Naluh mira “pão e circo”; pasta da Indústria tem R$ 63 milhões em festas e eventos
A fala da conselheira Naluh Gouveia, durante sessão do Tribunal de Contas do Estado do Acre no último dia 2 de julho, colocou em palavras uma pergunta que os números tornam difícil de ignorar: a Secretaria de Estado de Indústria, Ciência e Tecnologia tem financiado uma política de desenvolvimento ou virou uma das principais portas do governo Gladson Cameli e Mailza Assis para bancar festas, shows, feiras e eventos de curta duração?
Naluh foi direta ao tratar dos gastos públicos com festas. Disse que “essa situação dessas festas é um absurdo” e cobrou da Procuradoria-Geral do Estado uma postura menos voltada à defesa de secretários e governadores e mais comprometida com o Estado, a Constituição e o dinheiro público. “A Procuradoria tá nos devendo, como moradores do Acre, essa defesa do nosso Estado”, afirmou.
A manifestação ocorreu na sessão em que o TCE manteve suspensos pagamentos ligados à Festa do Trabalhador, realizada pelo governo em Rio Branco e Cruzeiro do Sul, com shows de Tierry e Joelma. O processo tratava dos Termos de Colaboração nº 3 e nº 4/2026, firmados pela SEICT com a Associação Transformar. Os valores discutidos chegam a cerca de R$ 2,2 milhões para Rio Branco e R$ 2,6 milhões para Cruzeiro do Sul, somando mais de R$ 4,8 milhões.

A cautelar havia sido adotada por falhas no processo, entre elas ausência de pesquisa de preços, falta de comprovação da capacidade técnica da entidade e problemas de transparência. A Procuradoria-Geral do Estado tentou derrubar a suspensão. Alegou que a secretaria entregou depois os documentos cobrados e que a manutenção do bloqueio poderia prejudicar fornecedores e trabalhadores locais, já que os eventos tinham sido realizados. Pediu a liberação dos pagamentos ou, ao menos, o repasse conforme a apresentação das notas fiscais.
A maioria dos conselheiros acompanhou o voto da relatora, conselheira Maria de Jesus, e manteve a suspensão. A entrega posterior dos documentos não bastou para liberar o dinheiro. Pelo volume de recursos e pelas dúvidas abertas no processo, o TCE decidiu que a documentação ainda precisa passar por análise técnica antes de qualquer pagamento.
A crítica de Naluh foi além da Festa do Trabalhador. Ela citou gastos com evento religioso, defendeu o princípio do Estado laico e disse que algumas movimentações em secretarias são “extremamente suspeitas”. No trecho mais duro, falou em “valores imensos para shows” em que o artista “vem aqui, canta e vai embora e não fica nada pro nosso Estado”.
A planilha de despesas da SEICT, após pesquisa no Portal da Transparência, dá tamanho financeiro a essa crítica. A base reúne 1.227 lançamentos entre 2022, 2024, 2025 e o primeiro semestre de 2026. Não há registros de 2023. No período disponível, a secretaria pagou R$ 131,1 milhões. Desse total, R$ 85,2 milhões aparecem na subfunção Promoção Comercial, o equivalente a 65% de tudo que saiu da pasta.
Quando o recorte busca nos históricos termos como Expoacre, evento, feira, show, atrações nacionais, carnaval, festa, festival e Dia do Trabalhador, o valor chega a R$ 63,1 milhões pagos. Na prática, quase metade de todo o dinheiro movimentado pela Secretaria de Indústria, Ciência e Tecnologia no período analisado foi para despesas ligadas a festas, feiras, eventos e atrações nacionais.
O contraste é direto. A mesma pasta que carrega no nome as palavras indústria, ciência e tecnologia pagou R$ 7,6 milhões em Difusão do Conhecimento Científico e Tecnológico, R$ 10,7 milhões em Promoção Industrial e R$ 1,3 milhão em Tecnologia da Informação. Somadas, essas três áreas ficam muito abaixo do volume encontrado em eventos.
Só os históricos que citam Expoacre somam R$ 47,1 milhões. A Expoacre Juruá aparece em R$ 33,6 milhões. Os maiores recebedores desse bloco são a Casa da Amizade, com R$ 40,8 milhões em despesas vinculadas a eventos e feiras, e a Associação Comercial e Empresarial de Cruzeiro do Sul, com R$ 11,5 milhões.
O caso mais expressivo é o Termo de Colaboração nº 3/2025/SEICT, firmado com a Casa da Amizade. O objeto aparece como promoção de eventos com atrações nacionais para as edições da Expoacre Juruá e da Expoacre em Rio Branco. Foram quatro pagamentos: R$ 9,7 milhões, R$ 9,1 milhões, R$ 3,2 milhões e R$ 135 mil. Ao todo, R$ 22,3 milhões.
A programação acompanhou o tamanho da conta. Em 2025, a Expoacre Juruá levou a Cruzeiro do Sul Raça Negra, Gusttavo Lima, Isaías Saad, Marcynho Sensação, Vila Kids Festival, Eric Land e Wesley Safadão. Em Rio Branco, a Expoacre teve Gusttavo Lima, Zezé Di Camargo & Luciano, Fernanda Brum, Matheus & Kauan, apresentações infantis, Tribe Festival, Ecofest e Jorge & Mateus no encerramento.
