Acre

Leitor acusou Integração de ser tendencioso; mas dados mostram que só 9% de Fundo foram para a indústria

Um comentário publicado por um leitor nas redes sociais levou o Grupo Integração a ampliar a apuração sobre os investimentos do governo Gladson Cameli e Mailza Assis na indústria acreana. A crítica afirmava que a reportagem anterior seria “tendenciosa” por não considerar os recursos do Fundo de Desenvolvimento Sustentável do Acre (FDS) e sustentava que apenas esse fundo teria investido mais de R$ 20 milhões na indústria em 2025. A nova análise incluiu todos os pagamentos do FDS entre 2019 e 9 de julho de 2026. O resultado não confirmou a afirmação. No período inteiro, o fundo pagou R$ 17,25 milhões. Desse total, cerca de R$ 1,55 milhão, aproximadamente 9%, aparece diretamente ligado a planejamento industrial, equipamentos produtivos, polos industriais, parques e marcenarias.

A nova checagem não substitui a reportagem anterior. Ela amplia o alcance da análise ao incorporar um instrumento que não havia sido examinado inicialmente. Em vez de alterar a conclusão, os novos dados reforçam o mesmo cenário: o governo mantém ações voltadas ao setor industrial, mas a maior parte dos recursos públicos continua concentrada em promoção comercial, eventos, serviços administrativos e estruturas temporárias.

Os pagamentos do FDS começaram com R$ 217,5 mil em 2019. Não aparecem desembolsos em 2020 e 2021 na base consultada. Em 2022 foram pagos R$ 108,9 mil. Em 2023 o valor subiu para R$ 1,91 milhão. Em 2024 chegaram a R$ 2,59 milhões. O maior volume ocorreu em 2025, com R$ 7,29 milhões. Entre janeiro e 9 de julho de 2026, outros R$ 5,12 milhões foram pagos, totalizando R$ 17.251.035,27.

A distribuição dos recursos ajuda a entender como o fundo foi utilizado. Dos R$ 17,25 milhões, R$ 14,91 milhões foram classificados na subfunção Administração Geral, o equivalente a 86,5% do total. Outros R$ 1,46 milhão ficaram em Promoção Comercial. A Difusão do Conhecimento Científico e Tecnológico recebeu R$ 646,4 mil. A Promoção Industrial reuniu apenas R$ 217,5 mil.

A classificação orçamentária não significa, por si só, que todo o dinheiro registrado em Administração Geral tenha sido gasto fora da política industrial. Parte dessas despesas pode financiar atividades de apoio. Ainda assim, a concentração revela que a maior parte dos recursos foi direcionada ao funcionamento da estrutura administrativa e não à implantação de novas fábricas, aquisição de máquinas ou expansão permanente da capacidade produtiva.

Os serviços contratados junto a empresas consumiram R$ 8,32 milhões. As contribuições somaram R$ 3,97 milhões. Consultorias receberam R$ 2,56 milhões. A compra de equipamentos e material permanente ficou em R$ 892,4 mil. Também foram pagos R$ 716,7 mil em diárias, R$ 192,9 mil em material de consumo, R$ 179,2 mil em passagens e locomoção e R$ 176,7 mil em serviços de tecnologia da informação.

Os pagamentos ficaram concentrados em poucos beneficiários. Os dez maiores credores receberam aproximadamente R$ 13 milhões, o equivalente a 75,5% de tudo o que saiu do fundo.

A Poliedro Construções Ltda. lidera a lista com R$ 2,70 milhões. Rafael Wiciuk Eireli recebeu R$ 2,63 milhões. O Instituto Mercosul Amazônia ficou com R$ 1,89 milhão. A Casa da Amizade recebeu R$ 1,59 milhão. O Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento recebeu R$ 928 mil. A T. P. P. Silva Ltda. ficou com R$ 924,2 mil. O Instituto Euvaldo Lodi recebeu R$ 875 mil para elaborar o Plano Estratégico de Desenvolvimento da Indústria Acreana. Também aparecem a Associação Comercial e Empresarial de Cruzeiro do Sul, com R$ 620,1 mil, a Federação das Associações Comerciais e Empresariais, com R$ 548,2 mil, e a Belrio Comércio de Máquinas e Equipamentos, com R$ 300 mil.

