No Jornal da Manhã, Jorge Viana defende união pelo Acre articulação para o desenvolvimento
Jorge Viana atravessou a manhã desta quarta-feira, 8 de julho de 2026, no estúdio da Rádio Integração FM, em Cruzeiro do Sul, tentando deslocar a conversa da briga eleitoral para uma ideia mais ampla de reconstrução do Acre. Pré-candidato ao Senado, ex-prefeito de Rio Branco, ex-governador, ex-senador e ex-presidente da ApexBrasil, ele falou de ramais, BR-364, café, juventude, internet, ferrovia, meio ambiente, ponte, setor produtivo e diálogo político, sempre tentando amarrar a própria trajetória à promessa de voltar a ser útil ao estado. “Não é uma caminhada pra derrotar ninguém. É uma caminhada pra ver se o Acre vence”, disse, numa das frases que melhor resumiram a entrevista.
A fala de Jorge foi além da cobrança por ramais e BR-364. Nos ramais, ele cobrou planejamento do governo estadual e parceria com as prefeituras. Na BR-364, porém, o tom foi outro: ele não tratou a estrada apenas como uma cobrança externa, mas como uma frente que afirma ter assumido diretamente, mesmo sem mandato, por meio da relação que mantém com o governo federal e com o ministro responsável pela área. “Eu mesmo sem mandato, como tenho relação com o governo federal, com o ministro, eu liguei e estou tentando ajudar na estrada”, afirmou. A diferença é importante porque separa dois movimentos da entrevista: de um lado, Jorge critica a desorganização dos ramais; de outro, tenta se apresentar como alguém capaz de trazer solução para a rodovia que liga o Juruá ao restante do Acre.
Quando falou da BR-364, Jorge recuperou a memória do período em que o governo estadual assumiu responsabilidades sobre rodovias federais por meio de obras delegadas. Disse que buscou a delegação da BR-364 e da BR-317 ainda no governo Fernando Henrique Cardoso e que, naquela época, acumulou estradas federais, estaduais e ramais. “Botei nas minhas costas”, contou. “Eu tinha os ramais, as estradas estaduais, as federais nas minhas costas. Meu amigo, eu dei conta.” Agora, com a BR-364 sob responsabilidade federal, Jorge disse ter chamado engenheiros, montado um plano e atuado para melhorar o trecho entre Cruzeiro do Sul, Santa Luzia, Rio Liberdade e Rio Gregório. “Nós montamos um plano, o ministro veio aqui, até agosto, setembro, a estrada vai estar regular.”
A cobrança que ele aceitou para si foi pública. Jorge reconheceu que, ao assumir participação na articulação da BR-364, também se coloca sob pressão. “Se não melhorar, eu vou ter que vir aqui me explicar, vou ser cobrado. Vocês cobram, e eu acho que esse é o papel da imprensa mesmo, cobrar todos nós”, disse. Em seguida, traduziu o que considera uma rodovia minimamente aceitável para quem vive no Juruá: “O ônibus não pode ficar fazendo em 18 horas. Ele tem que voltar a fazer em 12 horas daqui pra Rio Branco. Um carro não pode demorar 15 horas, 14 horas, pra fazer e com risco de quebrar na viagem. Tem que voltar a fazer em nove horas, oito horas e meia.”
Nos ramais, a fala foi de cobrança direta. Jorge voltou ao Santa Luzia e contou ter ouvido agricultores preocupados com a produção que não consegue sair da propriedade. “Estão perdendo carregamento de banana”, afirmou. A cena é pequena, mas resume um drama antigo do Acre: quando o ramal fecha, o prejuízo nasce na roça, chega ao mercado e termina no preço pago por quem mora na cidade. “O produtor não botando o produto no mercado, vai ficar mais caro os produtos que tem pro consumidor e afeta todo mundo”, disse. Para Jorge, “trabalhar com ramal é você abraçar o cara que produz e que põe a comida na mesa das pessoas que vivem na cidade”.
A crítica aos ramais passou pelo calendário. Jorge insistiu que a operação precisa nascer no inverno para funcionar no verão. “Você tem um inverno todinho pra planejar a atuação no verão”, disse. Depois, apertou o ponto: “Você tem que planejar quando está chovendo. Nos escritórios não dá pra trabalhar na área rural. Planeja tudo pra, quando chegar em abril, estar com as máquinas arrumadinhas, e em maio tem que estar a todo vapor. Nós já estamos em julho. Já foi.” Ele também afirmou ter ouvido relatos de confusão envolvendo emendas e orçamento, mas evitou transformar o assunto em acusação fechada. “Eu não estou querendo entrar nisso porque eu não estou ocupando cargo público”, disse, antes de completar que “tem que saber o que é que está acontecendo”.
