Em uma edição especial, no Vale dos Buritis, o Jornal da Manhã, da Rádio Integração, recebeu o ex-governador Tião Viana e o advogado Virgílio Viana, de 23 anos, pré-candidato a deputado federal. A entrevista, conduzida por Chico Melo e Rogério Venceslau, colocou no centro da conversa a entrada de Virgílio na política, o peso do legado familiar, a saída de jovens do Acre, a falta de oportunidades e a disputa sobre o rumo do Estado nos últimos anos. A entrevista foi ao ar na manhã desta quinta-feira (28), em cadeia no Youtube e na 99,9 FM.
Logo na abertura, Chico Melo apresentou Tião como parte da história política do Acre e Virgílio como um jovem que tenta ocupar espaço em um momento de desgaste da política tradicional. Tião tratou a presença do filho como uma passagem entre gerações. Para ele, estar ao lado de Virgílio naquele cenário era “uma entrega do passado do Acre, dos últimos anos, do presente e entregando ao futuro uma oportunidade”. A frase resumiu o tom da entrevista: Virgílio não aparece apenas como filho de um ex-governador, mas como alguém que tenta transformar herança política em projeto próprio.
Virgílio negou que tenha sido empurrado para a disputa. Contou que a decisão nasceu de uma inquietação pessoal diante do que vê no Estado. “Eu tô muito incomodado com o cenário que eu vejo o Acre vivendo hoje”, disse. O pré-candidato afirmou que passou a sentir esse incômodo ao ver amigos, familiares e jovens de sua geração deixando o Acre em busca de oportunidade e qualidade de vida em outros lugares. Para ele, esse êxodo juvenil virou uma ferida aberta no Estado.
O ponto mais forte da fala de Virgílio foi a defesa de que o Acre precisa voltar a oferecer futuro para quem nasce, estuda e quer trabalhar aqui. Ele citou jovens que concluem o ensino médio, entram na universidade, formam-se e, depois, não encontram espaço no mercado. Disse que muitos acabam dependendo de algum arranjo em prefeitura, governo ou secretaria. Na avaliação dele, essa falta de caminho empurra parte da juventude para a frustração e, nos casos mais graves, para o crime. “Isso não pode ser o novo normal do Acre”, afirmou.
Tião Viana revelou que a decisão do filho não foi recebida de imediato com entusiasmo dentro de casa. Disse que, como pai, tentou convencê-lo a seguir outro caminho. Chamou o Congresso Nacional de ambiente contaminado por práticas ruins e afirmou que chegou a aconselhar Virgílio a atuar como advogado ou criar uma organização para ajudar pessoas fora da política. “Esse mundo tá podre”, disse Tião, ao lembrar a reação que teve quando ouviu do filho que ele queria disputar uma vaga de deputado federal.
Virgílio, porém, insistiu. O argumento que convenceu a família, segundo Tião, foi o de que o espaço público não pode ser abandonado. “Se não for pessoa boa pro parlamento, vão ficar só as ruins”, afirmou o ex-governador, ao reproduzir a fala do filho. A partir daí, disse que ele e a ex-primeira-dama Marlúcia Viana aceitaram acompanhar a caminhada. “Pai e mãe tão na chuva e no sol com filho que ama”, completou.
A entrevista também abriu espaço para Tião defender o legado de seus governos. Ele citou a integração da BR-364, investimentos em infraestrutura, saneamento, mecanização agrícola, saúde, educação e desenvolvimento regional. Disse que a estrada foi tratada como prioridade porque era a “espinha dorsal” do Acre. Na comparação com o cenário atual, afirmou que o Estado perdeu capacidade de investimento e passou a viver preso à folha de pagamento.
Na educação, Tião fez uma das críticas mais duras. Afirmou que o Acre chegou a ocupar a oitava posição no Brasil e a primeira na Amazônia durante sua gestão, mas hoje aparece em situação muito pior. Também citou a criação do curso de Medicina e a formação de jovens médicos no Estado. Ao falar da saúde, lembrou relatos de moradores de Feijó sobre a perda de estrutura hospitalar e a dificuldade de acesso a cirurgias e especialistas.
Virgílio tentou ligar essa memória administrativa ao presente. Disse que o Acre precisa recuperar prestígio em Brasília, buscar recursos federais, tratar emendas parlamentares com responsabilidade e priorizar áreas que cheguem à vida real das pessoas. Falou em agricultura familiar, cultura, esporte, programas sociais e políticas para a juventude. Para ele, cultura e esporte são “vacinas contra a criminalidade” e contra a falta de perspectiva.
A conversa também entrou no tema do desenvolvimento econômico. Tião defendeu industrialização, bioeconomia, produção de alimentos, uso inteligente da terra e valorização da floresta em pé. Virgílio reforçou a ideia com exemplos como granjas, suínos, açaí, cacau, café, cooperativas e produção rural em pequenas áreas. “O Acre pode se desenvolver, pode se industrializar de uma forma sustentável”, disse.
No campo político, Virgílio reconheceu que encontra uma juventude descrente e dividida pela polarização nacional. Defendeu o diálogo e citou programas federais como Pé-de-Meia, crédito para trabalhadores de aplicativo, Pronampe, Desenrola Brasil, reformas habitacionais e Vale Gás. Para ele, a política precisa sair da briga permanente e chegar ao cotidiano das famílias.
A imagem mais concreta usada por Virgílio foi a de uma criança de quatro anos, no bairro São Francisco, em Rio Branco, cozinhando em um fogão quebrado, com lenha, perto do igarapé. A lembrança serviu para amarrar o principal recado da entrevista: política não pode ser apenas disputa de poder, cargo ou sobrenome. Precisa chegar à casa de quem vive sem estrutura, ao jovem que quer ficar no Acre, ao produtor que precisa trabalhar e às famílias que não aguentam mais promessas distantes.