Sandra Mello cobra cachês atrasados enquanto Estado destina R$ 12,7 milhões a shows nacionais

Há mais de 90 dias, músicos e outros profissionais da cultura do Acre esperam receber por apresentações já realizadas em eventos ligados à Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM). A demora levou a cantora Sandra Mello às redes sociais nesta terça-feira, 18 de agosto, para cobrar o pagamento dos trabalhadores. A reivindicação ocorre no mesmo ano em que o Governo do Acre movimentou R$ 12,7 milhões para cachês das principais atrações nacionais contratadas ou previstas nas Expoacres do Juruá e de Rio Branco em 2026.

Sandra tornou pública uma cobrança que atravessa os bastidores da produção cultural acreana. Artistas sobem ao palco, músicos cumprem horários, equipes técnicas trabalham antes e depois dos shows, mas parte desses profissionais ainda aguarda o dinheiro por serviços prestados há mais de três meses. Na publicação, a cantora marcou a Fundação Elias Mansour, o responsável pela área de Cultura e a governadora Mailza Assis.

“A cultura pede ajuda e respeito”, escreveu.

Até a cobrança vir a público, a FEM não havia informado a razão da demora nem apresentado uma data para a quitação dos valores. Também permaneciam sem resposta questões básicas para dimensionar o problema: quantos profissionais estão com pagamentos pendentes, qual é o montante total devido, quais eventos deram origem às dívidas e em que estágio administrativo se encontram os processos.

A espera enfrentada pelos trabalhadores locais ganha outra dimensão quando colocada diante dos valores destinados aos grandes shows das duas principais feiras agropecuárias realizadas pelo Estado em 2026. Somados, os cachês nacionais previstos para a Expoacre Juruá e os contratos de artistas nacionais da Expoacre de Rio Branco alcançaram R$ 12,7 milhões.

Em Cruzeiro do Sul, a Expoacre Juruá teve R$ 6,25 milhões reservados no Plano de Trabalho da Associação Transformar para seis atrações nacionais. Leonardo aparece com o maior valor, R$ 2,1 milhões. Natanzinho Lima teve previsão de R$ 1,7 milhão. Ícaro e Gilmar, R$ 750 mil. Tierry e padre Fábio de Melo aparecem com R$ 650 mil cada. A Banda Morada completa a relação, com R$ 400 mil.

Os cachês faziam parte de uma estrutura financeira muito maior. Em 29 de junho, a Casa Civil transferiu R$ 15.848.310 à Associação Transformar para execução, gestão, organização e realização da Expoacre Juruá, por meio de Termo de Colaboração. O dinheiro destinado aos shows nacionais estava inserido nesse orçamento global.

Esse ponto exige uma diferença importante. O repasse de R$ 15,848 milhões comprova que o Estado colocou os recursos da parceria à disposição da entidade responsável pela feira. Não permite afirmar, isoladamente, que cada cantor ou banda recebeu o respectivo cachê naquele momento. A confirmação do valor efetivamente pago a cada atração e da data de cada pagamento depende da prestação de contas da Associação Transformar.

Ainda assim, os números mostram a dimensão da estrutura montada para receber artistas de fora do Acre. Além dos R$ 6,25 milhões destinados aos cachês nacionais no Juruá, outros R$ 2,448 milhões estavam previstos para produção e logística dessas atrações, com despesas como transporte aéreo, fretamento, hospedagem, alimentação, camarins, vans e serviços ligados à realização dos shows.

Em Rio Branco, o caminho administrativo foi diferente e os registros permitem acompanhar o dinheiro de forma mais direta. A Casa Civil firmou cinco contratos para seis atrações nacionais, num total de R$ 6,45 milhões. Os valores aparecem nos registros financeiros como empenhados, liquidados e pagos pelo Governo do Acre.

O maior contrato chegou a R$ 2,55 milhões e reuniu Leonardo e Ana Castela no mesmo instrumento. Como os dois nomes foram contratados conjuntamente, o valor disponível não permite separar quanto correspondeu individualmente a cada apresentação. Wesley Safadão teve contrato de R$ 1,8 milhão. Natanzinho Lima, de R$ 1,3 milhão. Padre Fábio de Melo recebeu contrato de R$ 500 mil, enquanto a Banda Som e Louvor ficou com R$ 300 mil.

A soma chega aos R$ 6,45 milhões já registrados como pagos em Rio Branco. Acrescentados aos R$ 6,25 milhões previstos para as atrações nacionais da Expoacre Juruá, são R$ 12,7 milhões destinados somente aos principais cachês de artistas de fora do estado nas duas feiras.

O valor não inclui palcos, iluminação, sonorização, segurança, montagem, reformas ou outras despesas de infraestrutura. Também não representa o custo total das duas Expoacres. Trata-se apenas da parcela relacionada aos principais shows nacionais, o que torna a comparação com a cobrança dos artistas acreanos ainda mais sensível.

Os processos não são iguais. Os pagamentos cobrados por Sandra Mello passam pela Fundação Elias Mansour. Na Expoacre de Rio Branco, as atrações nacionais foram contratadas diretamente pela Casa Civil. No Juruá, o Estado transferiu os recursos para uma organização da sociedade civil responsável pela execução da feira. Misturar os três caminhos administrativos como se fossem um único processo distorceria a realidade.

Há, porém, um ponto comum: todos dependem de recursos públicos estaduais.

E é justamente aí que a cobrança feita por Sandra ultrapassa a situação individual de um artista que ainda não recebeu. Ela expõe uma questão sobre a forma como o poder público organiza prioridades, contratos, fluxo financeiro e pagamento de quem trabalha na cultura acreana.

