Mailza em Londres: uma reunião que poderia ter sido um e-mail

Governadora vai ao centro financeiro europeu tratar de créditos de carbono, mas negociação segue sem resultado concreto apresentado ao Acre

A governadora Mailza Assis atravessou o Atlântico com uma comitiva oficial para cumprir agenda em Londres, durante a Semana do Clima, em torno de uma das pautas mais sensíveis e milionárias do governo do Acre: a venda de créditos de carbono. A viagem foi apresentada como missão estratégica para atrair investimentos, fortalecer parcerias e transformar a floresta em pé em benefícios para a população. Mas, depois das fotos, vídeos, discursos e reuniões no centro financeiro europeu, o Acre segue diante da pergunta principal: o que foi efetivamente firmado?

As próprias falas públicas da agenda mostram que o negócio continua aberto. Ao lado de Marisa Drew, alta executiva global de sustentabilidade do Standard Chartered Bank, Mailza disse estar no centro econômico de Londres, mas com o coração voltado para a população acreana. Falou em reverter a preservação da floresta em benefícios para ribeirinhos, povos indígenas, produtores rurais e moradores que mais precisam. Em seguida, definiu o estágio real da agenda ao afirmar que estava ao lado de uma representante de “um banco que estamos negociando os créditos de carbono”.

A frase desmonta o tom de conquista. Se o governo ainda negocia, não há acordo concluído. Marisa Drew reforçou essa leitura ao dizer que o banco e o governo conversam “há alguns meses” sobre como criar um mecanismo financeiro para ampliar os recursos e fazer o dinheiro chegar às pessoas locais. Quando o mecanismo ainda está sendo criado, continuam sem resposta pública o valor fechado, o contrato final, o cronograma de repasse, a governança, a fiscalização, as comunidades beneficiadas e a forma concreta de aplicação do dinheiro.

Na prática, a agenda vendida como compromisso internacional em favor do povo acreano parece ter sido mais uma rodada de tratativas. Uma reunião que, pelo que foi apresentado até agora, poderia ter ocorrido por videoconferência, troca técnica entre equipes ou e-mail institucional.

Não se trata de negar a importância da pauta ambiental. O Acre tem floresta, experiência acumulada em políticas de serviços ambientais, histórico no REDD+ jurisdicional, construído no governo da Frente Popular, e potencial real para disputar recursos internacionais. A questão é outra. Quando uma comitiva oficial viaja a Londres com dinheiro público, segurança, comunicação, assessoria e representação institucional, o mínimo esperado é que o governo volte com algo mais concreto do que uma promessa de futuro, do que um aperto de mãos.

A viagem também precisa ser lida pelo custo público e pelos nomes que compuseram a missão. Levantamento no Portal da Transparência do Acre localizou R$ 192.004,21 pagos em diárias internacionais a 12 beneficiários da agenda oficial em Londres, incluindo Victor Hugo Rondon Soto, apresentado pelo governo como gerente-geral do Projeto de Crédito de Carbono do Estado.

O maior pagamento foi destinado a Lauro da Veiga Santos, presidente da Companhia de Desenvolvimento e Serviços Ambientais do Acre, a CDSA, que recebeu R$ 28.813,04. Victor Hugo Rondon Soto aparece em seguida, com R$ 25.593,12. Também receberam diárias Elane Cristina da Costa Cabral e Juliana de Oliveira Moreira, ambas da Casa Civil, com R$ 14.776,85 cada uma, e Madson de Castro Cameli, chefe de gabinete e marido da governadora Mailza Assis, que recebeu R$ 14.776,85 para assessorá-la na agenda institucional do Consórcio Amazônia Legal durante a Semana do Clima de Londres.