A saída defendida por Jorge passa por convênios bem feitos entre Estado e municípios. Ele não colocou o Deracre sozinho como resposta para toda a malha rural e também não transferiu a conta integralmente para os prefeitos. “Eu aconselho a governadora, aconselho o Deracre: faz o trabalho com as prefeituras”, afirmou. Na visão dele, o Estado deve entrar com coordenação, combustível e apoio, enquanto as prefeituras mobilizam máquinas e equipes que conhecem os pontos críticos. “Se fizer convênios bem feitos, com combustível e mobilizando as máquinas, amigo, dá. Tem ramal que precisa de uma raspagem pra deixar de ficar interditado. Senão, vai vir chuva, e aí, amigo, nem mel nem cabaça.”
A pré-candidatura ao Senado apareceu no meio dessa agenda como consequência da tentativa de Jorge de vender experiência, trânsito político e capacidade de articulação. Ele não negou o PT, mas recusou a ideia de disputar apenas uma guerra partidária. “O PT é meu partido, mas eu estou disputando como Acre”, disse. “Isso não é desrespeito à minha história nem ao partido.” Em outro trecho, foi ainda mais direto: “Eu não posso aqui querer pegar com minha história e botar uma candidatura: olha, isso aqui é pro partido tal derrotar o partido tal. Não, estou fora disso.” O que Jorge tenta construir é uma pré-candidatura com sotaque de serviço público, menos presa à sigla e mais apoiada na comparação entre o que diz ter feito e o que promete destravar.
Essa tentativa de reposicionamento ficou clara quando ele falou da relação com prefeitos e adversários. “Se for eleito senador, com a minha experiência, vou trabalhar pelo Acre, para trabalhar para todo mundo, de tudo que é partido. Não importa. Eu vou ter que trabalhar com todos os prefeitos”, afirmou. O discurso é calculado para um Acre cansado de briga política e acostumado a ver obras travarem quando a disputa eleitoral passa a valer mais que a necessidade da população. “Quem está querendo disputar eleição majoritária tem que sair dessa polarização idiota”, disse. “Na vida pública, o Acre está precisando é de união e trabalho.”
A frase “o Acre nos une” apareceu quando Jorge falou do encontro com o cantor Leonardo durante a Expoacre Juruá. O episódio, que poderia ficar apenas no anedotário da política, virou argumento para defender convivência com pessoas de campos diferentes. “Eu não fecho a porta pra ninguém”, disse. “Em vez de ficar numa guerra ideológica, eu não estou em guerra ideológica. Ninguém vai me pôr numa guerra ideológica só porque alguém votou no Bolsonaro.” Em seguida, costurou a mensagem que deseja levar para a pré-campanha: “Eu tenho lado, mas eu respeito o lado das pessoas. Será que a gente não pode estar junto numa causa que é o Acre?”
Jorge também levou para a entrevista a defesa do setor produtivo, especialmente do café. Falou como político, mas também como produtor. Disse que o café gera emprego, movimenta pequenas propriedades e pode formar uma nova classe média rural em municípios como Mâncio Lima, Rodrigues Alves e Cruzeiro do Sul. “Não tem nenhuma atividade que gere mais emprego do que o café. Eu sou plantador de café. Não tem. Ela gera muito emprego e todo mundo está plantando”, afirmou. A proposta apresentada por ele foi transformar o peso do ICMS em instrumento de financiamento. “Pega os sete por cento e diz: você não me paga, vai pra um fundo. Vai ajudar as cooperativas a funcionar, os sete por cento que deveriam ir pro governo pra financiar os pequenos, pro pequeno poder ter irrigação.”
