Governo paga R$ 3 milhões em táxi aéreo, em junho, enquanto ortopedia ameaça suspender cirurgias por atraso

GoiásMed comunicou à Sesacre que pode paralisar parcialmente atendimentos e cirurgias eletivas nesta quarta-feira; dados mostram R$ 1,6 milhão liquidado e não pago à empresa

A possível suspensão de cirurgias eletivas de ortopedia no Acre expôs um contraste nos pagamentos do governo estadual. Enquanto a Secretaria de Estado da Casa Civil teve mais de R$ 3 milhões em despesas com táxi aéreo pagas integralmente em junho de 2026, a empresa responsável pelos serviços de Ortopedia e Traumatologia na rede estadual de saúde aparece com R$ 1,6 milhão em serviços já liquidados, mas ainda não pagos.

A GoiásMed Serviços Médicos Ltda., contratada pela Secretaria de Estado de Saúde do Acre, comunicou oficialmente à Sesacre que poderá paralisar parcialmente os atendimentos e cirurgias eletivas caso os pagamentos em atraso não sejam regularizados até esta quarta-feira, 8 de julho.

O ofício foi encaminhado ao secretário de Estado de Saúde, José Bestene, e à fiscal do contrato, Ingrid Leal da Silva. No documento, a empresa informa que, se não houver o pagamento do saldo remanescente referente à competência de fevereiro e a quitação integral das notas fiscais dos serviços prestados em março, adotará a paralisação parcial.

A GoiásMed afirma no ofício que “promoverá, a partir das 18h do dia 08/07/2026, a paralisação parcial dos atendimentos e cirurgias eletivas de Ortopedia e Traumatologia programados no âmbito do Contrato SESACRE nº 140/2026, como medida necessária e proporcional diante do agravamento da situação financeira decorrente do inadimplemento da CONTRATANTE”.

Os dados de empenhos e pagamentos analisados reforçam o alerta feito pela empresa. No Fundo Estadual de Saúde, a GoiásMed aparece com R$ 1.630.134,00 em serviços médicos de ortopedia e traumatologia já liquidados, mas sem pagamento registrado. O valor é referente à competência de março de 2026 e está vinculado ao Pregão Eletrônico SRP nº 600/2025 e ao Contrato Sesacre nº 140/2026.

A liquidação é a etapa em que a administração pública reconhece que o serviço foi prestado ou atestado. Ou seja, nesse caso, o próprio Estado reconheceu a despesa, mas o pagamento ainda aparece zerado na base analisada.

Além disso, há outro empenho de R$ 373.129,87 para fornecimento de órteses, próteses e materiais especiais, as chamadas OPME, descritas como indispensáveis à realização de procedimentos ortopédicos e traumatológicos. Esse valor também aparece sem pagamento registrado.

Somados, os valores empenhados à GoiásMed e ainda sem pagamento chegam a R$ 2.003.263,87.

O contraste fica mais evidente quando os dados da Saúde são comparados aos pagamentos feitos pela Casa Civil no mesmo período. Em junho de 2026, a Casa Civil teve R$ 3.047.156,00 em despesas com fretamento administrativo de aeronaves pagos à Ortiz Táxi Aéreo. Os 32 empenhos analisados aparecem como empenhados, liquidados e pagos integralmente.

Na prática, o governo estadual conseguiu quitar despesas milionárias de fretamento aéreo da Casa Civil, mas mantém pendências com uma empresa responsável por serviços médicos que afetam diretamente pacientes na fila de cirurgias ortopédicas.

A situação atinge uma das áreas mais sensíveis da saúde pública. Cirurgias ortopédicas eletivas, embora programadas, não são procedimentos sem importância. Em muitos casos, envolvem pacientes que aguardam para recuperar mobilidade, voltar ao trabalho, reduzir dor crônica ou evitar o agravamento de problemas de saúde.

O caso também mostra um descompasso administrativo. A competência de fevereiro da GoiásMed aparece com pagamento de R$ 1.049.184,00, mas a empresa afirma no ofício que ainda há saldo remanescente pendente. Já a competência de março, segundo os dados financeiros, tem R$ 1.630.134,00 liquidados e não pagos.

