Mailza em Londres: uma reunião que poderia ter sido um e-mail

Governadora vai ao centro financeiro europeu tratar de créditos de carbono, mas negociação segue sem resultado concreto apresentado ao Acre

A governadora Mailza Assis atravessou o Atlântico com uma comitiva oficial para cumprir agenda em Londres, durante a Semana do Clima, em torno de uma das pautas mais sensíveis e milionárias do governo do Acre: a venda de créditos de carbono. A viagem foi apresentada como missão estratégica para atrair investimentos, fortalecer parcerias e transformar a floresta em pé em benefícios para a população. Mas, depois das fotos, vídeos, discursos e reuniões no centro financeiro europeu, o Acre segue diante da pergunta principal: o que foi efetivamente firmado?

As próprias falas públicas da agenda mostram que o negócio continua aberto. Ao lado de Marisa Drew, alta executiva global de sustentabilidade do Standard Chartered Bank, Mailza disse estar no centro econômico de Londres, mas com o coração voltado para a população acreana. Falou em reverter a preservação da floresta em benefícios para ribeirinhos, povos indígenas, produtores rurais e moradores que mais precisam. Em seguida, definiu o estágio real da agenda ao afirmar que estava ao lado de uma representante de “um banco que estamos negociando os créditos de carbono”.

A frase desmonta o tom de conquista. Se o governo ainda negocia, não há acordo concluído. Marisa Drew reforçou essa leitura ao dizer que o banco e o governo conversam “há alguns meses” sobre como criar um mecanismo financeiro para ampliar os recursos e fazer o dinheiro chegar às pessoas locais. Quando o mecanismo ainda está sendo criado, continuam sem resposta pública o valor fechado, o contrato final, o cronograma de repasse, a governança, a fiscalização, as comunidades beneficiadas e a forma concreta de aplicação do dinheiro.

Na prática, a agenda vendida como compromisso internacional em favor do povo acreano parece ter sido mais uma rodada de tratativas. Uma reunião que, pelo que foi apresentado até agora, poderia ter ocorrido por videoconferência, troca técnica entre equipes ou e-mail institucional.

Não se trata de negar a importância da pauta ambiental. O Acre tem floresta, experiência acumulada em políticas de serviços ambientais, histórico no REDD+ jurisdicional, construído no governo da Frente Popular, e potencial real para disputar recursos internacionais. A questão é outra. Quando uma comitiva oficial viaja a Londres com dinheiro público, segurança, comunicação, assessoria e representação institucional, o mínimo esperado é que o governo volte com algo mais concreto do que uma promessa de futuro, do que um aperto de mãos.

A viagem também precisa ser lida pelo custo público e pelos nomes que compuseram a missão. Levantamento no Portal da Transparência do Acre localizou R$ 192.004,21 pagos em diárias internacionais a 12 beneficiários da agenda oficial em Londres, incluindo Victor Hugo Rondon Soto, apresentado pelo governo como gerente-geral do Projeto de Crédito de Carbono do Estado.

O maior pagamento foi destinado a Lauro da Veiga Santos, presidente da Companhia de Desenvolvimento e Serviços Ambientais do Acre, a CDSA, que recebeu R$ 28.813,04. Victor Hugo Rondon Soto aparece em seguida, com R$ 25.593,12. Também receberam diárias Elane Cristina da Costa Cabral e Juliana de Oliveira Moreira, ambas da Casa Civil, com R$ 14.776,85 cada uma, e Madson de Castro Cameli, chefe de gabinete e marido da governadora Mailza Assis, que recebeu R$ 14.776,85 para assessorá-la na agenda institucional do Consórcio Amazônia Legal durante a Semana do Clima de Londres.

O pagamento a Madson carrega peso político próprio. Ele não aparece apenas como servidor em uma agenda técnica. É o marido da governadora, chefe de gabinete, acompanhando Mailza em uma viagem internacional cujo resultado concreto ainda não foi apresentado ao público. Em uma missão tratada pelo governo como estratégica para o futuro climático e financeiro do Acre, a presença dele amplia a obrigação de transparência sobre quem foi, por que foi, quanto recebeu e qual função efetiva desempenhou.

A presença de Victor Hugo Rondon Soto exige atenção ainda maior. A Agência de Notícias do Acre o apresentou na comitiva como gerente-geral do Projeto de Crédito de Carbono do Estado. Ao mesmo tempo, Victor é sócio-administrador da VR Consultoria Empresarial LTDA, empresa que recebeu R$ 3.256.745,01 do governo do Acre entre 2023 e 2026, em contratos associados à CDSA e ligados justamente à pauta de captação de recursos, mercado financeiro, REDD+, créditos de carbono jurisdicionais, rating internacional, relações corporativas e atuação junto a atores nacionais e internacionais.

A comitiva também incluiu Janete Melo de Albuquerque Lima, da Procuradoria-Geral do Estado, com R$ 14.013,63; Aldeir Araujo da Costa, Jeffersson Pereira da Silva e Theanne Louise Gonçalves Souza Medeiros, da Casa Militar, cada um com R$ 14.241,60; Jefson Marques Dourado, da Secretaria de Comunicação, com R$ 12.796,56; Francisco Lucena da Costa Neto, fotógrafo, com R$ 11.882,52; e Joscinei Gomes Bastos, videomaker, com R$ 11.849,99. A missão teve representação institucional, segurança, comunicação, assessoria jurídica, comando da CDSA e presença direta da área do crédito de carbono. Houve equipe para produzir notícia, foto, vídeo e redes sociais. O que ainda não houve foi contrato publicado, valor garantido, cronograma de repasse ou instrumento formal capaz de mostrar o que foi fechado em Londres.

Relatório de despesas por fornecedor mostra que os pagamentos à VR Consultoria Empresarial LTDA, entre 2023 e 2026, foram registrados como prestação de serviços de consultoria. Os objetos associados aos empenhos conversam diretamente com a vitrine montada em Londres: captação de recursos, mercado financeiro, bancos de investimento, REDD+, créditos de carbono jurisdicionais, rating financeiro internacional, relações corporativas e atuação junto a atores públicos e privados no Brasil e no exterior.

O ano de 2025 concentrou a maior parte dos pagamentos, com mais de R$ 2,5 milhões. Entre as despesas aparecem serviços voltados à obtenção de rating financeiro internacional do programa de créditos de carbono jurisdicionais do Acre e à avaliação de integridade do Programa Jurisdicional de REDD+ ISA Carbono para habilitação em negociações de mercado financeiro. Por isso, a cobrança não se resume ao que Mailza foi buscar em Londres. A questão é o que o Acre já recebeu depois de pagar consultorias milionárias para estruturar justamente essa pauta de carbono, mercado internacional e captação de recursos.

