Edvaldo e Perpétua endurecem críticas a Gladson e colocam emprego e investimentos no centro da pré-campanha

Na reta final da pré-campanha para as eleições de 2026, o deputado estadual Edvaldo Magalhães e a ex-deputada federal Perpétua Almeida usaram uma entrevista ao Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM, nesta quarta-feira, 12, em Cruzeiro do Sul, para cobrar resultados do governo Gladson Cameli e delimitar o campo político que pretendem ocupar na disputa. Os dois confirmaram as pré-candidaturas — Edvaldo à Assembleia Legislativa e Perpétua à Câmara dos Deputados — e concentraram as críticas na baixa execução dos investimentos estaduais, na falta de empregos, nos ramais, na industrialização da produção do Juruá e na aplicação de recursos públicos destinados à ExpoAcre Juruá e à maternidade de Tarauacá.

Edvaldo levou para o centro da entrevista um problema que pretende transformar em tema eleitoral: a distância entre o dinheiro disponível no orçamento e aquilo que efetivamente chega à população em forma de obra, serviço ou atividade econômica. O deputado afirmou que, ao longo dos dois mandatos de Gladson Cameli, o Estado executou menos da metade dos recursos reservados para investimentos e responsabilizou a estrutura administrativa do governo por parte desse desempenho.

“O Estado do Acre, nesse período dos oito anos, dos dois mandatos do governador Gladson Cameli, foi o governo que teve a menor capacidade de pegar o dinheiro destinado, não é um dinheiro que vai existir, o dinheiro que existia no orçamento para investimento, e executar. Executou menos de 50% de todo o dinheiro de investimento”, afirmou.

A crítica atingiu diretamente a composição da máquina estadual. Edvaldo acusou o governo de ocupar postos administrativos com pessoas de “baixa capacidade técnica” e relacionou essa escolha às dificuldades para preparar projetos, cumprir etapas burocráticas e executar recursos. A resposta apresentada pelo parlamentar passa pelo que ele chamou de um “novo pacto político por governança” e por investimentos, com prioridade para infraestrutura, agricultura, saúde e educação.

A discussão, para Edvaldo, não termina na contabilidade pública. O deputado relaciona a dificuldade de investimento à redução das oportunidades de trabalho e à saída de jovens do Acre. Sua proposta política parte da ideia de que a administração estadual precisa recuperar capacidade técnica para transformar recursos existentes em projetos capazes de movimentar empresas, produção rural, serviços e empregos.

Foi nesse ponto que ele também defendeu uma mudança na relação do Acre com o governo federal. Mesmo em um ambiente de forte divisão partidária, Edvaldo afirmou que Brasília precisa ser tratada como fonte de recursos para projetos estruturantes, independentemente das diferenças políticas entre governos.

“Tem que parar com essa discussão boba da guerra ideológica e discutir o seguinte: onde é que está o dinheiro que pode vir para a gente desenvolver a economia do Juruá? Está lá em Brasília, está lá no governo federal. Como é que a gente arranca a maior parte desses recursos em projetos estruturantes para nossa economia?”, questionou.

Perpétua levou o debate para a capacidade de o Acre produzir, beneficiar e comercializar aquilo que sai do campo. A ex-deputada afirmou que a falta de empregos empurra trabalhadores para outros estados e usou uma comparação para resumir o problema econômico que pretende explorar na campanha.

“Eu queria muito que o Acre fosse visto como o estado que mais exporta café, que mais exporta feijão, que mais exporta farinha, que mais exporta produtos beneficiados da madeira, mas nós estamos virando o estado que mais exporta gente. O pessoal sai daqui para ir procurar emprego”, afirmou.

A industrialização da produção rural aparece como uma das principais apostas de Perpétua. Ela citou a cadeia do café para defender um modelo em que o produtor deixe de vender apenas matéria-prima e tenha acesso a estruturas de beneficiamento. A ex-parlamentar afirmou que a indústria instalada em Mâncio Lima levou um ano e cinco meses entre a ordem de serviço e o início das operações e disse que outra unidade, em Cruzeiro do Sul, deverá ser entregue até o fim de setembro em parceria com a Coopercafé.

“Menos de um ano a indústria será entregue. O dinheiro foi colocado, foi bem empregado”, declarou.