O pagamento a Madson carrega peso político próprio. Ele não aparece apenas como servidor em uma agenda técnica. É o marido da governadora, chefe de gabinete, acompanhando Mailza em uma viagem internacional cujo resultado concreto ainda não foi apresentado ao público. Em uma missão tratada pelo governo como estratégica para o futuro climático e financeiro do Acre, a presença dele amplia a obrigação de transparência sobre quem foi, por que foi, quanto recebeu e qual função efetiva desempenhou.

A presença de Victor Hugo Rondon Soto exige atenção ainda maior. A Agência de Notícias do Acre o apresentou na comitiva como gerente-geral do Projeto de Crédito de Carbono do Estado. Ao mesmo tempo, Victor é sócio-administrador da VR Consultoria Empresarial LTDA, empresa que recebeu R$ 3.256.745,01 do governo do Acre entre 2023 e 2026, em contratos associados à CDSA e ligados justamente à pauta de captação de recursos, mercado financeiro, REDD+, créditos de carbono jurisdicionais, rating internacional, relações corporativas e atuação junto a atores nacionais e internacionais.

A comitiva também incluiu Janete Melo de Albuquerque Lima, da Procuradoria-Geral do Estado, com R$ 14.013,63; Aldeir Araujo da Costa, Jeffersson Pereira da Silva e Theanne Louise Gonçalves Souza Medeiros, da Casa Militar, cada um com R$ 14.241,60; Jefson Marques Dourado, da Secretaria de Comunicação, com R$ 12.796,56; Francisco Lucena da Costa Neto, fotógrafo, com R$ 11.882,52; e Joscinei Gomes Bastos, videomaker, com R$ 11.849,99. A missão teve representação institucional, segurança, comunicação, assessoria jurídica, comando da CDSA e presença direta da área do crédito de carbono. Houve equipe para produzir notícia, foto, vídeo e redes sociais. O que ainda não houve foi contrato publicado, valor garantido, cronograma de repasse ou instrumento formal capaz de mostrar o que foi fechado em Londres.

Relatório de despesas por fornecedor mostra que os pagamentos à VR Consultoria Empresarial LTDA, entre 2023 e 2026, foram registrados como prestação de serviços de consultoria. Os objetos associados aos empenhos conversam diretamente com a vitrine montada em Londres: captação de recursos, mercado financeiro, bancos de investimento, REDD+, créditos de carbono jurisdicionais, rating financeiro internacional, relações corporativas e atuação junto a atores públicos e privados no Brasil e no exterior.

O ano de 2025 concentrou a maior parte dos pagamentos, com mais de R$ 2,5 milhões. Entre as despesas aparecem serviços voltados à obtenção de rating financeiro internacional do programa de créditos de carbono jurisdicionais do Acre e à avaliação de integridade do Programa Jurisdicional de REDD+ ISA Carbono para habilitação em negociações de mercado financeiro. Por isso, a cobrança não se resume ao que Mailza foi buscar em Londres. A questão é o que o Acre já recebeu depois de pagar consultorias milionárias para estruturar justamente essa pauta de carbono, mercado internacional e captação de recursos.

Mudando o rumo, depois de anos de nada resolvido

O governo apresenta a missão como abertura de uma nova fronteira para o desenvolvimento sustentável. A trajetória recente, porém, é mais complexa do que a comunicação oficial deixa transparecer. Antes do Standard Chartered assumir o centro da negociação, o Acre caminhava pela rota da Coalizão LEAF/Emergent, iniciativa internacional voltada à certificação e comercialização de créditos de carbono florestal jurisdicional. No fim de 2023, o Estado chegou a assinar carta de intenções nesse caminho, apresentado como alternativa com regras rígidas de governança, integridade ambiental e repartição de benefícios.

Depois, a estratégia mudou. A negociação passou a ser conduzida com o banco britânico Standard Chartered, em modelo mais ligado ao mercado financeiro internacional. O banco anunciou acordo para vender créditos de carbono florestal do Acre ao longo de cinco anos, com possibilidade de levar milhões de créditos ao mercado a partir de 2026. O discurso oficial fala em floresta em pé, integridade, comunidades locais e destinação de 72% dos recursos líquidos aos povos indígenas e comunidades tradicionais.

