foi fixada em R$ 200 mil. O serviço de interpretação em Libras durante os shows recebeu R$ 45 mil, e a organização do estacionamento, R$ 25 mil.

A distribuição dos recursos mostra que a feira foi concebida como uma operação que atravessou várias áreas do governo e do setor privado. 

O Plano de Trabalho colocou entre as metas da parceria o pagamento dos cachês das atrações nacionais, a contratação dos artistas regionais e a contratação da empresa responsável pela logística dos shows. Esse compromisso ganhou outra dimensão depois que artistas e prestadores passaram a reclamar de atrasos.

Mensagens compartilhadas em um grupo de WhatsApp ligado à Expoacre Juruá afirmavam que, dez dias depois da feira, artistas que haviam trabalhado no evento ainda não tinham recebido. As reclamações chegaram ao Grupo Integração na terça-feira, 14. Depois que a apuração começou e pessoas ligadas à organização foram procuradas, comprovantes de transferências via Pix passaram a circular com a informação de que os pagamentos estavam sendo realizados.

A sequência dos acontecimentos abre uma pergunta objetiva: por que artistas e prestadores relataram falta de pagamento depois de a Casa Civil já ter transferido R$ 15,8 milhões para a entidade responsável pela execução da feira?

A responsabilidade pela administração desse orçamento milionário ficou com uma entidade de estrutura permanente enxuta. No cadastro inserido no Plano de Trabalho, a Associação Transformar declarou possuir duas salas, um banheiro, dois computadores e um telefone celular. A equipe técnica permanente era formada por três pessoas: presidente, secretária e tesoureiro.

Com essa estrutura, a associação assumiu a execução de um projeto de R$ 16,6 milhões, que envolvia artistas de projeção nacional, voos fretados, montagem de palco, camarotes, segurança privada, alimentação, divulgação, eventos esportivos, contratação de fornecedores e prestação de contas ao poder público.

A parceria autorizou a contratação de empresas terceirizadas para executar os serviços, desde que houvesse cotação e escolha da proposta de menor preço compatível com as condições técnicas exigidas.

Essa permissão ajuda a entender por que empresas privadas podem ter atuado na Expoacre Juruá sem aparecer como recebedoras diretas dos pagamentos feitos pela Casa Civil. O dinheiro foi transferido para a Associação Transformar, que poderia repassá-lo a fornecedores contratados para montar estruturas, transportar artistas, divulgar o evento, prestar segurança e executar outros serviços.

Os shows foram gratuitos apenas no momento em que o público entrou no parque. A conta existiu, foi milionária e saiu do orçamento público. Cada música apresentada no palco carregava custos que começavam no cachê do artista, passavam por aviões, hotéis, alimentação, veículos, camarins, segurança e direitos autorais, até alcançar a estrutura montada para receber milhares de pessoas.