O Governo do Acre empenhou R$ 500 mil para contratar o show do padre Fábio de Melo na Expoacre 2026, em Rio Branco. A reserva orçamentária foi registrada pela Casa Civil em 30 de julho e cobre a apresentação do artista, banda completa, equipe técnica e produção artística.
A contratação foi feita com a empresa Farol Musical, inscrita no CNPJ nº 45.315.776/0001-39, por meio do Contrato CC nº 46/2026. A despesa está vinculada ao Processo SEI nº 4002.008447.00859/2026-04 e ao empenho nº 4460010816, com recursos de fonte não vinculada do orçamento estadual.
Até 31 de julho, o valor ainda não havia sido liquidado nem pago. Os registros de execução orçamentária mantinham zerados os campos referentes à liquidação e ao pagamento.
O empenho reserva o dinheiro no orçamento, mas não representa transferência imediata à empresa. O pagamento depende da realização da despesa, da apresentação dos documentos previstos no contrato e da liquidação pelos setores responsáveis.
O valor contratado para Rio Branco ficou R$ 150 mil abaixo da previsão incluída no plano de trabalho da Expoacre Juruá. Para o evento realizado em Cruzeiro do Sul, a Associação Transformar reservou R$ 650 mil para o cachê de Fábio de Melo.
A previsão do Juruá ficou 30% acima dos R$ 500 mil contratados pela Casa Civil para a Expoacre da capital.
Os números, porém, têm naturezas diferentes. Em Rio Branco, os R$ 500 mil correspondem a um contrato formalizado com a empresa responsável pelo artista. No Juruá, os R$ 650 mil aparecem como previsão de cachê no plano de trabalho executado pela Associação Transformar.
O plano da Expoacre Juruá também reservou R$ 2,44 milhões para produção e logística do conjunto de atrações nacionais, incluindo passagens, hospedagem, alimentação e transporte. Essas despesas foram previstas separadamente do cachê dos artistas.
Em comparação com contratos públicos recentes, os R$ 500 mil empenhados pelo Governo do Acre para o show de padre Fábio de Melo em Rio Branco são R$ 220 mil superiores aos R$ 280 mil contratados pela Prefeitura de Nova Cruz, no Rio Grande do Norte, em 2025, e R$ 240 mil acima dos R$ 260 mil pagos pelo município de Graça, no Ceará, em 2024. Já os R$ 650 mil previstos no plano de trabalho da Expoacre Juruá superam essas referências em R$ 370 mil e R$ 390 mil, respectivamente, ficando até 150% acima do menor valor pesquisado.
Secom empenhou R$ 4,6 milhões para serviços entre julho e setembro; Thera já recebeu R$ 11,7 milhões de órgãos estaduais em 2026
O Governo do Acre conseguiu manter quatro campanhas institucionais em circulação durante os três meses que antecedem as eleições. Desde o início das restrições à publicidade pública, o Estado apresentou pedidos ao Tribunal Regional Eleitoral do Acre e recebeu autorização para divulgar ações contra queimadas, de vacinação, doação de sangue e enfrentamento ao abuso sexual de crianças e adolescentes.
No mesmo período, a Secretaria de Estado de Comunicação empenhou R$ 4,6 milhões para a Thera Publicidade executar serviços em julho, agosto e setembro. O empenho foi emitido em 4 de julho, primeiro dia da vedação eleitoral, com a descrição “divulgação dos atos e ações do Governo do Acre”.
O valor ainda não aparece como liquidado ou pago. O recurso foi reservado no orçamento, mas não há registro de que os R$ 4,6 milhões tenham sido transferidos à agência.
Governo obteve quatro autorizações
A legislação eleitoral proíbe, como regra, a publicidade institucional nos três meses anteriores às eleições. A divulgação só pode continuar quando a Justiça Eleitoral reconhece grave e urgente necessidade pública.
Por essa exceção, o Governo do Acre manteve quatro campanhas no ar. Cada pedido foi analisado separadamente pelo TRE-AC.
A campanha contra queimadas e incêndios florestais recebeu autorização liminar no processo nº 0600135-19.2026.6.01.0000. O governo apresentou justificativas da Secretaria de Meio Ambiente e modelos das peças. A decisão permitiu a divulgação em televisão, rádio, jornais e mídias digitais até o julgamento definitivo.
O tribunal considerou a estiagem e os dados ambientais suficientes para manter a comunicação preventiva. A veiculação ficou limitada aos leiautes, roteiros e modelos submetidos ao TRE, sem nomes, imagens, slogans de governo ou elementos de promoção de autoridades.
