PF faz 28 buscas e apreende R$ 1 milhão; apuração cita Gladson e nomes ligados ao governo do Acre entre alvos

Ptolomeu IV investiga contratos da sede do Imac, enquanto Operação Umbra apura estrutura criada para antecipar ações da Polícia Federal; nomes dos investigados não foram divulgados oficialmente

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira, 22, duas operações simultâneas que atingiram o Acre e outros estados, com 28 mandados de busca e apreensão, apreensão estimada em R$ 1 milhão em dinheiro e três prisões em flagrante por posse ilegal de armas. Uma das diligências ocorreu na residência do ex-governador Gladson Cameli (PP), em Rio Branco.

As ações foram divididas entre as operações Ptolomeu IV e Umbra. Os mandados, autorizados pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), foram cumpridos em Rio Branco e Cruzeiro do Sul, no Acre, além de Maringá, no Paraná, e Navegantes, em Santa Catarina. O STJ também determinou sequestro de bens e valores e outras medidas cautelares contra investigados.

A Polícia Federal não divulgou oficialmente a relação completa dos alvos. Apuração divulgada pelo jornalista Leonildo Rosas, porém, aponta nomes ligados direta ou indiretamente ao grupo do ex-governador e à estrutura administrativa do Estado nos últimos anos. Na relação apresentada por Rosas aparecem, além de Gladson, Jonathan Xavier Donadoni, Laura Jordão de Carvalho, Taiane Belarmino dos Santos, Lidiane Rodrigues dos Santos, Jairly Nascimento Maia, João Victor Casas Lopes, Tamires de Almeida Costa e Garisson Plínio Sarah Messias, entre outros. Rosas também cita a ex-primeira-dama Ana Paula Cameli.

A lista é resultado da apuração do jornalista e, até o momento, não foi confirmada nominalmente pela Polícia Federal. Também não está esclarecido publicamente a qual das duas operações cada pessoa citada estaria relacionada.

Um levantamento feito pelo Integração Net em registros públicos mostra, no entanto, que pelo menos oito dos nomes citados por Rosas, além de Gladson, ocuparam cargos no Executivo estadual nos últimos anos.

Jonathan Xavier Donadoni é um dos casos de maior proximidade com o núcleo político do governo. Ele assumiu a chefia da Casa Civil em abril de 2022, após já atuar como diretor da pasta desde julho de 2021, e permaneceu como secretário-chefe até 2026. Documento oficial de março deste ano ainda traz Donadoni assinando como titular da Casa Civil.

Laura Jordão de Carvalho também passou pela Casa Civil. Ela já aparecia como diretora da pasta e posteriormente foi nomeada diretora de Eventos Oficiais. Em 2022, participou de agendas oficiais identificada como diretora da Casa Civil.

Lidiane Rodrigues Antrobos dos Santos — nome que corresponde à “Lidiane Rodrigues dos Santos” citada na gravação — foi nomeada em janeiro de 2023 diretora de Administração e Finanças da Casa Civil. Ela permanecia na função em setembro deste ano, segundo atos publicados no Diário Oficial.

Taiane Belarmino dos Santos foi secretária-adjunta executiva da Secretaria de Estado de Saúde. Documentos de 2022 e 2023 mostram Taiane assinando atos administrativos na Sesacre. Neste ano, ela disputa uma vaga de deputada estadual pelo PDT.

Garisson Plínio Sarah Messias foi nomeado chefe de departamento da Sesacre em maio de 2021. Posteriormente, ocupou funções na Casa Civil e foi nomeado diretor técnico-administrativo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Acre (Fapac). O nome de Garisson já havia aparecido entre os atingidos pela terceira fase da Operação Ptolomeu, em 2023.

Tamires de Almeida Costa e João Victor Casas Lopes também passaram pela administração estadual. Ambos foram nomeados para cargos comissionados na Secretaria de Obras Públicas em 2023. Tamires aparece posteriormente em função na Casa Civil, enquanto João Victor voltou a ocupar cargo CAS-8 em 2025 e foi exonerado em agosto deste ano.

Jairly Nascimento Maia, outro nome citado na apuração, aparece em documentos da Sesacre desde pelo menos 2022 e, em 2024, foi designada para função na Casa Civil. Também integrou comissão da Secretaria de Indústria, Ciência e Tecnologia.

Ptolomeu IV mira obra do Imac

A Operação Ptolomeu IV concentra uma de suas frentes nos contratos para construção da nova sede do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac).

