Política

Bittar acusa imprensa do Acre de ser custeada por ONGs e mira entrevistas de Jorge Viana no Juruá

O senador Márcio Bittar (PL-AC) levou à tribuna do Senado, na tarde de segunda-feira, 25 de maio de 2026, uma ofensiva contra ONGs, políticas ambientais na Amazônia, gestões petistas no Acre e o ex-governador Jorge Viana, mas foi no trecho final do discurso que abriu uma nova frente de confronto: acusou parte da imprensa acreana de ser custeada por organizações não governamentais e insinuou que entrevistas concedidas por Jorge no Vale do Juruá seriam “quase combinadas”. A fala ocorreu em sessão não deliberativa, iniciada às 14h, no plenário do Senado.

Bittar começou a fala por volta de 14h36, depois de problemas de áudio na participação remota do senador Paulo Paim (PT-RS), e falou por cerca de 20 minutos. O senador partiu de um ponto sensível para qualquer acreano que conhece a distância entre o discurso nacional sobre a Amazônia e a vida concreta de quem mora na região: a floresta costuma ocupar o centro do debate, enquanto a população aparece como detalhe. “É muito comum discurso sobre a Amazônia, seminários, simpósios. A métrica sempre é a quantidade de floresta em pé nos nossos estados, mas é muito raro você ver uma nota, uma matéria falando dos 28 milhões de brasileiros que moram na Amazônia”, disse. Na mesma sequência, afirmou haver “um domínio das ONGs na mídia brasileira” e acusou esse campo de esconder a pobreza da região.

A fala ganhou contorno eleitoral quando Bittar passou a mirar Jorge Viana, figura central do PT acreano, ex-governador e ex-presidente da ApexBrasil. O senador tentou prender Jorge a três temas que devem atravessar a disputa de 2026 no Acre: a ligação rodoviária do Juruá com o Peru, a ponte sobre o Rio Juruá e a situação da BR-364. Para quem vive em Cruzeiro do Sul, Rodrigues Alves, Mâncio Lima, Marechal Thaumaturgo ou Porto Walter, essas não são siglas de gabinete. São caminhos de escoamento, preço de mercadoria, tempo de viagem, isolamento no inverno amazônico e a velha sensação de que o Juruá entra na política como promessa e sai dela como adiamento.

No encerramento, Bittar mirou diretamente os veículos de comunicação do estado. “E, para terminar, Sr. Presidente, a nossa imprensa, muitas delas custeadas por ONGs, outras ainda têm até medo, pavor do que Jorge Viana representou no Acre, um perseguidor…”, afirmou. Em seguida, atacou a cobertura das entrevistas de Jorge no interior: “Ele vai ao Juruá dar entrevista — tudo entrevista quase que combinada — e ninguém tem coragem de perguntar ao Jorge — lá em Cruzeiro do Sul —, quando o Governo dele aceita que uma ONG proíba de fazer a ponte sobre o Rio Juruá, que nos proíba de continuar a BR-364, que é a linha histórica, ligando Cruzeiro do Sul a Pucallpa, no Peru, porque passa na Serra do Divisor”, declarou.

O senador também colocou na mesma conta a discussão sobre ferrovia. Disse que o trajeto original passaria por Cruzeiro do Sul e acusou o governo federal, com Jorge na ApexBrasil e Marina Silva no campo ambiental do governo Lula, de deslocar esse eixo para a BR-317. “O trajeto original é por Cruzeiro do Sul. O Governo dele, com a Marina — ele sendo o Presidente da Apex —, tirou de lá e passou para a 317, onde já tem asfalto. Ele não toca no assunto, e muito menos alguém pergunta”, declarou.

A estratégia política de Bittar foi clara: transformar Jorge Viana em responsável por uma visão de desenvolvimento que, na leitura do senador, teria “engessado” o Acre em nome da preservação ambiental. Ao citar Marina Silva, a “florestania”, a Serra do Divisor, a BR-364 e a relação com Lula, Bittar tentou arrastar a pré-campanha de Jorge para o terreno onde a direita acreana se sente mais confortável: o embate entre preservação, infraestrutura, emprego e presença do Estado no interior.

A BR-364 apareceu como peça central desse tabuleiro. Bittar disse que a rodovia “nunca esteve pior” e cobrou o governo federal pela situação atual da estrada. Reconheceu que, no governo Jair Bolsonaro, não houve dinheiro suficiente para reconstruir a rodovia, mas atribuiu o período à pandemia. Depois, voltou a cobrar o PT: “Logo que eles voltam ao poder, o que eles dizem? ‘Agora nós vamos recuperar a BR-364’; ela nunca esteve pior do que está agora”.

A acusação contra a imprensa amplia o alcance do discurso. Bittar não atacou apenas Jorge Viana, Marina Silva ou o PT. Ao dizer que parte dos veículos seria custeada por ONGs e que outra parte teria medo de Jorge, o senador colocou jornalistas e empresas de comunicação dentro da disputa política. É uma cobrança pesada, porque mistura uma crítica legítima sobre perguntas não feitas com uma acusação grave sobre financiamento e independência editorial. Sem apresentação pública de provas no discurso, a fala fica no campo da acusação política, embora tenha força para alimentar a temperatura da pré-campanha.

O movimento de Jorge Viana pelo interior, especialmente no Juruá, virou o alvo principal. Bittar quer que cada entrevista do ex-governador carregue perguntas sobre a ponte, a estrada, a ferrovia, a Serra do Divisor e a relação do PT com o governo Lula. Quer impedir que Jorge caminhe pelo Acre apenas com discurso afetivo, de reencontro com a população e defesa do legado administrativo. Na prática, tenta trocar o cenário da memória política pelo cenário da cobrança concreta.

No Acre, onde a política costuma nascer em conversas de mercado, rádio local, beira de rio e estrada ruim, a fala de Bittar também expõe uma disputa maior sobre quem tem autoridade para falar em nome da Amazônia. De um lado, a narrativa ambiental, com a floresta como patrimônio global. Do outro, a narrativa da infraestrutura, com o morador amazônico no centro da conta. O problema é que, entre uma e outra, vive a população que paga caro pelo combustível, perde tempo na lama, depende da BR para circular e assiste, eleição após eleição, à mesma promessa voltar com roupa nova.

Ao usar a tribuna do Senado para acusar a imprensa e pressionar Jorge Viana, Bittar abriu uma frente que deve ecoar na eleição de 2026. O debate deixou de ser apenas sobre obras e meio ambiente. Passou também a envolver a forma como o Acre pergunta, cobra, entrevista e fiscaliza seus personagens políticos. No Juruá, onde a estrada é sempre mais que uma estrada, a pergunta que Bittar lançou agora mira Jorge, mas atravessa todos os lados: quem vai explicar, sem fuga e sem slogan, por que a integração prometida há décadas continua parada no mesmo lugar?

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