Alan Rick anuncia voto pelo fim da escala 6×1 e pretende participar da votação pelo celular no Acre

O senador Alan Rick (Republicanos), candidato ao governo do Acre no segundo turno das eleições, anunciou nesta quarta-feira (14) que votará a favor da proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6×1. O parlamentar afirmou que pretende registrar o voto pelo celular, sem deixar o Acre, onde cumpre compromissos de campanha eleitoral.

A proposta está prevista para votação no Senado Federal nesta quarta-feira e estabelece a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição dos salários. O texto também garante dois dias de descanso remunerado por semana, em substituição ao modelo que permite seis dias de trabalho para apenas um de folga.

A manifestação de Alan Rick ocorre durante a disputa pelo governo estadual contra a atual governadora, Mailza Assis (PP). Os dois candidatos participam do segundo turno marcado para 25 de outubro.

O senador já havia declarado apoio ao fim da escala 6×1 em setembro, quando anunciou que se afastaria temporariamente da campanha para participar das atividades legislativas em Brasília. Desta vez, informou que pretende acompanhar a votação sem sair do estado.

O registro do voto pelo celular, entretanto, depende das regras do Senado. O aplicativo Senado Digital permite votações nominais, mas, nas sessões ordinárias, exige o registro presencial do parlamentar nas dependências da Casa. A participação remota no Plenário depende de autorização, conforme as normas estabelecidas pelo Senado. Portanto, a intenção anunciada por Alan Rick não significa, por si só, que sua participação à distância esteja autorizada.

A PEC 221/2019, que tem como primeiro signatário o deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG), já foi aprovada pela Câmara dos Deputados e precisa de pelo menos 49 votos favoráveis em cada um dos dois turnos de votação no Senado.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), confirmou a possibilidade de realizar as duas votações nesta quarta-feira, caso seja aprovado um calendário especial para acelerar a tramitação.

A proposta é uma das prioridades do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que defende a redução da jornada de trabalho sem perda salarial. O texto prevê uma transição gradual, com redução inicial para 42 horas semanais e posterior adoção do limite de 40 horas.

Projeto que autoriza Universidade Federal do Vale do Juruá aguarda votação na CCJ do Senado

O projeto que autoriza o governo federal a criar a Universidade Federal do Vale do Juruá (UFVJ), com sede em Cruzeiro do Sul, continua em tramitação na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado. A proposta prevê uma instituição federal voltada ao atendimento dos municípios da região do Juruá e à ampliação da oferta de ensino superior público no interior do Acre.

O PL 5.352/2025 foi apresentado pelo senador Sérgio Petecão e tem como relator o senador Alan Rick. O relatório apresentado na CCJ é favorável à proposta, mas inclui uma mudança importante: em vez de determinar diretamente a criação da universidade, o texto passa a autorizar o Poder Executivo a instituir a UFVJ.

A alteração foi apresentada durante a análise constitucional da matéria. Pela nova redação proposta, a UFVJ seria uma fundação pública federal vinculada ao Ministério da Educação, com sede e foro em Cruzeiro do Sul e possibilidade de atuação multicampi em toda a região do Vale do Juruá.

A proposta começou a ser discutida pela CCJ em agosto. Na reunião de 12 de agosto, Hamilton Mourão atuou como relator ad hoc e apresentou o relatório favorável. Antes da votação, porém, foi concedida vista coletiva aos senadores. O andamento oficial do Senado ainda registra o projeto nessa situação, aguardando nova deliberação da comissão.

Nesta semana, a Rádio Senado voltou a abordar a tramitação do projeto. A publicação de 1º de outubro informou que a proposta segue sob análise da CCJ e poderá retornar à pauta da comissão. A universidade teria atuação voltada às características econômicas, sociais e ambientais do Juruá, com prioridade para áreas como bioeconomia, agricultura familiar, biotecnologia, saúde e conservação ambiental.

Durante a discussão da matéria, Mourão defendeu a expansão das universidades públicas para regiões afastadas dos grandes centros. “A interiorização do ensino superior público […] é medida de inegável e urgente interesse público”, afirmou o senador ao tratar das condições geográficas e logísticas do Vale do Juruá.

Pelo texto, a instituição deverá oferecer ensino superior público e gratuito, desenvolver atividades de ensino, pesquisa e extensão e formar profissionais ligados às necessidades da região. Entre os objetivos apresentados estão ampliar o acesso à universidade, reduzir a saída de estudantes para outros centros e incentivar pesquisas relacionadas à biodiversidade e às cadeias produtivas amazônicas.