No papel, a promessa é poderosa. Na vida real, ela depende de respostas que ainda não chegaram ao público: quanto será vendido, a que preço, para quem, quando o dinheiro entrará, quanto ficará com intermediários, quem fiscalizará a conta, quem decidirá a aplicação dos recursos e como as comunidades terão controle sobre aquilo que o governo negocia em nome delas.

Essas perguntas estão no centro da crise de confiança instalada em torno da política de carbono do Acre. Organizações da sociedade civil e representantes da governança do Sisa passaram a questionar a forma como a CDSA conduziu as negociações. A Comissão Estadual de Validação e Acompanhamento, a Câmara Temática Indígena e a Câmara Temática das Mulheres são espaços que deveriam acompanhar decisões dessa magnitude. As críticas apontam falta de transparência e diálogo insuficiente com esses instrumentos de controle social.

A reportagem do Varadouro, publicada com o título “Vende-se carbono”, colocou a mudança da rota LEAF para o Standard Chartered no centro do atrito entre a CDSA e a sociedade civil. Lideranças relataram que a governança soube das tratativas pela imprensa oficial e que o argumento do sigilo comercial passou a impedir o acesso a informações sobre uma política pública construída historicamente com participação social.

Depois, organizações entregaram carta ao governador Gladson Cameli pedindo mudanças na CDSA e no Sisa. A cobrança era por transparência, revisão da condução política e fortalecimento dos espaços de participação. 

Outras vozes, a mesma pergunta

A Comissão Pró-Indígenas do Acre também levou a crise para dentro da história do próprio Sisa. Em artigo publicado em 20 de abril de 2026, Simen Kokkvoll e Aldalúcia F. Carvalho reconhecem que o sistema criado pela Lei Estadual nº 2.308, de 2010, fez o Acre virar referência em serviços ambientais e REDD+ jurisdicional, especialmente com o Programa REM, que arrecadou mais de US$ 50 milhões em 15 anos por meio do ISA Carbono. Mas os autores apontam que os pilares que deram força ao modelo — transparência, participação social e controle — passaram a ser justamente seus pontos mais frágeis.

O texto mostra que a revisão da Estratégia de Repartição de Benefícios, em 2025, ampliou a fatia dos povos indígenas de 12% para 22% e definiu 26% para territórios extrativistas, 24% para produtores e agricultores familiares e 28% para o Estado. A crítica, porém, é que percentual não basta. Sem critérios claros, acompanhamento público, relatórios atualizados e funcionamento real da CEVA e das câmaras temáticas, a repartição de benefícios vira promessa sem controle social.

A parte mais sensível para a agenda de Londres está na atuação da CDSA. Segundo Kokkvoll e Aldalúcia, a partir de 2025 a companhia passou a conduzir negociações internacionais de créditos de carbono sem comunicação prévia à governança do Sisa. As tratativas com o Standard Chartered e o rompimento com a LEAF/Emergent aparecem como marco de uma crise institucional marcada por falta de transparência e pelo uso do argumento de “sigilo comercial”.

É essa crítica que torna a viagem de Mailza mais delicada. O Acre não discute apenas vender ou não vender carbono. Discute quem decide, com quais documentos, sob qual controle público e com que participação dos povos indígenas, extrativistas, agricultores familiares e sociedade civil. O governo fala em transformar floresta em benefício. A CPI-Acre recoloca a pergunta que vem antes de qualquer contrato: quem autorizou a negociação e como a confiança será reconstruída dentro da governança que sustentou o Sisa por mais de uma década?

Também pesa a consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais. O Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado do Acre recomendaram que o governo garanta consulta livre, prévia e informada antes da inclusão de territórios indígenas e tradicionais no Programa ISA Carbono. A recomendação afirma que as comunidades devem ter o direito de decidir se querem ou não participar do programa e, se desejarem, desenvolver seus próprios projetos de crédito de carbono.

