O que o governo Gladson e Mailza deixa para a indústria do Acre

Entre 2022 e 7 de julho de 2026, a Secretaria de Indústria, Ciência, Tecnologia e Turismo do Acre pagou R$ 170,4 milhões. Desse total, R$ 76,1 milhões aparecem em históricos ligados à Expoacre, Expoacre Juruá, feiras, Carnaval, festas, festivais, shows, atrações nacionais, eventos e comemorações do Dia do Trabalhador. A execução financeira revela uma contradição que atravessa o governo Gladson Cameli e Mailza Assis: enquanto o discurso oficial fala em industrialização, inovação e geração de empregos, o orçamento concentrou seus maiores volumes na promoção comercial e na realização de eventos.

A discussão ganhou força após a conselheira Naluh Gouveia, do Tribunal de Contas do Estado, questionar os elevados gastos públicos com festas e shows. Durante sessão do TCE, ela afirmou que artistas “vêm aqui, cantam e vão embora”, enquanto permanecem desafios como emprego, renda e infraestrutura. A provocação serve como ponto de partida para uma pergunta maior: o que fica para o Acre depois que o palco é desmontado?

A resposta passa pela própria execução orçamentária da pasta.

A maior subfunção da despesa foi Promoção Comercial, que consumiu R$ 85,2 milhões. A Promoção Industrial recebeu R$ 16,5 milhões. Na prática, para cada real destinado diretamente à promoção da indústria, mais de cinco foram direcionados à promoção comercial.

A diferença ajuda a explicar a prioridade construída ao longo do governo. Em vez de concentrar recursos na expansão da capacidade industrial, qualificação profissional, infraestrutura produtiva, inovação aplicada e fortalecimento das cadeias econômicas, a secretaria operou principalmente como organizadora de feiras, vitrines comerciais e grandes eventos.

A Expoacre tornou-se o principal símbolo dessa política. Os pagamentos que mencionam diretamente a feira somam R$ 50,9 milhões, sendo R$ 35,5 milhões relacionados à Expoacre Juruá. Entre os maiores beneficiários aparecem a Casa da Amizade e a Associação Comercial e Empresarial de Cruzeiro do Sul, em contratos destinados à promoção de eventos, estruturação de ambientes de negócios e contratação de atrações nacionais.

Em 2025, a Expoacre Juruá reuniu artistas como Gusttavo Lima, Wesley Safadão, Raça Negra, Isaías Saad, Marcynho Sensação e Eric Land. Na edição de Rio Branco, Jorge & Mateus liderou a programação. O Carnaval da Família também recebeu recursos da estrutura responsável pela política de desenvolvimento econômico.

Os próprios editais mostram essa opção. O Chamamento Público nº 002 da SEICT teve como objeto a promoção de eventos com atrações nacionais durante a Expoacre Juruá e a Expoacre de Rio Branco. Em 2026, a Festa do Trabalhador foi apresentada como evento voltado ao comércio, tecnologia e cultura.

Nada disso significa que feiras e eventos não movimentem a economia. Movimentam hotéis, restaurantes, transporte, ambulantes, fornecedores e pequenos comerciantes. Também aproximam produtores, compradores e investidores. A diferença está entre estimular negócios por alguns dias e construir uma política industrial permanente.

O palco gera renda temporária. A indústria produz riqueza continuamente. Ela exige infraestrutura, energia, logística, qualificação profissional, crédito, pesquisa, tecnologia, mercado consumidor e segurança para investir.

É justamente esse discurso que o governo apresenta.

Em junho de 2025, anunciou um plano de fortalecimento industrial e reforçou a atuação da Comissão da Política de Incentivo às Atividades Industriais do Acre (Copiai), responsável pela concessão de incentivos tributários e áreas em distritos industriais. Também lançou o Comprac, programa destinado a ampliar as compras públicas de produtos fabricados no estado.

Meses antes, o governo informou ter atraído R$ 16,5 milhões em investimentos para novas indústrias instaladas em Rio Branco, Brasileia e Epitaciolândia. Também inaugurou o Hub de Inovação do Acre e ampliou a campanha Feito no Acre, desenvolvida em parceria com a Federação das Indústrias, Sebrae e Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento.

O problema não está na existência dessas iniciativas. Elas existem. A questão é que ocupam espaço muito menor na execução financeira do que as despesas destinadas à promoção comercial.

Apesar disso, o Acre demonstra possuir uma base industrial capaz de crescer.

Segundo a Confederação Nacional da Indústria, o estado possui PIB industrial de R$ 1,9 bilhão e emprega 18.564 trabalhadores. Ainda representa apenas 0,1% da indústria nacional, mas reúne cadeias produtivas consolidadas na proteína animal, café, castanha, frutas, madeira manejada e bioeconomia.

A Dom Porquito é um dos exemplos mais conhecidos. Instalada em Brasileia, a agroindústria reúne 387 colaboradores, processa cerca de 20 toneladas de carne suína por dia, abate entre 350 e 380 animais diariamente e comercializa aproximadamente 60 produtos dentro e fora do Acre.

Em 2025, foi anunciado um pacote superior a R$ 200 milhões destinado à cadeia da proteína animal. O valor reúne diferentes fontes de investimento. Cerca de R$ 82 milhões correspondem a financiamentos do Banco da Amazônia destinados à construção de 250 galpões de suínos e 40 de aves. Outros investimentos privados foram anunciados para modernização da indústria frigorífica bovina.