Para colocar grandes nomes nacionais nos palcos das Expoacres, o Estado estruturou contratos e repasses milionários. No Juruá, R$ 15,848 milhões foram transferidos de uma só vez à entidade encarregada da feira, dentro de um orçamento que reservava R$ 6,25 milhões aos principais shows nacionais. Em Rio Branco, R$ 6,45 milhões em contratos de atrações nacionais já aparecem como pagos.

Do outro lado estão artistas, músicos e trabalhadores locais que, conforme a cobrança de Sandra Mello, passaram dos 90 dias de espera por serviços já executados.

A diferença não permite afirmar, por si só, que o dinheiro destinado aos shows nacionais poderia ter sido usado para quitar os débitos da FEM. São contratos, fontes orçamentárias e procedimentos que podem seguir regras distintas. Mas torna inevitável uma cobrança por transparência: se o Estado conseguiu organizar o fluxo administrativo necessário para financiar eventos milionários e assegurar atrações nacionais, o que impede a conclusão dos pagamentos dos profissionais acreanos?

A resposta precisa vir acompanhada de números e datas. A FEM ainda deve esclarecer quantos trabalhadores aguardam pagamento, quanto o Estado deve a esses profissionais, quais contratos ou editais estão envolvidos, onde estão os processos e quando o dinheiro chegará a quem já trabalhou.

Enquanto essas informações não aparecem, a frase publicada por Sandra Mello resume uma situação que deixou de caber apenas nos bastidores dos palcos: “A cultura pede ajuda e respeito”.

Shows da Expoacre 2026 custaram R$ 12,7 milhões no Juruá e em Rio Branco

Os shows nacionais contratados para as edições da Expoacre 2026 em Cruzeiro do Sul e Rio Branco somaram R$ 12,7 milhões em cachês. No Juruá, seis atrações tiveram R$ 6,25 milhões reservados no Plano de Trabalho da feira. Na capital, cinco contratos que atenderam seis artistas chegaram a R$ 6,45 milhões, valor que já foi integralmente liquidado e pago pelo Governo do Acre.

Na Expoacre Juruá, realizada em Cruzeiro do Sul, o maior cachê previsto foi o de Leonardo, no valor de R$ 2,1 milhões. Natanzinho Lima teve R$ 1,7 milhão reservado. A dupla Ícaro e Gilmar aparece com R$ 750 mil, enquanto Tierry e padre Fábio de Melo tiveram R$ 650 mil cada. A Banda Morada completa a relação com R$ 400 mil. Os seis valores chegam a R$ 6,25 milhões.

A contratação no Juruá ocorreu dentro do Termo de Colaboração CC nº 01/2026, firmado entre a Casa Civil e a Associação Transformar. A entidade recebeu R$ 15.848.310 para executar a feira, enquanto o valor global previsto para a parceria era de R$ 16.648.310.

Os R$ 6,25 milhões destinados aos artistas aparecem de forma individual no Plano de Trabalho, mas o dinheiro da feira foi transferido pelo governo à associação em um repasse global. Por essa razão, o valor representa o custo previsto dos cachês. A confirmação do pagamento final feito a cada artista depende da prestação de contas da parceria.

Em Rio Branco, a contratação ocorreu diretamente pela Casa Civil. Os cinco contratos destinados às principais atrações nacionais somaram R$ 6,45 milhões e já constam como integralmente empenhados, liquidados e pagos.

O contrato de maior valor foi de R$ 2,55 milhões e reuniu Leonardo e Ana Castela. Como os dois artistas foram contratados no mesmo instrumento, não há separação do valor pago individualmente a cada um.

Wesley Safadão teve contrato de R$ 1,8 milhão. Natanzinho Lima custou R$ 1,3 milhão. Padre Fábio de Melo recebeu R$ 500 mil e a Banda Som e Louvor, R$ 300 mil. Com o contrato conjunto de Leonardo e Ana Castela, os shows da edição de Rio Branco chegaram aos R$ 6,45 milhões.

A comparação coloca a programação da capital R$ 200 mil acima da relação de cachês prevista para Cruzeiro do Sul. Foram R$ 6,45 milhões em Rio Branco contra R$ 6,25 milhões no Juruá.

A diferença entre as duas edições não está apenas no valor, mas também na forma de contratação. Em Rio Branco, os R$ 6,45 milhões correspondem a contratos diretos que já foram pagos. No Juruá, os R$ 6,25 milhões correspondem aos valores reservados para os seis artistas no orçamento executado pela Associação Transformar.

Somados os dois grupos, os principais shows nacionais das duas edições da Expoacre 2026 alcançaram R$ 12,7 milhões em cachês previstos ou contratados com recursos públicos.

O Plano de Trabalho do Juruá também reservou R$ 50 mil para uma atração infantil. Esse valor não integra os R$ 6,25 milhões usados na comparação dos principais shows nacionais. Com a inclusão dessa apresentação, a despesa artística prevista para Cruzeiro do Sul sobe para R$ 6,3 milhões e o total das duas edições chega a R$ 12,75 milhões.

O custo dos shows no Juruá não ficou restrito aos cachês. Outros R$ 2.448.520 foram reservados para produção e logística das atrações nacionais, com despesas de passagens aéreas, fretamento de aeronaves, excesso de bagagem, hospedagem, alimentação, camarins, vans, transporte de artistas e pagamento de direitos autorais.

Esse gasto de R$ 2,44 milhões não integra os R$ 12,7 milhões porque a comparação considera somente os cachês. Ele amplia, porém, o custo público necessário para levar as atrações nacionais aos palcos da Expoacre Juruá.

Foto: Secom/AC