Mudando o rumo, depois de anos de nada resolvido

O governo apresenta a missão como abertura de uma nova fronteira para o desenvolvimento sustentável. A trajetória recente, porém, é mais complexa do que a comunicação oficial deixa transparecer. Antes do Standard Chartered assumir o centro da negociação, o Acre caminhava pela rota da Coalizão LEAF/Emergent, iniciativa internacional voltada à certificação e comercialização de créditos de carbono florestal jurisdicional. No fim de 2023, o Estado chegou a assinar carta de intenções nesse caminho, apresentado como alternativa com regras rígidas de governança, integridade ambiental e repartição de benefícios.

Depois, a estratégia mudou. A negociação passou a ser conduzida com o banco britânico Standard Chartered, em modelo mais ligado ao mercado financeiro internacional. O banco anunciou acordo para vender créditos de carbono florestal do Acre ao longo de cinco anos, com possibilidade de levar milhões de créditos ao mercado a partir de 2026. O discurso oficial fala em floresta em pé, integridade, comunidades locais e destinação de 72% dos recursos líquidos aos povos indígenas e comunidades tradicionais.

No papel, a promessa é poderosa. Na vida real, ela depende de respostas que ainda não chegaram ao público: quanto será vendido, a que preço, para quem, quando o dinheiro entrará, quanto ficará com intermediários, quem fiscalizará a conta, quem decidirá a aplicação dos recursos e como as comunidades terão controle sobre aquilo que o governo negocia em nome delas.

Essas perguntas estão no centro da crise de confiança instalada em torno da política de carbono do Acre. Organizações da sociedade civil e representantes da governança do Sisa passaram a questionar a forma como a CDSA conduziu as negociações. A Comissão Estadual de Validação e Acompanhamento, a Câmara Temática Indígena e a Câmara Temática das Mulheres são espaços que deveriam acompanhar decisões dessa magnitude. As críticas apontam falta de transparência e diálogo insuficiente com esses instrumentos de controle social.

A reportagem do Varadouro, publicada com o título “Vende-se carbono”, colocou a mudança da rota LEAF para o Standard Chartered no centro do atrito entre a CDSA e a sociedade civil. Lideranças relataram que a governança soube das tratativas pela imprensa oficial e que o argumento do sigilo comercial passou a impedir o acesso a informações sobre uma política pública construída historicamente com participação social.

Depois, organizações entregaram carta ao governador Gladson Cameli pedindo mudanças na CDSA e no Sisa. A cobrança era por transparência, revisão da condução política e fortalecimento dos espaços de participação. 

Outras vozes, a mesma pergunta

A Comissão Pró-Indígenas do Acre também levou a crise para dentro da história do próprio Sisa. Em artigo publicado em 20 de abril de 2026, Simen Kokkvoll e Aldalúcia F. Carvalho reconhecem que o sistema criado pela Lei Estadual nº 2.308, de 2010, fez o Acre virar referência em serviços ambientais e REDD+ jurisdicional, especialmente com o Programa REM, que arrecadou mais de US$ 50 milhões em 15 anos por meio do ISA Carbono. Mas os autores apontam que os pilares que deram força ao modelo — transparência, participação social e controle — passaram a ser justamente seus pontos mais frágeis.

O texto mostra que a revisão da Estratégia de Repartição de Benefícios, em 2025, ampliou a fatia dos povos indígenas de 12% para 22% e definiu 26% para territórios extrativistas, 24% para produtores e agricultores familiares e 28% para o Estado. A crítica, porém, é que percentual não basta. Sem critérios claros, acompanhamento público, relatórios atualizados e funcionamento real da CEVA e das câmaras temáticas, a repartição de benefícios vira promessa sem controle social.

A parte mais sensível para a agenda de Londres está na atuação da CDSA. Segundo Kokkvoll e Aldalúcia, a partir de 2025 a companhia passou a conduzir negociações internacionais de créditos de carbono sem comunicação prévia à governança do Sisa. As tratativas com o Standard Chartered e o rompimento com a LEAF/Emergent aparecem como marco de uma crise institucional marcada por falta de transparência e pelo uso do argumento de “sigilo comercial”.

É essa crítica que torna a viagem de Mailza mais delicada. O Acre não discute apenas vender ou não vender carbono. Discute quem decide, com quais documentos, sob qual controle público e com que participação dos povos indígenas, extrativistas, agricultores familiares e sociedade civil. O governo fala em transformar floresta em benefício. A CPI-Acre recoloca a pergunta que vem antes de qualquer contrato: quem autorizou a negociação e como a confiança será reconstruída dentro da governança que sustentou o Sisa por mais de uma década?

Também pesa a consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais. O Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado do Acre recomendaram que o governo garanta consulta livre, prévia e informada antes da inclusão de territórios indígenas e tradicionais no Programa ISA Carbono. A recomendação afirma que as comunidades devem ter o direito de decidir se querem ou não participar do programa e, se desejarem, desenvolver seus próprios projetos de crédito de carbono.

Esse ponto é decisivo. Não basta o governo fazer reuniões regionais sobre repartição de benefícios e depois apresentar isso como autorização ampla para negociar créditos de carbono em nome de territórios e modos de vida de povos tradicionais. Consulta sobre divisão futura de recursos não é a mesma coisa que consentimento sobre a comercialização dos créditos. Uma coisa é discutir percentuais. Outra é decidir se o território, a floresta, a permanência das comunidades e seus modos de vida podem servir de base para uma operação financeira internacional.

É aí que a agenda de Londres fica mais frágil. Mailza diz que está negociando para garantir que o dinheiro chegue à população. Marisa Drew diz que o banco conversa há meses sobre como criar o mecanismo financeiro. O governo fala em compromisso. O banco fala em modelo. A Agência fala em parceria firmada. Mas, no centro da floresta, continuam sem resposta pública as perguntas essenciais: quem autorizou, quem foi consultado, onde estão as atas, qual é o contrato, qual é o valor, qual é o prazo e qual é a garantia de que o dinheiro chegará aos ribeirinhos, indígenas, extrativistas e produtores familiares citados nos discursos oficiais.

A contradição está diante do Acre. O governo usa a imagem dos povos da floresta para valorizar a negociação em Londres, enquanto parte das instâncias de representação e controle social questiona a forma como a negociação foi conduzida. O discurso fala em dignidade, futuro e prosperidade. As cobranças falam em consulta, transparência e governança.

No fim, a ida a Londres parece menos uma entrega e mais uma tentativa de revestir de solenidade uma negociação que continua aberta. A Agência de Notícias do Acre anunciou a missão como oportunidade para posicionar o Estado no centro das discussões internacionais sobre mecanismos financeiros, mercado de carbono e captação de recursos. Depois, publicou que Mailza e a executiva do banco “firmaram compromisso em favor do povo acreano”. Mas o conteúdo das falas aponta para outro cenário: o mecanismo financeiro ainda está sendo desenhado, o recurso ainda não está garantido e o caminho de chegada do dinheiro às comunidades ainda precisa ser comprovado.

