De sardinha e ovo à falta de proteína, problemas na merenda se repetem em escolas estaduais do Acre

A falta de proteína que levou estudantes do Colégio Estadual Armando Nogueira (CEAN), em Rio Branco, a deixarem a escola mais cedo nesta segunda-feira (21) se soma a uma sequência de problemas registrados desde abril na alimentação da rede estadual do Acre. Em cinco meses, reclamações sobre falta de profissionais, pouca variedade no cardápio, repetição de ovos, sardinha, conservas e bolachas chegaram a escolas de Rio Branco, Cruzeiro do Sul, Bujari, Tarauacá, Jordão e comunidades indígenas de Assis Brasil.

No CEAN, uma comunicação dirigida à comunidade escolar informou que os alunos seriam liberados às 11h45 por “falta de proteína no alimento”. No mesmo dia, estudantes da Escola Maria de Nazaré Santiago, na Vila São Pedro, zona rural de Cruzeiro do Sul, divulgaram um vídeo relatando que a alimentação disponível não vinha sendo suficiente para manter os alunos durante toda a jornada. A escola funciona em tempo integral e, segundo os estudantes, houve dias em que as refeições ficaram restritas a ovos e bolachas, com liberação antecipada das turmas.

A sequência começou a aparecer oficialmente em abril. No dia 8 daquele mês, o Ministério Público Federal abriu procedimento para acompanhar a falta de profissionais responsáveis pelo preparo da merenda e pela limpeza em escolas indígenas da rede estadual. A Secretaria de Estado de Educação e Cultura informou que pretendia contratar 71 cozinheiros terceirizados para unidades indígenas com 20 alunos ou mais e preparar uma nova contratação de auxiliares de serviços gerais para atender funções de cozinha e zeladoria.

Em junho, o MPF passou a acompanhar também a situação da Escola Estadual Indígena Himatkalu, na Aldeia Twatwa, Terra Indígena Mamoadate, em Assis Brasil. Uma representação da Associação Manxinerine Ywptowaka reuniu cerca de 50 reivindicações sobre o funcionamento da escola, incluindo problemas relacionados à alimentação e à estrutura necessária para o preparo das refeições.

No início de julho, o governo entregou 12 toneladas de alimentos para escolas indígenas de Assis Brasil. A carga, segundo a Secretaria de Educação, correspondia a três meses de abastecimento e incluía a Himatkalu entre as unidades atendidas.

Em agosto, as reclamações chegaram às escolas de tempo integral. Alunos da Escola Estadual Craveiro Costa, em Cruzeiro do Sul, gravaram um vídeo reclamando da repetição de pão, ovo e sardinha nas refeições. Os relatos chegaram à Assembleia Legislativa no dia 25, quando o deputado estadual Edvaldo Magalhães (PCdoB) cobrou explicações sobre o fornecimento de alimentos na unidade.

Um dia antes, a própria Secretaria de Educação havia reconhecido “atrasos na entrega de alguns gêneros da alimentação escolar” para escolas de Cruzeiro do Sul. A SEE informou que o problema reduziu temporariamente a variedade do cardápio, inclusive na Craveiro Costa, e que o abastecimento seria regularizado gradualmente.

Ainda no fim de agosto, reclamações semelhantes apareceram em outros municípios. No Anexo Estadual Raimundo Hermínio de Melo, no Ramal do Fumaça 2, em Bujari, denúncias incluíram problemas na alimentação, no abastecimento de água, no transporte e na estrutura da unidade. O Ministério Público do Acre determinou nova vistoria em 28 de agosto e realizou a inspeção três dias depois, cobrando providências do Estado e do Município.

Em Tarauacá, estudantes da Escola Estadual João Ribeiro anunciaram mobilização no dia 31 de agosto. Eles relataram que o cardápio tinha com frequência bolacha com suco, biscoito e abacatada. No mesmo período, alunos da Escola Estadual Jairo de Figueiredo Melo, em Jordão, também se organizaram para cobrar mudanças. “Todo dia é conserva e sardinha”, dizia uma das mensagens divulgadas pelos estudantes.

A recorrência ganha peso diante da expansão do ensino integral no Acre. Para 2026, a Secretaria de Educação anunciou a entrada de outras 24 escolas nesse modelo, elevando para 60 o número de unidades integrais da rede estadual. A Escola Maria de Nazaré Santiago, onde estudantes reclamaram nesta semana da quantidade de comida, está entre as unidades que passaram a funcionar em tempo integral neste ano.

