Política

Duas balsas passam a operar no Juruá; Só agora, Governo Mailza?

Quem chegou nesta quarta-feira, 16 de setembro, à travessia do Rio Juruá entre Cruzeiro do Sul e Rodrigues Alves encontrou uma situação diferente da rotina dos últimos anos: duas balsas de grande porte operando ao mesmo tempo. A mudança reduziu a espera de motoristas e passageiros em um serviço que normalmente funciona com apenas uma embarcação. O reforço, porém, começou sem que o Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária do Acre (Deracre), do governo Mailza Cameli, informasse publicamente por que decidiu colocar a segunda balsa em operação, quanto a medida vai custar e por quanto tempo as duas embarcações permanecerão trabalhando juntas.

A data ampliou os questionamentos. Faltam 18 dias para o primeiro turno das Eleições Gerais de 2026, marcado para 4 de outubro. Nos comentários da publicação que mostrou as duas balsas em funcionamento, parte dos usuários comemorou a redução da espera, enquanto outros fizeram uma pergunta direta: por que isso não aconteceu antes?

A associação com o calendário eleitoral apareceu também em vídeo gravado na própria travessia. Em publicação de agosto deste ano, um integrante do movimento social pró-ponte criticou o momento escolhido para colocar a segunda embarcação no rio. “A ideia é boa, mas em pleno período eleitoral colocaram duas balsas de grande porte”, afirmou. 

A pergunta sobre o momento da mudança, no entanto, permanece porque a possibilidade de usar duas embarcações não surgiu agora.

Em 4 de setembro de 2024, o Deracre firmou a Ata de Registro de Preços nº 025/2024 com a empresa A. A. M. Cameli, vencedora do Pregão Eletrônico SRP nº 138/2024. Foram registrados preços para duas balsas com rebocador, pelo prazo de 12 meses, ao valor inicial de R$ 197.495 por mês para cada unidade. O valor global estimado chegou a R$ 4.739.880.

A previsão de duas balsas, sozinha, não significava que ambas deveriam permanecer permanentemente em funcionamento. A contratação foi estruturada para atendimento eventual e “sob demanda”. Na prática, o Estado registrou preço e quantidade para poder requisitar até duas unidades conforme a necessidade do serviço. A existência dessa possibilidade desde 2024, portanto, não comprova descumprimento contratual nos períodos em que apenas uma embarcação trabalhou.

Ela cria outra questão, mais objetiva: diante dos problemas acumulados na travessia, em que momento o Deracre entendeu que havia necessidade de uma segunda balsa e por que essa decisão foi tomada agora?

Até esta quarta-feira, não havia informação pública sobre a ordem que autorizou o reforço, a data em que a segunda embarcação foi requisitada, o período previsto para a operação simultânea ou o impacto financeiro da mudança. Também não foi esclarecido se a segunda balsa ficará no Juruá depois de outubro.

O custo do serviço ajuda a dimensionar a cobrança. Nos registros do Portal da Transparência referentes a 2026 aparecem sete competências do Contrato nº 089/2024, de janeiro a julho, cada uma no valor de R$ 204.068,76, todas pagas integralmente. São R$ 1.428.481,32 nos sete primeiros meses do ano.

Os pagamentos pela locação de balsa com rebocador atravessam diferentes exercícios. Em 2025, chegaram a R$ 2.376.494,94. Em 2024, foram R$ 1.852.511,13; em 2023, R$ 1.815.106,56; e em 2022, R$ 1.913.982,48. A travessia, portanto, não é um serviço eventual na vida de quem mora no Juruá nem uma despesa recente para o Estado. Há anos ela ocupa espaço permanente no orçamento e na rotina de quem precisa cruzar o rio.

A empresa contratada também aparece em processo analisado pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários. Em 2021, a Antaq tratou da operação da A. A. M. Cameli, CNPJ 07.111.525/0001-43, na travessia de passageiros, veículos e cargas no Acre. O transporte é gratuito para o usuário e custeado com recursos públicos estaduais. Naquele processo, a agência entendeu que esse modelo de contratação não produzia efeitos nocivos à livre concorrência.

Pela empresa, a ata de 2024 foi assinada por Antônio Assen Melo Cameli. Ele é pai de Madson Cameli, marido da governadora Mailza Assis e atual chefe do Gabinete Pessoal da governadora. A relação familiar entrou nos comentários feitos por usuários depois que as duas balsas apareceram operando simultaneamente. Ela, por si só, não comprova favorecimento nem irregularidade na contratação. Madson consta atualmente na estrutura oficial da Governadoria como chefe do Gabinete Pessoal, e o governo registra publicamente o casamento de Mailza com ele.

O peso da discussão está menos na existência de duas balsas do que no histórico enfrentado por quem depende delas.

Em janeiro deste ano, uma falha interrompeu a operação da embarcação principal. Vídeos registraram fumaça na balsa e, com a paralisação, veículos voltaram a depender das embarcações menores. A mudança provocou filas e atrasos para moradores e trabalhadores que fazem o percurso diariamente.

Dois meses depois, uma reportagem acompanhou a rotina da travessia em período de movimento considerado fraco. Um morador calculou a espera entre 20 e 25 minutos. Quando o fluxo aumenta, o ciclo de ida e volta pode chegar a cerca de uma hora e meia. Estudantes e trabalhadores relataram que a dependência da travessia interfere no custo e no horário de atividades básicas como estudar e trabalhar.

Os problemas já vinham do ano anterior. Em março de 2025, falhas mecânicas voltaram a interromper o serviço e obrigaram usuários a procurar alternativas enquanto a balsa passava por manutenção. A repetição das ocorrências acabou levando a questão para além das reclamações nas filas e nas redes sociais.

Em abril de 2025, o Ministério Público do Acre abriu inquérito civil para apurar irregularidades na prestação do transporte aquaviário entre Cruzeiro do Sul e Rodrigues Alves. A investigação alcançou a situação das embarcações, as condições de acesso aos pontos de atracação e a atuação do governo estadual. A própria portaria que instaurou o procedimento tratou da “precariedade do atual serviço de travessia” e cobrou informações sobre fiscalização, vistorias, manutenção e medidas capazes de enfrentar os problemas.

Em maio deste ano, a erosão voltou a expor a fragilidade da ligação entre os dois municípios. O desmoronamento do barranco no porto de Rodrigues Alves obrigou o fechamento temporário do acesso. Sem a travessia, moradores que normalmente percorrem cerca de 12 quilômetros entre os pontos de interesse tiveram de enfrentar uma rota terrestre próxima de 50 quilômetros. Um estudante relatou percurso de 46 quilômetros para conseguir chegar a Rodrigues Alves.

O governo reconstruiu um acesso provisório e restabeleceu o serviço dois dias depois. O Deracre atribuiu o problema à erosão causada pela vazante do Juruá e afirmou que a rampa precisa de intervenções frequentes porque a subida e a descida do rio alteram constantemente as condições de atracação.

É esse conjunto de episódios que explica a reação provocada pelas duas balsas nesta quarta-feira. Para quem enfrenta filas, falhas mecânicas, interrupções e problemas de acesso, duas embarcações trabalhando juntas representam uma melhora concreta. A questão levantada por usuários não é se o reforço deveria existir, mas por que uma estrutura contratual que admitia duas unidades desde 2024 só agora apareceu funcionando dessa forma.

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