Eleições 2026

“Cada pessoa é responsável pelos seus atos”: Mailza evita metas e expõe lacunas do plano de governo no Acre

“Cada pessoa é responsável pelos seus atos.” A frase de Mailza Assis (PP) para se afastar de uma das principais promessas de Gladson Cameli resumiu a sabatina do ac24horas nesta segunda-feira, 24 de agosto.

Candidata à reeleição, a governadora defendeu um plano de governo “exequível”, mas não informou quantas casas pretende entregar, quando implantará a rastreabilidade bovina, como pretende resolver as pendências da educação nem qual será o prazo para uma solução definitiva em Sena Madureira, após o desabamento da ponte Frei Paolino Baldassari.

Em pouco mais de uma hora, a entrevista expôs uma dificuldade central da candidatura: Mailza quer manter a imagem de continuidade, mas evita assumir metas que permitam medir o resultado de um eventual mandato entre 2027 e 2030.

Mailza assumiu definitivamente o governo em abril, após a saída de Gladson Cameli. Desde então, construiu sua candidatura sobre a continuidade administrativa. O ex-governador participa da articulação eleitoral e aparece ao lado dela nos principais movimentos da campanha.

A proximidade torna inevitável a cobrança pelo legado do grupo que governa o Acre desde 2019.

Habitação: 11 mil casas viraram 2,7 mil — e ainda sem meta para 2030

A habitação foi o primeiro teste da promessa de continuidade.

Gladson Cameli prometeu construir 11 mil casas populares. A entrega, porém, ficou distante da escala anunciada. Em 2026, o próprio governo passou a trabalhar com números menores. Em fevereiro, Gladson falava na conclusão de pouco mais de 2,3 mil moradias até o fim do ano.

Questionada sobre quantas casas entregaria em quatro anos, Mailza não respondeu com uma meta. Preferiu se separar da promessa do antecessor.

“Cada pessoa é responsável pelos seus atos, né. A minha gestão é de continuidade”, afirmou.

Depois, disse que há recursos para 2,7 mil unidades e que pediu à equipe um plano possível de executar. A resposta informa o que o governo tem hoje, mas não diz o que a candidata pretende entregar até 2030.

A diferença é objetiva: 2,7 mil casas representam uma fonte de recurso já identificada. Não representam uma política habitacional para quatro anos.

Ficaram sem resposta perguntas básicas: quantas moradias serão entregues, quanto será investido, quais municípios terão prioridade e qual parcela do déficit habitacional será enfrentada.

O próprio governo já trabalhou com uma estimativa de déficit de 24 mil moradias no Acre, sendo 11 mil apenas em Rio Branco. Sem uma meta, o eleitor perde o principal instrumento para acompanhar a promessa depois da eleição.

Parque tecnológico contra problemas básicos da escola

A educação revelou outra distância entre o discurso e a execução.

Mailza voltou a defender a criação do Parque Tecnológico do Acre, projeto que acompanha sua trajetória política há pelo menos cinco anos. Ainda no Senado, ela participou de articulações com a Universidade Federal do Acre, o governo estadual e instituições ligadas à inovação.

O jornalista Itaan Arruda colocou a proposta diante de problemas mais urgentes: escolas com dificuldades estruturais e professores cobrando revisão de carreira e remuneração.

A pergunta exigia uma resposta prática: como financiar inovação enquanto a rede pública ainda enfrenta problemas básicos?

Mailza disse que as duas frentes precisam avançar juntas. Mas, ao falar da tecnologia, respondeu: “O jovem gosta disso. Querendo ou não ele vai se debruçar”.

Quando voltou aos problemas das escolas, mudou o foco para relações familiares, comportamento e saúde emocional.

“Nós tivemos essa fatalidade talvez por falta de uma harmonia. E aí entra o cuidado com as famílias, aí entra o cuidado com esse egoísmo”, afirmou.

Saúde emocional e convivência familiar são temas importantes na educação. Mas não respondem quanto será investido na estrutura das escolas, quando a carreira dos professores será revisada ou como o Estado pretende bancar um parque tecnológico.

Em outro momento, a própria governadora reconheceu a cobrança dos profissionais e falou em discutir o Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração.

“Os professores começaram a reivindicar e é uma necessidade. Precisamos pensar nessa devolução aos trabalhadores da educação. Fizemos um compromisso com o sindicato”, disse.

Ainda faltaram valores, prazo e formato para a revisão.

Rastreabilidade: o governo criou programas, mas a candidata não dá prazo

Na rastreabilidade bovina, a contradição ficou mais clara.