Perpétua também citou projetos para Capixaba e Acrelândia e uma unidade de beneficiamento de açaí em Feijó. A proposta é levar o mesmo modelo para cadeias como mandioca, banana e feijão, aproveitando atividades que já fazem parte da economia rural acreana. No Juruá, ela defendeu ainda a mecanização como caminho para ampliar a produção sem manter as famílias dependentes de etapas inteiramente manuais.

A farinha, um dos produtos mais associados à economia de Cruzeiro do Sul, entrou no mesmo debate. Edvaldo afirmou que as casas de farinha financiadas em outros períodos ajudaram a modernizar a produção, mas já não resolvem sozinhas os problemas atuais da cadeia. Segundo o deputado, profissionais de Cruzeiro do Sul trabalham no desenvolvimento de equipamentos capazes de mecanizar novas etapas, e o poder público deveria criar mecanismos para colocar essas tecnologias à disposição das famílias produtoras.

“Se botar um bom dinheiro nisso, nós podemos espalhar essas casas de farinha modernizadas dentro da cadeia produtiva”, afirmou.

A defesa da mecanização vem acompanhada de outro problema conhecido pelas comunidades rurais do Juruá: sem ramal em condições de tráfego, aumentar a produção não basta. Perpétua criticou a falta de planejamento conjunto entre bancada federal, governo estadual e prefeituras e recuperou a experiência dos períodos em que, como deputada federal, participava de reuniões antes do verão para dividir responsabilidades e direcionar recursos às estradas rurais.

“Nem a bancada federal do Acre se mexe para ajudar o produtor rural com ramais, nem o governo do Estado tem feito um calendário desse e a maioria das prefeituras também não tem dado a atenção necessária”, criticou. “É preciso voltar uma união da bancada federal com o governo do Estado, com prefeituras, para trabalhar juntos em benefício de quem mora mais distante e que depende de ramais para trazer comida para quem mora na cidade.”

Edvaldo também recuperou investimentos anteriores no Polo Naval e no Polo Moveleiro de Cruzeiro do Sul para defender políticas que atravessem governos. No caso do Polo Naval, o deputado lembrou a reorganização dos trabalhadores que atuavam de forma dispersa depois das mudanças provocadas pela construção da ponte sobre o Rio Juruá. Sobre o Polo Moveleiro, afirmou que a área disponível está ocupada e cobrou infraestrutura para uma nova etapa de expansão das empresas.

A entrevista mudou de tom quando a discussão chegou à fiscalização do dinheiro público. Edvaldo voltou a questionar a movimentação de mais de R$ 15 milhões destinados a artistas, infraestrutura e serviços relacionados à ExpoAcre Juruá. O parlamentar criticou o uso de uma associação na operação financeira e defendeu que os pagamentos poderiam ter ocorrido diretamente aos fornecedores.

O deputado relacionou a situação à suspensão, pelo Tribunal de Contas, de um convênio semelhante ligado à ExpoAcre de Rio Branco e fez uma acusação direta sobre os chamados custos operacionais.

“O dinheiro chega grande, sai um pedaço, fica pelo meio do caminho nos chamados custos operacionais, que nada mais é do que desvio de recurso público”, acusou.

A declaração é de responsabilidade do parlamentar. Durante a entrevista, não houve manifestação do governo estadual nem da entidade citada sobre a acusação. A ausência de contraponto no programa mantém aberta uma questão central para qualquer apuração sobre o caso: quanto foi efetivamente repassado, quais serviços foram executados, quanto foi retido como custo operacional e qual foi a base legal utilizada para a movimentação dos recursos.

Perpétua abriu outra frente de cobrança ao tratar da maternidade de Tarauacá. Ela afirmou ter participado da articulação de R$ 24 milhões em emendas federais para a construção da unidade. Desse total, R$ 18 milhões teriam origem em emendas apresentadas por ela durante o mandato de deputada federal, enquanto o restante teria sido reunido com apoio de outros integrantes da bancada acreana.

Quatro anos depois, a ex-deputada afirmou que ainda busca esclarecimentos sobre o destino dos recursos e cobrou explicações da Secretaria de Estado de Saúde.

“Esses R$ 24 milhões não se sabe para onde eles foram até hoje. A Secretaria de Saúde do Acre não explicou o que o secretário anterior fez com R$ 24 milhões para construir a maternidade de Tarauacá”, declarou.