Caso seja aprovado pela CCJ, o projeto ainda deverá seguir para a Comissão de Educação e Cultura do Senado, que tem decisão terminativa sobre a matéria. A autorização legislativa, por si só, não significa a instalação imediata da universidade: a criação efetiva dependerá de medidas do Poder Executivo federal.

Na Câmara dos Deputados também tramita uma proposta relacionada ao tema. O PL 2.155/2026, apresentado pela deputada federal Socorro Neri, prevê a criação da Universidade Federal do Vale do Juruá por meio do desmembramento da Universidade Federal do Acre (Ufac). A proposição foi apresentada em maio e permanece em tramitação na Câmara.

Márcio Bittar leva caso Chico Melo à tribuna do Senado e cobra celeridade nas investigações

O senador Márcio Bittar (PL-AC) levou nesta terça-feira, 11, à tribuna do Senado Federal o caso do jornalista Chico Melo, agredido durante uma invasão à própria residência, em Cruzeiro do Sul. O parlamentar cobrou das autoridades de segurança do Acre celeridade nas investigações e a identificação da motivação do crime.

Durante o pronunciamento, Bittar relatou que quatro homens encapuzados invadiram a casa do jornalista na madrugada de 22 de julho, mantiveram Chico Melo como refém e o agrediram. De acordo com o senador, durante a ação, os criminosos fizeram perguntas relacionadas ao trabalho jornalístico desenvolvido por Melo e Rogério Wenceslau.

“Quatro marginais encapuzados fizeram de Chico Melo refém — coronhada na cabeça, sangue para todo lado. Ele ficou refém durante mais de meia hora”, afirmou Bittar na tribuna.

Para o senador, o fato de os invasores terem questionado Chico Melo sobre conteúdos divulgados no rádio aumenta a gravidade do episódio.

“Mais grave ainda é que esses bandidos andaram perguntando a ele muitas coisas sobre as matérias que ele levou ao ar, sobre as opiniões que ele expressou na rádio”, disse.

Bittar defendeu que esse ponto seja esclarecido pelas autoridades para determinar se o ataque teve relação com a atividade profissional do jornalista.

“Isso tem que ser mais celeremente investigado”, afirmou. Segundo o senador, caso seja confirmada uma retaliação motivada pelas opiniões ou matérias divulgadas pelos comunicadores, o episódio passa a representar também um ataque à liberdade de expressão.

“Aí é que as forças da segurança pública precisam elucidar o mais rápido possível porque, se tiver uma retaliação à liberdade de expressão, é contra todos nós; não é só contra o Chico Melo, não é só contra a família dele”, declarou.

O senador também manifestou solidariedade ao jornalista e aos familiares e fez um pedido direto às autoridades estaduais responsáveis pela investigação.

“Quero aqui, de público, manifestar a minha solidariedade ao Chico Melo e à família dele e, mais uma vez, pedir às autoridades do meu estado da área de segurança que acelerem ao máximo as investigações para elucidar o problema”, afirmou.

Bittar encerrou o trecho dedicado ao caso reforçando a cobrança: “Fica aqui a minha solidariedade e o meu pedido, na tribuna do Senado, para que as forças de segurança do meu querido Estado do Acre possam elucidar isso o mais rápido possível”.

Alan Rick mira governo do Acre e defende produção rural, BR-364 e aliança ampla em 2026

O senador Alan Rick, pré-candidato ao governo do Acre, afirmou nesta sexta-feira, 29 de maio, durante entrevista ao Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM, em Cruzeiro do Sul, que sua pré-candidatura nasceu da pressão recebida nas viagens pelos municípios e que o próximo governo terá de enfrentar três prioridades imediatas: recuperar a economia, garantir trafegabilidade na BR-364 e fortalecer a produção rural.

Alan disse que tem tratado a liderança em pesquisas com responsabilidade e afirmou que o resultado real será conhecido apenas nas urnas. Ainda assim, citou a boa recepção nas agendas recentes em Feijó, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter, Mâncio Lima, Rodrigues Alves e Cruzeiro do Sul. Para ele, o movimento nas ruas mostra que o eleitor acreano quer participar mais diretamente da construção do próximo governo.