Outro ponto que chama atenção é a data dos empenhos. Os valores referentes à competência de março foram empenhados apenas em 23 de junho de 2026, quase três meses depois do período em que os serviços foram prestados.

A ameaça de paralisação parcial coloca pressão sobre a Sesacre e sobre o governo do Estado. A pergunta central é por que despesas administrativas da Casa Civil foram pagas integralmente em junho, enquanto serviços essenciais de ortopedia chegaram ao ponto de ameaça formal de suspensão.

Fotos: Secom e Ortiz

É 13! Gastos do governo com voos descritos como jato já passam de R$ 13,5 milhões

Levantamento aponta pagamentos à Ortiz Táxi Aéreo entre 2023 e 2026; despesas aparecem concentradas na Casa Civil e fazem referência ao Contrato CC 34/2023

Os gastos do governo do Acre com fretamento de aeronaves descritas oficialmente como jato já somam R$ 13.507.200,00 em pagamentos à Ortiz Táxi Aéreo.

O valor reúne o levantamento consolidado entre 2023 e 2025, que já apontava R$ 12.440.400,00 pagos em despesas com a palavra “jato” no histórico do serviço, e a atualização feita a partir dos dados de 2026, que acrescentou mais R$ 1.066.800,00.

O recorte considera apenas pagamentos cujo histórico oficial menciona expressamente a palavra jato. Ou seja, não entram nessa conta outros fretamentos da Ortiz descritos como monomotor, bimotor, Caravan, transporte aeromédico ou fretamento genérico de aeronave.

Nos dados já consolidados, os pagamentos anteriores somavam 52 linhas de pagamento, referentes a 43 empenhos conciliados, todos vinculados à Secretaria de Estado da Casa Civil. A maior parte dessas despesas aparece associada ao Contrato CC 34/2023, que concentrava R$ 11.113.200,00 do total apurado até 2025.

A atualização de 2026 adiciona quatro novos empenhos pagos, todos registrados em abril pela Casa Civil. As descrições seguem o mesmo padrão: “referente a fretamento de aeronave (jato) conforme T.A. Contrato CC 34/2023”.

Os pagamentos de 2026 identificados foram:

Data – Empenho – Valor pago
27/04/2026 – 4460010383 – R$ 214.200,00
28/04/2026 – 4460010392 – R$ 168.000,00
29/04/2026 – 4460010399 – R$ 432.600,00
30/04/2026 – 4460010417 – R$ 252.000,00

Com isso, o gasto identificado em voos com descrição de jato passa de R$ 12,44 milhões para R$ 13,5 milhões.

A Casa Civil aparece como órgão responsável em todo o recorte de jato levantado até agora. A despesa, portanto, não está distribuída entre diferentes secretarias: está concentrada na estrutura diretamente ligada à chefia do governo.

O levantamento também mostra que o contrato usado para esse tipo de despesa atravessou mais de um exercício financeiro. No histórico dos pagamentos aparecem referências à Ata de Registro de Preços 04/2023, ao Contrato CC 34/2023 e, em um caso anterior, ao Contrato 34/2025. No bloco atualizado de 2026, os quatro pagamentos mencionam novamente o Contrato CC 34/2023, por meio de termo aditivo.

A conta não representa todo o gasto do governo com a Ortiz Táxi Aéreo. Ela trata apenas do recorte mais específico: os pagamentos em que a própria descrição oficial da despesa informa fretamento de aeronave jato.

Foto: Gabriel Wallace/Instagram

Ortiz cresce160% em contratos com o governo em apenas um ano, questiona coluna da Gina e reacende pergunta que o MPAC já fez! 

A Coluna da Gina Menezes, no portal Folha do Acre, trouxe nesta semana um questionamento que merece sair dos bastidores políticos e entrar no campo da transparência pública: qual é, afinal, o tamanho da Ortiz no Acre?

A provocação da coluna chama atenção para a força de um grupo empresarial que há anos opera em uma área sensível para o Estado: o transporte aéreo. Mas o ponto mais relevante não está apenas na influência política ou econômica atribuída à família. Está em uma pergunta que o próprio Ministério Público do Acre já havia colocado oficialmente: como os contratos da Ortiz Táxi Aéreo com o governo estadual cresceram mais de 160% de 2024 para 2025?