Perpétua afirmou que já pediu formalmente informações ao governo e anunciou que poderá recorrer ao Tribunal de Contas da União e ao Ministério Público Federal caso não receba resposta.

“Se eles não responderem, nós vamos entrar no Tribunal de Contas da União, no Ministério Público Federal, denunciando que o dinheiro, R$ 24 milhões para construir a maternidade de Tarauacá, sumiu”, afirmou.

Também nesse caso, não houve resposta do governo estadual durante o programa. A fala de Perpétua representa uma cobrança política que ainda depende do confronto com registros de empenho, pagamento, execução do convênio e eventuais mudanças na destinação dos recursos para que seja possível estabelecer o que ocorreu com o dinheiro.

Com a eleição cada vez mais próxima, a entrevista avançou da avaliação do governo para uma crítica ao comportamento dos próprios parlamentares. Edvaldo defendeu que integrar uma base governista não elimina a responsabilidade de divergir quando os interesses do Executivo entram em conflito com demandas da população.

“Você pode ser de base de governo, mas você pode ser também independente em questões que são fundamentais para o interesse do povo”, afirmou. “O parlamento que não é discordante nas questões sentidas da comunidade cai na desmoralização. A representação cai na desmoralização.”

Edvaldo também tratou o mandato como atividade que exige preparação permanente e definiu a representação política como “uma espécie de sacerdócio”. A fala serve para posicioná-lo diante de um debate que deverá ganhar peso na campanha de 2026: a diferença entre parlamentares que concentram atuação na distribuição de emendas e aqueles que buscam construir presença política por meio de fiscalização, debate legislativo e articulação institucional.

Perpétua foi mais direta ao atacar o grau de reconhecimento da atual bancada federal. Ela afirmou que 80% dos eleitores teriam dificuldade para citar quatro dos oito deputados federais do Acre e atribuiu essa situação à baixa presença política de parte dos mandatos.

“Nós temos hoje bancadas que se deixam esquecer, que não fazem uma atuação. E o Estado do Acre é muito pequeno, é um estado que depende muito de recursos públicos federais, então é preciso ter uma atuação muito firme para poder trazer recursos para esse estado”, afirmou.

A cobrança sobre os atuais representantes também funciona como apresentação das duas pré-candidaturas. Edvaldo confirmou que disputará novamente uma cadeira na Assembleia Legislativa e que Perpétua pretende retornar à Câmara dos Deputados. O deputado evitou limitar a justificativa eleitoral ao histórico dos dois e disse que a campanha precisa discutir as necessidades dos próximos anos.

“Toda candidatura tem que olhar para o futuro, tem que se colocar olhando para aquilo que o Estado precisa”, afirmou.

Perpétua encerrou a participação atacando uma prática recorrente nas eleições locais: a avaliação de candidatos apenas pela ajuda individual prestada ao eleitor. Para ela, a capacidade de resolver uma demanda particular não substitui o desempenho político de quem ocupa uma cadeira no Legislativo.

“Nem sempre aquele que te dá o tijolo, que resolve a cobertura da tua casa, que resolve teus problemas financeiros, vai ser aquele que tu vai ver te defendendo no Congresso Nacional ou na Assembleia Legislativa”, afirmou.

A entrevista deixou claro o caminho escolhido pelos dois para entrar na campanha de 2026. Edvaldo tenta transformar execução orçamentária, capacidade administrativa e fiscalização em instrumentos de confronto com o governo Gladson Cameli. Perpétua concentra a argumentação em emprego, produção, industrialização e força da representação federal. No Juruá, os dois ligam essas propostas a problemas concretos que atravessam diferentes governos: ramais precários, dificuldade para escoar produção, baixa industrialização e dependência de recursos públicos.

Ao mesmo tempo, as acusações sobre a ExpoAcre Juruá e os R$ 24 milhões destinados à maternidade de Tarauacá abrem uma frente que ultrapassa a disputa eleitoral. São cobranças que exigem respostas documentais do governo, dos responsáveis pela execução dos recursos e, caso os questionamentos avancem, dos órgãos de controle. Na pré-campanha, Edvaldo e Perpétua já escolheram onde pretendem pressionar. A campanha dirá quanto desse debate ficará na disputa política e quanto chegará à análise concreta das contas públicas.