No processo nº 0600137-86.2026.6.01.0000, o Estado pediu autorização para a campanha de multivacinação “Quem ama, vacina”. A ação, prevista para televisão, rádio, jornais e meios digitais, integra o calendário do Ministério da Saúde e tem atividades programadas para agosto e setembro.
O TRE aprovou a campanha por unanimidade. Os desembargadores levaram em conta os baixos índices de cobertura vacinal e o caráter educativo das peças, que não apresentam nomes, vozes, imagens, slogans políticos ou marcas de gestão.
Campanha exibida em portal foi analisada pelo TRE
Uma das campanhas autorizadas já aparece em portais de notícias do Acre. Com o título “Alguns monstros não estão debaixo da cama”, a peça incentiva denúncias de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes pelo Disque 100.
A ação foi analisada no processo nº 0600138-71.2026.6.01.0000. O governo informou ao TRE o aumento de casos de maus-tratos no Acre e defendeu a necessidade de uma campanha preventiva, informativa e educativa. A decisão liminar autorizou a veiculação em televisão, rádio, jornais e mídias digitais.
O material publicado traz o brasão do Estado e informa que a campanha foi autorizada pelo TRE-AC. A decisão, porém, vale apenas para as peças apresentadas no processo. Mudanças de conteúdo ou a inclusão de elementos de promoção da administração não estão cobertas pela autorização.
A quarta campanha, “Quando você doa, alguém recomeça”, busca recompor os estoques de sangue do Hemoacre. O TRE autorizou definitivamente a divulgação após analisar relatórios sobre a redução dos estoques e a queda nas doações durante julho e agosto.
O Acórdão nº 7.374/2026 restringiu a autorização às peças examinadas. Alterações relevantes no conteúdo, na identidade visual ou na forma de divulgação dependem de nova análise da Justiça Eleitoral.
Thera já recebeu R$ 11,7 milhões em 2026
Enquanto mantém as quatro campanhas autorizadas pelo TRE, o Governo do Acre continua executando contratos de publicidade com a Thera.
Os pagamentos estaduais de 2026 mostram que a agência recebeu R$ 11.763.863,60 da administração pública estadual neste ano.
Desse total, R$ 11.075.718,43 foram pagos pela Secretaria de Comunicação por meio do Contrato nº 004/2024. Outros R$ 688.145,17 saíram do Departamento Estadual de Trânsito, vinculados ao Contrato nº 034/2025.
Os cinco empenhos emitidos em favor da empresa somam R$ 17.488.115,55. Parte desse valor ainda não foi liquidada, incluindo os R$ 4,6 milhões reservados pela Secom para serviços entre julho e setembro.
A descrição do empenho é mais abrangente que as autorizações eleitorais. Enquanto as decisões do TRE tratam de quatro campanhas específicas, o registro orçamentário prevê, de forma ampla, a divulgação de atos e ações do governo.
Autorizações não informam os custos
O tribunal examinou a urgência das campanhas e o conteúdo das peças apresentadas pelo Estado.
Os processos também não informam o custo de cada campanha, os valores destinados aos veículos de comunicação, o número de inserções ou a divisão dos recursos entre produção, remuneração da agência e compra de mídia.
As autorizações permitem apenas a circulação das quatro campanhas durante o período eleitoral, dentro dos modelos aprovados. Obras, entregas, resultados administrativos e outras ações comuns da gestão não estão incluídos.
O governo ainda não informou quanto dos R$ 4,6 milhões será destinado a cada campanha nem quais emissoras, rádios, jornais, portais e plataformas digitais receberão os recursos.
As decisões eleitorais explicam por que as campanhas podem continuar no ar. Os planos de mídia, as ordens de serviço, os pedidos de inserção e as notas fiscais poderão revelar quanto o Governo do Acre gastará com publicidade durante o trimestre eleitoral.
Um comentário publicado por um leitor nas redes sociais levou o Grupo Integração a ampliar a apuração sobre os investimentos do governo Gladson Cameli e Mailza Assis na indústria acreana. A crítica afirmava que a reportagem anterior seria “tendenciosa” por não considerar os recursos do Fundo de Desenvolvimento Sustentável do Acre (FDS) e sustentava que apenas esse fundo teria investido mais de R$ 20 milhões na indústria em 2025. A nova análise incluiu todos os pagamentos do FDS entre 2019 e 9 de julho de 2026. O resultado não confirmou a afirmação. No período inteiro, o fundo pagou R$ 17,25 milhões. Desse total, cerca de R$ 1,55 milhão, aproximadamente 9%, aparece diretamente ligado a planejamento industrial, equipamentos produtivos, polos industriais, parques e marcenarias.