O senador afirmou que a decisão de disputar o governo ganhou força depois das eleições municipais de 2024, quando percorreu o estado apoiando aliados. Segundo ele, a cobrança pelo lançamento de sua candidatura passou a aparecer com frequência nas conversas com moradores, prefeitos e lideranças comunitárias. “A política tem que ser uma missão”, disse. “Nunca foi meu interesse ter o poder pelo poder.”

Na área econômica, Alan Rick disse que o Acre vive um quadro preocupante. Ele citou o dado de que 44 mil acreanos deixaram o estado nos últimos seis anos, segundo o IBGE, e relacionou essa saída à falta de oportunidades. Para o senador, o êxodo de jovens e trabalhadores mostra que parte da população perdeu confiança na capacidade do estado de gerar emprego, renda e futuro.

A produção rural ocupou boa parte da entrevista. Alan defendeu mais assistência técnica, crédito e equipamentos para o produtor. Ele citou entregas de tratores, implementos, tobatas e fábricas de farinha automatizadas e móveis nos municípios do Juruá. Também afirmou que 600 famílias da região recebem assistência técnica rural por meio de emendas de seu mandato.

Para o senador, entregar máquinas não basta. Ele afirmou que o produtor precisa de orientação para plantar melhor, corrigir o solo, manejar o gado, usar adubo corretamente e acessar linhas de financiamento. Alan cobrou uma atuação mais forte dos bancos públicos, especialmente do Banco da Amazônia, para que o crédito chegue ao pequeno produtor.

A BR-364 também foi tratada como prioridade. Alan disse que a rodovia é de responsabilidade federal, mas não pode ser vista como um problema distante do governo estadual. Segundo ele, a estrada interfere diretamente no abastecimento, no escoamento da produção, no custo de vida e na integração entre o Vale do Acre e o Juruá.

O senador afirmou que a bancada federal, prefeitos e entidades comerciais já cobraram do Ministério dos Transportes a reconstrução da rodovia. Ele citou um investimento superior a R$ 1,8 bilhão e disse que o Acre não pode aceitar apenas reparos temporários. A previsão mencionada na entrevista é de início, em 15 de junho de 2026, de uma etapa de reconstrução com macadame hidráulico em 415 quilômetros.

Alan Rick também criticou o governo estadual ao comentar obras e repasses. Ao falar sobre o complexo viário da Avenida Ceará, em Rio Branco, disse ter destinado R$ 17 milhões em emenda e afirmou que não precisa de convite para inauguração. “O que eu quero é obra bem feita, entregue logo e dinheiro público bem aplicado”, declarou.

Na relação com prefeitos, o senador defendeu tratamento institucional, independentemente de partido. Ele afirmou que recebe todos os gestores acreanos em Brasília e criticou possíveis retaliações políticas contra municípios comandados por adversários. Para Alan, o estado é pequeno e precisa de cooperação entre mandato federal, governo estadual e prefeituras.

Sobre alianças, Alan Rick disse que pretende construir uma frente ampla. Citou conversas com lideranças nacionais e estaduais, mencionou Mara Rocha como pré-candidata ao Senado e elogiou o senador Sérgio Petecão. Também afirmou que a escolha do vice ficará para a fase final, após pesquisas e avaliação de critérios como força política, votos, partidos, tempo de televisão e presença nos municípios.

Questionado sobre o governador Gladson Cameli, Alan afirmou que o caso é triste para o Acre e que cabe à defesa provar a inocência nas instâncias judiciais. O senador disse que o estado precisa superar o desgaste político e voltar a ser reconhecido nacionalmente por resultados positivos.

Na reta final da entrevista, Alan buscou marcar posição contra a polarização. Disse que quer receber votos de eleitores da direita, do centro e da esquerda, e afirmou que não pretende alimentar ódio contra adversários. “O Acre é pequeno demais para você ficar plantando ódio só porque o cara é de um partido ou de uma ideologia diferente da sua”, afirmou.

A entrevista mostrou o eixo inicial da pré-campanha de Alan Rick: apresentar o mandato no Senado como base de entrega, transformar a escuta nos municípios em argumento político e vincular a disputa de 2026 a temas concretos, como economia, estrada, produção rural, saúde e crédito. O desafio será transformar esse discurso em plano de governo e sustentar, até a eleição, a imagem de candidato capaz de reunir forças políticas diferentes em torno de uma agenda comum.

