Acre

Heloy de Castro cobra cachê atrasado enquanto Expoacres gastam R$ 12,7 milhões com shows nacionais

Aos 76 anos, depois de mais de quatro décadas fazendo música no Acre, Heloy de Castro voltou a ocupar um lugar que conhece tão bem quanto os palcos: o da cobrança por espaço, respeito e pagamento. O músico tornou público nesta semana que ainda não recebeu o cachê por uma apresentação na Expoacre e colocou sua própria sobrevivência profissional diante de uma conta muito maior. Em 2026, os principais shows nacionais contratados ou previstos para as edições da Expoacre Juruá, em Cruzeiro do Sul, e da Expoacre, em Rio Branco, consumiram R$ 12,7 milhões em recursos públicos. “O nosso cachê não foi pago até hoje”, afirmou Heloy, ao cobrar uma resposta de quem administra a cultura estadual.
Heloy não falou como alguém que desconhece as dificuldades de viver da música no Acre. Mineiro radicado no estado desde o início dos anos 1980, ele passou 15 anos tocando no antigo bar e restaurante O Casarão e atravessou décadas da noite rio-branquense. Em 2019, já aparecia em registros oficiais como um artista que havia enfrentado sucessivas dificuldades para entrar em grandes eventos públicos e aprovar projetos culturais. Naquele mesmo ano, chegou a fazer apresentações nas ruas de Rio Branco em protesto contra a política cultural do município.

Agora, a reclamação tem endereço mais concreto: dinheiro por um serviço já prestado. Heloy diz que a espera passou de 30 dias e se aproxima de dois meses. A conta doméstica, porém, não espera o trâmite administrativo. Ele lembra que ainda possui outra fonte de renda, mas desloca o centro da cobrança para músicos que dependem do palco para pagar aluguel, comprar comida e manter a família. Cita o caso de um colega, Kleber, que estaria pedindo ajuda para conseguir dinheiro e retornar para casa. “E os músicos que não têm, que estão aí perdidos, passando necessidade?”, questiona.

O desabafo ganha peso quando colocado ao lado da estrutura financeira montada pelo governo estadual para trazer artistas de projeção nacional ao Acre. A Expoacre Juruá, realizada de 30 de junho a 5 de julho em Cruzeiro do Sul, reservou R$ 6,25 milhões somente para seis atrações nacionais. Leonardo apareceu com R$ 2,1 milhões; Natanzinho Lima, com R$ 1,7 milhão; Ícaro e Gilmar, com R$ 750 mil; Tierry e padre Fábio de Melo, com R$ 650 mil cada; e a Banda Morada, com R$ 400 mil.

A programação foi executada dentro do Termo de Colaboração nº 01/2026, firmado entre a Casa Civil e a Associação Transformar. O valor global da parceria chegou a R$ 16.648.310. Registros financeiros consultados após a feira mostraram R$ 15.848.310 transferidos à entidade responsável por organizar e executar o evento. Além dos R$ 6,25 milhões separados para os cachês nacionais, outros R$ 2.448.520 foram reservados para despesas de produção e logística dessas atrações, incluindo passagens aéreas, fretamento de aeronaves, hospedagem, alimentação, transporte, camarins e outros serviços. Cachês e operação dos shows nacionais consumiram, juntos, quase R$ 8,7 milhões do planejamento financeiro da feira.

A distância para os artistas da terra aparece dentro do próprio orçamento. Enquanto seis atrações nacionais concentraram R$ 6,25 milhões, o plano da Expoacre Juruá reservou R$ 612,5 mil para o conjunto dos artistas locais e regionais. Os cachês nacionais ficaram, portanto, pouco mais de dez vezes acima de todo o dinheiro separado para as atrações locais.

Nem mesmo a existência dos recursos evitou reclamações de quem trabalhou na feira do Juruá. No dia 14 de julho, nove dias depois do encerramento da Expoacre Juruá, artistas e prestadores ainda cobravam pagamentos. A Casa Civil já havia transferido R$ 15,8 milhões à Associação Transformar em 29 de junho. Comprovantes de Pix começaram a circular entre profissionais somente depois que a cobrança ganhou repercussão pública. O episódio deixou uma pergunta que permanece atual: entre o dinheiro sair do Estado e chegar ao trabalhador que montou estrutura, prestou serviço ou subiu ao palco, quanto tempo pode passar?