Se houve contrato, que seja publicado. Se houve valor, que seja informado. Se houve cronograma, que seja apresentado. Se houve compromisso jurídico, que seja disponibilizado. Se houve consulta aos povos afetados, que sejam divulgadas as atas, os protocolos, os registros e as respostas dadas às recomendações do MPF, do MPAC e das organizações da sociedade civil.

Enquanto o dinheiro do carbono segue no campo da promessa, os custos da agenda já são concretos. Diárias foram pagas. Consultorias foram pagas. A comunicação oficial foi mobilizada. A comitiva viajou. E o povo acreano continua sem saber quanto virá, quando virá, por qual contrato virá e como o recurso chegará, de fato, às comunidades citadas nos discursos.

O governo pode dizer que a negociação é complexa. E é. Mercado de carbono jurisdicional, ART/TREES, repartição de benefícios, consulta prévia, governança do Sisa, rating internacional e venda por banco global não são temas simples. Justamente por isso, exigem mais transparência, não menos. Exigem mais controle social, não menos. Exigem mais cuidado com os povos da floresta, não apenas o uso de suas imagens e nomes nos discursos oficiais.

A reunião em Londres poderia ter sido um e-mail porque, até agora, trouxe a público essencialmente uma atualização de tratativas: o governo negocia, o banco conversa, o mecanismo financeiro está sendo construído e a promessa é fazer o dinheiro chegar. Mas isso o Acre já sabia. O que o Acre ainda não sabe é o principal: o que foi realmente fechado, quanto isso vale e quando a população verá algum resultado concreto.

Mailza vai a Londres com discurso ambiental, mas Acre cobra respostas sobre ponte e floresta

A governadora Mailza Assis deixa o Acre rumo a Londres para ocupar uma vitrine internacional da agenda climática, enquanto o Estado ainda espera respostas sobre o desabamento da ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira, e sobre a distância entre o discurso ambiental levado ao exterior e a execução real das políticas de floresta em casa. A London Climate Action Week ocorre entre 20 e 28 de junho, reunindo governos, empresas, financiadores e organizações em torno de ações climáticas; no Acre, a ponte inaugurada em 2023 caiu no dia 5 de junho, havia sido interditada um dia antes, custou R$ 36 milhões e deixou quatro pessoas feridas. A viagem pode abrir portas, mas também expõe uma pergunta que o governo tenta contornar: quem conduz o Estado quando a governadora sai em meio a crises políticas, administrativas e ambientais?

Mailza não chega a Londres como gestora de um ciclo novo e separado do passado. Ela assumiu o Palácio Rio Branco no dia 2 de abril, depois da saída de Gladson Cameli, e fez da continuidade a marca do governo. Na transmissão do cargo, a nova governadora disse: “Vamos dar continuidade a um governo que já vinha dando certo”. Essa frase cola a atual administração ao ciclo anterior. Não há como apresentar no exterior apenas a parte vistosa da agenda ambiental, com siglas, fóruns, ativos climáticos e promessas de economia verde, deixando no Acre a parte incômoda da conta.

A ausência da governadora também cria um problema político no comando do Estado. O Acre está sem vice-governador. Pela linha sucessória, a chefia temporária do Executivo passa pelo presidente da Assembleia Legislativa, deputado Nicolau Júnior. Em abril, quando Mailza e Nicolau estavam fora do Estado, o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Laudivon Nogueira, assumiu interinamente o governo. O episódio não foi apenas uma formalidade. Em ano eleitoral, cada afastamento de Mailza obriga Nicolau a calcular seus próprios passos, porque assumir o governo pode atravessar planos eleitorais e mexer na engenharia interna do grupo governista.

Nicolau não é peça decorativa nesse tabuleiro. Gladson Cameli já tratou Mailza e o presidente da Assembleia como “dois planos A” do Progressistas para a eleição de 2026. A frase, dita em 2025, deixou os dois no mesmo campo de expectativa política. Quando Mailza viaja e Nicolau precisa sair do Acre para não ocupar interinamente o governo, a missão internacional deixa de ser apenas agenda institucional. Ela empurra para a superfície uma disputa que o grupo tenta administrar sem rompimento público.

O MDB amplia essa instabilidade. Em março, o partido oficializou aliança com o projeto eleitoral de Mailza e passou a reivindicar a indicação do vice na chapa. Antes disso, a sigla já era cortejada por Alan Rick e tratada como fiel da balança para 2026. A vaga que deveria dar musculatura política à governadora virou ponto de pressão. O MDB tem força eleitoral em Rio Branco e Cruzeiro do Sul, tem nomes próprios e sabe que sua presença pode alterar o peso de qualquer palanque. Mailza viaja a Londres enquanto sua chapa ainda precisa provar que não será desmontada antes de chegar à campanha.

No campo ambiental, a cobrança é ainda mais dura. O Acre tem uma história importante, construída antes do atual governo, com o Sistema Estadual de Incentivos a Serviços Ambientais, o Sisa, e com a entrada precoce no debate de REDD+ e pagamento por resultados. Essa trajetória deu ao Estado respeito internacional. Mas reputação antiga não paga a conta da gestão presente. O governo Mailza-Gladson precisa responder o que tem de efetivo para mostrar na área ambiental: qual cadeia produtiva de baixo carbono ganhou escala, qual política de desenvolvimento sustentável mudou a renda de quem vive da floresta, qual programa chegou à ponta com resultado verificável, qual produtor recebeu apoio consistente para produzir sem derrubar e qual comunidade extrativista passou a viver melhor da floresta em pé.

A Fase II do Programa REM Acre, financiada pela Alemanha, por meio do KfW, e pelo Reino Unido, expõe a distância entre promessa e execução. O programa foi desenhado para ser executado em cinco anos, recebeu R$ 91 milhões e havia executado R$ 53,1 milhões, ou 58,4%, até dezembro de 2022, quando restava um ano para a conclusão prevista. A gestão precisou replanejar ações porque os instrumentos usados nos primeiros anos foram pouco efetivos e a ligação entre gasto público e resultado ficou frágil. Isso não é detalhe burocrático. É o principal programa climático recente do Acre tentando corrigir, tarde, aquilo que deveria ter entregado no tempo certo.

O desmatamento é a parte mais difícil de maquiar. O REM trabalhava com um gatilho anual de 330 km². Durante a Fase II, o Acre ficou acima desse limite em 2018, com 444 km²; em 2019, com 682 km²; em 2020, com 706 km²; e em 2021, com 889 km². A segunda fase do programa nasceu para ajudar a proteger a floresta e reduzir emissões, mas atravessou justamente o período em que o desmatamento subiu de forma persistente. O governo pode falar em REDD+, mas os números cobram coerência.