Bittar acusa imprensa, mas é cobrado a provar quem recebeu dinheiro de ONGs no Acre

A resposta veio no ar, na manhã desta quarta-feira, 27 de maio de 2026, em Cruzeiro do Sul. No Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM, Chico Melo e Rogério Wenceslau rebateram a fala do senador Márcio Bittar (PL-AC), que havia acusado parte da imprensa acreana de ser custeada por ONGs e chamado entrevistas feitas no Juruá de “quase combinadas”. A cobrança foi direta: se há jornalistas ou veículos pagos por ONGs para conduzir entrevistas, Bittar precisa apresentar nomes, valores, contratos e provas.

Chico abriu o programa colocando a acusação no centro da bancada. “A imprensa do Acre, em especial a imprensa do Juruá, é vendida, é comprada por ONGs”, disse ele, ao reproduzir o teor da fala de Bittar. Em seguida, marcou o ponto que atravessou toda a resposta: “Esse negócio de pagamento a jornalista, a veículo de imprensa, para fazer pauta combinada, é um negócio que tem que ser provado. Nem todo mundo está nesse balaio aí”.

Rogério Wenceslau respondeu com ironia, mas também com incômodo de quem viu uma categoria inteira ser colocada sob suspeita. “Me passa por favor o contato dessa ONG que você se vendeu, que eu quero me vender também”, disse. Chico manteve o tom e devolveu a provocação ao senador: “Eu quero saber onde depositaram essa grana. O meu extrato bancário está à disposição, senador Márcio Bittar. Será que o seu está à disposição?”.

A reação da bancada não foi uma defesa vazia da imprensa. Foi uma cobrança por prova. Bittar pode criticar entrevistas, cobrar perguntas mais duras e exigir que Jorge Viana responda sobre BR-364, ponte sobre o Rio Juruá, Serra do Divisor, ligação com o Peru e políticas ambientais. Esse debate é legítimo. O que não se sustenta é usar a tribuna do Senado para lançar suspeita sobre jornalistas e veículos sem dizer quem recebeu, quanto recebeu, de qual ONG recebeu e para fazer qual pauta.

Chico também fez questão de separar crítica política de acusação sem prova. “A imprensa do Juruá não está vendida. Eu não estou”, afirmou. Depois, cobrou que a fala de Bittar tenha consequência concreta: “Vai ter que provar”. A frase resume o ponto central da resposta. Em política, a palavra pode ser dura. Mas quando a palavra acusa, precisa vir acompanhada de documento.

A bancada levou ao ar um levantamento feito a partir da transparência do Senado. Entre maio de 2025 e março de 2026, aparecem pelo menos R$ 281.323,65 em gastos da cota parlamentar de Bittar com serviços ligados à divulgação da atividade parlamentar, imprensa, publicidade, marketing e comunicação. Desse total, R$ 198.933,65 são de 2025 e R$ 82.390,00 dos três primeiros meses de 2026. Janeiro de 2026 concentrou o maior volume, com R$ 55.390,00. O maior pagamento individual reunido no material foi de R$ 31.590,00, descrito como trabalho técnico de apoio ao mandato parlamentar.

Chico fez a ressalva necessária: o uso da cota parlamentar para divulgação do mandato não é ilegal por si só. “A legislação permite isso”, disse. Mas a pergunta política ficou de pé. Se Bittar acusa a imprensa de financiamento oculto, seus próprios gastos públicos com comunicação também podem ser examinados. O levantamento reúne repasses a serviços de comunicação, publicidade, produção, marketing, outdoor e impulsionamento em redes sociais.

O apresentador também deixou claro que a bancada não recebeu dinheiro do gabinete do senador. “Essa bancada não recebeu um real do senhor”, afirmou. Em seguida, reforçou o convite ao confronto público de informações: “Eu deixo à disposição meu extrato bancário”. A resposta mirou o ponto mais sensível da acusação: quem fala em dinheiro escondido precisa aceitar transparência total, inclusive sobre o próprio mandato.

A Rádio Integração não fechou portas. Fez o contrário. Bittar foi convidado a ir ao programa, sentar na bancada, tomar café e responder. “O senhor pode vir aqui tomar um cafezinho com a gente. Está convidado”, disse Chico. Ele lembrou que o senador já foi entrevistado gratuitamente na emissora e que nunca pagou nada por isso. “O senador já teve aqui, já tomou cafezinho com a gente, já tomou água e nunca pagou nada”, afirmou.

