Presença indígena na política é necessidade democrática diante da crise ambiental e da mentira

Artigo de Francisco Piyãko*

A presença indígena na política não é ameaça. É necessidade democrática. Num tempo em que a crise ambiental avança, a desinformação decide eleições e os povos da floresta continuam sendo atacados por defender seus territórios, ocupar espaços de decisão deixou de ser apenas uma escolha. Passou a ser uma responsabilidade com o futuro do Acre, da Amazônia e do Brasil.

Nós, povos indígenas, conhecemos bem o funcionamento da política tradicional. Vemos grupos investindo muito para chegar ao poder e, depois, usando ainda mais força para permanecer nele. Muitas vezes, o objetivo deixa de ser fazer melhor. Passa a ser apagar o outro, enfraquecer lideranças novas, fabricar medo e transformar a disputa pública numa guerra. Esse modelo não combina com a forma como entendemos liderança. Para nós, uma liderança cresce quando serve melhor ao seu povo, quando orienta, quando escuta e quando protege a comunidade diante das ameaças.

Ser liderança indígena não é privilégio. É sacrifício. Ninguém assume essa caminhada porque alguém está pagando ou bancando. A força vem da responsabilidade com o povo, da defesa do território, da necessidade de dialogar com governos, municípios, autoridades e instituições que nem sempre chegam preparados para ouvir. Quando existe espaço de conversa, nós sentamos. Quando não existe, seguimos organizados, fortalecendo alianças e protegendo nossos direitos.

O que dificulta a relação não é explicar o pensamento indígena. O que dificulta é a falta de respeito. Quanto menos se respeita os povos indígenas, mais crescem a violação de direitos, a pobreza e a vulnerabilidade. Onde o direito coletivo enfraquece, a violência avança. Por isso, a articulação entre os povos é tão importante. É ela que sustenta conquistas, protege territórios e mantém viva a força coletiva reconhecida na Constituição.

A mentira virou uma das principais armas contra nós. Fake news, promessas vazias e campanhas de medo exploram a necessidade das pessoas. Em muitos lugares, a desinformação chega antes da verdade, grita mais alto e ajuda a eleger candidatos que depois votam contra os povos indígenas, contra o meio ambiente, contra a região e contra os direitos sociais. Muitas vezes, os piores candidatos vencem porque a população foi cercada por mentiras.

É nesse cenário que a presença indígena na política precisa ser entendida. Nós não disputamos cargo para destruir ninguém. Não fazemos guerra contra não indígenas, extrativistas, ribeirinhos ou moradores das cidades. O cargo pode ser um meio para levar nossa voz aonde as decisões acontecem. Gestão, Legislativo, Judiciário, governo e parlamento precisam ouvir quem sempre foi tratado como assunto, mas raramente como sujeito da própria história.

Também é por isso que alguns grupos se sentem ameaçados quando aparece uma candidatura indígena. Eles estavam acostumados a falar em nosso nome, em nome da Amazônia, da floresta e até do futuro. Querem ser ambientalistas sem nunca ter plantado uma árvore, colhido uma semente, compreendido um rio, pescado para viver ou sentido a natureza como parte da própria vida. Usam a floresta em discursos bonitos fora daqui, mas, quando voltam, trabalham para enfraquecer lideranças que defendem os territórios de verdade.

Foi isso que apareceu quando Nikolas Ferreira veio ao Acre, a convite do senador Márcio Bittar, e disse que já conhecia o estado mais do que Marina Silva. Ele tentou atingir Marina, mas acabou enfraquecendo ainda mais o senador, que abriu o palanque para esse tipo de ataque. Porque quando um deputado de fora passa poucos dias no Acre e se sente autorizado a dizer que conhece esta terra mais do que uma mulher nascida no seringal, formada na luta social acreana e reconhecida no Brasil e no mundo pela defesa ambiental, ele não diminui Marina. Ele revela a arrogância de quem usa a Amazônia como palco.