Quando o governo se movimentou de forma mais concreta sobre florestas públicas, o resultado foi uma derrota no Supremo Tribunal Federal. A Corte declarou inconstitucional a regra estadual que autorizava conceder título definitivo e retirar áreas do regime de floresta pública após dez anos de uso ou posse. A norma alcançava áreas como as Florestas Públicas Estaduais do Rio Gregório, Rio Liberdade, Mogno, Antimary e Afluente do Complexo do Seringal Jurupari. O Acre que pretende se apresentar ao mundo como guardião da floresta precisou ser barrado pelo STF em uma regra que abria caminho para transferir áreas protegidas a particulares.

A política de crédito de carbono também exige menos propaganda e mais entrega. Em agosto de 2025, Gladson assinou decreto que atualizou a estratégia de repartição de benefícios do Programa ISA Carbono, destinando 72% dos recursos captados com a comercialização futura de créditos de carbono aos beneficiários do Sisa e 28% ao governo para ações de comando e controle, governança e gestão de áreas públicas. A palavra central é “futura”. O governo tem desenho institucional, percentuais, fóruns e discurso. Ainda falta mostrar uma política em escala, com dinheiro circulando de forma transparente, resultado ambiental medido e melhoria concreta na vida das populações que conservam a floresta.

A pergunta que deve acompanhar Mailza em Londres é simples: o que o governo Mailza-Gladson tem para mostrar além da memória ambiental do Acre? A resposta não pode ser a história do Sisa, nem a herança simbólica de Chico Mendes, nem a reputação construída por outros ciclos. A resposta precisa estar na execução real: redução de desmatamento, cadeia produtiva de baixo carbono funcionando, crédito de carbono com governança madura, assistência técnica contínua, fiscalização forte, renda para extrativistas, regularização sem abrir brecha para privatizar floresta pública e programas climáticos concluídos com resultado, não empurrados por reestruturações.

A ponte de Sena Madureira torna esse debate ainda mais concreto. A estrutura caiu sobre o Rio Iaco, deixou feridos e obrigou o governo a abrir procedimento administrativo, acionar medidas judiciais e prometer apuração das responsabilidades. A ponte virou símbolo de uma gestão que vende entrega, mas agora precisa explicar fiscalização, contrato, manutenção, risco e resposta. Não há vitrine internacional capaz de apagar a imagem de uma obra pública desabando diante de moradores que dependiam dela para atravessar a cidade.

O Acre deve participar das grandes agendas climáticas. A floresta acreana tem valor ambiental, econômico e político. Mas presença internacional não é certificado de eficiência. Mailza pode falar em Londres sobre floresta em pé, desenvolvimento sustentável e ativos climáticos. No Acre, porém, a cobrança continua de pé: quem responde pela ponte que caiu, quem comanda o Estado na ausência da governadora, quem segura a base política, quem entrega o REM, quem reduz o desmatamento e quem transforma carbono em renda real para quem vive na floresta. Sem essas respostas, a viagem vira fotografia. E o governo Mailza-Gladson, em vez de honrar o histórico ambiental do Acre, envergonha essa história diante do país.

Operação Ptolomeu fica travada no Acre e 12 investigados seguem sem denúncia

Dois anos e meio depois de a Operação Ptolomeu abrir a primeira frente criminal contra o esquema de corrupção investigado no governo do Acre, o processo que mira 12 investigados sem foro privilegiado continua parado no Ministério Público Estadual, em Rio Branco, sem denúncia oferecida, sem data para chegar à promotoria responsável e sem previsão de julgamento. A informação foi trazida pela TV Gazeta, no jornal Gazeta em Manchete de quinta-feira, dia 11, e expõe o contraste entre a condenação do ex-governador Gladson Cameli no Superior Tribunal de Justiça e a lentidão da parte local do caso.

O ex-governador foi condenado pela Corte Especial do STJ a 25 anos e nove meses de prisão, em regime inicial fechado. A ação em Brasília tratou de crimes como organização criminosa, peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e fraude em licitação. No Acre, porém, a parte que envolve familiares, ex-secretários, empresários e servidores ainda não atravessou a etapa decisiva da denúncia criminal. Sem esse ato, ninguém vira réu na primeira instância, a instrução não começa e a responsabilização dos demais personagens fica suspensa.

A primeira ação penal nascida da Ptolomeu ficou conhecida como caso Murano. Ela trata de contratos de obras e recuperação de prédios públicos estaduais que, pela acusação, foram usados para desviar dinheiro do Estado por meio de uma empresa de fachada. A engrenagem passava pela cessão de CNPJ, pela contratação formal de uma empresa sem estrutura real para executar o serviço e pela movimentação de cerca de R$ 18 milhões. Desse total, R$ 11 milhões aparecem ligados diretamente a sobrepreço e superfaturamento. Na prática, o que deveria virar obra pública virou prova de um mecanismo que drenava recursos do orçamento acreano por dentro dos próprios contratos oficiais.

A lista dos investigados que desceu para a Justiça de primeiro grau alcança o núcleo familiar e administrativo de Gladson Cameli. Estão nela a ex-esposa Ana Paula Corrêa da Silva Cameli, o irmão Gledson de Lima Cameli, o pai Eládio Cameli, o ex-secretário de Obras Thiago Caetano, os empresários Gabriel Látia de Araújo e Souza e Uudson Marcelo Amaral de Souza, além de servidores estaduais ligados ao funcionamento das licitações. São nomes que, pela investigação original, ajudariam a explicar como uma fraude desse tamanho não nasce apenas da assinatura de uma autoridade, mas de uma rede que prepara edital, valida medição, libera pagamento, empresta empresa e dá aparência legal ao desvio.

A ministra Nancy Andrighi, relatora do caso no STJ, mandou a parte dos acusados sem foro para a Justiça Federal do Acre em dezembro de 2023. Depois disso, os autos passaram pelo Tribunal de Justiça e chegaram ao Ministério Público do Acre. A instituição reconheceu que recebeu o processo, mas atribuiu a demora ao fluxo interno. “O processo foi recebido pela instituição, mas ainda não chegou à promotoria responsável, que é a Especializada de Defesa do Patrimônio Público e Fiscalização das Fundações e Entidades de Interesse Social”, informou o MPAC à TV Gazeta.

Essa frase resume o impasse. Não se trata de absolvição, arquivamento ou decisão judicial que encerrou a apuração. O processo existe, os nomes existem, os valores existem e a condenação no STJ já fixou, em outro braço da mesma operação, a existência de uma organização criminosa voltada ao desvio de recursos públicos. O que falta, no Acre, é o ato processual básico para que os demais investigados respondam formalmente às acusações perante a Justiça.