A resposta também devolveu a cobrança sobre infraestrutura. Se Bittar quer perguntar a Jorge Viana sobre a BR-364, a ponte e a ligação com o Peru, também deve responder o que fez quando teve força em Brasília, quando foi relator do Orçamento e quando dizia ter influência para mandar recursos ao Acre. “Como é que ele vai criticar a BR-364 se, quando teve a oportunidade de fazer, não fez?”, questionou Chico.

O Juruá não precisa apenas saber quem impediu obras. Precisa saber quem prometeu, quem teve caneta, quem tinha poder e quem não entregou. Foi esse o sentido da pauta que Chico disse que enviaria ao gabinete do senador. “Eu queria combinar aqui uma pauta com o senador Márcio Bittar. Tenho algumas perguntas aqui. Eu vou mandar para sua assessoria e, se o senhor tiver coragem, o senhor vem aqui e responde”, disse.

Chico também fez questão de preservar o tom institucional da cobrança. “Sem ranço, sem ofensa. A gente faz uma gozação porque também nós temos esse direito, já que fomos achincalhados publicamente”, afirmou. A frase mostra o limite da resposta: houve ironia, houve indignação, mas também houve convite ao contraditório. Bittar pode responder no Senado, por nota, pela assessoria ou no próprio Jornal da Manhã. O microfone está aberto.

No fim, o Jornal da Manhã colocou a discussão no lugar certo. A imprensa do Juruá não é extensão de gabinete, nem de Jorge, nem de Bittar, nem de qualquer outro grupo político. Ela existe para perguntar. Se há entrevista combinada, que se prove. Se há ONG pagando jornalista, que se mostre. Se não há prova, a acusação vira apenas tentativa de intimidar quem trabalha com microfone aberto diante da população.

Bittar acertou ao trazer a infraestrutura para o centro do debate. Errou ao atacar a imprensa sem apresentar provas. Quem cobra transparência precisa praticá-la. Quem exige perguntas duras precisa responder perguntas duras. E quem usa a tribuna do Senado para acusar jornalistas deve ter coragem de voltar ao Juruá, sentar diante dos microfones e explicar, com documentos na mão, exatamente o que quis dizer.

Bittar acusa imprensa do Acre de ser custeada por ONGs e mira entrevistas de Jorge Viana no Juruá

O senador Márcio Bittar (PL-AC) levou à tribuna do Senado, na tarde de segunda-feira, 25 de maio de 2026, uma ofensiva contra ONGs, políticas ambientais na Amazônia, gestões petistas no Acre e o ex-governador Jorge Viana, mas foi no trecho final do discurso que abriu uma nova frente de confronto: acusou parte da imprensa acreana de ser custeada por organizações não governamentais e insinuou que entrevistas concedidas por Jorge no Vale do Juruá seriam “quase combinadas”. A fala ocorreu em sessão não deliberativa, iniciada às 14h, no plenário do Senado.

Bittar começou a fala por volta de 14h36, depois de problemas de áudio na participação remota do senador Paulo Paim (PT-RS), e falou por cerca de 20 minutos. O senador partiu de um ponto sensível para qualquer acreano que conhece a distância entre o discurso nacional sobre a Amazônia e a vida concreta de quem mora na região: a floresta costuma ocupar o centro do debate, enquanto a população aparece como detalhe. “É muito comum discurso sobre a Amazônia, seminários, simpósios. A métrica sempre é a quantidade de floresta em pé nos nossos estados, mas é muito raro você ver uma nota, uma matéria falando dos 28 milhões de brasileiros que moram na Amazônia”, disse. Na mesma sequência, afirmou haver “um domínio das ONGs na mídia brasileira” e acusou esse campo de esconder a pobreza da região.

A fala ganhou contorno eleitoral quando Bittar passou a mirar Jorge Viana, figura central do PT acreano, ex-governador e ex-presidente da ApexBrasil. O senador tentou prender Jorge a três temas que devem atravessar a disputa de 2026 no Acre: a ligação rodoviária do Juruá com o Peru, a ponte sobre o Rio Juruá e a situação da BR-364. Para quem vive em Cruzeiro do Sul, Rodrigues Alves, Mâncio Lima, Marechal Thaumaturgo ou Porto Walter, essas não são siglas de gabinete. São caminhos de escoamento, preço de mercadoria, tempo de viagem, isolamento no inverno amazônico e a velha sensação de que o Juruá entra na política como promessa e sai dela como adiamento.