A fala sobre café abriu caminho para uma agenda mais ampla de produção. Jorge contou ter visitado serraria, cerâmica e cooperativas em Cruzeiro do Sul e Nova Cintra, citou a bioeconomia, o uso da argila e a força de empresas locais. “Eu quero trabalhar muito nesse mandato com o setor produtivo”, afirmou. Para ele, os gargalos estão claros: ramal, passivo ambiental e crédito. “Hoje o maior problema dos produtores rurais do Acre é ramal. O segundo é resolver o passivo ambiental, ou até o primeiro. E o outro é a gente ter linha de crédito.” Nesse ponto, a entrevista deixou de ser apenas sobre estrada e entrou no coração da economia acreana: produzir mais, transportar melhor e vender com menos isolamento.
O meio ambiente apareceu como parte dessa mesma equação. Jorge reagiu às críticas que tentam transformar a pauta ambiental em inimiga automática do desenvolvimento e lembrou sua atuação como relator do Código Florestal. “Fui eu que fui o relator e aprovei o Código Florestal. Tirei a polícia de dentro das propriedades”, afirmou. Depois, disse que a lei não foi implementada como deveria e que muitos produtores continuam com problemas de embargo e passivo ambiental. “Eu quero ser o ajudador de resolver problema do povo do Acre, dos agricultores”, disse. Mas impôs uma condição: “Se não for uma pessoa que respeita o meio ambiente, que respeita o direito dos índios, que respeita o uso da terra, nós estamos vendo crise climática, amigo.”
A ligação com o Peru e a ferrovia também entraram no debate. Jorge defendeu a ferrovia como projeto estratégico para a Amazônia, mas rejeitou a ideia de que uma obra desse tamanho avance sem projeto, viabilidade, respeito a povos indígenas e acordo com o país vizinho. “Óbvio que uma ferrovia eu defendo e vou defender sempre, porque a Amazônia deveria ter trabalhado ferrovia desde o começo”, disse. Em seguida, puxou a conversa para o terreno concreto: “Quem vai viabilizar por onde a ferrovia passa é o governo peruano, porque ela tem que sair no lugar e ser feita dentro de outro país. Não é Jorge Viana, não é senador A, nem B, nem C.” Questionado sobre o traçado ideal, respondeu: “Se eu pudesse ter uma ferrovia que vem ao longo da BR-364 até Cruzeiro do Sul, nota dez.”
Ao falar da ponte de Rodrigues Alves, Jorge negou que Marina Silva tenha relação com a paralisação da obra e chamou a acusação de mentira. Disse que o projeto está em elaboração e defendeu uma solução provisória para reduzir o isolamento enquanto a ponte não sai. O tema serviu para reforçar uma linha recorrente da entrevista: obra pública, no Acre, não pode ser apenas promessa de campanha; precisa de projeto, licitação, recurso, execução e manutenção. Foi essa lógica que ele usou também ao falar da BR-364, dos ramais, da ferrovia e da produção.
A parte mais humana da conversa veio quando Jorge contou ter encontrado no aeroporto uma mãe com a filha prestes a deixar o Acre rumo a Santa Catarina, depois de outros dois filhos já terem ido embora. “Cara, dividir uma família”, disse. “E o que eles estão fazendo lá? Jovens tentando a melhor sorte em outro lugar.” A história abriu a defesa de internet de qualidade, fibra óptica e trabalho remoto como política de permanência da juventude. “Por que a gente não abre porta pro jovem aqui? Por que a gente não põe fibra óptica aqui? Põe internet de qualidade”, afirmou. Depois, resumiu a ambição: “O Acre pode ter a melhor internet da Amazônia. Eu só queria isso. E aí isso vai vir em serviço, emprego, principalmente pra juventude.”
A entrevista terminou com Jorge tentando ocupar um espaço político que mistura memória, prestação de contas e promessa de futuro. Ele citou o Hospital do Juruá, aeroportos, pontes, eletrificação rural, estradas e a experiência na ApexBrasil para dizer que sabe operar dentro e fora de Brasília. “Nesse trabalho meu da Apex, eu consegui criar uma relação fora do Brasil e dentro de Brasília com todo setor produtivo, e eu quero botar tudo isso a favor do Acre”, afirmou. A mensagem central não foi apenas a de quem cobra ramais ou fala da BR-364. Foi a de quem tenta convencer o eleitor de que pode articular estrada, produção, crédito, meio ambiente, internet, juventude e diálogo político numa mesma agenda. “Eu queria essa candidatura pelo futuro do Acre”, disse. Na fase correta do calendário, é pré-candidatura; no discurso, Jorge já trabalha para transformar essa condição numa ideia de retorno ao centro das decisões do estado.