No Jornal da Manhã, Jorge Viana defende união pelo Acre articulação para o desenvolvimento

Jorge Viana atravessou a manhã desta quarta-feira, 8 de julho de 2026, no estúdio da Rádio Integração FM, em Cruzeiro do Sul, tentando deslocar a conversa da briga eleitoral para uma ideia mais ampla de reconstrução do Acre. Pré-candidato ao Senado, ex-prefeito de Rio Branco, ex-governador, ex-senador e ex-presidente da ApexBrasil, ele falou de ramais, BR-364, café, juventude, internet, ferrovia, meio ambiente, ponte, setor produtivo e diálogo político, sempre tentando amarrar a própria trajetória à promessa de voltar a ser útil ao estado. “Não é uma caminhada pra derrotar ninguém. É uma caminhada pra ver se o Acre vence”, disse, numa das frases que melhor resumiram a entrevista.

A fala de Jorge foi além da cobrança por ramais e BR-364. Nos ramais, ele cobrou planejamento do governo estadual e parceria com as prefeituras. Na BR-364, porém, o tom foi outro: ele não tratou a estrada apenas como uma cobrança externa, mas como uma frente que afirma ter assumido diretamente, mesmo sem mandato, por meio da relação que mantém com o governo federal e com o ministro responsável pela área. “Eu mesmo sem mandato, como tenho relação com o governo federal, com o ministro, eu liguei e estou tentando ajudar na estrada”, afirmou. A diferença é importante porque separa dois movimentos da entrevista: de um lado, Jorge critica a desorganização dos ramais; de outro, tenta se apresentar como alguém capaz de trazer solução para a rodovia que liga o Juruá ao restante do Acre.

Quando falou da BR-364, Jorge recuperou a memória do período em que o governo estadual assumiu responsabilidades sobre rodovias federais por meio de obras delegadas. Disse que buscou a delegação da BR-364 e da BR-317 ainda no governo Fernando Henrique Cardoso e que, naquela época, acumulou estradas federais, estaduais e ramais. “Botei nas minhas costas”, contou. “Eu tinha os ramais, as estradas estaduais, as federais nas minhas costas. Meu amigo, eu dei conta.” Agora, com a BR-364 sob responsabilidade federal, Jorge disse ter chamado engenheiros, montado um plano e atuado para melhorar o trecho entre Cruzeiro do Sul, Santa Luzia, Rio Liberdade e Rio Gregório. “Nós montamos um plano, o ministro veio aqui, até agosto, setembro, a estrada vai estar regular.”

A cobrança que ele aceitou para si foi pública. Jorge reconheceu que, ao assumir participação na articulação da BR-364, também se coloca sob pressão. “Se não melhorar, eu vou ter que vir aqui me explicar, vou ser cobrado. Vocês cobram, e eu acho que esse é o papel da imprensa mesmo, cobrar todos nós”, disse. Em seguida, traduziu o que considera uma rodovia minimamente aceitável para quem vive no Juruá: “O ônibus não pode ficar fazendo em 18 horas. Ele tem que voltar a fazer em 12 horas daqui pra Rio Branco. Um carro não pode demorar 15 horas, 14 horas, pra fazer e com risco de quebrar na viagem. Tem que voltar a fazer em nove horas, oito horas e meia.”

Nos ramais, a fala foi de cobrança direta. Jorge voltou ao Santa Luzia e contou ter ouvido agricultores preocupados com a produção que não consegue sair da propriedade. “Estão perdendo carregamento de banana”, afirmou. A cena é pequena, mas resume um drama antigo do Acre: quando o ramal fecha, o prejuízo nasce na roça, chega ao mercado e termina no preço pago por quem mora na cidade. “O produtor não botando o produto no mercado, vai ficar mais caro os produtos que tem pro consumidor e afeta todo mundo”, disse. Para Jorge, “trabalhar com ramal é você abraçar o cara que produz e que põe a comida na mesa das pessoas que vivem na cidade”.