O modelo não começou em 2025. Em 2024, a Expoacre em Rio Branco teve Biguinho Sensação, Marília Tavares, Limão com Mel, Nadson o Ferinha, Thalles Roberto e Henry Freitas. Na Expoacre Juruá do mesmo ano, o governo anunciou Murilo Huff, Manu Bahtidão, Som e Louvor e Raquel dos Teclados. O discurso oficial sempre apresentou as feiras como vitrines econômicas e motores para o comércio local.
O Carnaval da Família também entrou na conta da SEICT. A planilha mostra R$ 5,16 milhões em despesas com carnaval. Em 2025, a programação teve atrações nacionais como Tchakabum e Gilmelândia, além de artistas locais.
No Dia do Trabalhador de 2026, a base mostra R$ 1.595.503,29 pagos à Associação Transformar: R$ 914 mil para Cruzeiro do Sul e R$ 681,5 mil para Rio Branco. O valor localizado como pago é menor que o total discutido no TCE porque parte dos repasses foi suspensa. Na programação, o governo levou Joelma para Cruzeiro do Sul e Tierry para Rio Branco.
O governo costuma defender esses eventos como instrumentos de movimentação econômica. A Expoacre aquece hotéis, restaurantes, transporte, comércio, ambulantes e prestadores de serviço. Isso não elimina a pergunta central: essa política deixa uma base permanente de desenvolvimento ou só movimenta dinheiro enquanto o palco está montado?
Naluh resumiu a crítica em uma expressão antiga e incômoda. Disse que muitas vezes se dá “pão e circo” para a população esquecer que “não se tem creche, que não se tem emprego, que não se tem trabalho”. Para ela, quando o Estado escolhe a festa como prioridade, deixa de enfrentar problemas que continuam no dia seguinte ao show.
A conselheira também fez uma comparação com os artistas locais. Disse ver jovens formados em música pela Universidade Federal do Acre sem perspectiva, enquanto artistas de fora recebem R$ 300 mil, R$ 500 mil ou R$ 1 milhão e vão embora. “Isso não é certo”, afirmou. Em outro trecho, disse que esses shows entregam “aquele momento de felicidade naquela hora e depois 300 e poucos dias de sofrimento”.
A concentração dos pagamentos reforça o peso político e financeiro dessa engrenagem. Quase metade de todo o dinheiro pago pela SEICT aparece no elemento de despesa Contribuições, com R$ 64 milhões. Esse tipo de despesa inclui repasses a entidades por meio de parcerias, convênios e termos de colaboração. Os dez maiores credores da pasta receberam R$ 102,9 milhões, cerca de 78,5% de todo o valor pago.
O Acre também acumula investigações e decisões judiciais envolvendo shows, empresários de eventos, inexigibilidades e suspeitas de irregularidades. Em janeiro de 2026, a Operação Graco, da Controladoria-Geral da União e da Polícia Federal, mirou um contrato de R$ 1,3 milhão para três shows em Sena Madureira, firmado por inexigibilidade de licitação, com suspeita de prejuízo de até R$ 912 mil.
Em outra frente, a Operação Inceptio levou o Ministério Público do Acre a denunciar 14 pessoas por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. A investigação tratou de um grupo voltado ao envio de drogas para outros estados e à movimentação de dinheiro para esconder a origem dos valores. A imprensa local apontou entre os investigados empresários com atuação no setor de eventos, camarotes, casas noturnas e grandes shows no Acre.
O Ministério Público também já conseguiu suspender shows em municípios acreanos. Em Sena Madureira, a Justiça suspendeu em 2022 a contratação de Bonde do Forró e Mattos Nascimento para a ExpoSena, após ação que apontava desproporção entre festas e prioridades públicas. Em 2026, no Jordão, o MPAC conseguiu manter suspenso contrato de R$ 400 mil para show de Evoney Fernandes, com questionamentos sobre inexigibilidade, possível sobrepreço e compatibilidade da despesa com a realidade social do município.
Nada disso torna todo evento irregular. Feira, show e festa também movimentam economia, dão trabalho a muita gente e podem integrar uma política pública legítima. O problema começa quando uma secretaria criada para cuidar de indústria, ciência e tecnologia passa a concentrar dezenas de milhões em eventos e atrações nacionais sem mostrar, com a mesma clareza, o que ficou de permanente para o Acre.
Depois de R$ 63,1 milhões em despesas ligadas a eventos, feiras, carnaval, Dia do Trabalhador, Expoacre e atrações nacionais, o governo precisa responder quais indústrias foram atraídas, quais cadeias produtivas ganharam força, qual polo tecnológico avançou, quantos empregos permanentes foram criados e que legado econômico ficará quando as luzes da arena se apagarem.
A fala de Naluh Gouveia abriu o incômodo no TCE. A planilha da SEICT mostrou a dimensão da conta. No Acre, o palco passa, o artista embarca de volta e a despesa fica. O que ainda não apareceu, com a mesma força dos contratos de festa, foi a política industrial, científica e tecnológica capaz de justificar uma secretaria com esse nome gastar tanto com evento.