Esse ponto é decisivo. Não basta o governo fazer reuniões regionais sobre repartição de benefícios e depois apresentar isso como autorização ampla para negociar créditos de carbono em nome de territórios e modos de vida de povos tradicionais. Consulta sobre divisão futura de recursos não é a mesma coisa que consentimento sobre a comercialização dos créditos. Uma coisa é discutir percentuais. Outra é decidir se o território, a floresta, a permanência das comunidades e seus modos de vida podem servir de base para uma operação financeira internacional.

É aí que a agenda de Londres fica mais frágil. Mailza diz que está negociando para garantir que o dinheiro chegue à população. Marisa Drew diz que o banco conversa há meses sobre como criar o mecanismo financeiro. O governo fala em compromisso. O banco fala em modelo. A Agência fala em parceria firmada. Mas, no centro da floresta, continuam sem resposta pública as perguntas essenciais: quem autorizou, quem foi consultado, onde estão as atas, qual é o contrato, qual é o valor, qual é o prazo e qual é a garantia de que o dinheiro chegará aos ribeirinhos, indígenas, extrativistas e produtores familiares citados nos discursos oficiais.

A contradição está diante do Acre. O governo usa a imagem dos povos da floresta para valorizar a negociação em Londres, enquanto parte das instâncias de representação e controle social questiona a forma como a negociação foi conduzida. O discurso fala em dignidade, futuro e prosperidade. As cobranças falam em consulta, transparência e governança.

No fim, a ida a Londres parece menos uma entrega e mais uma tentativa de revestir de solenidade uma negociação que continua aberta. A Agência de Notícias do Acre anunciou a missão como oportunidade para posicionar o Estado no centro das discussões internacionais sobre mecanismos financeiros, mercado de carbono e captação de recursos. Depois, publicou que Mailza e a executiva do banco “firmaram compromisso em favor do povo acreano”. Mas o conteúdo das falas aponta para outro cenário: o mecanismo financeiro ainda está sendo desenhado, o recurso ainda não está garantido e o caminho de chegada do dinheiro às comunidades ainda precisa ser comprovado.

Se houve contrato, que seja publicado. Se houve valor, que seja informado. Se houve cronograma, que seja apresentado. Se houve compromisso jurídico, que seja disponibilizado. Se houve consulta aos povos afetados, que sejam divulgadas as atas, os protocolos, os registros e as respostas dadas às recomendações do MPF, do MPAC e das organizações da sociedade civil.

Enquanto o dinheiro do carbono segue no campo da promessa, os custos da agenda já são concretos. Diárias foram pagas. Consultorias foram pagas. A comunicação oficial foi mobilizada. A comitiva viajou. E o povo acreano continua sem saber quanto virá, quando virá, por qual contrato virá e como o recurso chegará, de fato, às comunidades citadas nos discursos.

O governo pode dizer que a negociação é complexa. E é. Mercado de carbono jurisdicional, ART/TREES, repartição de benefícios, consulta prévia, governança do Sisa, rating internacional e venda por banco global não são temas simples. Justamente por isso, exigem mais transparência, não menos. Exigem mais controle social, não menos. Exigem mais cuidado com os povos da floresta, não apenas o uso de suas imagens e nomes nos discursos oficiais.

A reunião em Londres poderia ter sido um e-mail porque, até agora, trouxe a público essencialmente uma atualização de tratativas: o governo negocia, o banco conversa, o mecanismo financeiro está sendo construído e a promessa é fazer o dinheiro chegar. Mas isso o Acre já sabia. O que o Acre ainda não sabe é o principal: o que foi realmente fechado, quanto isso vale e quando a população verá algum resultado concreto.