A crítica aos ramais passou pelo calendário. Jorge insistiu que a operação precisa nascer no inverno para funcionar no verão. “Você tem um inverno todinho pra planejar a atuação no verão”, disse. Depois, apertou o ponto: “Você tem que planejar quando está chovendo. Nos escritórios não dá pra trabalhar na área rural. Planeja tudo pra, quando chegar em abril, estar com as máquinas arrumadinhas, e em maio tem que estar a todo vapor. Nós já estamos em julho. Já foi.” Ele também afirmou ter ouvido relatos de confusão envolvendo emendas e orçamento, mas evitou transformar o assunto em acusação fechada. “Eu não estou querendo entrar nisso porque eu não estou ocupando cargo público”, disse, antes de completar que “tem que saber o que é que está acontecendo”.

A saída defendida por Jorge passa por convênios bem feitos entre Estado e municípios. Ele não colocou o Deracre sozinho como resposta para toda a malha rural e também não transferiu a conta integralmente para os prefeitos. “Eu aconselho a governadora, aconselho o Deracre: faz o trabalho com as prefeituras”, afirmou. Na visão dele, o Estado deve entrar com coordenação, combustível e apoio, enquanto as prefeituras mobilizam máquinas e equipes que conhecem os pontos críticos. “Se fizer convênios bem feitos, com combustível e mobilizando as máquinas, amigo, dá. Tem ramal que precisa de uma raspagem pra deixar de ficar interditado. Senão, vai vir chuva, e aí, amigo, nem mel nem cabaça.”

A pré-candidatura ao Senado apareceu no meio dessa agenda como consequência da tentativa de Jorge de vender experiência, trânsito político e capacidade de articulação. Ele não negou o PT, mas recusou a ideia de disputar apenas uma guerra partidária. “O PT é meu partido, mas eu estou disputando como Acre”, disse. “Isso não é desrespeito à minha história nem ao partido.” Em outro trecho, foi ainda mais direto: “Eu não posso aqui querer pegar com minha história e botar uma candidatura: olha, isso aqui é pro partido tal derrotar o partido tal. Não, estou fora disso.” O que Jorge tenta construir é uma pré-candidatura com sotaque de serviço público, menos presa à sigla e mais apoiada na comparação entre o que diz ter feito e o que promete destravar.

Essa tentativa de reposicionamento ficou clara quando ele falou da relação com prefeitos e adversários. “Se for eleito senador, com a minha experiência, vou trabalhar pelo Acre, para trabalhar para todo mundo, de tudo que é partido. Não importa. Eu vou ter que trabalhar com todos os prefeitos”, afirmou. O discurso é calculado para um Acre cansado de briga política e acostumado a ver obras travarem quando a disputa eleitoral passa a valer mais que a necessidade da população. “Quem está querendo disputar eleição majoritária tem que sair dessa polarização idiota”, disse. “Na vida pública, o Acre está precisando é de união e trabalho.”

A frase “o Acre nos une” apareceu quando Jorge falou do encontro com o cantor Leonardo durante a Expoacre Juruá. O episódio, que poderia ficar apenas no anedotário da política, virou argumento para defender convivência com pessoas de campos diferentes. “Eu não fecho a porta pra ninguém”, disse. “Em vez de ficar numa guerra ideológica, eu não estou em guerra ideológica. Ninguém vai me pôr numa guerra ideológica só porque alguém votou no Bolsonaro.” Em seguida, costurou a mensagem que deseja levar para a pré-campanha: “Eu tenho lado, mas eu respeito o lado das pessoas. Será que a gente não pode estar junto numa causa que é o Acre?”

Jorge também levou para a entrevista a defesa do setor produtivo, especialmente do café. Falou como político, mas também como produtor. Disse que o café gera emprego, movimenta pequenas propriedades e pode formar uma nova classe média rural em municípios como Mâncio Lima, Rodrigues Alves e Cruzeiro do Sul. “Não tem nenhuma atividade que gere mais emprego do que o café. Eu sou plantador de café. Não tem. Ela gera muito emprego e todo mundo está plantando”, afirmou. A proposta apresentada por ele foi transformar o peso do ICMS em instrumento de financiamento. “Pega os sete por cento e diz: você não me paga, vai pra um fundo. Vai ajudar as cooperativas a funcionar, os sete por cento que deveriam ir pro governo pra financiar os pequenos, pro pequeno poder ter irrigação.”