Marina pode ser criticada, como qualquer liderança pública. O problema é transformar crítica em deboche contra uma história. Existe uma diferença profunda entre discordar de uma posição política e tentar apagar uma trajetória construída dentro da floresta. Quando isso acontece, o debate fica menor. E quem oferece palanque para esse tipo de ataque assume também o custo político da escolha.

Essa cena mostra uma disputa maior: quem tem o direito de falar sobre a Amazônia? Há quem chegue, grave vídeo, faça discurso, ataque lideranças da floresta e vá embora achando que entendeu tudo. Mas o Acre não se aprende em visita rápida. O rio não se compreende pela janela de caminhonete. A floresta não é cenário de campanha. Ela é casa, alimento, remédio, memória, água e futuro.

Nós não vivemos numa ilha. A luta socioambiental não pertence apenas aos povos indígenas. Quando se desmata uma cabeceira, quando se ameaça a Reserva Chico Mendes, quando se derrubam áreas de floresta que ajudam a sustentar os rios, a consequência chega também à cidade. Imaginem o Rio Acre secando de verdade, sem água suficiente para Rio Branco e para os municípios que dependem dele. Ninguém está preparado para isso com a seriedade necessária.

A ciência vem avisando. A nossa experiência também. O tempo da floresta mudou, os rios baixam, o calor aumenta, a fumaça volta e a situação hídrica se agrava. Mesmo assim, há setores que continuam defendendo mais desmatamento, inclusive em áreas que funcionam como reservatório natural da vida no Acre. Tratam a proteção ambiental como obstáculo, quando ela é condição básica para qualquer futuro.

A política indígena assusta porque coloca essa verdade na mesa. Ela pergunta desenvolvimento para quem, a que custo e por quanto tempo. Pergunta por que alguns grupos defendem interesses particulares como se fossem interesse do povo. Pergunta por que tantos têm medo de que os povos da floresta ocupem espaços de decisão e deixem de ser apenas mão de obra, símbolo de campanha ou assunto de discurso.

Nós não estamos no momento de dividir. Estamos no momento de falar sério. A seca não vai perguntar em quem cada pessoa votou. A falta de água não vai separar indígena, comerciante, trabalhador, empresário, criança, idoso, aldeia ou capital. Quando o colapso chegar, todos vão entender que proteger floresta, território indígena, reserva extrativista e rio era uma política de sobrevivência.

Por isso, candidatura indígena não é atraso. Atraso é uma cidade sem segurança hídrica. Atraso é destruir a floresta que protege a água. Atraso é votar contra direitos ambientais e depois dizer que defende a região. Atraso é usar mentira para convencer o povo de que seus verdadeiros defensores são inimigos.

A democracia brasileira precisa de mais presença indígena porque nós carregamos uma experiência que o Estado ignorou por tempo demais. Sabemos que território não é mercadoria comum. Sabemos que rio não é apenas recurso. Sabemos que floresta não é vazio. Sabemos que vida coletiva exige responsabilidade. Essa visão não substitui a ciência nem as instituições. Ela se soma a elas com a força de quem vive a realidade no corpo.

O medo de alguns grupos diante da nossa presença revela mais sobre eles do que sobre nós. Se uma candidatura indígena ameaça alguém, talvez ameace privilégios, negócios mal explicados, discursos vazios e a velha prática de falar sobre a Amazônia sem dividir a decisão com quem vive nela. Para a democracia, nossa presença não é ameaça. É correção de rota.

O Acre já pagou caro por ignorar suas vozes da floresta. Pagou com conflito, morte, abandono, seca, fumaça e desigualdade. Não podemos continuar tratando os povos indígenas como problema enquanto os verdadeiros problemas avançam sobre a terra, a água e a verdade. O que defendemos não é privilégio indígena. É o direito de todos a continuar vivendo.