A leitura individual dos históricos dos pagamentos permitiu separar aquilo que representa investimento diretamente ligado à indústria das despesas voltadas à promoção econômica. Nessa análise, apenas R$ 1.548.484,44 foram destinados de forma objetiva ao fortalecimento da atividade industrial.

O maior contrato desse grupo é justamente o Plano Estratégico de Desenvolvimento da Indústria Acreana, executado pelo Instituto Euvaldo Lodi, no valor de R$ 875 mil. O trabalho organiza diretrizes e acompanha o desenvolvimento industrial, mas não representa investimento direto em plantas industriais ou linhas de produção.

A compra de equipamentos para agroindústrias respondeu por cerca de R$ 316,8 mil. Os itens incluem caldeira vertical, nória de sangria para frangos e câmaras frias. Outros R$ 356,6 mil foram destinados a ações relacionadas a polos industriais, parques industriais e marcenarias, incluindo regularização fundiária, licenciamento ambiental, manutenção de galpões e diagnósticos técnicos.

Enquanto aproximadamente R$ 1,55 milhão teve relação direta com a estrutura produtiva, despesas ligadas à Expoacre, Expoacre Juruá e ExpoJuruá alcançaram R$ 3,38 milhões apenas dentro do FDS. Em 2025, esses pagamentos somaram R$ 2,62 milhões.

Os recursos financiaram montagem de estruturas, feiras de negócios, espaços empresariais, apoio logístico e ações de promoção comercial. Entre os beneficiários aparecem entidades empresariais, organizadores de eventos e empresas responsáveis pela infraestrutura das exposições.

A nova análise também dialoga com a reportagem anterior, que examinou a execução financeira das estruturas estaduais responsáveis por Indústria, Ciência, Tecnologia, Comércio e Turismo.

Entre 2022 e 7 de julho de 2026, essas estruturas pagaram R$ 170,4 milhões. O valor reúne duas bases administrativas: a antiga SEICETUR, que concentrava também o Turismo, e a atual SEICT, criada após a reorganização administrativa. A consolidação eliminou lançamentos coincidentes para evitar dupla contagem. Por isso, o total é superior aos R$ 131,6 milhões encontrados apenas na planilha da atual SEICT.

Dos R$ 170,4 milhões pagos, R$ 76,1 milhões, equivalentes a 44,7%, aparecem em lançamentos que mencionam expressamente Expoacre, Expoacre Juruá, feiras, eventos, Carnaval, festas, festivais, shows, atrações nacionais ou comemorações do Dia do Trabalhador.

Esse montante não corresponde apenas ao pagamento de artistas. A soma inclui montagem de palcos, estruturas metálicas, tendas, iluminação, sonorização, produção, organização, apoio técnico, logística, espaços empresariais, feiras de negócios e termos de colaboração com entidades parceiras. Como um mesmo pagamento pode mencionar mais de um desses termos, o cálculo eliminou repetições para evitar que um único lançamento fosse contabilizado mais de uma vez.

Os dados não autorizam afirmar que o governo deixou de investir na indústria. Existem incentivos fiscais, cessão de áreas, planejamento estratégico, aquisição de equipamentos e apoio a cadeias produtivas. O que a execução orçamentária mostra, porém, é outra ordem de prioridades.

Enquanto o discurso institucional enfatiza industrialização, inovação, tecnologia, exportações, fortalecimento das cadeias produtivas e geração de empregos permanentes, a maior parcela dos pagamentos ficou concentrada em promoção comercial, eventos e estruturas temporárias.

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