Mailza busca crédito de carbono em Londres enquanto Acre paga R$ 3,2 milhões em consultoria dos próprios cofres

A governadora Mailza Assis chegou a Londres para apresentar o Acre como vitrine ambiental, buscar espaço no mercado internacional de crédito de carbono e reforçar a imagem de um Estado capaz de transformar floresta em pé em dinheiro novo. A agenda ocorre enquanto a Companhia Agência de Desenvolvimento de Serviços Ambientais S.A., a CDSA, já pagou R$ 3.256.745,01 à VR Consultoria Empresarial LTDA, entre 2023 e 2026, com recursos próprios do Tesouro Estadual, para serviços ligados à pauta ambiental, financeira e climática que agora sustenta o discurso acreano fora do país.

A empresa, inscrita no CNPJ 44.204.117/0001-62, aparece nos registros de pagamento da CDSA, estatal que atua na elaboração de projetos, na gestão de ativos ambientais e na captação de recursos no mercado de carbono. A própria companhia descreve a VR Consultoria, também apresentada como VR Carbon Partners, como empresa especializada em negócios e políticas de desenvolvimento, com experiência em captação de recursos, trânsito no mercado financeiro, bancos de investimento, capitais de risco e administração de fundos de investimento. 

O ponto que pesa politicamente é a origem do dinheiro. Os pagamentos localizados aparecem com a fonte 15000100, classificada como Recursos Próprios do Tesouro Estadual. Na prática, a conta não aparece vinculada a dinheiro internacional já captado com crédito de carbono, nem a repasses diretos do KfW, da Alemanha, do Reino Unido ou de algum fundo climático. É dinheiro do próprio Estado do Acre financiando a engrenagem que tenta vender ao mercado global a promessa de receita futura com carbono.

A maior parte dessa despesa se concentrou em 2025. Dos R$ 3,25 milhões identificados, R$ 2.534.924,05 foram pagos somente naquele ano, quando o governo intensificou a estratégia de certificação, negociação e apresentação internacional dos créditos de carbono jurisdicionais. Antes disso, a empresa havia recebido cerca de R$ 75,6 mil em 2023 e R$ 448,7 mil em 2024. Em 2026, já aparecem mais R$ 197,4 mil em pagamentos.

Os registros analisados trazem contratos e empenhos associados a consultorias para temas ambientais, Sisa, Programa ISA Carbono, REDD+, créditos de carbono jurisdicionais, mercado financeiro internacional e articulação com atores públicos e privados. Na apuração aparecem o Contrato nº 6/2025 e os Contratos nº 12/2023 e nº 12/2025, todos ligados à agenda climática e ambiental conduzida pela CDSA.

É nesse ponto que a viagem de Mailza a Londres deixa de ser apenas uma agenda institucional e passa a exigir prestação de contas. Se o Acre já pagou mais de R$ 3,2 milhões, com dinheiro dos próprios cofres, para estruturar a pauta do crédito de carbono, o governo precisa dizer o que recebeu em troca. Houve venda efetiva de créditos? Entrou dinheiro novo na conta do Estado? Alguma comunidade indígena, extrativista, ribeirinha ou agricultora familiar já recebeu recurso dessa política? Ou o Acre ainda paga caro para vender uma promessa que não se materializou?

A agenda londrina foi organizada para aproximar o Acre de empresas e bancos que operam no centro do mercado climático. Entre os compromissos divulgados estão reuniões com a Sylvera, empresa que avalia a qualidade de créditos de carbono, e com representantes do Standard Chartered Bank, instituição financeira global ligada a finanças sustentáveis, financiamento de transição e mobilização de capital climático. O governo trata a viagem como parte de uma diplomacia climática e financeira para ampliar a confiança internacional nos ativos ambientais acreanos.