A minha luta é para que nossa voz chegue aos espaços de decisão sem pedir licença a quem sempre nos quis calados. A presença indígena na política não divide o Acre. Ela obriga o Acre a se olhar com honestidade. Ela mostra que defender os povos da floresta é defender a água, a cidade, o clima, a comida, a memória e o futuro.

O que está em jogo não é apenas uma eleição. É saber se o Acre vai continuar servindo de palco para quem chega de fora e debocha da sua história, ou se vai abrir caminho para quem conhece esta terra pela responsabilidade de protegê-la. Eu escolho o segundo caminho. Nele, a presença indígena não é favor, não é concessão e não é ameaça. É necessidade democrática.

*Francisco Piyãko é liderança indígena do Povo Ashaninka, do Rio Amônia, de Marechal Thamaturgo, coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), ex-secretário dos Povos Indígenas do governo do Acre e ex-assessor da presidência da Funai.

Bittar acusa imprensa do Acre de ser custeada por ONGs e mira entrevistas de Jorge Viana no Juruá

O senador Márcio Bittar (PL-AC) levou à tribuna do Senado, na tarde de segunda-feira, 25 de maio de 2026, uma ofensiva contra ONGs, políticas ambientais na Amazônia, gestões petistas no Acre e o ex-governador Jorge Viana, mas foi no trecho final do discurso que abriu uma nova frente de confronto: acusou parte da imprensa acreana de ser custeada por organizações não governamentais e insinuou que entrevistas concedidas por Jorge no Vale do Juruá seriam “quase combinadas”. A fala ocorreu em sessão não deliberativa, iniciada às 14h, no plenário do Senado.

Bittar começou a fala por volta de 14h36, depois de problemas de áudio na participação remota do senador Paulo Paim (PT-RS), e falou por cerca de 20 minutos. O senador partiu de um ponto sensível para qualquer acreano que conhece a distância entre o discurso nacional sobre a Amazônia e a vida concreta de quem mora na região: a floresta costuma ocupar o centro do debate, enquanto a população aparece como detalhe. “É muito comum discurso sobre a Amazônia, seminários, simpósios. A métrica sempre é a quantidade de floresta em pé nos nossos estados, mas é muito raro você ver uma nota, uma matéria falando dos 28 milhões de brasileiros que moram na Amazônia”, disse. Na mesma sequência, afirmou haver “um domínio das ONGs na mídia brasileira” e acusou esse campo de esconder a pobreza da região.

A fala ganhou contorno eleitoral quando Bittar passou a mirar Jorge Viana, figura central do PT acreano, ex-governador e ex-presidente da ApexBrasil. O senador tentou prender Jorge a três temas que devem atravessar a disputa de 2026 no Acre: a ligação rodoviária do Juruá com o Peru, a ponte sobre o Rio Juruá e a situação da BR-364. Para quem vive em Cruzeiro do Sul, Rodrigues Alves, Mâncio Lima, Marechal Thaumaturgo ou Porto Walter, essas não são siglas de gabinete. São caminhos de escoamento, preço de mercadoria, tempo de viagem, isolamento no inverno amazônico e a velha sensação de que o Juruá entra na política como promessa e sai dela como adiamento.

No encerramento, Bittar mirou diretamente os veículos de comunicação do estado. “E, para terminar, Sr. Presidente, a nossa imprensa, muitas delas custeadas por ONGs, outras ainda têm até medo, pavor do que Jorge Viana representou no Acre, um perseguidor…”, afirmou. Em seguida, atacou a cobertura das entrevistas de Jorge no interior: “Ele vai ao Juruá dar entrevista — tudo entrevista quase que combinada — e ninguém tem coragem de perguntar ao Jorge — lá em Cruzeiro do Sul —, quando o Governo dele aceita que uma ONG proíba de fazer a ponte sobre o Rio Juruá, que nos proíba de continuar a BR-364, que é a linha histórica, ligando Cruzeiro do Sul a Pucallpa, no Peru, porque passa na Serra do Divisor”, declarou.

