A campanha de Mailza Assis (PP) ao governo do Acre declarou à Justiça Eleitoral uma despesa de R$ 1 milhão com a Inteligência Digital e Produções Ltda., empresa sediada em Belo Horizonte, Minas Gerais. O valor representa 60,46% dos R$ 1,65 milhão registrados no ranking de fornecedores da candidatura no sistema DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A Inteligência Digital e Produções está inscrita no CNPJ 23.978.663/0001-80 e foi aberta em janeiro de 2016. A atividade principal registrada é consultoria em publicidade. A empresa possui capital social de R$ 1,5 milhão e tem como sócios Paulo Augusto Rodrigues de Moura, que também exerce a função de administrador, e Felipe Lavareda Moura.
O contrato coloca a empresa na primeira posição entre os quatro fornecedores registrados pela campanha. Em segundo lugar aparece Cristopher Mariano Sociedade Individual de Advocacia, com R$ 500 mil, o equivalente a 30,23% do total.
Somadas, Inteligência Digital e Produções e Cristopher Mariano Sociedade Individual de Advocacia concentram R$ 1,5 milhão, ou 90,69% dos valores declarados no ranking.
Os outros fornecedores são Cipriani Importação e Exportação Ltda., com R$ 119.945, e Dlocal Brasil Instituição de Pagamento S.A., com R$ 34 mil. Os quatro registros totalizam R$ 1.653.945.
O ranking de fornecedores não detalha, isoladamente, os serviços relacionados a cada contratação nem permite concluir que todos os valores informados já foram efetivamente pagos, uma vez que a prestação de contas também pode reunir despesas contratadas ainda pendentes de quitação.
No campo das receitas, a candidatura registra R$ 3.557.000. Todo o valor informado até o momento tem origem na direção nacional do Progressistas. A despesa de R$ 1 milhão atribuída à Inteligência Digital e Produções corresponde a cerca de 28,1% do total recebido pela campanha.
Os dados refletem a prestação de contas disponível no sistema eleitoral no momento da consulta e podem sofrer alterações com a inclusão de novas receitas, despesas, pagamentos ou retificações durante a campanha.
Taiane Santos afirmou que não participou da elaboração de processos, da contratação de artistas, da escolha de fornecedores nem da fiscalização dos recursos usados na Expoacre Juruá 2026. Segundo ela, sua atuação foi restrita à organização operacional da feira, com a reunião dos projetos apresentados pelos órgãos envolvidos, a distribuição dos espaços e o encaminhamento de demandas surgidas durante a montagem e a realização do evento.
A declaração foi dada ao Grupo Integração após questionamentos sobre os gastos da feira, a contratação de atrações nacionais, os atrasos nos pagamentos de artistas locais e a participação da Associação Transformar na execução do evento.
Taiane afirmou que a Expoacre reúne governo, prefeitura, federações, associações e Sebrae, mas que cada órgão administra suas próprias despesas. Ela disse que não era ordenadora de despesas e não tinha poder para autorizar contratos, pagamentos, licitações, editais ou dispensas.
“Minha função era planejar, unir as secretarias, ver qual o projeto que cada uma tinha, compilar isso e apresentar para aprovação dos gestores”, afirmou.
Segundo Taiane, as decisões sob sua responsabilidade direta ficavam limitadas a questões operacionais, como a definição de espaços e a solução de conflitos entre expositores. Quando surgiam problemas, ela procurava o órgão responsável pela área.
“A gente identifica as demandas e envia para o órgão responsável. Isso faz parecer que eu resolvo tudo, mas minha função era encaminhar”, disse.
Questionada sobre o plano de trabalho apresentado pela Associação Transformar, Taiane negou participação na elaboração, análise ou aprovação do documento. Ela afirmou que esses procedimentos cabiam aos secretários, comissões e setores administrativos.
A Associação Transformar recebeu R$ 15,8 milhões da Casa Civil para executar a Expoacre Juruá. O valor global previsto no Termo de Colaboração chegou a R$ 16,6 milhões.
Taiane também negou participação na definição dos cachês e na escolha das atrações nacionais. Segundo ela, os valores eram definidos pelos artistas e as contratações não passavam por sua função.
“Não sou produtora de show. Os cachês são definidos pelos artistas e eu não era responsável por essa negociação”, afirmou.
Ela disse ainda que mantinha contato com fornecedores durante a organização da feira, mas não participava da seleção das empresas contratadas.
“As escolhas eram feitas por licitações e editais. Não eram feitas por mim”, declarou.
Sobre a fiscalização dos recursos, Taiane afirmou que a responsabilidade cabia aos gestores das pastas que realizavam os pagamentos, como secretários e presidentes de autarquias.