No encerramento, Bittar mirou diretamente os veículos de comunicação do estado. “E, para terminar, Sr. Presidente, a nossa imprensa, muitas delas custeadas por ONGs, outras ainda têm até medo, pavor do que Jorge Viana representou no Acre, um perseguidor…”, afirmou. Em seguida, atacou a cobertura das entrevistas de Jorge no interior: “Ele vai ao Juruá dar entrevista — tudo entrevista quase que combinada — e ninguém tem coragem de perguntar ao Jorge — lá em Cruzeiro do Sul —, quando o Governo dele aceita que uma ONG proíba de fazer a ponte sobre o Rio Juruá, que nos proíba de continuar a BR-364, que é a linha histórica, ligando Cruzeiro do Sul a Pucallpa, no Peru, porque passa na Serra do Divisor”, declarou.

O senador também colocou na mesma conta a discussão sobre ferrovia. Disse que o trajeto original passaria por Cruzeiro do Sul e acusou o governo federal, com Jorge na ApexBrasil e Marina Silva no campo ambiental do governo Lula, de deslocar esse eixo para a BR-317. “O trajeto original é por Cruzeiro do Sul. O Governo dele, com a Marina — ele sendo o Presidente da Apex —, tirou de lá e passou para a 317, onde já tem asfalto. Ele não toca no assunto, e muito menos alguém pergunta”, declarou.

A estratégia política de Bittar foi clara: transformar Jorge Viana em responsável por uma visão de desenvolvimento que, na leitura do senador, teria “engessado” o Acre em nome da preservação ambiental. Ao citar Marina Silva, a “florestania”, a Serra do Divisor, a BR-364 e a relação com Lula, Bittar tentou arrastar a pré-campanha de Jorge para o terreno onde a direita acreana se sente mais confortável: o embate entre preservação, infraestrutura, emprego e presença do Estado no interior.

A BR-364 apareceu como peça central desse tabuleiro. Bittar disse que a rodovia “nunca esteve pior” e cobrou o governo federal pela situação atual da estrada. Reconheceu que, no governo Jair Bolsonaro, não houve dinheiro suficiente para reconstruir a rodovia, mas atribuiu o período à pandemia. Depois, voltou a cobrar o PT: “Logo que eles voltam ao poder, o que eles dizem? ‘Agora nós vamos recuperar a BR-364’; ela nunca esteve pior do que está agora”.

A acusação contra a imprensa amplia o alcance do discurso. Bittar não atacou apenas Jorge Viana, Marina Silva ou o PT. Ao dizer que parte dos veículos seria custeada por ONGs e que outra parte teria medo de Jorge, o senador colocou jornalistas e empresas de comunicação dentro da disputa política. É uma cobrança pesada, porque mistura uma crítica legítima sobre perguntas não feitas com uma acusação grave sobre financiamento e independência editorial. Sem apresentação pública de provas no discurso, a fala fica no campo da acusação política, embora tenha força para alimentar a temperatura da pré-campanha.

O movimento de Jorge Viana pelo interior, especialmente no Juruá, virou o alvo principal. Bittar quer que cada entrevista do ex-governador carregue perguntas sobre a ponte, a estrada, a ferrovia, a Serra do Divisor e a relação do PT com o governo Lula. Quer impedir que Jorge caminhe pelo Acre apenas com discurso afetivo, de reencontro com a população e defesa do legado administrativo. Na prática, tenta trocar o cenário da memória política pelo cenário da cobrança concreta.

No Acre, onde a política costuma nascer em conversas de mercado, rádio local, beira de rio e estrada ruim, a fala de Bittar também expõe uma disputa maior sobre quem tem autoridade para falar em nome da Amazônia. De um lado, a narrativa ambiental, com a floresta como patrimônio global. Do outro, a narrativa da infraestrutura, com o morador amazônico no centro da conta. O problema é que, entre uma e outra, vive a população que paga caro pelo combustível, perde tempo na lama, depende da BR para circular e assiste, eleição após eleição, à mesma promessa voltar com roupa nova.

Ao usar a tribuna do Senado para acusar a imprensa e pressionar Jorge Viana, Bittar abriu uma frente que deve ecoar na eleição de 2026. O debate deixou de ser apenas sobre obras e meio ambiente. Passou também a envolver a forma como o Acre pergunta, cobra, entrevista e fiscaliza seus personagens políticos. No Juruá, onde a estrada é sempre mais que uma estrada, a pergunta que Bittar lançou agora mira Jorge, mas atravessa todos os lados: quem vai explicar, sem fuga e sem slogan, por que a integração prometida há décadas continua parada no mesmo lugar?