O senador também colocou na mesma conta a discussão sobre ferrovia. Disse que o trajeto original passaria por Cruzeiro do Sul e acusou o governo federal, com Jorge na ApexBrasil e Marina Silva no campo ambiental do governo Lula, de deslocar esse eixo para a BR-317. “O trajeto original é por Cruzeiro do Sul. O Governo dele, com a Marina — ele sendo o Presidente da Apex —, tirou de lá e passou para a 317, onde já tem asfalto. Ele não toca no assunto, e muito menos alguém pergunta”, declarou.

A estratégia política de Bittar foi clara: transformar Jorge Viana em responsável por uma visão de desenvolvimento que, na leitura do senador, teria “engessado” o Acre em nome da preservação ambiental. Ao citar Marina Silva, a “florestania”, a Serra do Divisor, a BR-364 e a relação com Lula, Bittar tentou arrastar a pré-campanha de Jorge para o terreno onde a direita acreana se sente mais confortável: o embate entre preservação, infraestrutura, emprego e presença do Estado no interior.

A BR-364 apareceu como peça central desse tabuleiro. Bittar disse que a rodovia “nunca esteve pior” e cobrou o governo federal pela situação atual da estrada. Reconheceu que, no governo Jair Bolsonaro, não houve dinheiro suficiente para reconstruir a rodovia, mas atribuiu o período à pandemia. Depois, voltou a cobrar o PT: “Logo que eles voltam ao poder, o que eles dizem? ‘Agora nós vamos recuperar a BR-364’; ela nunca esteve pior do que está agora”.

A acusação contra a imprensa amplia o alcance do discurso. Bittar não atacou apenas Jorge Viana, Marina Silva ou o PT. Ao dizer que parte dos veículos seria custeada por ONGs e que outra parte teria medo de Jorge, o senador colocou jornalistas e empresas de comunicação dentro da disputa política. É uma cobrança pesada, porque mistura uma crítica legítima sobre perguntas não feitas com uma acusação grave sobre financiamento e independência editorial. Sem apresentação pública de provas no discurso, a fala fica no campo da acusação política, embora tenha força para alimentar a temperatura da pré-campanha.

O movimento de Jorge Viana pelo interior, especialmente no Juruá, virou o alvo principal. Bittar quer que cada entrevista do ex-governador carregue perguntas sobre a ponte, a estrada, a ferrovia, a Serra do Divisor e a relação do PT com o governo Lula. Quer impedir que Jorge caminhe pelo Acre apenas com discurso afetivo, de reencontro com a população e defesa do legado administrativo. Na prática, tenta trocar o cenário da memória política pelo cenário da cobrança concreta.

No Acre, onde a política costuma nascer em conversas de mercado, rádio local, beira de rio e estrada ruim, a fala de Bittar também expõe uma disputa maior sobre quem tem autoridade para falar em nome da Amazônia. De um lado, a narrativa ambiental, com a floresta como patrimônio global. Do outro, a narrativa da infraestrutura, com o morador amazônico no centro da conta. O problema é que, entre uma e outra, vive a população que paga caro pelo combustível, perde tempo na lama, depende da BR para circular e assiste, eleição após eleição, à mesma promessa voltar com roupa nova.

Ao usar a tribuna do Senado para acusar a imprensa e pressionar Jorge Viana, Bittar abriu uma frente que deve ecoar na eleição de 2026. O debate deixou de ser apenas sobre obras e meio ambiente. Passou também a envolver a forma como o Acre pergunta, cobra, entrevista e fiscaliza seus personagens políticos. No Juruá, onde a estrada é sempre mais que uma estrada, a pergunta que Bittar lançou agora mira Jorge, mas atravessa todos os lados: quem vai explicar, sem fuga e sem slogan, por que a integração prometida há décadas continua parada no mesmo lugar?