A questão aparece em portaria da Promotoria de Justiça Especializada na Defesa do Patrimônio Público, assinada pela promotora Myrna Teixeira Mendoza. O procedimento foi instaurado para apurar o fretamento de aeronaves a serviço do governo do Estado em 2025, em contratos considerados de valores vultuosos com a empresa Ortiz Táxi Aéreo.

No documento, o MPAC afirma que houve “evolução exponencial” dos valores contratados ao longo dos anos, com aumento superior a 160% de 2024 para 2025, em um intervalo de apenas um ano, sem justificativa técnica amplamente divulgada. A Promotoria também registra que os contratos acumulados com a empresa desde 2019 ultrapassam R$ 84 milhões.

Esse é o centro da discussão. Em um estado onde o transporte aéreo tem importância real para deslocamentos oficiais, atendimento de regiões isoladas, transporte de pessoal, cargas e apoio a serviços públicos, a contratação de aeronaves pode ser necessária. O que o MPAC quer entender é outra coisa: por que a despesa cresceu tanto e em tão pouco tempo?

A Ortiz aparece, hoje, como uma das principais empresas do setor aéreo no Acre. A empresa presta serviços de fretamento de aeronaves e tem relação contratual com o poder público estadual, especialmente em demandas ligadas à Casa Civil, ao Gabinete do Governador e a outros órgãos participantes de processos de registro de preços.

Em 2024, termo aditivo publicado no Diário Oficial registrou contrato entre a Casa Civil e a Ortiz Táxi Aéreo para prestação de serviços de fretamento de aeronaves, com transporte de pessoal em trechos nacionais, interestaduais, intermunicipais e internacionais. O contrato tinha como finalidade atender às necessidades do Gabinete do Governador e da Secretaria de Estado da Casa Civil, com valor anual estimado de R$ 6,825 milhões.

Já em 2025, a empresa voltou a aparecer em contratação de grande porte. No Pregão Eletrônico SRP nº 390/2025, a planilha comparativa de preços aponta a Ortiz como vencedora de dois itens para fretamento de aeronaves: um monomotor turboélice do tipo Caravan e um bimotor turboélice pressurizado do tipo King Air. O total classificado em favor da empresa chegou a R$ 49,509 milhões.

É importante registrar que ata de registro de preços não significa, automaticamente, execução integral de todo o valor previsto. Ainda assim, o tamanho do processo ajuda a explicar por que a Promotoria decidiu olhar para a evolução desses contratos.

O pregão também foi alvo de disputa administrativa. A Rio Branco Aerotáxi recorreu contra a habilitação da Ortiz no item referente à aeronave bimotor turboélice pressurizada do tipo King Air. A concorrente alegou que a empresa não teria apresentado, naquele momento, documentação suficiente para comprovar a disponibilidade da aeronave e homologações necessárias junto à Anac.

A Ortiz, por sua vez, defendeu que as exigências apontadas pela concorrente diziam respeito à fase de contratação, e não à habilitação. O pregoeiro negou o recurso e manteve a empresa como vencedora do grupo 02 do processo.

A decisão administrativa, no entanto, não elimina o questionamento maior levantado pelo Ministério Público. O procedimento da Promotoria não trata apenas de uma disputa entre empresas, mas da necessidade de explicar o crescimento acelerado dos gastos públicos com fretamento de aeronaves.

A portaria também menciona o uso de justificativas genéricas, falta de transparência ativa e possível uso inadequado das aeronaves para finalidades diversas do contrato. Por isso, o MPAC determinou a formalização do procedimento e solicitou diligência ao Núcleo de Apoio Técnico, responsável por analisar a documentação reunida.

A Coluna da Gina acerta ao recolocar a Ortiz no centro do debate público. Mas o ponto mais concreto não é apenas dizer que o grupo é poderoso. É mostrar que esse poder empresarial se cruza com contratos públicos, logística aérea e dinheiro do Estado.

A pergunta que precisa ser respondida não é retórica. Ela já foi feita pelo Ministério Público: o que justifica um crescimento de mais de 160% nos valores contratados com a Ortiz entre 2024 e 2025?

A resposta cabe ao governo do Acre, aos órgãos contratantes e à própria documentação dos processos administrativos. Em um contrato dessa dimensão, transparência não é favor. É obrigação.

Foto: Charles Bezerra – @charlesbzrr