A demora cria uma desigualdade difícil de explicar ao cidadão que paga imposto e vê escola, hospital, estrada e prédio público dependerem de cada real do orçamento. O ex-governador recebeu uma pena pesada por crimes ligados a licitações e lavagem de dinheiro, mas a engrenagem local que teria dado sustentação ao esquema continua sem enfrentamento criminal efetivo na primeira instância.

A consequência não é apenas jurídica. Quando um processo desse porte fica parado, o tempo trabalha contra a memória das provas, contra a recuperação do dinheiro e contra a confiança pública nas instituições. Cada mês sem denúncia empurra para mais longe a resposta sobre quem assinou, quem recebeu, quem intermediou, quem lavou dinheiro e quem se beneficiou dos contratos. Também distancia o Estado da possibilidade de recompor o prejuízo causado aos cofres públicos.

No STJ, a condenação de Gladson Cameli tratou de crimes que atravessam a administração pública por dentro: organização criminosa, peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e fraude em licitação. No Acre, a parte desmembrada ainda espera o Ministério Público transformar os autos em denúncia ou apontar, de forma fundamentada, outro caminho processual.

A Operação Ptolomeu começou como uma investigação sobre corrupção na cúpula do poder estadual e avançou sobre contratos, obras, empresas e movimentações financeiras. O caso Murano é uma das peças dessa arquitetura. Ele não trata de um episódio isolado, mas de uma forma de operação: empresas usadas como fachada, contratos públicos como porta de entrada, servidores e empresários como operadores, dinheiro público como alvo.

É por isso que a estagnação no Ministério Público do Acre pesa mais do que uma demora comum de cartório. Ela mantém sem resposta a parte mais próxima do cotidiano acreano: os personagens que circularam nos órgãos estaduais, as empresas que receberam, os servidores que tocaram os processos e os familiares que aparecem no entorno do ex-governador. Enquanto essa etapa não anda, a Ptolomeu fica partida em duas realidades. Em Brasília, uma condenação histórica. Em Rio Branco, um processo ainda preso antes da largada.

MP do Acre abre investigação sobre desabamento da Ponte Frei Paolino, obra de R$ 36 milhões em Sena Madureira

O Ministério Público do Acre abriu investigação para apurar as causas do desabamento da Ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira, e verificar possíveis responsabilidades pela queda da estrutura, inaugurada em dezembro de 2023 com investimento de R$ 36 milhões durante o governo Gladson Cameli. O colapso ocorreu na noite de sexta-feira, 5 de junho, e deixou quatro feridos.

A apuração está sob responsabilidade da Promotoria de Justiça Cível e Criminal de Sena Madureira. Entre as primeiras medidas, foram determinadas perícia técnica, vistorias especializadas e a coleta de documentos e informações de órgãos públicos e empresas ligadas à obra. O trabalho também envolve as áreas criminal e de defesa do patrimônio público.

Entregue pelo governo do Acre em 19 de dezembro de 2023, a ponte passou a ligar o Primeiro e o Segundo Distrito de Sena Madureira, com 232 metros de extensão. A estrutura foi apresentada como uma obra estratégica para atender moradores da região e reduzir o isolamento da área durante o inverno amazônico.

Após o desabamento, o governo estadual informou que a ponte estava interditada preventivamente desde o dia anterior e que equipes técnicas acompanhavam a situação. Com a queda da estrutura, foi montada uma força-tarefa com bombeiros, Samu, Defesa Civil e equipes de saúde para atender as vítimas e investigar o que provocou o colapso.

O caso agora entra na esfera formal de investigação, com foco na execução da obra, nas condições estruturais da ponte e em possíveis falhas que possam ter contribuído para o desabamento. A apuração deve apontar se houve responsabilidade administrativa, civil ou criminal.

Foto: Figueroa Xavier https://www.instagram.com/figueroaxavier?igsh=MWtqdDM0MzI1N3RnMA==

Gladson perde nova batalha no STJ em ação sobre obras da AC-405

O ex-governador Gladson Cameli sofreu nesta quarta-feira, 3 de junho, uma nova derrota no Superior Tribunal de Justiça. A Corte Especial rejeitou, por unanimidade, embargos de declaração apresentados no andamento da Ação Penal 1.232, processo que trata de suspeitas de fraude e desvio em obras públicas no Acre. A decisão foi tomada nos termos do voto da ministra Nancy Andrighi, relatora do caso.

A derrota não significa uma nova condenação, mas mantém de pé a decisão anterior que recebeu a denúncia e colocou Gladson na condição de réu nessa ação penal. Em termos simples, a defesa tentou abrir uma brecha dentro do próprio STJ para questionar pontos da decisão, mas os ministros não aceitaram o recurso.

Os embargos de declaração são usados quando a defesa aponta omissão, contradição, obscuridade ou erro material em uma decisão judicial. Quando esse recurso é rejeitado ou não conhecido, a decisão questionada permanece válida. No caso de Gladson, isso mantém o processo em andamento sem o recuo pretendido pela defesa.

A Ação Penal 1.232 é diferente da Ação Penal 1.076, na qual o ex-governador já foi condenado a 25 anos e 9 meses de prisão. Nesta nova frente, Gladson ainda não foi condenado. Ele responde como réu, e o mérito da acusação ainda será analisado. A denúncia envolve supostas irregularidades em obras da rodovia AC-405, em Cruzeiro do Sul, com suspeitas de fraude à licitação e peculato-desvio.

Mesmo sem representar condenação, a decisão desta quarta-feira tem peso político. Gladson tenta manter viva a narrativa de que ainda pode disputar o Senado, mas cada movimentação no STJ aumenta a pressão sobre sua situação jurídica. Ele já carrega uma condenação colegiada em outro processo e agora vê avançar uma segunda ação penal.

A fotografia do momento é dura para o ex-governador. Em uma ação, ele já foi condenado. Em outra, virou réu. Agora, perdeu uma tentativa de reverter pontos da nova ação dentro da Corte Especial. A defesa ainda pode usar os instrumentos permitidos pela lei, mas a sequência de decisões mostra que o caminho jurídico de Gladson ficou mais estreito.

No Acre, onde o ex-governador ainda conserva força política e tenta sustentar expectativa eleitoral, a decisão reforça a distância entre o discurso político e a realidade processual. Gladson pode continuar afirmando que confia na Justiça e que pretende seguir na disputa. Mas, nesta quarta-feira, a resposta do STJ foi objetiva: na ação sobre as obras da AC-405, ele perdeu mais uma batalha.

Gladson Cameli apresenta embargos no STJ após condenação em ação da Operação Ptolomeu

A defesa de Gladson Cameli apresentou nesta segunda-feira, 1º de junho de 2026, embargos de declaração no Superior Tribunal de Justiça, no âmbito da Ação Penal nº 1.076/DF, processo ligado às investigações das operações Ptolomeu e Murano. A nova movimentação foi registrada no sistema processual da Corte como juntada da petição de embargos de declaração nº 556302/2026, protocolada no mesmo dia em nome de Gladson de Lima Cameli.