Em Rio Branco, onde a Expoacre ocorreu entre 1º e 9 de agosto, o governo escolheu outro caminho para as principais atrações nacionais. A Casa Civil firmou contratos diretamente ligados aos shows e desembolsou R$ 6,45 milhões para seis artistas. Wesley Safadão teve contrato de R$ 1,8 milhão. Natanzinho Lima custou R$ 1,3 milhão. Padre Fábio de Melo ficou em R$ 500 mil e a banda Som & Louvor, em R$ 300 mil. Leonardo e Ana Castela foram reunidos em um único contrato de R$ 2,55 milhões, sem divisão pública do valor individual de cada apresentação.

Bruno & Marrone, que encerraram a programação musical no dia 9, ficaram fora dessa conta porque a apresentação foi realizada pela iniciativa privada, com venda de ingressos. Os R$ 6,45 milhões correspondem aos shows nacionais financiados pelo Estado na capital e, nos registros financeiros levantados após a feira, já apareciam integralmente empenhados, liquidados e pagos. Somados aos R$ 6,25 milhões previstos para os artistas nacionais do Juruá, o gasto alcança R$ 12,7 milhões.

A comparação precisa respeitar uma diferença administrativa importante. O dinheiro destinado às grandes atrações nacionais de Rio Branco saiu de contratos conduzidos pela Casa Civil. No Juruá, os recursos foram repassados à Associação Transformar dentro de uma parceria para execução integral do evento. Os cachês cobrados por músicos acreanos podem percorrer contratos, credenciamentos e empresas responsáveis por intermediar pagamentos. Não se pode afirmar que uma verba poderia simplesmente ser retirada de um contrato nacional para pagar outra obrigação. O problema exposto pelos artistas está no funcionamento da máquina pública: ela conseguiu montar operações milionárias para garantir grandes atrações, mas trabalhadores locais continuam recorrendo às redes sociais para saber quando receberão por serviços que já entregaram.

Heloy também não está sozinho nessa cobrança. Em 18 de agosto, a cantora acreana Sandra Mello tornou pública a situação de músicos e colaboradores que aguardavam havia mais de 90 dias pagamentos ligados a eventos da Fundação de Cultura Elias Mansour. “A cultura pede ajuda e respeito”, escreveu. No dia seguinte, o presidente da FEM, Matheus Gomes, afirmou que os procedimentos da Fundação haviam sido cumpridos e que a Secretaria de Estado da Fazenda tinha autorizado os pagamentos. A previsão apresentada era de que a empresa responsável começasse a receber os recursos para repassar aos artistas a partir de 19 de agosto.

Uma semana depois daquela resposta, a cobrança de Heloy apareceu publicamente. A pendência dele reforça a necessidade de o governo esclarecer quantos artistas continuam sem receber, quais eventos concentram dívidas, quanto permanece pendente, quais empresas ou entidades estão responsáveis pelos repasses e quais datas foram fixadas para a quitação. No caso específico de Heloy, ainda falta uma resposta pública que esclareça o valor do cachê, o contrato ao qual a apresentação está vinculada e em que etapa se encontra o pagamento.

O contraste também alcança o discurso público sobre valorização da cultura acreana. Durante a própria Expoacre de Rio Branco, a Prefeitura lançou o projeto Rio Branco Street Music com a proposta de criar oportunidades para músicos locais e ocupar praças e bairros com apresentações. Na ocasião, o prefeito Alysson Bestene falou em incentivo aos profissionais da música e o presidente da CDL, Marcelo Moura, resumiu a questão em termos de trabalho e dignidade: “O músico trabalha, gera o seu valor e tem dignidade.”

Para quem vive de música, valorização não termina quando as luzes do palco são apagadas. Ela passa pela contratação, pelo valor do trabalho e pelo pagamento no prazo. Um músico local também paga instrumentista, combustível, alimentação, manutenção de equipamento e contas de casa. Quando o cachê demora dois ou três meses, o custo da espera fica com quem possui menos capacidade financeira para suportá-lo.

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