Nesse processo, a ApexBrasil, presidida por Jorge Viana, participou da articulação institucional voltada à abertura de mercados, exportação e aproximação entre empresas e instituições financeiras. Não há elementos para atribuir integralmente à Apex ou a Jorge Viana os mais de R$ 200 milhões anunciados, mas houve participação relevante na construção desse ambiente de investimentos.

A Acreaves representa outro exemplo de industrialização permanente. O complexo instalado no Alto Acre foi estruturado para gerar cerca de 300 empregos diretos e aproximadamente 1,5 mil indiretos, fortalecendo a cadeia integrada da avicultura e reduzindo a dependência de produtos vindos de outros estados.

Outro caso emblemático é o da Cooperacre.

A cooperativa já atua no beneficiamento de castanha-do-Brasil, borracha, palmito, café e frutas, envolvendo milhares de famílias extrativistas e agricultores familiares. Agora decidiu ampliar essa estrutura utilizando recursos próprios.

Em Rio Branco, a Cooperacre investe R$ 60 milhões na implantação de uma nova agroindústria de frutas tropicais. A unidade terá capacidade para processar até 10 milhões de quilos de polpas por ano, dez vezes mais que a estrutura anterior, utilizando frutas como açaí, cupuaçu, cajá, maracujá, acerola, manga, goiaba, caju, abacaxi e graviola.

A nova planta utilizará envase asséptico, permitindo armazenamento sem refrigeração por até dois anos, reduzindo custos logísticos e ampliando o acesso aos mercados nacional e internacional. A expectativa é beneficiar diretamente cerca de 5 mil famílias produtoras.

Esse investimento evidencia uma diferença importante. Enquanto a feira apresenta produtos, a indústria compra matéria-prima, processa alimentos, gera empregos, movimenta fornecedores, amplia exportações e mantém renda circulando durante todo o ano.

O café acreano oferece outro exemplo de política industrial baseada em estrutura permanente.

Em Mâncio Lima, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) financiou R$ 8 milhões para a construção do Complexo Industrial do Café do Juruá. A Coopercafé investiu outros R$ 2 milhões. O empreendimento reúne secagem, classificação, armazenamento e beneficiamento do café produzido principalmente pela agricultura familiar.

A articulação foi conduzida dentro da ABDI pela diretora Perpétua Almeida. O complexo atende mais de 180 cooperados e integra uma cadeia produtiva formada por milhares de pessoas ligadas ao cultivo do café.

Posteriormente, a ABDI assinou novo convênio, desta vez com a Cooperacre, no valor de R$ 14,7 milhões, destinado à construção de dois novos complexos industriais de café em Capixaba e Acrelândia.

Os projetos demonstram que a industrialização acontece quando o investimento chega ao galpão, à máquina, ao laboratório e à cooperativa. É ali que a matéria-prima ganha valor antes de deixar o estado.

Os dados do comércio exterior reforçam esse potencial.

As exportações acreanas passaram a ser lideradas pela carne bovina, seguidas pela castanha-do-Brasil, carne suína, soja e outros produtos agroindustriais. Cada etapa de beneficiamento realizada dentro do estado amplia empregos, arrecadação e renda local.

Outro gargalo continua sendo a mão de obra.

O Senai calcula que o Acre precisará qualificar aproximadamente 23 mil profissionais entre 2025 e 2027, sendo cerca de 4 mil novos trabalhadores e outros 19 mil em requalificação profissional. São vagas ligadas à automação, manutenção industrial, alimentos, logística, refrigeração, tecnologia e produção.

Esse talvez seja um dos maiores desafios para qualquer política industrial consistente.

A execução financeira também desperta dúvidas sobre a transparência de alguns investimentos.

A secretaria destinou aproximadamente R$ 18 milhões para integralização de capital da Agência de Negócios do Acre (Anac). Em tese, trata-se de um importante instrumento de desenvolvimento econômico. Entretanto, os históricos dos pagamentos não permitem identificar claramente quais empresas foram financiadas, quantos empregos surgiram, quais cadeias produtivas foram fortalecidas ou qual retorno econômico efetivamente foi obtido.

Essa falta de transparência dificulta medir resultados.

O balanço final mostra uma realidade menos simples do que o debate político costuma apresentar.

Não é correto afirmar que o governo Gladson e Mailza abandonou completamente a indústria. Houve incentivos fiscais, distribuição de terrenos, campanhas de valorização da produção local, apoio institucional à exportação, inovação tecnológica e aproximação com investidores.

Também não seria correto ignorar investimentos estruturantes realizados por cooperativas, empresas privadas, instituições financeiras e órgãos federais que ampliaram a capacidade industrial do Acre.

A questão central está na prioridade orçamentária.

Quando Promoção Comercial recebe R$ 85,2 milhões e Promoção Industrial R$ 16,5 milhões, a execução financeira revela que a principal função da pasta deixou de ser construir indústria para organizar vitrines da indústria.

Uma feira pode abrir mercados.

Um show pode movimentar hotéis.

Um festival pode aquecer o comércio durante alguns dias.

Mas são as fábricas, as agroindústrias, as cooperativas, os frigoríficos, os laboratórios, os centros tecnológicos e os trabalhadores qualificados que permanecem produzindo riqueza quando tudo isso termina.

O legado industrial de um governo não é medido pelo tamanho do palco.

É medido pelo que continua funcionando depois que ele é desmontado.