“Não sou ordenadora de despesa. A fiscalização financeira é responsabilidade do gestor da pasta que faz o desembolso”, disse.
Taiane declarou que não tinha acesso a notas fiscais, contratos ou comprovantes de pagamento. Segundo ela, sua participação na prestação de contas era voltada aos resultados da feira, como número de expositores, volume de negócios e público registrado.
As despesas e os documentos financeiros, de acordo com Taiane, ficavam sob responsabilidade de cada órgão envolvido.
Ela também negou manter relação pessoal, profissional ou política com dirigentes da Associação Transformar. O questionamento foi feito após a identificação de emendas destinadas à entidade pelo vereador Moacir Júnior, irmão de Taiane.
“Não possuo relação pessoal com gestores da instituição. As organizações sociais buscam recursos para projetos, mas isso não representa uma relação minha com a entidade”, afirmou.
A existência das emendas não comprova participação de Taiane na escolha da associação ou na liberação dos recursos. Essa eventual ligação dependeria de documentos, atos administrativos, mensagens ou registros que mostrassem interferência dela nos processos.
Ao ser questionada sobre a publicação dos contratos, notas fiscais, comprovantes e da prestação de contas completa da Expoacre Juruá, Taiane afirmou que não tinha acesso aos documentos.
“O adequado é que as solicitações sejam feitas às pastas responsáveis pelas despesas questionadas”, respondeu.
A manifestação de Taiane concentra a responsabilidade financeira nos gestores, na Casa Civil, nos órgãos que realizaram os pagamentos e na Associação Transformar. A divulgação dos processos administrativos e da prestação de contas completa poderá esclarecer quem autorizou cada despesa, quais empresas foram contratadas, quanto foi pago aos artistas e como os recursos públicos foram aplicados.
A entrada para os shows da Expoacre Juruá 2026 não custou dinheiro ao público que atravessou os portões do parque, mas a programação foi sustentada por um orçamento de R$ 16.648.310,00 bancado com recursos estaduais. O Plano de Trabalho ligado ao Termo de Colaboração CC/SECC nº 01/2026, firmado entre a Casa Civil do Governo Mailza Cameli e a Associação Transformar, distribuiu esse dinheiro entre artistas nacionais, logística aérea, montagem de estruturas, segurança privada, divulgação, alimentação, atrações regionais e despesas administrativas.
O planejamento financeiro revela o tamanho da engrenagem montada para realizar a feira em Cruzeiro do Sul. Mais da metade de todo o orçamento ficou concentrada nos shows nacionais e nos serviços necessários para transportar, hospedar, alimentar e colocar os artistas no palco. Enquanto o público acompanhava as apresentações sem pagar ingresso, o Estado assumia uma conta milionária que ultrapassava os cachês e alcançava cada etapa da operação.
A Casa Civil já transferiu R$ 15.848.310,00 para a Associação Transformar, conforme registros encontrados na base oficial de pagamentos. O valor global publicado no Diário Oficial, porém, pode chegar a R$ 16.648.310,00. A diferença de R$ 800 mil ainda não está lançada no portal transparência.
Segundo o plano de trabalho apresentado, dos R$ 16,6 milhões previstos, R$ 8.748.520,00 foram destinados às atrações nacionais e à operação dos shows. O montante representa aproximadamente 52,5% de todo o orçamento da Expoacre Juruá.
Os cachês previstos somam R$ 6,3 milhões. Leonardo aparece com a maior contratação individual, no valor de R$ 2,1 milhões. Natanzinho Lima vem em seguida, com R$ 1,7 milhão. A dupla Ícaro e Gilmar teve R$ 750 mil reservados, enquanto Tierry e Padre Fábio de Melo aparecem com R$ 650 mil cada. A Banda Morada recebeu previsão de R$ 400 mil, e uma atração infantil foi orçada em R$ 50 mil.
A conta dos shows não terminou nos palcos. Outros R$ 2.448.520,00 foram reservados para uma empresa encarregada da produção e da logística das atrações nacionais. Nesse pacote estão passagens aéreas, fretamento de aeronaves, excesso de bagagem, hospedagem, alimentação, camarins, aluguel de vans, veículos exclusivos para os artistas, pagamento de direitos autorais ao Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o Ecad, e outros custos operacionais.
O gasto previsto apenas com Leonardo, de R$ 2,1 milhões, supera individualmente todo o orçamento destinado à estrutura geral da feira, calculado em R$ 1.981.440,00. Essa estrutura reúne palco, tendas, camarotes, banheiros, áreas técnicas, espaços de apoio e bastidores. A comparação ajuda a dimensionar o peso das atrações nacionais dentro do planejamento financeiro do evento.