A fala sobre café abriu caminho para uma agenda mais ampla de produção. Jorge contou ter visitado serraria, cerâmica e cooperativas em Cruzeiro do Sul e Nova Cintra, citou a bioeconomia, o uso da argila e a força de empresas locais. “Eu quero trabalhar muito nesse mandato com o setor produtivo”, afirmou. Para ele, os gargalos estão claros: ramal, passivo ambiental e crédito. “Hoje o maior problema dos produtores rurais do Acre é ramal. O segundo é resolver o passivo ambiental, ou até o primeiro. E o outro é a gente ter linha de crédito.” Nesse ponto, a entrevista deixou de ser apenas sobre estrada e entrou no coração da economia acreana: produzir mais, transportar melhor e vender com menos isolamento.

O meio ambiente apareceu como parte dessa mesma equação. Jorge reagiu às críticas que tentam transformar a pauta ambiental em inimiga automática do desenvolvimento e lembrou sua atuação como relator do Código Florestal. “Fui eu que fui o relator e aprovei o Código Florestal. Tirei a polícia de dentro das propriedades”, afirmou. Depois, disse que a lei não foi implementada como deveria e que muitos produtores continuam com problemas de embargo e passivo ambiental. “Eu quero ser o ajudador de resolver problema do povo do Acre, dos agricultores”, disse. Mas impôs uma condição: “Se não for uma pessoa que respeita o meio ambiente, que respeita o direito dos índios, que respeita o uso da terra, nós estamos vendo crise climática, amigo.”

A ligação com o Peru e a ferrovia também entraram no debate. Jorge defendeu a ferrovia como projeto estratégico para a Amazônia, mas rejeitou a ideia de que uma obra desse tamanho avance sem projeto, viabilidade, respeito a povos indígenas e acordo com o país vizinho. “Óbvio que uma ferrovia eu defendo e vou defender sempre, porque a Amazônia deveria ter trabalhado ferrovia desde o começo”, disse. Em seguida, puxou a conversa para o terreno concreto: “Quem vai viabilizar por onde a ferrovia passa é o governo peruano, porque ela tem que sair no lugar e ser feita dentro de outro país. Não é Jorge Viana, não é senador A, nem B, nem C.” Questionado sobre o traçado ideal, respondeu: “Se eu pudesse ter uma ferrovia que vem ao longo da BR-364 até Cruzeiro do Sul, nota dez.”

Ao falar da ponte de Rodrigues Alves, Jorge negou que Marina Silva tenha relação com a paralisação da obra e chamou a acusação de mentira. Disse que o projeto está em elaboração e defendeu uma solução provisória para reduzir o isolamento enquanto a ponte não sai. O tema serviu para reforçar uma linha recorrente da entrevista: obra pública, no Acre, não pode ser apenas promessa de campanha; precisa de projeto, licitação, recurso, execução e manutenção. Foi essa lógica que ele usou também ao falar da BR-364, dos ramais, da ferrovia e da produção.

A parte mais humana da conversa veio quando Jorge contou ter encontrado no aeroporto uma mãe com a filha prestes a deixar o Acre rumo a Santa Catarina, depois de outros dois filhos já terem ido embora. “Cara, dividir uma família”, disse. “E o que eles estão fazendo lá? Jovens tentando a melhor sorte em outro lugar.” A história abriu a defesa de internet de qualidade, fibra óptica e trabalho remoto como política de permanência da juventude. “Por que a gente não abre porta pro jovem aqui? Por que a gente não põe fibra óptica aqui? Põe internet de qualidade”, afirmou. Depois, resumiu a ambição: “O Acre pode ter a melhor internet da Amazônia. Eu só queria isso. E aí isso vai vir em serviço, emprego, principalmente pra juventude.”

A entrevista terminou com Jorge tentando ocupar um espaço político que mistura memória, prestação de contas e promessa de futuro. Ele citou o Hospital do Juruá, aeroportos, pontes, eletrificação rural, estradas e a experiência na ApexBrasil para dizer que sabe operar dentro e fora de Brasília. “Nesse trabalho meu da Apex, eu consegui criar uma relação fora do Brasil e dentro de Brasília com todo setor produtivo, e eu quero botar tudo isso a favor do Acre”, afirmou. A mensagem central não foi apenas a de quem cobra ramais ou fala da BR-364. Foi a de quem tenta convencer o eleitor de que pode articular estrada, produção, crédito, meio ambiente, internet, juventude e diálogo político numa mesma agenda. “Eu queria essa candidatura pelo futuro do Acre”, disse. Na fase correta do calendário, é pré-candidatura; no discurso, Jorge já trabalha para transformar essa condição numa ideia de retorno ao centro das decisões do estado.