O recurso foi apresentado menos de um mês depois de a Corte Especial do STJ condenar o ex-governador do Acre a 25 anos e 9 meses de prisão, em regime inicial fechado, por organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações. Na mesma decisão, o tribunal fixou multa, indenização de R$ 11,7 milhões ao Estado do Acre e decretou a perda do cargo, embora Cameli já tivesse deixado o governo em abril para disputar as eleições deste ano.

Os embargos de declaração são usados quando a defesa ou a acusação entendem que a decisão judicial tem ponto omisso, contraditório, obscuro ou erro material. Na prática, o pedido leva o tribunal a revisar a própria decisão para esclarecer trechos do julgamento ou corrigir eventuais falhas formais. O recurso não reabre automaticamente toda a discussão do caso, mas pode alterar pontos específicos do acórdão, a depender do que for analisado pelos ministros.

A Ação Penal 1.076 teve origem na denúncia apresentada contra Gladson Cameli por suspeitas de liderança de um esquema de desvios de recursos públicos no Acre. Segundo a acusação, o grupo teria atuado a partir de 2019 com apoio de núcleos político, familiar e empresarial para fraudar contratos públicos e direcionar vantagens indevidas. O caso ganhou força no STJ no fim de 2023, quando a Corte manteve sob sua competência a apuração contra o então governador, e avançou em maio de 2024, com o recebimento formal da denúncia.

Ao longo da tramitação, o processo teve prorrogação de medidas cautelares, disputas sobre provas e um julgamento que começou em dezembro de 2025 e só foi concluído em 6 de maio deste ano. Na fase final, prevaleceu o voto da relatora, ministra Nancy Andrighi, que apontou a participação direta de Cameli no esquema e sustentou que houve fraude na contratação da Murano Construções para obras viárias e de edificações no estado.

A apresentação dos embargos marca agora uma nova etapa da defesa, já esperada depois de um julgamento dessa dimensão. O movimento não muda de imediato o resultado da condenação, mas mantém o caso em aberto no STJ e adia o encerramento completo dessa fase processual, enquanto a Corte decide se há pontos a esclarecer ou corrigir no acórdão.

O novo recurso também chega num momento de pressão ampliada para o ex-governador. Em maio, o STJ recebeu outra denúncia contra Cameli, desta vez relacionada a supostas irregularidades em obras da rodovia AC-405, em Cruzeiro do Sul, o que abriu mais uma ação penal contra ele na Corte.

Editorial – Notícia judicial não é fake news, Gladson 

Quando um acórdão do Superior Tribunal de Justiça é publicado, não cabe chamar a notícia de boato. Quando uma condenação de 25 anos e 9 meses de prisão passa a constar em decisão formal de um tribunal superior, não cabe tratar a cobertura jornalística como tentativa de desestabilizar governo. O ex-governador Gladson Cameli tem todo o direito de recorrer, de se defender, de buscar no Supremo Tribunal Federal uma decisão que suspenda os efeitos da condenação e de sustentar publicamente sua versão. Mas o direito de defesa não transforma em fake news aquilo que está escrito em decisão judicial. Inclusive, a defesa deve agir em tempo hábil com os recursos.

A fala de Gladson, ao associar notícias sobre sua situação jurídica a tentativas de desestabilização, tenta empurrar para a imprensa e para supostos adversários um problema que nasceu dentro de um processo penal. Não foi um blog, uma rádio, um portal ou um comentarista que condenou o ex-governador. Foi a Corte Especial do STJ, formada por ministros que analisaram autos, provas, teses da defesa, argumentos do Ministério Público Federal e questões preliminares levantadas ao longo de anos. A imprensa apenas cumpre o papel de traduzir esse fato para a população.

Dias atrás, no 21 de maio, antes da publicação do acórdão, o Grupo Integração abriu espaço no Jornal da Manhã da Rádio Integração FM para explicar o caso com calma. O advogado Emerson Soares foi chamado exatamente porque havia confusão no debate público. De um lado, circulavam versões de que tudo teria sido anulado. De outro, havia a decisão do STJ condenando Gladson e criando efeitos imediatos sobre sua situação eleitoral. Emerson foi direto: se o prazo de registro de candidatura fosse naquele momento, Gladson não poderia registrar candidatura, porque há condenação por órgão colegiado, situação prevista na Lei da Ficha Limpa.

Essa explicação não nasceu de torcida política. Nasceu da lei. Hoje, Gladson pode recorrer, mas recorrer não é o mesmo que estar liberado para disputar eleição. Ele pode tentar uma liminar no STF, mas tentativa não é garantia. Ele pode sustentar que será candidato, mas, sem uma decisão que suspenda os efeitos da condenação, essa afirmação permanece no campo da narrativa política, não da condição jurídica atual.

O ponto que precisa ser dito com clareza é simples: o governo não se desestabiliza porque a imprensa noticia uma decisão judicial. O governo se desestabiliza quando a própria liderança política que o conduziu passa a responder a condenações, recursos, dúvidas eleitorais e novas ações penais. A instabilidade não foi fabricada pela notícia. A instabilidade veio dos fatos que chegaram aos tribunais e agora cobram seu preço no cenário político do Acre.

Também não se pode confundir crítica jornalística com perseguição. A Integração não inventou a Operação Ptolomeu, não redigiu o acórdão do STJ, não fixou pena, não calculou inelegibilidade e não recebeu nova denúncia contra o ex-governador. O que a Integração fez foi o que o jornalismo deve fazer: ouvir, perguntar, explicar e separar fato de versão. Quando há decisão judicial, o público tem o direito de saber o que ela significa. Quando há prazo recursal, o público tem o direito de saber quais caminhos ainda existem. Quando há impacto eleitoral, o eleitor tem o direito de entender se um nome que se apresenta como candidato pode ou não chegar às urnas.

Gladson ainda conserva força política, tem apoiadores, tem história eleitoral e segue tentando manter viva a expectativa de candidatura ao Senado. Isso é fato. Mas também é fato que ele foi condenado pelo STJ, que o acórdão foi publicado, que a defesa precisa buscar medidas judiciais para tentar suspender os efeitos dessa condenação e que, neste momento, sua situação eleitoral está comprometida. Dizer isso não é fake news. Esconder isso é que seria enganar a população.

A tentativa de transformar toda notícia incômoda em ataque político empobrece o debate público. O Acre não precisa de cortina de fumaça. Precisa de informação limpa, direta e verificável. Quem deseja governar, disputar eleição ou influenciar o futuro do estado deve responder aos fatos com fatos, não com slogans. A pergunta que fica não é quem tenta desestabilizar o governo. A pergunta real é como um projeto político que se dizia sólido chegou a depender de recurso, liminar e interpretação judicial para continuar de pé.