A nova checagem não substitui a reportagem anterior. Ela amplia o alcance da análise ao incorporar um instrumento que não havia sido examinado inicialmente. Em vez de alterar a conclusão, os novos dados reforçam o mesmo cenário: o governo mantém ações voltadas ao setor industrial, mas a maior parte dos recursos públicos continua concentrada em promoção comercial, eventos, serviços administrativos e estruturas temporárias.
Os pagamentos do FDS começaram com R$ 217,5 mil em 2019. Não aparecem desembolsos em 2020 e 2021 na base consultada. Em 2022 foram pagos R$ 108,9 mil. Em 2023 o valor subiu para R$ 1,91 milhão. Em 2024 chegaram a R$ 2,59 milhões. O maior volume ocorreu em 2025, com R$ 7,29 milhões. Entre janeiro e 9 de julho de 2026, outros R$ 5,12 milhões foram pagos, totalizando R$ 17.251.035,27.
A distribuição dos recursos ajuda a entender como o fundo foi utilizado. Dos R$ 17,25 milhões, R$ 14,91 milhões foram classificados na subfunção Administração Geral, o equivalente a 86,5% do total. Outros R$ 1,46 milhão ficaram em Promoção Comercial. A Difusão do Conhecimento Científico e Tecnológico recebeu R$ 646,4 mil. A Promoção Industrial reuniu apenas R$ 217,5 mil.
A classificação orçamentária não significa, por si só, que todo o dinheiro registrado em Administração Geral tenha sido gasto fora da política industrial. Parte dessas despesas pode financiar atividades de apoio. Ainda assim, a concentração revela que a maior parte dos recursos foi direcionada ao funcionamento da estrutura administrativa e não à implantação de novas fábricas, aquisição de máquinas ou expansão permanente da capacidade produtiva.
Os serviços contratados junto a empresas consumiram R$ 8,32 milhões. As contribuições somaram R$ 3,97 milhões. Consultorias receberam R$ 2,56 milhões. A compra de equipamentos e material permanente ficou em R$ 892,4 mil. Também foram pagos R$ 716,7 mil em diárias, R$ 192,9 mil em material de consumo, R$ 179,2 mil em passagens e locomoção e R$ 176,7 mil em serviços de tecnologia da informação.
Os pagamentos ficaram concentrados em poucos beneficiários. Os dez maiores credores receberam aproximadamente R$ 13 milhões, o equivalente a 75,5% de tudo o que saiu do fundo.
A Poliedro Construções Ltda. lidera a lista com R$ 2,70 milhões. Rafael Wiciuk Eireli recebeu R$ 2,63 milhões. O Instituto Mercosul Amazônia ficou com R$ 1,89 milhão. A Casa da Amizade recebeu R$ 1,59 milhão. O Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento recebeu R$ 928 mil. A T. P. P. Silva Ltda. ficou com R$ 924,2 mil. O Instituto Euvaldo Lodi recebeu R$ 875 mil para elaborar o Plano Estratégico de Desenvolvimento da Indústria Acreana. Também aparecem a Associação Comercial e Empresarial de Cruzeiro do Sul, com R$ 620,1 mil, a Federação das Associações Comerciais e Empresariais, com R$ 548,2 mil, e a Belrio Comércio de Máquinas e Equipamentos, com R$ 300 mil.
A leitura individual dos históricos dos pagamentos permitiu separar aquilo que representa investimento diretamente ligado à indústria das despesas voltadas à promoção econômica. Nessa análise, apenas R$ 1.548.484,44 foram destinados de forma objetiva ao fortalecimento da atividade industrial.
O maior contrato desse grupo é justamente o Plano Estratégico de Desenvolvimento da Indústria Acreana, executado pelo Instituto Euvaldo Lodi, no valor de R$ 875 mil. O trabalho organiza diretrizes e acompanha o desenvolvimento industrial, mas não representa investimento direto em plantas industriais ou linhas de produção.
A compra de equipamentos para agroindústrias respondeu por cerca de R$ 316,8 mil. Os itens incluem caldeira vertical, nória de sangria para frangos e câmaras frias. Outros R$ 356,6 mil foram destinados a ações relacionadas a polos industriais, parques industriais e marcenarias, incluindo regularização fundiária, licenciamento ambiental, manutenção de galpões e diagnósticos técnicos.
