R$ 12,7 milhões em shows e uma ambulância em manutenção; crônica das prioridades do Acre

Na noite de sexta-feira, 7 de agosto, enquanto a Expoacre movimentava Rio Branco com uma programação de shows nacionais financiados pelo governo estadual, Maria Conceição Lopes dos Santos, de 49 anos, estava presa sob a caçamba de um caminhão no Ramal do Icuriã, zona rural de Assis Brasil. Os dois braços ficaram comprimidos pela estrutura do veículo. Ela sobreviveria ao acidente, mas teria os dois membros amputados. Entre o local onde ficou presa, o hospital de Assis Brasil, a passagem por Brasiléia e a chegada a Rio Branco, surgiu uma informação que transforma o caso individual em questão política: a ambulância de suporte avançado que atendia Assis Brasil estava em manutenção.

A Secretaria de Estado de Saúde confirmou a indisponibilidade do veículo. Segundo a Sesacre, Maria Conceição permaneceu entre duas e três horas presa às ferragens e, depois de retirada, foi levada à unidade de saúde de Assis Brasil. A paciente precisou ser estabilizada por pouco mais de uma hora. Como a ambulância de suporte avançado da cidade estava em manutenção, uma unidade de Brasiléia foi acionada para fazer a transferência. A secretaria sustenta que, depois da estabilização, o veículo chegou a Assis Brasil em aproximadamente 15 minutos.

A família apresenta outra percepção sobre aquela sequência de horas. Arquilene Santos, irmã de Maria Conceição, relatou demora no resgate e na transferência. Disse que a irmã permaneceu cerca de três horas no local do acidente e que, já na unidade de saúde, houve nova espera por uma ambulância. “É por falta de uma ambulância que está acontecendo o que está acontecendo com a minha irmã agora”, afirmou.

Não há, até agora, comprovação médica de que uma ambulância disponível em Assis Brasil teria evitado as amputações. Seria irresponsável estabelecer essa relação como fato. Os braços de Maria Conceição sofreram esmagamento grave, com danos em tecidos e estruturas ósseas, depois de permanecerem comprimidos sob a caçamba. A própria Sesacre não estabeleceu relação entre o tempo de atendimento e a necessidade das amputações.

A ausência dessa comprovação, porém, não elimina a pergunta que cabe ao governo responder: por que uma cidade de fronteira, distante dos hospitais de maior complexidade, ficou sem sua unidade de suporte avançado disponível justamente quando uma moradora sofreu uma emergência dessa dimensão?

A pergunta ganha peso porque o Acre acaba de atravessar dois grandes eventos financiados com recursos públicos. Somente os cachês das atrações nacionais da Expoacre Juruá e da Expoacre de Rio Branco chegaram a R$ 12,7 milhões em 2026. Não se trata do custo completo das feiras. É apenas o dinheiro destinado aos principais artistas.

No Juruá, seis atrações tiveram R$ 6,25 milhões reservados no plano de trabalho da feira. Leonardo apareceu com R$ 2,1 milhões, Natanzinho Lima com R$ 1,7 milhão, Ícaro e Gilmar com R$ 750 mil, Tierry e padre Fábio de Melo com R$ 650 mil cada e a Banda Morada com R$ 400 mil. A Expoacre Juruá foi executada por meio de parceria da Casa Civil com a Associação Transformar, que recebeu R$ 15,8 milhões para a realização do evento. Os R$ 6,25 milhões representam os valores previstos para os artistas dentro desse orçamento.

Em Rio Branco, os contratos das atrações nacionais chegaram a R$ 6,45 milhões e constavam como empenhados, liquidados e pagos. Wesley Safadão teve contrato de R$ 1,8 milhão. Natanzinho Lima, R$ 1,3 milhão. Padre Fábio de Melo, R$ 500 mil. A Banda Som e Louvor, R$ 300 mil. Leonardo e Ana Castela foram contratados em conjunto por R$ 2,55 milhões. Esse valor não inclui palco, iluminação, montagem, reformas, diárias, segurança ou outros custos da feira.

É neste ponto que o acidente de Maria Conceição deixa de ser apenas uma ocorrência trágica em uma estrada rural.