A discussão sobre crédito de carbono precisa ser colocada no lugar certo. O Acre tem uma estrutura legal antiga, construída em torno do Sisa e do Programa ISA Carbono, e tenta converter reduções jurisdicionais de desmatamento em créditos certificados pelo padrão ART/TREES. Mas o Estado ainda não tem, pelas informações públicas disponíveis, crédito ART/TREES emitido, venda concluída, comprador final identificado, receita comprovada no caixa estadual ou repasse demonstrado às comunidades. O que existe é uma candidatura avançada à certificação e uma tentativa de entrada no mercado internacional.

O próprio ART informou, em 26 de março de 2026, que aceitou os documentos enviados pelo Acre para o período de crédito 2023-2027, junto com o relatório de monitoramento de 2023. Essa aceitação permite que o programa siga para validação e verificação independente. A emissão de créditos serializados depende de validação, verificação e aprovação posterior pelo conselho do ART. Portanto, aceitação documental não é certificação final nem dinheiro garantido. 

O acordo com o Standard Chartered também precisa ser lido com precisão. O banco britânico anunciou em agosto de 2025 um acordo exclusivo de cinco anos para vender créditos jurisdicionais do Acre, com expectativa de até 5 milhões de créditos em 2026 e potencial de até US$ 150 milhões. A Reuters registrou, porém, que o acordo não é venda antecipada e que não há compromisso de vender créditos agora. A diferença é decisiva: trata-se de uma estrutura de comercialização futura, não de receita já recebida pelo Estado.

Cada crédito de carbono costuma representar 1 tonelada de CO₂ equivalente. Então, quando o Standard Chartered fala em “potencialmente 5 milhões de créditos chegando ao mercado em 2026”, está falando de até 5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente que poderiam ser convertidas em créditos jurisdicionais do Acre, se passarem por validação, verificação e emissão no padrão ART/TREES. O banco anunciou que atuará como vendedor exclusivo desses créditos por cinco anos.  

Essa fronteira entre expectativa e resultado é o centro da cobrança. O Acre se apresenta em Londres como liderança ambiental, mas ainda precisa mostrar a cadeia completa do negócio: crédito certificado, auditoria concluída, contrato assinado, comprador definido, valor recebido, repartição executada e benefício chegando aos territórios. Sem isso, a política de carbono fica mais forte no discurso internacional do que na vida concreta de quem mantém a floresta em pé.

A repartição de benefícios é outra zona sensível. O governo publicou o Decreto nº 11.732/2025 para ratificar a estratégia do Programa ISA Carbono, com 28% dos benefícios financeiros para o Estado e 72% para beneficiários do Sisa. Dentro desse percentual, a divisão anunciada reserva 22% para povos indígenas, 26% para comunidades extrativistas e 24% para agricultores familiares. O governo também afirma que a construção envolveu consultas nas cinco regionais do Acre, com participação de cerca de 1.800 pessoas.

A controvérsia não desaparece com a edição do decreto. Em abril de 2025, MPF e MPAC recomendaram que o governo do Acre e o Instituto de Mudanças Climáticas garantissem consulta livre, prévia e informada antes de incluir territórios indígenas e comunidades tradicionais no Programa ISA Carbono. Os órgãos cobraram que as comunidades tenham direito de decidir se querem participar e, caso queiram, desenvolver seus próprios projetos. Também defenderam que consultas públicas regionais do Fórum Participativo Estadual não fossem tratadas como consulta válida nos termos exigidos pela Convenção 169 da OIT. Existe documentação formal, território por território, povo por povo, mostrando que os povos indígenas aceitaram participar da comercialização dos créditos de carbono feita pelo governo estadual?

Esse debate ganha mais peso porque o mercado de carbono não compra apenas toneladas de CO₂ evitadas. Compra confiança. Um crédito jurisdicional precisa carregar integridade ambiental, segurança jurídica, governança fundiária, respeito a direitos territoriais, consulta adequada e prova de que a redução de emissões não existe só no papel. Quando qualquer uma dessas peças falha, o ativo perde valor, atrai contestação e pode ficar parado antes mesmo de chegar ao comprador.