Segundo as informações divulgadas pela Polícia Federal, auditoria da Controladoria-Geral da União identificou aproximadamente R$ 1,2 milhão em possível superfaturamento por inexecução parcial na primeira etapa da obra. São serviços que teriam sido medidos e pagos, mas não executados integralmente.

A investigação também encontrou indícios de que recursos provenientes dos contratos públicos teriam sido usados para custear despesas particulares e vantagens indevidas a agentes públicos. Saques elevados em espécie e outras movimentações financeiras consideradas atípicas também passaram a ser investigados.

Uma segunda empresa, contratada posteriormente para concluir a sede do Imac, também entrou na apuração. A PF investiga possíveis vínculos entre pessoas ligadas às duas contratadas e empresas que já haviam aparecido em fases anteriores da Ptolomeu.

Leonildo Rosas afirma, em sua apuração, que a investigação da obra e de seus pagamentos já aparecia em documentos das fases anteriores da operação e relaciona essa frente às novas diligências realizadas nesta terça-feira.

Umbra investiga vazamento de operações

A segunda ação, batizada de Operação Umbra, tem objeto diferente. A Polícia Federal investiga a existência de um núcleo de contrainteligência que teria sido criado para acompanhar a própria corporação e antecipar operações relacionadas aos investigados da Ptolomeu.

Segundo a PF, a estrutura buscaria informações sobre deslocamentos de equipes, movimentação de viaturas e outras ações policiais. A finalidade seria avisar investigados com antecedência e permitir providências capazes de reduzir a eficácia de buscas, apreensões e outras medidas judiciais.

A investigação também apura a possível participação de um ex-servidor terceirizado e de um agente da própria Polícia Federal no repasse indevido dessas informações.

Durante as diligências das duas operações, a PF apreendeu grande quantidade de dinheiro em espécie. A estimativa inicial é de aproximadamente R$ 1 milhão, valor que ainda estava sendo contabilizado. Três pessoas foram presas em flagrante por posse ilegal de armas.

Gladson teve celular e veículos apreendidos

Na residência de Gladson Cameli, no condomínio Recanto Verde, em Rio Branco, policiais federais cumpriram mandado de busca e apreensão pela manhã. Segundo informações divulgadas após a diligência, foram apreendidos o celular do ex-governador e três veículos.

A defesa de Gladson classificou as medidas como “abusivas” e afirmou considerar a ação uma perseguição às vésperas da eleição. Também alegou que a diligência desrespeitaria decisão do Supremo Tribunal Federal relacionada à adoção de medidas cautelares contra candidatos no período eleitoral. A aplicação desse entendimento ao caso concreto ainda depende de análise judicial.

Os advogados disseram ainda que o ex-governador está à disposição da Justiça e sustentam sua inocência.

As investigações da Ptolomeu IV e da Umbra continuam. A PF informou que os investigados poderão responder, de acordo com a participação individual apurada, por crimes como organização criminosa, fraude em licitação, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e embaraço à investigação de organização criminosa.

Candidatura de Jéssica Sales na berlinda, entenda

A candidatura de Jéssica Sales (MDB) a vice-governadora na chapa de Mailza Assis está sob questionamento no Tribunal Regional Eleitoral do Acre (TRE-AC) após o Ministério Público Eleitoral identificar que ela não aparece quite com a Justiça Eleitoral. A pendência consta no processo de registro de candidatura nº 0600386-37.2026.6.01.0000.

Em manifestação apresentada no dia 14 de agosto, a Procuradoria Regional Eleitoral informou que uma certidão emitida pelo Tribunal Superior Eleitoral aponta a existência de multa eleitoral vinculada a Jéssica. Sem a quitação, a candidata precisa corrigir ou esclarecer a irregularidade para obter o deferimento do registro.

A consulta realizada pelo Ministério Público mostra que o título eleitoral de Jéssica está regular, mas existem outros débitos registrados em sua inscrição. As guias de pagamento, segundo o sistema, somente podem ser emitidas pelo cartório eleitoral.

O próprio MPE afirmou que não encontrou, nos sistemas processuais eletrônicos, multas judiciais pendentes em nome da candidata. Por isso, a Procuradoria pediu que a coligação Avança Acre seja intimada para procurar o cartório, identificar a origem do débito e sanar a irregularidade no prazo de três dias.

“Não foram identificadas, nos sistemas processuais eletrônicos da Justiça Eleitoral, pendências de pagamento de multa eleitoral pela requerente em processos judiciais”, registra a manifestação.

A Procuradoria não pediu, até o momento, o indeferimento da candidatura. O pedido apresentado ao relator é para que seja concedida oportunidade de regularização, conforme o artigo 36 da Resolução TSE nº 23.609/2019.