O debate não precisa ser reduzido à falsa escolha entre fazer a Expoacre ou manter ambulâncias. O Estado pode promover atividade econômica, financiar cultura, organizar feiras e contratar artistas. A Expoacre reúne produtores, empresários, trabalhadores, pequenos comerciantes e movimenta negócios. Essa função econômica existe.

O problema começa quando o governo consegue organizar contratos milionários, definir atrações nacionais, reservar milhões de reais para cachês e executar grandes eventos, enquanto um serviço básico de emergência de uma cidade do interior depende de uma única unidade avançada e fica vulnerável quando esse veículo entra em manutenção.

Manutenção de ambulância é normal. O que precisa ser explicado é o plano para quando ela ocorre.

Assis Brasil não pode descobrir sua alternativa no momento em que alguém está entre a vida, a morte e uma cirurgia de amputação. Se uma ambulância precisa sair de operação, deve existir cobertura capaz de responder imediatamente. Especialmente em um estado onde centenas de quilômetros separam municípios pequenos dos centros hospitalares capazes de receber pacientes em estado grave.

A discussão sobre prioridades públicas não é feita apenas pela leitura do orçamento anual. Ela aparece nas escolhas concretas. Aparece na velocidade com que determinado gasto é contratado. Na quantidade de recursos mobilizada para cada finalidade. Na existência ou não de equipamentos de reserva. Na capacidade de o Estado funcionar quando o imprevisto acontece.

Em julho, o próprio Tribunal de Contas do Estado colocou sob questionamento um processo estimado em R$ 22 milhões para a estrutura da Expoacre de Rio Branco. A Corte apontou possíveis falhas de planejamento, ausência de estudos técnicos suficientes e dúvidas sobre a compatibilidade de custos, determinando a suspensão cautelar dos atos relacionados àquelas parcerias. O governo contestou a decisão e afirmou que nenhum recurso daqueles termos havia sido repassado naquele momento. A feira foi realizada.

Poucas semanas depois, o Acre encerra sua maior festa agropecuária com milhões de reais destinados a apresentações musicais e começa a semana tentando explicar por que uma mulher gravemente ferida em Assis Brasil precisou esperar a mobilização de uma ambulância de outra cidade porque a unidade local estava na oficina.

Os R$ 12,7 milhões não provam abandono da saúde. A ambulância em manutenção também não prova que o governo causou as amputações de Maria Conceição.

Juntos, porém, os dois fatos colocam diante do governo uma pergunta simples e difícil de evitar: na hora de decidir onde colocar dinheiro, planejamento e capacidade de resposta, o que está vindo primeiro?

Maria Conceição agora terá de reorganizar a própria vida sem os dois braços. O palco da Expoacre já começou a ser desmontado. Os contratos ficam registrados nos sistemas públicos. O caso de Assis Brasil também deveria deixar um registro menos passageiro: festa termina. A obrigação de manter uma rede de emergência funcionando não.

CRISE: Sesacre suspende análise de novos serviços para conter pressão na folha

Memorando interno interrompe por 90 dias pedidos de ampliação de atendimento, extensão de carga horária e mudanças nas escalas; secretaria admite comprometimento dos gastos com plantões extras

A Secretaria de Estado de Saúde do Acre suspendeu temporariamente a análise de pedidos para abertura e ampliação de serviços, extensão de carga horária, dedicação exclusiva e mudanças nas escalas das unidades estaduais que provoquem aumento de despesas com pessoal.

A medida consta no Memorando-Circular nº 8/2026, documento interno obtido pelo Grupo Integração e encaminhado aos gerentes das unidades de saúde. O texto foi assinado em 17 de julho pelo secretário de Saúde, José Bestene, pelos secretários adjuntos Suellen Carlos da Silva Morais e Patrício da Silva de Albuquerque e pela diretora Francinete Moreira Barros.

O documento estabelece uma suspensão inicial de 90 dias e reconhece que a folha de pagamento da Sesacre enfrenta pressão, principalmente na rubrica destinada aos plantões extras dos profissionais de saúde.

A própria secretaria afirma que existe um cenário de “comprometimento da folha de pagamento” e que os gastos com plantões extras precisam passar por uma reavaliação “criteriosa e urgente”.

Durante o período de suspensão, não deverão avançar novos pedidos de extensão de jornada, dedicação exclusiva, criação ou alteração de escalas e abertura de serviços que representem aumento de custo para a secretaria.