A Integração continuará tratando o caso pelo que ele é: um assunto de interesse público, com impacto jurídico, político e eleitoral. Sem torcida. Sem perseguição. Sem medo de dizer que decisão judicial não é fake news.

Foto: Juruá Online

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De Manaus a Rio Branco, Gladson reaparece ao lado de Mailza e reforça articulação de 2026 no Acre

Na sexta-feira, 29, o ex-governador Gladson Cameli chegou ao Acre vindo de Manaus, passou por Mâncio Lima nas comemorações dos 49 anos do município e, no sábado, apareceu em Rio Branco ao lado da governadora Mailza Assis em mais um movimento de alinhamento do grupo governista para 2026.

A passagem por Mâncio Lima ocorreu dentro de uma agenda institucional comandada por Mailza, com entregas de obras e investimentos no aniversário da cidade. A presença de Gladson no município funcionou como elo entre a agenda pública e a reorganização política do grupo, num momento em que a atual governadora tenta consolidar a própria gestão e, ao mesmo tempo, manter sob sua liderança a base que herdou da administração anterior.

No sábado, em Rio Branco, o foco saiu da programação no interior e foi para a composição eleitoral. A aparição de Gladson ao lado de Mailza, do senador Márcio Bittar e do presidente do MDB no Acre, Vagner Sales, reforça um desenho que já vinha sendo costurado nos bastidores: Mailza à frente da chapa ao governo, Bittar no Senado e o MDB com espaço para indicar o vice. Nos dias anteriores, a própria governadora havia se reunido com Vagner e voltado a dizer que a vaga de vice permanece com o MDB, apesar das indefinições sobre o nome.

Em publicação nas redes sociais, Gladson Cameli disse que “na política e na vida, sempre tive o diálogo como prioridade” e afirmou que o encontro serviu para alinhar a aliança do grupo. No texto, declarou que “a Mailza é a nossa candidata ao governo”, que “o Márcio, nosso candidato ao Senado e o MDB, está conosco nessa jornada com a indicação do vice” e reforçou: “Reafirmo minha candidatura ao Senado nessa aliança que nos fortalece e nos ajuda a seguir cuidando do Acre e do nosso povo”. Na mesma postagem, ele ainda concluiu com o tom de campanha ao afirmar: “Vamos ganhar a eleição nas ruas e nas urnas” e “Unidos somos mais fortes”.

Alan Rick mira governo do Acre e defende produção rural, BR-364 e aliança ampla em 2026

O senador Alan Rick, pré-candidato ao governo do Acre, afirmou nesta sexta-feira, 29 de maio, durante entrevista ao Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM, em Cruzeiro do Sul, que sua pré-candidatura nasceu da pressão recebida nas viagens pelos municípios e que o próximo governo terá de enfrentar três prioridades imediatas: recuperar a economia, garantir trafegabilidade na BR-364 e fortalecer a produção rural.

Alan disse que tem tratado a liderança em pesquisas com responsabilidade e afirmou que o resultado real será conhecido apenas nas urnas. Ainda assim, citou a boa recepção nas agendas recentes em Feijó, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter, Mâncio Lima, Rodrigues Alves e Cruzeiro do Sul. Para ele, o movimento nas ruas mostra que o eleitor acreano quer participar mais diretamente da construção do próximo governo.

O senador afirmou que a decisão de disputar o governo ganhou força depois das eleições municipais de 2024, quando percorreu o estado apoiando aliados. Segundo ele, a cobrança pelo lançamento de sua candidatura passou a aparecer com frequência nas conversas com moradores, prefeitos e lideranças comunitárias. “A política tem que ser uma missão”, disse. “Nunca foi meu interesse ter o poder pelo poder.”

Na área econômica, Alan Rick disse que o Acre vive um quadro preocupante. Ele citou o dado de que 44 mil acreanos deixaram o estado nos últimos seis anos, segundo o IBGE, e relacionou essa saída à falta de oportunidades. Para o senador, o êxodo de jovens e trabalhadores mostra que parte da população perdeu confiança na capacidade do estado de gerar emprego, renda e futuro.

A produção rural ocupou boa parte da entrevista. Alan defendeu mais assistência técnica, crédito e equipamentos para o produtor. Ele citou entregas de tratores, implementos, tobatas e fábricas de farinha automatizadas e móveis nos municípios do Juruá. Também afirmou que 600 famílias da região recebem assistência técnica rural por meio de emendas de seu mandato.

Para o senador, entregar máquinas não basta. Ele afirmou que o produtor precisa de orientação para plantar melhor, corrigir o solo, manejar o gado, usar adubo corretamente e acessar linhas de financiamento. Alan cobrou uma atuação mais forte dos bancos públicos, especialmente do Banco da Amazônia, para que o crédito chegue ao pequeno produtor.

A BR-364 também foi tratada como prioridade. Alan disse que a rodovia é de responsabilidade federal, mas não pode ser vista como um problema distante do governo estadual. Segundo ele, a estrada interfere diretamente no abastecimento, no escoamento da produção, no custo de vida e na integração entre o Vale do Acre e o Juruá.

O senador afirmou que a bancada federal, prefeitos e entidades comerciais já cobraram do Ministério dos Transportes a reconstrução da rodovia. Ele citou um investimento superior a R$ 1,8 bilhão e disse que o Acre não pode aceitar apenas reparos temporários. A previsão mencionada na entrevista é de início, em 15 de junho de 2026, de uma etapa de reconstrução com macadame hidráulico em 415 quilômetros.

Alan Rick também criticou o governo estadual ao comentar obras e repasses. Ao falar sobre o complexo viário da Avenida Ceará, em Rio Branco, disse ter destinado R$ 17 milhões em emenda e afirmou que não precisa de convite para inauguração. “O que eu quero é obra bem feita, entregue logo e dinheiro público bem aplicado”, declarou.

Na relação com prefeitos, o senador defendeu tratamento institucional, independentemente de partido. Ele afirmou que recebe todos os gestores acreanos em Brasília e criticou possíveis retaliações políticas contra municípios comandados por adversários. Para Alan, o estado é pequeno e precisa de cooperação entre mandato federal, governo estadual e prefeituras.

Sobre alianças, Alan Rick disse que pretende construir uma frente ampla. Citou conversas com lideranças nacionais e estaduais, mencionou Mara Rocha como pré-candidata ao Senado e elogiou o senador Sérgio Petecão. Também afirmou que a escolha do vice ficará para a fase final, após pesquisas e avaliação de critérios como força política, votos, partidos, tempo de televisão e presença nos municípios.