No processo também foram expedidas certidões informando que, às 23h59 de sexta-feira, 14, terminaram os prazos para Jéssica e para a coligação Avança Acre responderem a dois expedientes recebidos no dia 11. Os documentos, porém, não apresentam o conteúdo dessas intimações e não permitem afirmar que os prazos estavam relacionados especificamente à multa apontada posteriormente pelo Ministério Público.

A falta de quitação eleitoral não representa, por si só, uma declaração de inelegibilidade. Trata-se de uma condição necessária para o deferimento do registro e que ainda pode ser comprovada durante a análise, por meio do pagamento, de parcelamento regularmente cumprido, de certidão circunstanciada ou da correção de eventual inconsistência cadastral.

Se a pendência não for resolvida nem justificada, o registro de Jéssica poderá ser indeferido. Como as candidaturas a governadora e vice integram uma chapa única e indivisível, uma decisão definitiva contra a candidata do MDB também poderá obrigar a coligação de Mailza Assis a fazer a substituição do nome indicado para a vice.

Ação contra outdoors de Alan Rick acende guerra eleitoral no Acre

A pedido da Federação União Progressista, Justiça Eleitoral determinou retirada de peças publicitárias do senador em Rio Branco; no Jornal da Manhã, caso foi tratado como sinal de endurecimento da pré-campanha

A disputa pelo governo do Acre ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira, 17, após a Justiça Eleitoral determinar a retirada de outdoors do senador Alan Rick, do Republicanos, instalados em diferentes pontos de Rio Branco. A decisão foi tomada a partir de uma representação apresentada pela Federação União Progressista, formada pelo Progressistas e pelo União Brasil, grupo político ligado à governadora Mailza Assis.

As peças publicitárias destacavam a atuação parlamentar de Alan Rick e associavam o senador à destinação de recursos para obras e investimentos na capital. Entre as frases questionadas estão expressões como “onde tem obra em Rio Branco tem recurso garantido pelo senador Alan Rick”, “tem trabalho do senador Alan Rick” e “com o apoio do senador Alan Rick”.

O juiz eleitoral Luciano Oliveira de Melo determinou que os outdoors sejam retirados no prazo de 24 horas. Em caso de descumprimento, foi fixada multa diária de R$ 10 mil. A decisão tem caráter provisório e ainda será analisada no mérito, com prazo para manifestação da defesa do senador.

No programa Jornal da Manhã, da Rádio Integração 99,9 FM, o caso foi tratado como um marco da abertura da guerra eleitoral no Acre. A bancada avaliou que a ação do partido da governadora contra o senador sinaliza que a disputa deixou o campo dos bastidores e passou a ser travada também na esfera judicial.

Durante o comentário, os apresentadores questionaram o tratamento dado aos materiais de divulgação de Alan Rick e compararam o caso com peças associadas ao governo estadual. A crítica feita no programa foi de que, se a Justiça Eleitoral for acionada para avaliar outdoors do senador, também deveria haver o mesmo rigor em relação a materiais que, segundo a bancada, fazem promoção da imagem da governadora.

“Se é para ser justo, que seja justo com todo mundo”, afirmou Chico Melo durante o programa, ao comentar a decisão. A bancada também lembrou que Alan Rick tem usado sua atuação no Senado e a destinação de emendas como uma das principais vitrines políticas no período de pré-campanha.

Procurado pela equipe do Jornal da Manhã, Alan Rick respondeu de forma breve. Segundo o programa, ao ser questionado sobre a decisão, o senador citou os “outdoors cor-de-rosa com promoção pessoal da candidata” e classificou a medida como “uma vergonha”.

A decisão ocorre em um momento de acirramento entre os principais grupos que devem disputar o governo em 2026. Alan Rick aparece como pré-candidato ao Palácio Rio Branco pelo Republicanos, enquanto Mailza Assis, atual governadora, é o nome do Progressistas para a disputa.

Além da retirada das peças, a decisão também impede a instalação de novos materiais com características semelhantes enquanto o processo estiver em análise. Para a Federação União Progressista, os outdoors ultrapassam os limites da divulgação parlamentar e configuram promoção pessoal antecipada, especialmente pelo uso de mídia considerada proibida pela legislação eleitoral.

A defesa de Alan Rick ainda poderá apresentar seus argumentos no processo. Até lá, a determinação da Justiça Eleitoral permanece válida e coloca a pré-campanha acreana em um novo patamar de tensão.

Na prática, o episódio mostra que a eleição de 2026 já começou antes do calendário oficial. E começou com disputa por narrativa, ocupação de espaços públicos e judicialização da comunicação política.