Enquanto aproximadamente R$ 1,55 milhão teve relação direta com a estrutura produtiva, despesas ligadas à Expoacre, Expoacre Juruá e ExpoJuruá alcançaram R$ 3,38 milhões apenas dentro do FDS. Em 2025, esses pagamentos somaram R$ 2,62 milhões.
Os recursos financiaram montagem de estruturas, feiras de negócios, espaços empresariais, apoio logístico e ações de promoção comercial. Entre os beneficiários aparecem entidades empresariais, organizadores de eventos e empresas responsáveis pela infraestrutura das exposições.
A nova análise também dialoga com a reportagem anterior, que examinou a execução financeira das estruturas estaduais responsáveis por Indústria, Ciência, Tecnologia, Comércio e Turismo.
Entre 2022 e 7 de julho de 2026, essas estruturas pagaram R$ 170,4 milhões. O valor reúne duas bases administrativas: a antiga SEICETUR, que concentrava também o Turismo, e a atual SEICT, criada após a reorganização administrativa. A consolidação eliminou lançamentos coincidentes para evitar dupla contagem. Por isso, o total é superior aos R$ 131,6 milhões encontrados apenas na planilha da atual SEICT.
Dos R$ 170,4 milhões pagos, R$ 76,1 milhões, equivalentes a 44,7%, aparecem em lançamentos que mencionam expressamente Expoacre, Expoacre Juruá, feiras, eventos, Carnaval, festas, festivais, shows, atrações nacionais ou comemorações do Dia do Trabalhador.
Esse montante não corresponde apenas ao pagamento de artistas. A soma inclui montagem de palcos, estruturas metálicas, tendas, iluminação, sonorização, produção, organização, apoio técnico, logística, espaços empresariais, feiras de negócios e termos de colaboração com entidades parceiras. Como um mesmo pagamento pode mencionar mais de um desses termos, o cálculo eliminou repetições para evitar que um único lançamento fosse contabilizado mais de uma vez.
Os dados não autorizam afirmar que o governo deixou de investir na indústria. Existem incentivos fiscais, cessão de áreas, planejamento estratégico, aquisição de equipamentos e apoio a cadeias produtivas. O que a execução orçamentária mostra, porém, é outra ordem de prioridades.
Enquanto o discurso institucional enfatiza industrialização, inovação, tecnologia, exportações, fortalecimento das cadeias produtivas e geração de empregos permanentes, a maior parcela dos pagamentos ficou concentrada em promoção comercial, eventos e estruturas temporárias.
Entre 2022 e 7 de julho de 2026, a Secretaria de Indústria, Ciência, Tecnologia e Turismo do Acre pagou R$ 170,4 milhões. Desse total, R$ 76,1 milhões aparecem em históricos ligados à Expoacre, Expoacre Juruá, feiras, Carnaval, festas, festivais, shows, atrações nacionais, eventos e comemorações do Dia do Trabalhador. A execução financeira revela uma contradição que atravessa o governo Gladson Cameli e Mailza Assis: enquanto o discurso oficial fala em industrialização, inovação e geração de empregos, o orçamento concentrou seus maiores volumes na promoção comercial e na realização de eventos.
A discussão ganhou força após a conselheira Naluh Gouveia, do Tribunal de Contas do Estado, questionar os elevados gastos públicos com festas e shows. Durante sessão do TCE, ela afirmou que artistas “vêm aqui, cantam e vão embora”, enquanto permanecem desafios como emprego, renda e infraestrutura. A provocação serve como ponto de partida para uma pergunta maior: o que fica para o Acre depois que o palco é desmontado?
A resposta passa pela própria execução orçamentária da pasta.
A maior subfunção da despesa foi Promoção Comercial, que consumiu R$ 85,2 milhões. A Promoção Industrial recebeu R$ 16,5 milhões. Na prática, para cada real destinado diretamente à promoção da indústria, mais de cinco foram direcionados à promoção comercial.
A diferença ajuda a explicar a prioridade construída ao longo do governo. Em vez de concentrar recursos na expansão da capacidade industrial, qualificação profissional, infraestrutura produtiva, inovação aplicada e fortalecimento das cadeias econômicas, a secretaria operou principalmente como organizadora de feiras, vitrines comerciais e grandes eventos.