Dia de campo em Acrelândia reforça avanço do café e aposta de Bocalom no agro

A cafeicultura voltou ao centro do debate sobre desenvolvimento rural no Acre neste sábado, 16 de maio, durante um dia de campo realizado na propriedade do prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom, em Acrelândia. O encontro reuniu produtores, técnicos, pesquisadores e autoridades para discutir produtividade, mercado e expansão do café robusta amazônico, hoje tratado por lideranças do setor como uma das principais alternativas de renda no estado.

A programação contou com a presença do prefeito de Rio Branco, Alysson Bestene, do prefeito de Acrelândia, além de produtores do município e representantes de outras atividades do agronegócio. Ao longo do evento, a defesa do café apareceu associada à geração de emprego no campo, ao fortalecimento da agricultura familiar e à ampliação da economia local em municípios do Baixo e do Alto Acre.

Com área cultivada de pouco mais de 20 hectares, a lavoura de Bocalom foi apresentada aos participantes como exemplo de desempenho produtivo. Durante o encontro, ele afirmou que o robusta amazônico tem capacidade de elevar a renda do produtor e ampliar a presença do Acre no mercado regional. “O café robusta amazônico é altamente produtivo e oferece uma rentabilidade muito interessante para o produtor. É uma cultura que pode transformar a realidade econômica de muitas famílias”, disse. Mais adiante, reforçou: “O café é uma grande oportunidade para o Acre. O pequeno produtor consegue ter renda, melhorar sua qualidade de vida e ainda contribuir para o crescimento da economia local”.

Bocalom também resgatou o período em que administrou Acrelândia e associou a expansão da cafeicultura no município às políticas de incentivo implantadas naquela fase. Hoje, a cidade é tratada como principal polo produtor do grão no estado. “Quando fui prefeito, investimos fortemente no incentivo ao café. Hoje, Acrelândia é referência no Acre, mostrando que, com apoio e planejamento, é possível desenvolver uma cadeia produtiva forte e sustentável”, afirmou.

Entre os participantes estavam nomes ligados à produção cafeeira local, como Celso Timpurim, Wanderley Lara, Wagner Álvares e outros produtores de Acrelândia. O encontro também atraiu representantes de outras cadeias produtivas. O pecuarista Jorge Moura, que atua ainda com soja, classificou o agronegócio como uma saída econômica para o estado. Já o produtor Mário Maffi, com atuação no cultivo de milho e soja no Alto Acre, avaliou que o café já entrou em fase de consolidação no campo e amplia seu peso na economia rural acreana.

A programação técnica abriu com a palestra de Ronaldo Marciano, representante da UPL, que apresentou um panorama do mercado global do café, a alta dos preços, os custos de produção e a necessidade de gestão eficiente da propriedade. Em seguida, Hadamés Wilson expôs dados da produção no Acre, com foco nas regiões do Baixo e do Alto Acre, e tratou de estratégias de plantio entre abril e maio para reduzir perdas na colheita. Também foram citados resultados de produtividade em municípios como Capixaba, Rio Branco, Porto Acre e Acrelândia.

No encerramento, o professor Leonardo Tavela, da Universidade Federal do Acre, apresentou um panorama da cafeicultura no Vale do Juruá, com os entraves para ampliar a atividade e os avanços obtidos a partir do laboratório de qualidade do café da universidade. A exposição incluiu dados de produtividade e perspectivas de fortalecimento da cadeia no estado.

Após as palestras, produtores e convidados seguiram para visitas de campo. A projeção apresentada durante a atividade aponta safra acima de 880 sacas na área observada. Outra demonstração mostrou o desempenho de um plantio com um ano e três meses conduzido com cobertura vegetal para conter o mato ao redor da planta. O evento também recebeu representantes do governo da Bolívia e da área de agricultura de Boca do Acre, no Amazonas, num movimento que amplia o interesse regional pelo avanço da cafeicultura acreana.