Na prática, a decisão congela temporariamente a expansão da estrutura assistencial da rede estadual, embora não determine o fechamento dos serviços que já estão funcionando.

Contratados serão usados para preencher escalas existentes

O memorando também esclarece o objetivo das contratações recentes realizadas pela Sesacre. Segundo o documento, os novos profissionais foram admitidos para cobrir déficits nas unidades e manter os serviços existentes, e não para criar ou ampliar atendimentos.

“Não se destinando à expansão, criação ou ampliação de novos serviços ou padrões assistenciais”, afirma o texto ao tratar das contratações.

A orientação é que os recém-contratados sejam distribuídos prioritariamente nas escalas que atualmente dependem de plantões extras. A expectativa declarada pela secretaria é reduzir gradativamente esse tipo de pagamento e reorganizar a força de trabalho.

O documento indica, portanto, que as contratações não deverão resultar imediatamente na abertura de novos leitos, setores ou serviços. Os profissionais serão usados primeiro para preencher lacunas na estrutura que já existe.

A Sesacre argumenta que autorizar novas escalas ou ampliar jornadas neste momento poderia comprometer o objetivo de reequilibrar a folha de pagamento.

Governo está acima do limite prudencial

A decisão ocorre em um momento em que o Poder Executivo do Acre já ultrapassou o limite prudencial de despesas com pessoal estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

O Relatório de Gestão Fiscal do primeiro quadrimestre de 2026 mostra que o Executivo registrou R$ 5,483 bilhões em despesas com pessoal no período de maio de 2025 a abril de 2026. O valor corresponde a 48,09% da Receita Corrente Líquida ajustada.

O limite prudencial é de 46,55%, enquanto o limite máximo permitido ao Executivo estadual é de 49%. Os números foram emitidos pela Secretaria de Estado da Fazenda em 29 de maio.

Isso significa que o governo ficou aproximadamente R$ 175,1 milhões acima do limite prudencial e a cerca de R$ 104,3 milhões de alcançar o teto máximo.

A Lei de Responsabilidade Fiscal prevê restrições para contratação de pessoal, criação de cargos, mudanças em carreiras e pagamento de horas extras quando a despesa ultrapassa 95% do limite máximo.

O próprio memorando da Sesacre cita a legislação fiscal para justificar a suspensão e afirma que a medida busca evitar desequilíbrio financeiro, responsabilização dos gestores e comprometimento da continuidade dos serviços de saúde.

Exceções dependerão de José Bestene

Situações consideradas urgentes e indispensáveis poderão ser autorizadas de forma excepcional. Para isso, a unidade deverá apresentar uma justificativa técnica formal e demonstrar que a medida é necessária para garantir a continuidade da assistência.

A decisão final ficará exclusivamente sob responsabilidade do secretário José Bestene, que deverá avaliar a disponibilidade financeira e orçamentária da Sesacre.

O documento não informa quantos pedidos de ampliação de serviços estavam em análise, quais unidades serão diretamente atingidas ou quanto a secretaria pretende economizar durante o período de suspensão.

Também não apresenta o valor mensal gasto atualmente com plantões extras, nem o número de profissionais recentemente contratados que serão destinados à substituição dessas escalas.

Prazo pode ultrapassar 90 dias

Embora o memorando estabeleça uma suspensão de 90 dias, outro trecho afirma que a medida permanecerá vigente até a conclusão de um diagnóstico técnico, operacional e financeiro.

O estudo deverá avaliar o número de trabalhadores necessários em cada unidade, os modelos de escala, os serviços em funcionamento e a capacidade financeira da secretaria.

O texto não apresenta prazo para a conclusão desse diagnóstico. Com isso, a interrupção das análises poderá ultrapassar os 90 dias inicialmente anunciados, caso o levantamento não seja finalizado dentro desse período.

Saúde e cidadania alcançam todos os presos do Acre em ação encerrada em Cruzeiro do Sul

Cruzeiro do Sul foi o último destino da Ação de Cidadania que levou atendimento de saúde e serviços de assistência a 100% dos reeducandos do sistema prisional do Acre. A etapa final ocorreu nesta sexta-feira, 15 de maio, na unidade Manoel Néri da Silva, no Vale do Juruá, encerrando uma mobilização que percorreu cinco municípios e oito unidades prisionais com consultas médicas, vacinação, testes rápidos, coleta de exames e atendimento odontológico para a população privada de liberdade e para servidores.