A Expoacre tornou-se o principal símbolo dessa política. Os pagamentos que mencionam diretamente a feira somam R$ 50,9 milhões, sendo R$ 35,5 milhões relacionados à Expoacre Juruá. Entre os maiores beneficiários aparecem a Casa da Amizade e a Associação Comercial e Empresarial de Cruzeiro do Sul, em contratos destinados à promoção de eventos, estruturação de ambientes de negócios e contratação de atrações nacionais.
Em 2025, a Expoacre Juruá reuniu artistas como Gusttavo Lima, Wesley Safadão, Raça Negra, Isaías Saad, Marcynho Sensação e Eric Land. Na edição de Rio Branco, Jorge & Mateus liderou a programação. O Carnaval da Família também recebeu recursos da estrutura responsável pela política de desenvolvimento econômico.
Os próprios editais mostram essa opção. O Chamamento Público nº 002 da SEICT teve como objeto a promoção de eventos com atrações nacionais durante a Expoacre Juruá e a Expoacre de Rio Branco. Em 2026, a Festa do Trabalhador foi apresentada como evento voltado ao comércio, tecnologia e cultura.
Nada disso significa que feiras e eventos não movimentem a economia. Movimentam hotéis, restaurantes, transporte, ambulantes, fornecedores e pequenos comerciantes. Também aproximam produtores, compradores e investidores. A diferença está entre estimular negócios por alguns dias e construir uma política industrial permanente.
O palco gera renda temporária. A indústria produz riqueza continuamente. Ela exige infraestrutura, energia, logística, qualificação profissional, crédito, pesquisa, tecnologia, mercado consumidor e segurança para investir.
É justamente esse discurso que o governo apresenta.
Em junho de 2025, anunciou um plano de fortalecimento industrial e reforçou a atuação da Comissão da Política de Incentivo às Atividades Industriais do Acre (Copiai), responsável pela concessão de incentivos tributários e áreas em distritos industriais. Também lançou o Comprac, programa destinado a ampliar as compras públicas de produtos fabricados no estado.
Meses antes, o governo informou ter atraído R$ 16,5 milhões em investimentos para novas indústrias instaladas em Rio Branco, Brasileia e Epitaciolândia. Também inaugurou o Hub de Inovação do Acre e ampliou a campanha Feito no Acre, desenvolvida em parceria com a Federação das Indústrias, Sebrae e Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento.
O problema não está na existência dessas iniciativas. Elas existem. A questão é que ocupam espaço muito menor na execução financeira do que as despesas destinadas à promoção comercial.
Apesar disso, o Acre demonstra possuir uma base industrial capaz de crescer.
Segundo a Confederação Nacional da Indústria, o estado possui PIB industrial de R$ 1,9 bilhão e emprega 18.564 trabalhadores. Ainda representa apenas 0,1% da indústria nacional, mas reúne cadeias produtivas consolidadas na proteína animal, café, castanha, frutas, madeira manejada e bioeconomia.
A Dom Porquito é um dos exemplos mais conhecidos. Instalada em Brasileia, a agroindústria reúne 387 colaboradores, processa cerca de 20 toneladas de carne suína por dia, abate entre 350 e 380 animais diariamente e comercializa aproximadamente 60 produtos dentro e fora do Acre.
Em 2025, foi anunciado um pacote superior a R$ 200 milhões destinado à cadeia da proteína animal. O valor reúne diferentes fontes de investimento. Cerca de R$ 82 milhões correspondem a financiamentos do Banco da Amazônia destinados à construção de 250 galpões de suínos e 40 de aves. Outros investimentos privados foram anunciados para modernização da indústria frigorífica bovina.
Nesse processo, a ApexBrasil, presidida por Jorge Viana, participou da articulação institucional voltada à abertura de mercados, exportação e aproximação entre empresas e instituições financeiras. Não há elementos para atribuir integralmente à Apex ou a Jorge Viana os mais de R$ 200 milhões anunciados, mas houve participação relevante na construção desse ambiente de investimentos.
A Acreaves representa outro exemplo de industrialização permanente. O complexo instalado no Alto Acre foi estruturado para gerar cerca de 300 empregos diretos e aproximadamente 1,5 mil indiretos, fortalecendo a cadeia integrada da avicultura e reduzindo a dependência de produtos vindos de outros estados.
Outro caso emblemático é o da Cooperacre.
A cooperativa já atua no beneficiamento de castanha-do-Brasil, borracha, palmito, café e frutas, envolvendo milhares de famílias extrativistas e agricultores familiares. Agora decidiu ampliar essa estrutura utilizando recursos próprios.