De abril a setembro, as reclamações mudaram de escola e de município, mas mantiveram problemas semelhantes. Primeiro vieram a falta de trabalhadores para preparar as refeições em escolas indígenas e as cobranças por alimentação adequada. Em agosto, estudantes passaram a expor publicamente cardápios repetitivos, com ovos, sardinha, conservas e bolachas, enquanto a própria Secretaria de Educação reconhecia atraso no fornecimento em Cruzeiro do Sul. Agora, setembro termina com alunos liberados mais cedo em Rio Branco por falta de proteína e estudantes de tempo integral de Cruzeiro do Sul dizendo que a alimentação disponível não sustenta a permanência na escola durante todo o dia.

Escolas Diocesanas do Juruá reforçam segurança e criam barreiras de acesso após ataque em Rio Branco

As Escolas Diocesanas do Juruá começaram a adotar novos protocolos de segurança em Cruzeiro do Sul após o ataque a tiros registrado no Instituto São José, em Rio Branco, que matou duas funcionárias e deixou dois feridos. A medida atinge cinco instituições da rede diocesana no Vale do Juruá, com foco inicial em três unidades em Cruzeiro do Sul, e prevê mudanças no controle de entrada, orientação a equipes de portaria e reuniões com famílias para apresentar as novas regras.

Em Cruzeiro do Sul, a coordenação das escolas diocesanas informou que o plano inclui treinamento de diretores e agentes de portaria e a instalação de obstáculos físicos para dificultar acessos não autorizados. “Nós estamos participando de todo o processo que a Secretaria está propondo, mas também fechamos, na semana passada, um protocolo de segurança próprio da Diocese”, disse o coordenador-geral da rede na região, Joaquim Neto. A apresentação formal das medidas à comunidade escolar deve ocorrer na próxima semana, em encontros com pais e responsáveis. “Quanto mais obstáculos nós colocarmos, melhor. Não dá para simplesmente não fazer nada”, afirmou.

A mobilização no Juruá ocorre em paralelo às ações da Secretaria de Estado de Educação e Cultura do Acre (SEE), que suspendeu aulas em escolas estaduais de Cruzeiro do Sul no início da semana para alinhar rotinas de prevenção e orientar servidores, estudantes e familiares sobre os procedimentos de retorno. Entre as medidas em discussão está o reforço no controle de entrada, com vistoria e acompanhamento mais rigoroso de quem acessa os prédios. A formação de agentes de portaria contou com participação da Polícia Militar, incluindo equipe da Rotam, e a SEE já levantou a necessidade de ampliar o número de servidores nas portarias, com demandas encaminhadas à pasta na capital.

No eixo pedagógico e de acolhimento, a SEE lançou o guia “Estratégias Pedagógicas de Retorno à Escola”, com orientações de apoio emocional e protocolos para situações de ameaça, incluindo registro formal de ocorrências, acionamento da rede de proteção e articulação com órgãos como Conselho Tutelar, Ministério Público, Cras, Creas e forças de segurança. “A escola precisa continuar sendo um espaço de acolhimento, proteção e construção da cultura de paz. Este guia foi elaborado para apoiar nossas equipes gestoras, professores, estudantes e famílias neste momento delicado”, disse o secretário Reginaldo Prates. O documento prevê retorno em etapas, com um primeiro dia voltado às equipes escolares, o segundo às famílias e o terceiro aos estudantes, com atividades de convivência e prevenção de violência.

Na capital, a prefeitura anunciou a criação de um grupo de trabalho para elaborar um protocolo de segurança que será implantado na rede municipal por meio do programa Escola Mais Segura, com medidas a partir do retorno das aulas. Em reunião com gestores e agentes de portaria antes da retomada, a Secretaria Municipal de Educação alinhou ações com apoio da Polícia Militar e orientação psicológica para acolhimento. “Essa foi uma ação que faz parte do protocolo de retorno às aulas da rede municipal”, afirmou a secretária Kelce Nayra Paes.

O endurecimento de rotinas de acesso e a ampliação de treinamentos foram acelerados após o ataque no Instituto São José, em 5 de maio, quando um estudante de 13 anos entrou armado e atirou contra funcionários e uma aluna. Duas supervisoras de corredor, Alzenir e Raquel, morreram no local; um adulto e uma criança ficaram feridos. O governo informou que o adolescente se entregou e que o responsável legal, proprietário da arma, foi detido, enquanto a Polícia Civil apura a motivação e a dinâmica do crime.