A força-tarefa reuniu o Instituto de Administração Penitenciária do Acre, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública e a Secretaria de Estado de Saúde, em articulação com a Secretaria Nacional de Políticas Penais, a Fundação Oswaldo Cruz, o Ministério da Saúde e as secretarias municipais de saúde. Em Cruzeiro do Sul, a ação somou 829 atendimentos. No balanço geral, foram alcançados 5.221 reeducandos em todo o estado.

O percurso começou por Senador Guiomard, seguiu por Rio Branco, Sena Madureira e Tarauacá, até chegar a Cruzeiro do Sul. Em Senador Guiomard, foram atendidos 506 presos. Em Rio Branco, 2.972. Em Sena Madureira, 450. Em Tarauacá, 464. A última etapa consolidou o alcance integral da população carcerária acreana.

Além da assistência aos internos, a programação incluiu cuidados voltados aos profissionais do sistema, com serviços como massagem, auriculoterapia e ventosaterapia. A proposta foi ampliar a atenção à saúde dentro das unidades e atender também quem atua diretamente na rotina prisional.

O diretor da unidade de Cruzeiro do Sul, Elves Barros, classificou a mobilização como inédita. “Foi um marco, foi histórico essa ação de hoje. Nunca tinha acontecido uma ação dessa magnitude”, afirmou. A assistente social Nayana Neves, que atua há 17 anos no sistema, disse que nunca havia acompanhado uma ação desse porte e associou a iniciativa à necessidade de atenção à saúde física e emocional dos servidores.

Na avaliação da coordenação da ação, o trabalho também abriu caminho para o mapeamento do perfil epidemiológico da população prisional no Acre. O levantamento permite identificar doenças recorrentes, rastrear casos que exigem acompanhamento e organizar encaminhamentos para tratamento. O coordenador da Senappen, Kleber Carlos Morais, afirmou que a iniciativa fortalece o planejamento da assistência nas unidades e amplia a capacidade de resposta da rede de saúde.

Entre os reeducandos, o atendimento foi recebido como oportunidade de acesso a cuidados que nem sempre chegam com rapidez ao ambiente prisional. Um dos internos atendidos relatou que precisava de assistência médica e odontológica e afirmou que o cuidado com a saúde também faz parte do processo de reconstrução de vida.

Com o encerramento em Cruzeiro do Sul, o Acre conclui uma operação de alcance estadual voltada à ampliação do acesso à saúde no sistema penitenciário, com foco em diagnóstico, prevenção e dignidade para presos e servidores.

Carreta de Saúde da Mulher começa a atender em Cruzeiro do Sul e fica no Teatro dos Náuas até 5 de junho

A Carreta de Saúde da Mulher iniciou nesta terça-feira (12) uma série de atendimentos especializados em Cruzeiro do Sul, no Vale do Juruá, para ampliar o acesso a consultas e exames voltados à saúde feminina e reduzir a demanda acumulada no município. A iniciativa integra o Programa Agora tem Especialistas e reúne esforços do governo federal, do Estado e da prefeitura.

A unidade móvel foi instalada no estacionamento do Teatro dos Náuas, onde permanece até 5 de junho. A oferta de serviços está concentrada nas áreas de mastologia e ginecologia, com consultas, avaliação clínica e encaminhamentos conforme a necessidade de cada paciente, incluindo ações de prevenção e rastreio relacionadas ao câncer de mama e ao câncer de colo do útero.

Na abertura da ação, a apoiadora locorregional do Ministério da Saúde, Erika Oliveira, afirmou que o objetivo é reforçar a regionalização do atendimento especializado e diminuir o tempo de espera. “A nossa intenção é reduzir as filas de espera e as demandas reprimidas por serviços de saúde”, disse. Segundo ela, a organização do fluxo depende do sistema de regulação, que direciona as vagas de acordo com a procura e a carência por especialidades na região.

A coordenadora regional da Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre), Iglê Monte, afirmou que a estrutura itinerante amplia a capacidade de atendimento no município e acelera o acesso para quem aguardava avaliação. Entre as pacientes, Mônica Aguiar relatou que esperava por uma mamografia e disse que a presença da carreta oferece uma alternativa para manter os exames em dia e atender mulheres que vinham na fila pelo procedimento.