O plano de governo de Mailza prevê ampliar mecanismos de rastreabilidade e certificação da produção agropecuária. A medida afeta diretamente produtores, frigoríficos e toda a cadeia da pecuária, especialmente por envolver custos, controle do rebanho e exigências de mercado.

Perguntada se pretendia terminar um novo mandato com o sistema implantado, Mailza não assumiu o compromisso.

“Não, isso aí precisa ser estudo, precisa ter um diálogo, precisamos preparar o Estado para isso, porque nós não temos, no momento, condições para isso”, respondeu.

O problema é que o Acre não está começando essa discussão agora.

Em abril, o governo criou o programa Rebanho Certo/AC, voltado à atualização cadastral de bovinos e bubalinos e à preparação para a futura rastreabilidade individual. Em julho, já sob Mailza, o Decreto nº 11.911 instituiu o Plano ABC+/AC, que inclui o estímulo à rastreabilidade e à certificação de produtos agropecuários sustentáveis.

Ou seja: o governo já criou instrumentos para avançar. O que Mailza não informou foi o ponto de chegada.

Até onde o Estado pretende levar o processo? Quando o produtor terá de cumprir as novas exigências? Quem pagará a adaptação? Como evitar que a rastreabilidade aumente custos e reduza a competitividade da pecuária acreana?

Sem prazo e sem meta, o plano fica no campo da intenção.

Ponte de Sena Madureira: a empresa virou o centro da resposta

Em Sena Madureira, a cobrança envolveu uma obra que já desabou.

A ponte Frei Paolino Baldassari caiu em 5 de junho, menos de três anos depois da inauguração. Quatro pessoas ficaram feridas, e a ligação entre o centro da cidade e o Segundo Distrito foi interrompida.

A estrutura havia sido interditada no dia anterior, após o avanço das chamadas terras caídas e a identificação de risco no local.

Quase três meses depois, os escombros ainda estavam no Rio Iaco. Moradores dependiam de alternativas, como catraias, para atravessar. A perícia sobre as causas do colapso continuava sem conclusão.

Em agosto, o Ministério Público do Acre abriu inquérito civil para investigar a execução da obra e também o planejamento, a fiscalização, o monitoramento e a manutenção da ponte.

Na sabatina, Mailza concentrou a resposta na empresa contratada.

“Nós judicializamos a empresa que construiu. A empresa que construiu foi responsável pela ponte por 100% da construção”, afirmou.

Depois, acrescentou: “Eu não sei o tempo que a empresa vai nos dar a resposta”.

O governo pode cobrar judicialmente a construtora se houver responsabilidade na execução. A Procuradoria-Geral do Estado anunciou essa medida poucos dias após o desabamento.

Mas a judicialização não responde pelo papel do próprio Estado.

Uma obra pública de aproximadamente R$ 36 milhões, entregue em 2023 e destruída em 2026, também exige explicações sobre fiscalização, acompanhamento e manutenção. O Ministério Público investiga justamente essa parte e contesta a ideia de que o contrato retiraria do poder público o dever de fiscalizar.

Para Sena Madureira, a pergunta não é apenas quando a empresa responderá. É quando o Estado removerá os escombros, como manterá a travessia e quando entregará uma solução permanente.

O plano é “exequível”, mas não permite medir o resultado

As quatro respostas seguiram a mesma lógica.

Na habitação, Mailza informou que existem recursos para 2,7 mil casas, mas não apresentou uma meta para quatro anos.

Na educação, defendeu um parque tecnológico, mas não explicou como a proposta se conecta às escolas que ainda precisam de estrutura e aos professores que cobram a revisão da carreira.

Na rastreabilidade, incluiu o tema no plano de governo, mas não disse quando pretende implantá-lo — embora o próprio Estado já tenha criado programas para preparar o setor.

Em Sena Madureira, explicou a ação contra a construtora, mas não deu prazo para a solução que a população espera do governo.

A frase “cada pessoa é responsável pelos seus atos” ajuda Mailza a se afastar das promessas de Gladson Cameli. Mas essa separação tem limite.

Mailza foi eleita vice na chapa de Gladson, assumiu o governo, defende a continuidade administrativa e recebe o apoio direto do ex-governador. O grupo político está no comando do Acre desde 2019.

Ela não pode reivindicar apenas os resultados positivos dessa herança e transferir os problemas para o antecessor.

O ponto da sabatina não é exigir promessas grandiosas. É exigir números, prazos e responsáveis.

Se o plano é “exequível”, o eleitor precisa saber quanto será feito, quando, com quais recursos e como o resultado será medido.

Sem essas respostas, a prudência vira falta de compromisso mensurável. E, para quem já governa e pede mais quatro anos, explicar o futuro não basta. Mailza também precisa responder pelo que o Estado prometeu, começou e ainda não entregou.

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