O pouso às 18h20 não encerra o caso de Feijó

A tentativa de transformar o horário do pouso do aeromédico em Feijó em prova suficiente para encerrar qualquer questionamento sobre a morte de Anderson Montefusco deixa de fora o ponto central do caso.

Os registros divulgados mostram que a aeronave pousou às 18h20 e que, três minutos depois, foi comunicado o óbito do paciente. Isso esclarece uma coisa: o avião chegou a Feijó. Mas não responde à pergunta mais importante: quanto tempo Anderson já aguardava pela transferência quando a aeronave finalmente pousou?

O debate não pode começar às 18h20. Precisa começar no momento em que a remoção foi solicitada.

Há relatos de que a preparação para a transferência ocorria desde horas antes. O próprio governo informou que outras duas crianças, consideradas casos prioritários, foram transportadas antes. É uma explicação que precisa ser considerada, mas que também abre outra discussão: a estrutura disponível era suficiente para atender simultaneamente situações graves no interior?

Também não é possível afirmar, sem avaliação técnica, que a demora provocou a morte de Anderson. Seria irresponsável fazer essa relação sem prontuário, parecer médico e análise completa do atendimento. Mas é igualmente precipitado tratar o caso como esclarecido apenas porque a aeronave pousou três minutos antes da confirmação do óbito.

Por isso, a cobrança feita pelo prefeito de Feijó não perde automaticamente a validade com a divulgação do horário do pouso. O que precisa ser esclarecido é a sequência completa: que horas a transferência foi solicitada, quando foi autorizada, quando a empresa foi acionada, quais missões a aeronave cumpriu antes e por que chegou somente às 18h20.

Se o governo quer encerrar qualquer dúvida, o caminho é simples: publicar a linha do tempo completa da regulação.

O avião ter chegado é um fato. Saber se chegou no tempo necessário é outra questão.

Servidor de 32 anos morre em Feijó à espera de transferência aérea, e prefeito cobra providências

O servidor público municipal Anderson Montefusco, de 32 anos, morreu na segunda-feira (21), em Feijó, no interior do Acre, após sofrer um infarto e aguardar transferência aérea para atendimento em outra unidade de saúde. O prefeito Railson Ferreira afirmou que a remoção foi solicitada depois que o paciente foi estabilizado, mas a aeronave não chegou ao município.

Anderson estava internado no hospital de Feijó e deveria ser transferido pelo sistema de Tratamento Fora do Domicílio (TFD). De acordo com Railson Ferreira, informações repassadas pela equipe médica apontavam que o servidor apresentava condições clínicas para ser transportado depois do atendimento inicial.

O prefeito criticou a demora na remoção e cobrou providências para melhorar o atendimento aos pacientes do interior que dependem de transporte aéreo. Ele atribuiu o problema à regulação estadual e afirmou que Anderson poderia ter sido levado para uma unidade com maior estrutura caso a aeronave tivesse chegado a tempo. A relação entre a demora na transferência e a morte, porém, foi apresentada pelo prefeito e não consta como conclusão médica divulgada publicamente.

Railson Ferreira também afirmou que o episódio não deveria ser tratado como uma disputa política e pediu maior atenção à população de Feijó. Durante o pronunciamento, agradeceu aos profissionais que participaram do atendimento ao servidor no município.

A Prefeitura de Feijó publicou uma nota de pesar pela morte de Anderson Montefusco e prestou solidariedade aos familiares, amigos e colegas de trabalho. A administração municipal também lamentou a perda do servidor e mencionou sua atuação no serviço público municipal.

A morte de Anderson voltou a colocar em discussão as dificuldades enfrentadas por moradores de municípios do interior do Acre que precisam ser transferidos para centros com atendimento de maior complexidade, especialmente nos casos em que o deslocamento depende de transporte aéreo.