É aqui que entra a derrota recente do Acre no Supremo Tribunal Federal. Em março de 2026, o STF declarou inconstitucional norma estadual que permitia a transferência de áreas de florestas públicas estaduais para particulares com base em dez anos de posse ou uso. O julgamento ocorreu nas ADIs 7764, 7767 e 7769, movidas pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas, pela Procuradoria-Geral da República e pelo Partido Verde. A Corte derrubou a regra por entender que ela abria caminho para título de domínio definitivo em florestas públicas, reduzia proteção ambiental, dispensava exigências como estudos técnicos e análise de impacto, contrariava normas federais e feria a vedação ao retrocesso ambiental.

A decisão atinge a vitrine ambiental no ponto mais frágil. Enquanto o governo Mailza-Gladson tenta convencer investidores em Londres de que o Acre é um porto seguro para créditos de carbono de alta integridade, o STF teve de barrar uma regra estadual que fragilizava a proteção de florestas públicas. A contradição não impede o Acre de buscar financiamento climático, mas aumenta o risco jurídico, político e comercial da operação. Para bancos, certificadoras e compradores internacionais, floresta pública sob ameaça fundiária é problema de integridade.

O risco não é abstrato. O caso do Pará já virou alerta para os estados amazônicos. Em 2025, o MPF foi à Justiça para pedir a anulação de contrato bilionário de crédito de carbono, citando venda antecipada e ausência de consulta prévia, livre e informada. Em 2026, o órgão também recomendou ao ART a suspensão da certificação e da venda de créditos do Pará até a solução judicial da disputa. O Acre tenta se diferenciar porque o acordo com o Standard Chartered não foi estruturado como venda antecipada, mas a lição permanece: sem consulta robusta, transparência contratual e segurança territorial, o mercado de carbono pode virar passivo judicial.

A Fase II do Programa REM Acre também impõe cautela. Financiado pela Alemanha, por meio do KfW, e pelo Reino Unido, o programa foi apresentado com 30 milhões de euros para execução entre 2017 e 2021, com 70% dos recursos destinados a beneficiários locais e 30% ao fortalecimento do Sisa, de instrumentos de REDD+ e de políticas de controle do desmatamento. Em 2024, novos acordos empurraram a execução até 2026, com liberação de aproximadamente 11 milhões de euros para finalização da fase. Um programa pensado para cinco anos caminha para quase uma década de execução.

O histórico ambiental recente também não permite triunfalismo. O governo usa a queda do desmatamento como trunfo e há redução nos números mais recentes. Ainda assim, a Nota Técnica do Ministério Público do Acre sobre desmatamentos, embargos e multas trata de fragilidades na responsabilização de infratores, na cobrança efetiva de multas, no registro de embargos e na inscrição de débitos em dívida ativa. Para uma política de carbono, fiscalização fraca não é detalhe administrativo. É ameaça direta à qualidade do crédito que o Estado pretende vender.

O Acre deve buscar recursos ambientais. A floresta acreana presta um serviço real ao Brasil e ao mundo, e quem vive nesses territórios precisa ser remunerado por isso. Mas o caminho entre Londres e a ponta não pode ser ocupado apenas por consultorias, viagens, apresentações e promessas. Resultado é crédito emitido, dinheiro recebido, contrato público, comunidade consultada, benefício repartido e floresta protegida por lei e por fiscalização.

A pergunta que acompanha Mailza em Londres, portanto, continua a mesma: depois de mais de R$ 3,2 milhões pagos à VR Consultoria com recursos próprios do Tesouro, o Acre está perto de vender créditos de carbono ou apenas financiando a construção de uma narrativa internacional? A resposta precisa aparecer em documentos, números, contratos e repasses. Até lá, a conta é do contribuinte acreano, a promessa é do governo e o risco está sobre a floresta.