A segurança privada recebeu previsão de R$ 1.701.000,00. A divulgação institucional e promocional ficou com R$ 1.091.000,00. Para artistas locais e regionais, o plano separou R$ 612.500,00, menos de 10% do valor reservado aos cachês nacionais.
A distância entre os dois grupos aparece de forma ainda mais clara quando os números são colocados lado a lado. Os R$ 6,3 milhões previstos para sete atrações nacionais equivalem a mais de dez vezes os R$ 612,5 mil destinados ao conjunto de artistas locais e regionais.
O planejamento também separou R$ 566 mil para a montagem de um espaço institucional destinado à recepção de autoridades e convidados. A estrutura incluía tendas, pisos, decoração temática, mobiliário e a organização de uma ceia institucional. Embora o espaço não seja chamado de gabinete, sua descrição mostra uma área oficial preparada para atividades institucionais durante a feira.
Outros R$ 472 mil foram previstos para fornecer alimentação às forças de segurança e aos servidores mobilizados para o evento. Material gráfico, credenciais, uniformes e peças de malharia consumiriam R$ 444.500,00. A cavalgada recebeu orçamento de R$ 283.150,00, enquanto o evento esportivo Nauas Combat ficou com R$ 280 mil.
O lançamento oficial da Expoacre Juruá teve previsão de R$ 198.200,00. Vale lembrar como foi essa festa: O churrasco de lançamento da 21ª Expoacre Juruá aconteceu no dia 13 de junho em Cruzeiro do Sul, marcando o início das festividades. A celebração gastronômica processou cerca de uma tonelada de proteína para atender o público.
A taxa administrativa da Associação Transformar foi fixada em R$ 200 mil. O serviço de interpretação em Libras durante os shows recebeu R$ 45 mil, e a organização do estacionamento, R$ 25 mil.
A distribuição dos recursos mostra que a feira foi concebida como uma operação que atravessou várias áreas do governo e do setor privado.
O Plano de Trabalho colocou entre as metas da parceria o pagamento dos cachês das atrações nacionais, a contratação dos artistas regionais e a contratação da empresa responsável pela logística dos shows. Esse compromisso ganhou outra dimensão depois que artistas e prestadores passaram a reclamar de atrasos.
Mensagens compartilhadas em um grupo de WhatsApp ligado à Expoacre Juruá afirmavam que, dez dias depois da feira, artistas que haviam trabalhado no evento ainda não tinham recebido. As reclamações chegaram ao Grupo Integração na terça-feira, 14. Depois que a apuração começou e pessoas ligadas à organização foram procuradas, comprovantes de transferências via Pix passaram a circular com a informação de que os pagamentos estavam sendo realizados.
A sequência dos acontecimentos abre uma pergunta objetiva: por que artistas e prestadores relataram falta de pagamento depois de a Casa Civil já ter transferido R$ 15,8 milhões para a entidade responsável pela execução da feira?
A responsabilidade pela administração desse orçamento milionário ficou com uma entidade de estrutura permanente enxuta. No cadastro inserido no Plano de Trabalho, a Associação Transformar declarou possuir duas salas, um banheiro, dois computadores e um telefone celular. A equipe técnica permanente era formada por três pessoas: presidente, secretária e tesoureiro.
Com essa estrutura, a associação assumiu a execução de um projeto de R$ 16,6 milhões, que envolvia artistas de projeção nacional, voos fretados, montagem de palco, camarotes, segurança privada, alimentação, divulgação, eventos esportivos, contratação de fornecedores e prestação de contas ao poder público.
A parceria autorizou a contratação de empresas terceirizadas para executar os serviços, desde que houvesse cotação e escolha da proposta de menor preço compatível com as condições técnicas exigidas.
Essa permissão ajuda a entender por que empresas privadas podem ter atuado na Expoacre Juruá sem aparecer como recebedoras diretas dos pagamentos feitos pela Casa Civil. O dinheiro foi transferido para a Associação Transformar, que poderia repassá-lo a fornecedores contratados para montar estruturas, transportar artistas, divulgar o evento, prestar segurança e executar outros serviços.
Os shows foram gratuitos apenas no momento em que o público entrou no parque. A conta existiu, foi milionária e saiu do orçamento público. Cada música apresentada no palco carregava custos que começavam no cachê do artista, passavam por aviões, hotéis, alimentação, veículos, camarins, segurança e direitos autorais, até alcançar a estrutura montada para receber milhares de pessoas.
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