Questionado sobre o governador Gladson Cameli, Alan afirmou que o caso é triste para o Acre e que cabe à defesa provar a inocência nas instâncias judiciais. O senador disse que o estado precisa superar o desgaste político e voltar a ser reconhecido nacionalmente por resultados positivos.

Na reta final da entrevista, Alan buscou marcar posição contra a polarização. Disse que quer receber votos de eleitores da direita, do centro e da esquerda, e afirmou que não pretende alimentar ódio contra adversários. “O Acre é pequeno demais para você ficar plantando ódio só porque o cara é de um partido ou de uma ideologia diferente da sua”, afirmou.

A entrevista mostrou o eixo inicial da pré-campanha de Alan Rick: apresentar o mandato no Senado como base de entrega, transformar a escuta nos municípios em argumento político e vincular a disputa de 2026 a temas concretos, como economia, estrada, produção rural, saúde e crédito. O desafio será transformar esse discurso em plano de governo e sustentar, até a eleição, a imagem de candidato capaz de reunir forças políticas diferentes em torno de uma agenda comum.

Acórdão do STJ contra Gladson é publicado e abre fase decisiva de recursos

A publicação nesta quarta-feira (27) do acórdão da Ação Penal 1.076, que condenou o ex-governador Gladson Cameli a 25 anos e 9 meses de prisão, em regime inicial fechado, abriu uma nova etapa no caso Ptolomeu e colocou em contagem os próximos prazos da defesa. A decisão da Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça envolve os crimes de organização criminosa, fraude à licitação, peculato-desvio, corrupção passiva e lavagem de dinheiro, além de multa, indenização de R$ 11.785.020,31 ao Estado do Acre e perda do cargo de governador, embora Gladson já tivesse renunciado ao mandato no início de abril para tentar disputar o Senado.

O acórdão é a peça formal que reúne a decisão dos ministros, os fundamentos da condenação, as teses acolhidas e recusadas, a dosimetria da pena e os efeitos jurídicos. Na prática, ele transforma o resultado do julgamento em documento oficial completo e abre espaço para os recursos cabíveis. O primeiro caminho da defesa são os embargos de declaração, usados para apontar eventual omissão, contradição, obscuridade ou erro material. Em processo penal, esse prazo é de 2 dias corridos, contado a partir da intimação formal. Depois disso, ou após o julgamento dos embargos, pode ser aberto o prazo para recurso extraordinário ao Supremo Tribunal Federal, de 15 dias corridos, quando houver discussão constitucional.

A dúvida sobre esses prazos, sobre a possibilidade de candidatura e sobre o alcance das decisões do STJ e do STF já havia sido tratada na semana passada pelo Grupo Integração. No Jornal da Manhã da Rádio Integração FM, em Cruzeiro do Sul, o advogado Emerson Soares, com 30 anos de atuação, foi entrevistado por Chico Melo, Mazinho Rogério e Rogério Venceslau justamente para separar o que era fato jurídico, o que era possibilidade recursal e o que vinha sendo confundido no debate político. A pergunta central foi direta: se o prazo de registro de candidatura fosse naquele dia, Gladson poderia registrar a candidatura? Emerson respondeu: “não, efetivamente não”.

A explicação dada por Emerson partiu da Lei Complementar 64/90, a Lei da Ficha Limpa. Para ele, a condenação por órgão colegiado já cria impedimento eleitoral, mesmo sem trânsito em julgado. Como a decisão saiu da Corte Especial do STJ, um colegiado judicial, a situação de Gladson entra no campo da inelegibilidade, ainda que a defesa possa recorrer. Emerson também calculou que, em crimes contra a administração pública, a inelegibilidade pode alcançar o período da pena mais 8 anos após o cumprimento, o que, pela condenação atual, chegaria a 33 anos e 9 meses.

O ponto mais sensível da entrevista foi a confusão criada em torno da decisão do STF sobre relatórios de inteligência financeira do Coaf. Emerson explicou que parte das provas foi afastada por problema na forma de obtenção, mas que isso não significou anulação do processo nem derrubada da condenação. Ele lembrou que a ministra Nancy Andrighi retirou dos autos os elementos atingidos pela decisão do Supremo e que, mesmo assim, a condenação foi sustentada em provas autônomas. “Não é fato novo e muito menos uma anulação do processo que foi julgado pelo STJ”, afirmou.

Essa distinção ganhou ainda mais peso com a publicação do acórdão. A defesa poderá insistir em teses sobre nulidade, competência, cadeia de custódia e validade das provas, mas o STJ já enfrentou essas questões no julgamento. A Corte Especial manteve a condenação com base no entendimento de que os elementos invalidados pelo STF não serviram como fundamento para condenar Gladson. A notícia oficial do STJ registrou que as investigações seguiram com provas autônomas e que a Corte entendeu haver participação direta do ex-governador no esquema.

Na semana passada, Emerson também tratou do recurso extraordinário ao STF. Ele explicou que esse caminho é estreito porque o Supremo não reabre o processo para reavaliar todo o conjunto de provas. O recurso precisa discutir matéria constitucional e demonstrar repercussão geral. Para o advogado, uma liminar para suspender os efeitos da condenação é possível em tese, mas as chances são remotas diante da densidade do julgamento do STJ.

O calendário agora pesa contra a defesa porque o processo judicial corre ao lado do calendário eleitoral. Emerson lembrou que o prazo de registro de candidaturas vai até 15 de agosto e que eventual tentativa de candidatura depende de uma decisão capaz de suspender os efeitos da condenação colegiada. Na avaliação dele, os embargos de declaração podem até ser necessários para preparar o recurso ao STF, especialmente por causa do chamado prequestionamento, mas também fazem o relógio avançar. “O prazo do recurso é quinze dias”, explicou, ao tratar do recurso extraordinário, com contagem corrida.

O acórdão também reforça o peso político da condenação. Gladson foi um dos nomes mais fortes da política acreana nas últimas duas décadas, eleito deputado federal, senador e governador, além de reeleito ao governo.

A publicação do acórdão, portanto, não encerra o caso, mas reduz o espaço das incertezas. A condenação está formalizada. Os recursos ainda podem ser apresentados. A defesa pode buscar esclarecimentos no próprio STJ e depois tentar levar matéria constitucional ao STF. A candidatura, se houver tentativa de registro, dependerá da Justiça Eleitoral e de eventual decisão que suspenda os efeitos da condenação. O que muda agora é que o debate deixa de girar em torno de versões soltas e passa a caminhar sobre prazos, peças processuais e decisões formais.

No ar da Integração, Emerson resumiu a lógica do processo com uma frase que ajuda a entender o momento: “a decisão do juiz não se questiona, se recorre”. É exatamente essa a fase aberta agora. Gladson foi condenado por um órgão colegiado, a defesa ainda pode recorrer, mas o acórdão publicado coloca o caso em uma etapa mais dura, com menos espaço para narrativa e mais peso para o calendário.