Em Rio Branco, a Cooperacre investe R$ 60 milhões na implantação de uma nova agroindústria de frutas tropicais. A unidade terá capacidade para processar até 10 milhões de quilos de polpas por ano, dez vezes mais que a estrutura anterior, utilizando frutas como açaí, cupuaçu, cajá, maracujá, acerola, manga, goiaba, caju, abacaxi e graviola.
A nova planta utilizará envase asséptico, permitindo armazenamento sem refrigeração por até dois anos, reduzindo custos logísticos e ampliando o acesso aos mercados nacional e internacional. A expectativa é beneficiar diretamente cerca de 5 mil famílias produtoras.
Esse investimento evidencia uma diferença importante. Enquanto a feira apresenta produtos, a indústria compra matéria-prima, processa alimentos, gera empregos, movimenta fornecedores, amplia exportações e mantém renda circulando durante todo o ano.
O café acreano oferece outro exemplo de política industrial baseada em estrutura permanente.
Em Mâncio Lima, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) financiou R$ 8 milhões para a construção do Complexo Industrial do Café do Juruá. A Coopercafé investiu outros R$ 2 milhões. O empreendimento reúne secagem, classificação, armazenamento e beneficiamento do café produzido principalmente pela agricultura familiar.
A articulação foi conduzida dentro da ABDI pela diretora Perpétua Almeida. O complexo atende mais de 180 cooperados e integra uma cadeia produtiva formada por milhares de pessoas ligadas ao cultivo do café.
Posteriormente, a ABDI assinou novo convênio, desta vez com a Cooperacre, no valor de R$ 14,7 milhões, destinado à construção de dois novos complexos industriais de café em Capixaba e Acrelândia.
Os projetos demonstram que a industrialização acontece quando o investimento chega ao galpão, à máquina, ao laboratório e à cooperativa. É ali que a matéria-prima ganha valor antes de deixar o estado.
Os dados do comércio exterior reforçam esse potencial.
As exportações acreanas passaram a ser lideradas pela carne bovina, seguidas pela castanha-do-Brasil, carne suína, soja e outros produtos agroindustriais. Cada etapa de beneficiamento realizada dentro do estado amplia empregos, arrecadação e renda local.
Outro gargalo continua sendo a mão de obra.
O Senai calcula que o Acre precisará qualificar aproximadamente 23 mil profissionais entre 2025 e 2027, sendo cerca de 4 mil novos trabalhadores e outros 19 mil em requalificação profissional. São vagas ligadas à automação, manutenção industrial, alimentos, logística, refrigeração, tecnologia e produção.
Esse talvez seja um dos maiores desafios para qualquer política industrial consistente.
A execução financeira também desperta dúvidas sobre a transparência de alguns investimentos.
A secretaria destinou aproximadamente R$ 18 milhões para integralização de capital da Agência de Negócios do Acre (Anac). Em tese, trata-se de um importante instrumento de desenvolvimento econômico. Entretanto, os históricos dos pagamentos não permitem identificar claramente quais empresas foram financiadas, quantos empregos surgiram, quais cadeias produtivas foram fortalecidas ou qual retorno econômico efetivamente foi obtido.
Essa falta de transparência dificulta medir resultados.
O balanço final mostra uma realidade menos simples do que o debate político costuma apresentar.
Não é correto afirmar que o governo Gladson e Mailza abandonou completamente a indústria. Houve incentivos fiscais, distribuição de terrenos, campanhas de valorização da produção local, apoio institucional à exportação, inovação tecnológica e aproximação com investidores.
Também não seria correto ignorar investimentos estruturantes realizados por cooperativas, empresas privadas, instituições financeiras e órgãos federais que ampliaram a capacidade industrial do Acre.
A questão central está na prioridade orçamentária.
Quando Promoção Comercial recebe R$ 85,2 milhões e Promoção Industrial R$ 16,5 milhões, a execução financeira revela que a principal função da pasta deixou de ser construir indústria para organizar vitrines da indústria.
Uma feira pode abrir mercados.
Um show pode movimentar hotéis.
Um festival pode aquecer o comércio durante alguns dias.
Mas são as fábricas, as agroindústrias, as cooperativas, os frigoríficos, os laboratórios, os centros tecnológicos e os trabalhadores qualificados que permanecem produzindo riqueza quando tudo isso termina.
O legado industrial de um governo não é medido pelo tamanho do palco.
É medido pelo que continua funcionando depois que ele é desmontado.
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